domingo, 26 de abril de 2026

Do Que Não Volta Mais de Luís A. Fernandes

 1.
há dias em que é necessário o abandono
deixar a solidão expressar-se sem amarras 
respeitar os impulsos da humanidade

permitir que o corpo inútil
se feche numa hibernação 
forçado pelo passar dos dias 


2
depois acordamos pode ser 
um dia pode ser um mês depois
mas eventualmente acordamos 

respiramos fundo a vida toda 
ameaça reaparecer passo a passo 
até chegarem as pessoas as vozes 

3
há vozes que nos levam 
a todo o lado empurrados 
pela violência de um grito
 
vozes que invocam demónios 
vozes que desdobram o tempo 
há que estimar essa magia 

in Livros de Oeiras.

sábado, 25 de abril de 2026

Resistência de Jonathan Jakubowicz

      Em 1938, os nazis invadem uma casa de família, em Lyon, pertencente à  pequena judia Eslbeth e assassinam os seus pais mesmo à sua frente. Este é o mote inicial do filme que tem como função evocar a façanha heróica de Marcel Marceau - sim, o mimo - o facto de este ter salvo centenas de crianças judias durante o período da resistência na Segunda Guerra Mundial. O venezuelano Jonathan Jakubowicz serve-se do actor Jesse Eisenberg para contar a coragem e a criatividade do mimo, contando ainda com uma banda sonora de enorme qualidade e intensidade. 

Pós-Modernismo de Lígia Reyes

A sua descrença na felicidade,
era o mais próximo que havia encontrado
sobre a juventude.

A sua descrença no amor,
era o mais próximo que havia encontrado 
sobre a sociedade tecnológica.

A sua descrença era tão-só
a mais lógica perspicácia
para me fazer sua.

in Livros de Oeiras.

Verso de Zeca Afonso

 Em todas as terras, em todas as fronteiras 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Um Livreiro no Dia Mundial do Livro

           É confrangedora a ausência de ritmo e da música intrínsecas a toda a boa poesia. Na maioria dos poemas, os versos sucedem-se por justaposição ou assemblage de frases e citações, sendo cada vez mais difícil encontrar poemas com uma arquitectura interna derivada do sentir profundo de os escrever. Claro que esta opinião poderá ser rebatida pelos hipotéticos leitores deslumbrados com poetas recentes.

in Urzes de Manuel Hermínio Monteiro, Livros Independente, 2004.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Systema Naturae#17 de Urbano

Técnica mista sobre papel
2019
Edição Letras Lavadas
 

Ao Entardecer de K. P. Kaváfis

Não podia durar muito. A experiência dos anos
mo ensina. Ainda assim, que apressado foi
o Destino ao chegar-lhe e pôr-lhe fim.
Foi breve a vida bela.
Mas que fortes eram os perfumes,
que esplêndida a cama onde nos deitámos
a que prazer entregámos nossos corpos.

Um eco dos dias do prazer
um eco dos dias veio ter comigo,
algo do ardor da juventude de nós dois:
as minhas mãos voltaram a pegar na carta,
li e reli até não sobrar luz.

E melancólico saí para a varanda ---
para mudar de ideias, para ver ao menos
um pouco da cidade amada, 
um pouco do movimento das ruas e das lojas.
(1907)
in Aquele Belo Rapaz, poesia completa, Assírio&Alvim, 2025.

Do Fogo Frio

Fotografia: Duarte Belo
in Fogo Frio
Assírio &Alvim, 2008
 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Verso de O Homem em Catarse

 Qual é o nosso valor?

100 Dicas de Autoajuda de Lígia Reyes

Fazer alguma coisa: deixar de fumar 
deixar de comer fast-food, inventar 
um corpo novo: deixar de ter medo.
Uma boneca não poderia ser mais perfeita, 
para que se possa brincar com ela:
um objeto de afeto desmesurado 
sem animus, pronta para ir atrás 
de um conjunto de ideias vagas - 
Ainda crê que é possível salvá-la 
de uma qualquer ideologia não permitida 
aos sonhos de um criador, uma importância 
fatídica no sistema amoroso, engrenagem
racional, infratemporal, partida 
onde não existe a possibilidade 
de consertar pequenos deuses 

nenhum de nós está a salvo 
de uma ideia de felicidade.


in O Êxodo das Sementes de Estrela, Os Livros de Oeiras, 2025

Plano de Vida de Luis A. Fernandes

quando nos dizem que é preciso
fazer planos resoluções ter objetivos 
projetos programar a vida 
deviam dizer-nos para planear 
apenas as coisas simples

quantas colheres no café no leite 
quanto tempo o pão na torradeira 
qual a faca certa para barrar a manteiga 

no máximo lembrar de colocar o alarme 
para regar as plantas tomar a pílula 
acordar ligar aos avós tudo coisas 
que nos esquecemos de fazer 
mais do que gostamos de admitir 

deviam dizer-nos sobretudo 
para não pensarmos nas coisas grandes 
em tudo o que devia importar 

não vale a pena 

o mundo tem um jeito irónico 
de se planear sozinho

in O que Nunca Mais Recuperamos, Os Livros de Oeiras, 2024.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

CAC: Espaço com Tempo Dilatado

          Estamos em finais de Abril e ainda trazemos vestidas as roupas de Inverno. A variabilidade atmosférica, tão características dos espaços insulares, mantém-se. Acrescente-se a tudo isto, o facto de passarmos a ter noites muito frias, a lembrar temperaturas de lugares bem altos e pouco afortunados pelo sol.
      Preocupados com mil afazeres relacionados com a sobrevivência, a verdade é que sobra muito pouco tempo para o prazer da discussão, alienados e absorvidos nos transportes e demais burocracia, quase não tomamos posição na hierarquia do que é realmente relevante. Para que serve, então, a cultura senão para pensarmos o nosso lugar nela?

    No passado sábado, dia 18 de abril, foi uma tarde com o tempo dilatado dentro do Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas. Num primeiro momento, assistimos à peça “O dia em que decidi encenar o Principezinho”, de Mário Coelho, às 16h00, na blackbox, em colaboração com Ponta Delgada 2026 – Capital Portuguesa da Cultura. Um desafio ao espectador para poder olhar a diferença e acreditar que é possível continuar a ver o mundo de diferentes perspectivas e, por isso, devemos fazer o esforço por cativar, isto é,  criar laços que possam durar no tempo. De seguida, deu-se a apresentação do “Roteiro de Arquitetura dos Açores: um itinerário crítico”
 (Vol. II e III), numa cuidada e organizada súmula coordenada por Flávia Almeida, sendo esta incentivada pelo jornal Açoriano Oriental. A obra envolve os anos de 2023 e 2024, obtendo a participação de diversos arquitectos e demais autores que contribuíram com textos, dissertações e fotografias das obras em questão.
       No final da apresentação, os autores e e arquitetos presentes dialogaram com a assistência sobre a valorização desta atividade, sendo esta hoje maioritariamente absorvida pela sociedade do espectáculo e mediatização, necessitando assim  de espaços públicos para a sua reflexão
 e questionamento. No fundo, a criação de plataformas amplas onde confluam e se mobilizem formas de pensar e praticar a arquitectura.  

domingo, 19 de abril de 2026

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Vais-te encostar na ceia de ontem à noite?

Da Autonomia

   Celebrar os cinquenta anos da autonomia faz sentido. Mas só se houver coragem para isto: não menos festa, mais espelho. Porque a autonomia não é um altar. É uma prova diária. 

João Mendes Coelho, Açoriano Oriental, 18 de Abril de 2026.