sexta-feira, 22 de julho de 2016

Filme d´Estio

"Mónica e o Desejo" com  Lars Ekborg e Harriet Andersson


Monika; Harry, és a melhor pessoa que eu conheço.
Harry: Eu e tu iremos fazer alguma coisa nesta vida...só iremos gostar um do outro.



in "Sommaren med Monika", Ingmar Bergman, 1953.

a cultura é um marcador turístico

Ser português é como ser aborígene ou americano
Posso comer bacalhau com batatas a murro em qualquer lugar
Camões e Pessoa em todas as línguas tal como Rilke e Confúcio
O Português só me une aos mortos da literatura

Vivo neste canto por uma questão de inércia climática
Nunca estou cá – isto já não é a cidade das igrejas e quartéis
É um cenário intermitente onde vivo separadamente – vou ao super
comprar chocolate belga e vinho chileno

Já não tenho inimigos nem sarracenos nem chinos como o Pinto
Nem os portugueses me incomodam mas classes de comportamentos
grosseiros em que não são os piores – Por isso vivo aqui
com os livros e discos iguais em toda a parte.

Nuno Félix da Costa in “O Desfazer das Coisas e as Coisas Desfeitas” in "Companhia das Ilhas" (2015)

A Musa em Férias

Que se passa em Lisboa?
que se passa em Madrid?
que se passa em mim em ti?

Do outro lado do mar
em Cabo Verde no Brasil
ou na Coreia que se passará?

A verdade ignora-se
evita-se
e cada hora fecha-se com um sorriso
nem alegre nem triste
sorriso
                  simples acordo
do homem com a sombra
a sombra que cresce e o devora
num dia a dia favorável aos fantasmas
e a quem lucra com eles
                      *
Soluções sabemos todas
mas em vão dizemos Amor
Aventura Poesia

Afinal as palavras somos nós
e a nossa esterilidade
                     *
Crescei e multiplicai-vos
também já cá se sabia

Crescei no medo
multiplicai-vos no desepero

Um pêlo que sobreviva
valerá por vinte cidades
                  *
Com o hálito
já desfiz alguns bailes
Afinal seria bem fácil
dominar o mundo
                *
Mas dança em sossego
musa em férias
Aventura-te um pouco
musa em férias

Agora
só preciso de azul
de todo o azul cobarde
que o céu possa oferecer-me.

Alexandre O´Neill  in “Poemas Com Endereço” (1962)