terça-feira, 9 de junho de 2026

Os Bons Vi Sempre Passar

Esparsa 
sua ao desconcerto do mundo 
Os bons vi sempre passar 
no mundo graves tormentos;
e, para mais m´espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado.
Assi que, só para mim
anda o mundo concertado.
Luiz Vaz de Camões 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Catarina: A Beleza de Poder Decidir

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas
Teatro Micaelense - 30 e 31 de Maio
Fotografia: Carlos Fernandes 

Não é expectável ver uma sala de espectáculos tão repleta para ver teatro, devem ter sido cerca de mil e quinhentas pessoas as que viram a peça de teatro “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, de Tiago Rodrigues, neste último fim de semana no Teatro Micaelense. Inserida na programação de PDL26, a peça trazia consigo um volume conhecido de representações e consideráveis recomendações apelativas da crítica e (também) da polémica nos lugares por onde passou.
 A peça é um exercício direto sobre a liberdade de pensamento, nada ali é excluído de ser pensado, inclusive o acto de matar e é, por isso, uma reflexão sobre a democracia e os limites da tolerância face aos que a pretendem subverter. No entanto, não deixa de ser um trabalho teatral de grande exigência, um gesto inteiro de combate a quem pretende ferir a democracia no seu âmago. Há, de facto, muitas tensões a ser resolvidas ao longo destes cento e cinquenta minutos. Sim, é verdade, que o cenário é irrepreensível, o texto tem momentos de grande respiração e profundidade – aquela narração pontuada pelo actor (Marco Mendonça) com os headphones e a sua música é marcada por um ritmo cadenciado e silabado de excelsa beleza - e, por fim, não se pode deixar de pensar nos momentos finais, protagonizados pelo actor Romeu Costa, porventura, exagerados para o efeito produzido. Há que reconhecer o incómodo face ao que estava a ser dito ainda que se discorde do barulho permanente face aos doze minutos daquele discurso político. É verdade: ninguém é obrigado a ouvir aquele discurso, mas convenhamos que se trata de um texto de pendor propagandístico e repetitivo nas suas nuances de populismo, com o intuito de acicatar os espíritos democráticos. Teatro, portanto. Até quando?
  Em suma, é bem provável que este momento teatral perdure no tempo, sobretudo aquela clareza em que nos apercebemos que tolerar a intolerância pode ser fatal para quem pretende defender uma democracia indefesa, isto é, de quem procura protegê-la dos que estão sempre a encontrar brechas para a corroer por dentro. 

Sol i Dão

 




sábado, 30 de maio de 2026

CCRG: A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros

      Documentário narrado de forma bastante pessoal e biográfica sobre a imigração na Suíça desde a segunda guerra mundial. Este objecto cinematográfico, produzido pela Suíça e Itália, encontra semelhanças com os dias de hoje e, por isso, revela o registo da dificuldade em encontrar formas de convivência pacíficas e duradouras entre nacionais e estrangeiros.
        A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros foi realizado por Samir, iraquiano, também ele imigrante na Suíça desde tenra idade. Ao longo do filme podemos ver álbuns pessoais, fotografias e filmes de arquivo, pedaços de canções e animações que nos mostram a sua visão sobre a experiência migrante no país de acolhimento. Uma obra digna de reflexão, ritmo e entusiasmo. 

Tiago Rodrigues no Micaelense

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas
Encenação de Tiago Rodrigues 
Dias 30 e 31 de Maio
Teatro Micaelense 
 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Estorvo de Chico Buarque

 

Verso de José Mário Branco

 Só se pode ser salvo pelo amor

Vitorino Nemésio pelo Teatro Escondido

Mercado Negro, Ponta Delgada
Terça-Feira, 26 de Maio
20h00
 

De Pequenos Troféus...

          "Ela gozou de toda uma infância em proximidade íntima com o mar. Com ele aprendeu a resistência, a nostalgia da lonjura a alcançar. Nadava com braçadas desenvoltas que suprimiam a distância entre ela e o pai. Frequentemente se desafiavam, quer em distâncias longas, quer em curtas, conforme se tratasse de um exercício de tenacidade ou rapidez. Ela ganhava-lhe aos pontos neste e naquele debatia-se inutilmente, ficando para trás. Em caso de vitória, eivava-a uma excitação viva que a deixava prostrada na areia, incompleta e insegura quanto àquele terror. Em casa, ele batia-lhe e ela revelava-lhe a impotência da rapidez. Ao mesmo tempo, amedrontava-se com o demónio da vitória. Inútil vencer e, sabê-lo, era instituir-se por dentro das coisas revirando-as do avesso, surpreendendo-lhes a vacuidade."

Ana Paula Inácio in Putas - Novo Conto Português e Brasileiro, Quasi Edições, 2003