quinta-feira, 28 de março de 2024

Brecht no Museu Vivo do Franciscanismo

A Exceção e a Regra de Bertolt Brecht 
(Fotografia: Sara Bettencourt)
          
         Brecht escreveu a peça "A Exceção e a Regra" entre 1930 e 1932, sendo que esta só seria publicada no ano de 1937. A primeira vez que  houve uma representação em Portugal, foi em Coimbra, em 1969, com encenação de Ricardo Salvat e representada por membros do CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra). O músico Zeca Afonso editaria alguns dos temas desta peça no álbum "Coro dos Tribunais", decorria o ano de 1974.                                  
     Ontem, no Dia Mundial do Teatro, esta peça foi apresentada pela companhia Vê Teatro, com encenação e temas musicais de Alexandre Braga, contando com o seguinte elenco: Joana Melo, Beatriz Tavares, Alexandre Braga, Rita Matias, Fernando Nunes, Sofia Lopes e Matilde Sousa. O local de apresentação foi o Museu Vivo do Franciscanismo, na cidade da Ribeira Grande.

quarta-feira, 27 de março de 2024

Das Plantas...

       "Visitei pois Kew, Chiswick, e Regent´s Park Garden, que são jardins ou coleções botânicas escolhidas e visitei dez ou doze Viveiristas de Plantas nos arredores de Londres em um raio de 9 milhas, que são conhecidos como os mais afamados. A impressão que causa Kew é duração e de recordação grandiosa; é uma das mais extensas e completas colecções de plantas."
 
José do Canto, 27 de Março de 1853, in Cartas Particulares a José Jácome Corrêa e Conde Jácome Corrêa, 1841-1893, edição Instituto Açoriano de Cultura, Ponta Delgada, 1998.

Música para um Fim de Tarde Primaveril

-Fade in to You - So Tonight That I Might See, 1993 - Mazzy Star
-Preciso me EncontrarCartola II, 1976 - Cartola
-Don't Let Me Be Misunderstood - Broadway-Blues-Ballads, 1964 - Nina Simone
-Eu Marchava de Dia e de Noite - Coro dos Tribunais,1974  - Zeca Afonso  
-Mariazinha - JP Simões Canta José Mário Branco, 2024 - JP Simões
-Another Day - It'll End in Tears, 1983 - This Mortal Coil
-Estoril à Noite - Amigos em Portugal, 1983 - The Durutti Collumn
-A Summer Long Since Passed - From The Gardens Where We Feel Secure, 1983 - Virginia Astley
-Hope There´s Someone - I Am A Bird Now, 2002 - Antony and the Johnsons & ANOHNI
-Bob in your Gait -The Magic Place, 2011 - Julianna Barwick
-Amore Disperato - Solo Tu, 
1983 - NADA

Primavera

Fotografia de Tânia Neves dos Santos

terça-feira, 26 de março de 2024

nos livros de Luís Xarez

 às vezes as palavras saltam 
passam a fronteira 
da página 
e voam
de boca em boca 
em conversas em recados em citações
de mão em mão 
em bilhetes postais ilustrados 
em textos digitalizados e enviados 
mas não deixam de estar guardados 
nos livros à espera da sua hora 
a aguardar uma leitura libertadora 
as palavras agora
guardam-se nas nuvens 
e a poesia agradece 
porque o que se escreve nas nuvens 
parece espuma parece algodão doce 
mas nunca se esfuma 
nunca desaparece 

in assim, edição de autor, Dezembro de 2019.

Explicação do Poeta de Daniel Faria

Pousa devagar a enxada sobre o ombro
Já cravou muito silêncio

Como punhal brilha em suas costas
A lâmina contra o cansaço
in Poesia, Quasi Edições, 2003

Um Poema de Miguel Martins

Minha irmã tinha um herbário
(um belo herbário arbóreo)
mas o tempo que é otário,
o supremo salafrário,
embrulhou-o num sudário
perfumado a incensório,
que a fecha, sim, num armário,
para baixá-la ao crematório
onde crepita, ilusório,
esse conto do vigário
do trabalho meritório,
para acedermos a um empório
que só vende o acessório 
e, o que ainda é mais notório
torna o mundo menos vário
e muito mais merencório.

in Do Lado de Fora, Dispersos Escolhidos, 1995-2017, Abysmo, 2023.

Alter Ego de Cesare Pavese

Dal mattino alla sera vedevo il tatuaggio
sul suo petto setoso: una donna rossastra
fittta, come in un prato, nel pelo. Là sotto 
rugge a volte un tumulto, che la donna sussulta.
La gioenatta passava in bestemmie e silenzie.
Se la donna non fosse un tatuaggio, ma viva
aggrappata sul petto peloso, quest´uomo
muggirebbe più forte, nella piccola cella.

Occhi aperti, disteso nel letto taceva.
Un respiro profondo di mare saliva
dal suo corpo di grande ossa salde: era stesso
come sopra una tolda. Pesava sul letto
come chi s`è sveglato e potrebe balzare.
Il suo corpo, salato di schhiuma, girondava
un sudore solare. La piccola cella
non bastava all´ampiezza d´una sola sua occhiata .
A vederrgli le mani si pensava alla donna.

in 53 Poesie, Mondadori.

Um Poema de Paulo Campo dos Reis

Os meus pais vieram da merda.
Nasceram no tempo do senhor
que a produzia às mãos mãos cheias
como algodão doce

O meu irmão nasceu quando o meu pai 
já tinha umas férias para a África Austral 
Um dia fez as malas e lá foi ele, num avião
caçar lágrimas aos crocodilos

Mandou cartas que o meu irmão não entendia.
Também mandou dinheiro para ele, algum dia
as poder entender. Não valeu de nada.
Quando voltou, muito bronzeado, de cara hirsuta
nem a minha mãe, que tem a quarta classe antiga
soube dizer se ele vinha triste ou contente.
O meu irmão, a medo, chamou-lhe "pai". Ele, sem jeito
ofereceu-lhe uma garrafa de anis vermelho 
um crocodilo bebé embalsamado
e foi a correr livrar-se das barbas.

Quando eu nasci, o homem do algodão doce já tinha abalado
Houve uma revolução com muitos homens barbudos e zangados
mas que traziam uma flor na lapela de cor do anis
O meu pai comprou uma televisão a correr e um carro novo.
A minha mãe fez um aborto

O meu nome é Paulo Campos dos Reis
Campos da minha mãe 
Reis do meu pai.
Muito prazer. 
in Autógrafo seguido de Autocolantes, Quasi Edições, 2005

Gastão Cruz

    "Toda a escrita autobiográfica fosse uma solução, escrever memórias, dar conta daquilo que foi a sua experiência. Conheceu os grandes, de Antero a Eça. Mas quem se interessava por eles? O mundo caminhava para onde não sabia, e o que deixava para trás,  o país, sumia-se naquela longínqua pequenez que rapidamente se apagava ao percorrer a grande noite espanhola até ao amanhecer, já em França, para trocar de comboio, sem reparar que estava a ser visto por um Mário de Sá-Carneiro que iria contar ao seu amigo Pessoa que o grande poeta afinal era um unhas de fome, a contar tostões."

in Café Lenine, Edições Dom Quixote, 2022.

Rua do Quelhas 35.3º (Valsinha)

Morre-se devagar neste país 
onde é depressa a mágoa e a saudade
ó meu amor de longe quem me diz
como a tua sombra na cidade

Morre-se devagar em frente ao Tejo
repetindo o teu nome lentamente 
cintura com cintura beijo a beijo
e gritá-lo abraçado a toda a gente.

Morre-se devagar e de morrer 
fica a cinza de um corpo no olhar 
ó meu amor a noite se vier 
é seara de nós ao pé do mar.

António Lobo Antunes, Letrinhas de Cantigas, Edições Dom Quixote, 2002.

terça-feira, 12 de março de 2024

Da Leitura

“Na verdade, quem defende esta nova forma de ignorância agressiva de deslumbramento tecnológico não são os novos ignorantes, mas antigos ignorantes, a quem as redes sociais dão uma ilusão de igualdade e uma presunção de saber que transporta todos os preconceitos da ignorância com o ressentimento em relação ao saber e ao esforço de saber. São a forma actual de anti-intelectualismo travestido de modernidade, cujos estragos na educação, no jornalismo, na sociedade, na cultura e na política são devastadores. E, para utilizar uma expressão comum, podem ter a certeza de que ser ignorante agressivo é das coisas menos sexy que há.
           Para além desta nova forma de pobreza, se lhe tiramos o futebol e o Big Brother, o mundo deve ser muito baço. É que ler é entrar em todos os mundos, alegres e sinistros, apaziguadores e violentos, nossos e alheios, e que nunca acabam. No arquivo Ephemera sabemos bem isso, porque cada biblioteca que nos é oferecida tem o retrato do seu doador e por isso não são só livros, mas vidas. Por exemplo, num conjunto de livros oferecidos por Luísa Costa Gomes, havia várias edições dos clássicos gregos e latinos. A gente, sim a gente, pega num e não larga. Pode-se ler todo ou abrir numa página qualquer e depois passar para outra, ou para a capa, e mesmo que já se tenha lido, há ali uma força inicial, que vem das primeiras palavras da nossa civilização.”

Pacheco Pereira, in “Porque é que ler conta, e muito, para a liberdade”, no Jornal Público, sábado, 9 de Março de 2024.

sábado, 9 de março de 2024

Da Excepção e a Regra de Bertolt Brecht

Vou  contar-vos 
A história de uma viagem. Fazem-na 
Um explorador e dois explorados
Observem com atenção o comportamento desta gente
Estranhem-no ainda que não seja estranho.
Não aceitem, ainda que normal. Ainda que
não o compreendam,  que seja a regra
Desconfiem da mais pequena das ações
Daquela aparentemente insignificante! Tentem perceber                                                                                                                               se é necessário
Sobretudo o que é mais comum
E por favor não achem natural
Aquilo que sempre acontece!
Que seja pois tido por natural
Nestes tempos sombrios de caos sangrento
De desordem ordenada, de arbitrariedade planeada
de humanidade desumanizada, para que 
Nada seja imutável
Tradução de José Vieira Mendes

quarta-feira, 6 de março de 2024

Ilustração de Emese Bándi

TEA
(CamelIa Sinensis)
 


No 34ºAniversário do Jornal Público...

 


      “Todos os homens são diferentes uns dos outros e as mulheres também são, e durante muito tempo isso não aconteceu. Os homens eram diferentes uns dos outros, mas as mulheres eram todas iguaizinhas."




Maria Velho da Costa, terça-feira, 5 de Março de 2024

Falando de Epifenómenos...

     
          
           "Surpresa das eleições de 1985, é um partido que junta sindicalistas e gente da CIP, novembristas de 1975 agora afastados dos comandos militares, desgarrados de todos os partidos, que gera esperança no PCP e confrontos noutros lados de esquerda. Acabou de realizar o seu congresso. Mas ninguém sabe o que quer o PRD."


in Jornal Combate, Novembro de 1986.

domingo, 3 de março de 2024

Música Pré-Eleitoral

Sun Forest - Ghosteen, 2019 - Nick Cave 
Ideologie - Talking with Taxman About Poetry, 2006 - Billy Bragg
Cançoneta do Forte e Fraquinho - A Dúvida Soberana, 2021 - Zeca Medeiros 
Desde las Alturas - Desde las Alturas, 2020 - Guitarricadelfuente 
Mentira - Clandestino, 1998 - Manu Chao 
All My Happiness is Gone - Drag City, 2019 - Purple Mountains 
As Mesmas Coisas - Uma Tarde na Fruteira, 2007 - Júpiter Maçã
Basbaque - Basbaque, 2018 - WE SEA
Alma não Tem Cor - Aos Vivos, 1995 - Chico César 
Tentas Tanto - Sara Cruz, 2015 - Sara Cruz
Valsa Quase depressiva - Exílio, 2004 - Quinteto Tati
The Dolphins Freid Neil, 1966 - Fred Neil

Pano para Mangas (VI)

Tânia Neves dos Santos