Douta Melancolia
"C’è la stessa malinconia e la stessa speranza" Vittorio Lega
quinta-feira, 21 de maio de 2026
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Postal para Gdansk
Doravante a promessa de
retorno
uma saída para omissa Primavera
nenhum aviso legado ou transmissão
quedou a dúvida a sombra hesitação
uma saída para omissa Primavera
nenhum aviso legado ou transmissão
quedou a dúvida a sombra hesitação
um silêncio instalado no
radar dos países
permanece a tocha flamejante
escasseiam folhas flores frutos
jacarandás coloridos
as mãos sedentas de alento
à distante viajante
permanece a tocha flamejante
escasseiam folhas flores frutos
jacarandás coloridos
as mãos sedentas de alento
à distante viajante
um reencontro ansiado.
Carlos Santos, in "Abrolhos", Sálvia Editora, 2026
terça-feira, 19 de maio de 2026
Escola: Matisse Sobre a Mesa
“A Estética é uma disciplina
filosófica que estuda o belo nas suas diferentes manifestações”, foi lembrando
o professor. Pensemos, pois, nos anos 20 do século passado, quando a Europa se
libertava de forma catártica dos horrores da guerra e da pandemia e em que os
artistas se expressavam através dor, do desespero e dos sentimentos pessimistas da época. Ao mesmo tempo que projetavam a esperança e a alegria no horizonte bem como o gosto
pela vida e outra formas de experienciar a existência. Viviam-se, portanto,
períodos conturbados e ainda o surgimento dos movimentos artísticos, a afirmação dos criadores e manifestações do seu estilo, a inovação e o desejo de transcendência através da
arte. Cem anos depois, necessitamos novamente de despertar sentidos e consciências,
estimular a paixão pela arte, incentivar a paz duradoura, sem ter a pretensão de salvar o globo ou a humanidade.
A escola é um local onde a criatividade, por vezes, ocorre. Jorra. Nem só de rotinas, horários e programas é composto um ano letivo. Por vezes, é factual e, quanto menos se espera, a criação pode surtir no mais rígido dos contextos, dar lugar à invenção e a beleza pode acontecer, soltando-se a imaginação que, como todos sabemos, não tem fim.
A constatação é real: há alguns alunos que secretamente desenham durante o decorrer das aulas! Há também estudantes que fora do espaço escolar cantam, escrevem poesia, compõe música e fazem pequenos filmes ou animações. A dificuldade é encontrar o momento/sítio certo onde possamos juntar, enquadrar a sua forma de exprimir, admitir essa possibilidade de que possam um dia viver do gesto de traçar, criar, imaginar o seu próprio destino. Há, sem dúvida, uma necessidade por colmatar, a abertura de uma área específica para que a expressão artística possa suceder, vivenciar e partilhar.
Entretanto, a aula tinha, assim, terminado e o retrato de Henri Matisse, desenho feito durante a aula, foi pousado, deixado em cima da mesa, oferecido por quem o desenhou àquele professor. E logo o desenho de Henri Matisse, o pintor que afiançava que os artistas deviam possuir um eterno olhar infantil, a curiosidade e inocência de uma criança, como se tudo na vida pudesse ser visto e apreciado como se fosse sempre pela primeira vez.
A escola é um local onde a criatividade, por vezes, ocorre. Jorra. Nem só de rotinas, horários e programas é composto um ano letivo. Por vezes, é factual e, quanto menos se espera, a criação pode surtir no mais rígido dos contextos, dar lugar à invenção e a beleza pode acontecer, soltando-se a imaginação que, como todos sabemos, não tem fim.
A constatação é real: há alguns alunos que secretamente desenham durante o decorrer das aulas! Há também estudantes que fora do espaço escolar cantam, escrevem poesia, compõe música e fazem pequenos filmes ou animações. A dificuldade é encontrar o momento/sítio certo onde possamos juntar, enquadrar a sua forma de exprimir, admitir essa possibilidade de que possam um dia viver do gesto de traçar, criar, imaginar o seu próprio destino. Há, sem dúvida, uma necessidade por colmatar, a abertura de uma área específica para que a expressão artística possa suceder, vivenciar e partilhar.
Entretanto, a aula tinha, assim, terminado e o retrato de Henri Matisse, desenho feito durante a aula, foi pousado, deixado em cima da mesa, oferecido por quem o desenhou àquele professor. E logo o desenho de Henri Matisse, o pintor que afiançava que os artistas deviam possuir um eterno olhar infantil, a curiosidade e inocência de uma criança, como se tudo na vida pudesse ser visto e apreciado como se fosse sempre pela primeira vez.
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Maio
O quinto mês do ano deve o seu nome à deusa da terra e das flores, Maia, filha de Atlas.
Orlando Neves, in Dicionário do nome das coisas e outros epónimos, Notícias Editorial.
domingo, 17 de maio de 2026
Da Liberdade
Numa terra pequena, a liberdade começa muitas vezes assim: com alguém a escrever o que não devia caber. E, de repente, cabe em todos nós mais mundo, mais discussão, mais empatia. E, talvez, mais paz.
João Mendes Coelho, in Maria Fora-da-Caixa, Açoriano Oriental, 16 de Maio de 2026.
sábado, 16 de maio de 2026
Diamantes: Juntas, Venceremos!
O centenário Teatro Ribeiragrandense foi o lugar para a estreia insular do filme italiano "Diamanti", de Ferzan Özpetek. Este película, apresentada em 2025, foi um sucesso de bilheteira em Itália, pois fez dois milhões de espectadores.
Na tela, um realizador convoca, à volta de uma mesa com lasanha, um grupo alargado de actrizes que quisessem imaginar um filme passado ano 70 numa alfaiataria de Roma. O guião vai sendo lido e o espectador é transportado para a vida de um "Palazzo romano" ocupado por muitas mulheres à volta de tesouras, alfinetes, tecido e máquinas de costura. A pressão das encomendas e o ritmo frenético da exigência marca a vida de quem dirige, sustenta e materializa os figurinos necessários para peças de teatro e filmes levados à tela. E é sobre a vida destas mulheres que se desenrola esta trama de pendor sensível e delicado em torno do universo feminino, pois ficamos a saber os segredos que cada uma delas esconde. De destacar, a força das actrizes Jasmine Trinca e Luisa Rainieri e ainda uma banda sonora a lembrar as grandes orquestrações de Enio Morricone, para além das sempre entusiasmantes e delirantes canções ligeiras e românticas italianas.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Hiperpolítica: e é só inquietação?
![]() |
| Capa do Ípsilon, dia 15 de Maio de 2026 |
Acaba de chegar às livrarias uma
obra fundamental para compreender o nosso presente. Chama-se Hiperpolítica, foi
escrita por um homem de esquerda - Anton Jäger - e a sua tese é muito fácil de
resumir : estamos a viver num tempo de "politização extrema sem
consequências políticas”. Jäger não apresenta grandes soluções para sair do
imbróglio em que as democracias liberais estão enfiadas, mas tem o mérito de
formular o problema de um modo claro, e ao mesmo tempo contra-intuitivo.
Andamos todos iludidos pela gritaria no espaço público: sim, os novos políticos
falam muito alto; sim, os cidadãos estão muito zangados; sim, existe conflito
nas redes sociais; sim, existe capacidade de mobilização; sim, de vez em quando
até há umas manifestações vistosas – mas tudo espremido, nada realmente muda e
nada realmente mexe.
João Miguel Tavares, in Público, "Os Eleitores Zangam-se . Os políticos gritam. Mas nada mexe."14 de Maio de 2026.
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Turismo: Até onde vai o Acelerador?
![]() |
| Fotografia: Tânia Santos |
Ao mesmo tempo que, passado todos estes vários indicadores de velocidade, há quem olhe pelo vídeo do retrovisor e assista ao espectáculo das reacções. Revoltam-se as pedras e seixos, abandonam-se objetos físicos e as ruínas instalam-se. Urge encontrar significado para o edificado abandonado. Será ainda possível? Imóveis que hodiernamente passam a inutilizados, relegados para segundo plano, desprezados. Desfeitos do seu ímpeto inicial ou traço original, aguardam restauro ou nova funcionalidade. Nessa volúpia ou promessa de dias vindouros, abandona-se o gesto primevo, surgem ao nosso olhar com um lastro irreparável na paisagem e resquícios do que poderia ter sido.
O que sobra, então, desse acelerador que asseverava ser democrático e dourado? Ambos, passado e futuro, não se encontraram nessa restituição, não há recuo possível, só nuvens que se dissipam no ar. Sobejam, portanto, ruínas, o descarado desleixe, numa arquitectura de escombros e destroços. Ninguém já devolverá a paisagem em frações, nem guardaremos a emoção que resta dessa visão desoladora. Apenas o desgosto, também ele acelerado, condizendo com o tempo!
O turismo é hoje (apenas!) presente e futuro, a galinha dos ovos de ouro, maná, não quer saber do passado. Monocultura dourada, super estimulada, promovida até à exaustão. Ouvimos todos os dias falar desse futuro carregado de milhões de euros em investimentos em hotéis, empreendimentos ou bungalows à beira mar, promessas de centenas de empregos no turismo e aumento aos magotes no número de casas disponíveis para o alojamento local. Nenhum travão se afigura, obstáculo que seja. O choque já não se dá porque o futuro venceu, impõe-se, tal é a pífia ultrapassagem rumo ao abismo.
Acredite-se, assim, que desacelerar é preciso ou, então, seremos apenas resíduos, fragmentos, estilhaços, dessa aceleração!
quarta-feira, 13 de maio de 2026
FUSO INSULAR: Até domingo no CAC!
![]() |
| Hoje, quarta-feira, no CAC 14h00-17h00 na Blackbox Entrada Livre |
Curiosamente, o Fuso Insular inicial dá-se por alturas do Covid-19 e a sua afirmação é feita em contraciclo, no auge do confinamento, nesse período de clausura e medo de estar juntos. Cinco anos depois, esta projecção contínua é uma proposta e vivência a ser partilhada em conjunto, o resultado destes últimos cinco anos de criatividade sob a forma de colectivo. Na verdade, uma vitória sobre este aparato tecnológico concentrado no consumo individual e doméstico.
terça-feira, 12 de maio de 2026
segunda-feira, 11 de maio de 2026
A partir de Amanhã no Arquipélago - CAC
domingo, 10 de maio de 2026
Os Vinis de Maio que Abril nos faz Tocar
![]() |
| Fotografia: Tânia Santos |
Crescemos, portanto, com a ideia de que a revolução do 25 de Abril foi um acontecimento militar realizado lá para os lados de Lisboa, isto é, lá bem longe ou então em terras do Ultramar. Crescer no litoral teve a vantagem do Verão ser ocupado por idas à praia e passeios à beira-mar. A adolescência iniciava-nos também nas audições de músicas revolucionárias ou a ousadia na realização de programas musicais com o aparecimento dos rádios piratas, um pouco mais tarde, as rádios locais. Daí vir de imediato à memoria, pois claro, aquele radialista e a sua obsessão pelos objetos musicais em forma de vinil. Este possuía mais discos do que todos nós juntos. Sabia poupar, dizia-nos, e tinha também rasgo e sentido de oportunidade. Disse-nos que chegou a esvaziar discotecas em liquidação total. Relembre-se, pois, o seu fascínio pela chegada dos CD´s e da gravação digital bem como o desfazer de forma rápida e, algo precipitada, da sua enorme e diversificada colecção de vinis. Alguns de nós, devemos-lhe, por isso, a aquisição de um momento para o outro, a preços módicos, dos discos do José Mário Branco, José Afonso, Luís Cília, Sérgio Godinho, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Né Ladeiras, entre tantos outros.
São estes agora os discos de Maio, os discos que Abril abriu, os vinis daquele período que queremos lembrar e que voltamos a tocar e a ouvir...até fartar.
sábado, 9 de maio de 2026
Rua Manuel António Pina
Caminhava lentamente
como quem pede licença ao mundo
para o nomear. Óculos pousados na face
(um gato
guardado no bolso) tive-o
algumas tardes regressado do Li-Jin
de onde trazia take-way
(e haikai)
para jantar. Escolhia a minha mesa para
um rápido café e
eu ficava absorto (nem dava pela minha falta)
ouvindo-o sobre o real (o seu
real
imaginado). O relógio dava as horas
(de rigueur ia tirando)
chamavam artéria à rua onde a tarde nos juntava
na verdade era uma veia se
o trânsito era
todo para cá. Não o fui ver ao hospital. Talvez
o quisesse ter para sempre
nesta alegria. Às vezes sei ser
tão cobarde.
como quem pede licença ao mundo
para o nomear. Óculos pousados na face
(um gato
guardado no bolso) tive-o
algumas tardes regressado do Li-Jin
de onde trazia take-way
(e haikai)
para jantar. Escolhia a minha mesa para
um rápido café e
eu ficava absorto (nem dava pela minha falta)
ouvindo-o sobre o real (o seu
real
imaginado). O relógio dava as horas
(de rigueur ia tirando)
chamavam artéria à rua onde a tarde nos juntava
na verdade era uma veia se
o trânsito era
todo para cá. Não o fui ver ao hospital. Talvez
o quisesse ter para sempre
nesta alegria. Às vezes sei ser
tão cobarde.
João Luís Barreto Guimarães, in Movimento, Quetzal, 2023
Subscrever:
Mensagens (Atom)



.jpg)




