sábado, 23 de maio de 2026

Verso de Vinicius de Moraes

 De repente e não mais que de repente 

O Boémio de Petr Vaclav

   Esta co-produção Tchéquia-Itália foi exibida no final da tarde de sexta-feira, na sala azul, do Teatro Ribeiragrandense. O Boémio acompanha a saga biográfica da existência curta do compositor Josef Mysliveček (1737- Praga - 1781- Roma), um compositor que viria a tornar-se figura de destaque do século XVIII e referência para o genial Wolfgang Amadeus Mozart. Os 137 minutos de filme mostra-nos o seu lado boémio, a sua vida entre mulheres, os acessos de frustração pela doença e melancolia e, essencialmente, o seu valor criativo e musical.

Do Fogo Frio

Fogo Frio
Do Vulcão dos Capelinhos, 2008
Duarte Belo
 

Do Ecoponto Azul

      "A partir daí, o raciocínio torna-se cruel pela sua lógica. Entre quatro infernos subterrâneos coloridos, o azul talvez fosse o mais habitável. Menos vidro partido. Menos restos de comida. Menos líquidos. Menos arestas. Mais cartão para dobrar o frio. Mais cartão para dobrar o frio. Mais papel para fingir parede. Até  a miséria tem arquitectura. Foi com esse pensamento que comecei o dia."

João Mendes Coelho, in Açoriano Oriental, dia 23 de Maio de 2026.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Aos Biógrafos de Miguel Manso

Chico Buarque escreveu Budapeste 
sem ir a Budapeste 

há que escrever Chico Buarque 
sem ir ao Chico Buarque 

in Santo Subito, Carimbos de Gent, edição Lisboa, 2010.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Chegada de Baloiço à Caixa do Correio

       Alguns meses depois, chegam ecos deste “Baloiço”, desta feita acompanhados por correio eletrónico, são notícias da receção do “Baloiço”, via caixa dos correios. Há quem responda de imediato e há também quem guarde as palavras para ocasião mais propícia. E, evidentemente, há quem não responda ou agradeça o gesto. Estão no seu direito.
      Um objeto literário desta natureza só estará completo quando cada leitor/observador decidir abraçá-lo e contar  o que consumou de experienciar…nem que seja apenas pelo toque ou contacto e, mesmo assim, expressá-lo por via da fotografia.

                           PS. A imagem é do Vel.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Postal para Gdansk

Doravante a promessa de retorno
uma saída para omissa Primavera
nenhum aviso legado ou transmissão
quedou a dúvida a sombra hesitação 

um silêncio instalado no radar dos países
permanece a tocha flamejante
escasseiam folhas flores frutos
jacarandás coloridos 
as mãos sedentas de alento
à distante viajante
um reencontro ansiado.

Carlos Santos, in "Abrolhos", Sálvia Editora, 2026

terça-feira, 19 de maio de 2026

Escola: Matisse Sobre a Mesa

          “A Estética é uma disciplina filosófica que estuda o belo nas suas diferentes manifestações”, foi lembrando o professor. Pensemos, pois, nos anos 20 do século passado, quando a Europa se libertava de forma catártica dos horrores da guerra e da pandemia e em que os artistas se expressavam através dor, do desespero e dos sentimentos pessimistas da época. Ao mesmo tempo que projetavam a esperança e a alegria no horizonte bem como o gosto pela vida e outra formas de experienciar a existência. Viviam-se, portanto, períodos conturbados e ainda o surgimento dos movimentos artísticos, a afirmação  dos criadores e manifestações do seu estilo, a inovação e o desejo de transcendência através da arte. Cem anos depois, necessitamos novamente de despertar sentidos e consciências, estimular a paixão pela arte, incentivar a paz duradoura, sem ter a pretensão de salvar o globo ou a humanidade. 
          A escola é um local onde a criatividade, por vezes, ocorre. Jorra.  Nem só de rotinas, horários e programas é composto um ano letivo. Por vezes, é factual e, quanto menos se espera, a criação pode surtir no mais rígido dos contextos, dar lugar à invenção e a beleza pode acontecer, soltando-se a imaginação que, como todos sabemos, não tem fim.
          A constatação é real: há alguns alunos que secretamente desenham durante o decorrer das aulas! Há também estudantes que fora do espaço escolar cantam, escrevem poesia, compõe música e fazem pequenos filmes ou animações. A dificuldade é encontrar o momento/sítio certo onde possamos juntar, enquadrar a sua forma de exprimir, admitir essa possibilidade de que possam um dia viver do gesto de traçar, criar, imaginar o seu próprio destino. Há, sem dúvida, uma necessidade por colmatar, a abertura de uma área específica para que a expressão artística possa suceder, vivenciar e partilhar.
          Entretanto, a aula tinha, assim, terminado e o retrato de Henri Matisse, desenho feito durante a aula, foi pousado, deixado em cima da mesa, oferecido por quem o desenhou àquele professor. E logo o desenho de Henri Matisse, o pintor que afiançava que os artistas deviam possuir um eterno olhar infantil, a curiosidade e inocência de uma criança, como se tudo na vida pudesse ser visto e apreciado como se fosse sempre pela primeira vez.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Maio

     O quinto mês do ano deve o seu nome à deusa da terra e das flores, Maia, filha de Atlas.

Orlando Neves, in Dicionário do nome das coisas e outros epónimos, Notícias Editorial.

domingo, 17 de maio de 2026

Verso de Mina

 L´amore vero non finisce mai

Da Liberdade

      Numa terra pequena, a liberdade começa muitas vezes assim: com alguém a escrever o que não devia caber. E, de repente, cabe em todos nós mais mundo, mais discussão, mais empatia. E, talvez, mais paz. 

João Mendes Coelho, in Maria Fora-da-Caixa, Açoriano Oriental, 16 de Maio de 2026. 

sábado, 16 de maio de 2026

Diamantes: Juntas, Venceremos!

         O centenário Teatro Ribeiragrandense foi o lugar para a  estreia insular do filme  italiano "Diamanti",  de Ferzan Özpetek. Este película, apresentada em 2025, foi um sucesso de bilheteira em Itália, pois fez dois milhões de espectadores. 
       Na tela, um realizador convoca, à volta de uma mesa com lasanha, um grupo alargado de actrizes que quisessem imaginar um filme passado ano 70 numa alfaiataria de Roma. O guião vai sendo lido e o espectador é transportado para a vida de um "Palazzo romano" ocupado por muitas mulheres à volta de tesouras, alfinetes, tecido e máquinas de costura. A pressão das encomendas e o ritmo frenético da exigência marca a vida de quem dirige, sustenta e materializa os figurinos necessários para peças de teatro e filmes levados à tela. E é sobre a vida destas mulheres que se desenrola esta trama de pendor sensível e delicado em torno do universo feminino, pois ficamos a saber os segredos que cada uma delas esconde. De destacar, a força das actrizes Jasmine Trinca e Luisa Rainieri e ainda  uma banda sonora a lembrar as grandes orquestrações de Enio Morricone, para além das sempre entusiasmantes e delirantes canções ligeiras e românticas italianas.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Hiperpolítica: e é só inquietação?

Capa do Ípsilon, dia  15 de Maio de 2026

           Acaba de chegar às livrarias uma obra fundamental para compreender o nosso presente. Chama-se Hiperpolítica, foi escrita por um homem de esquerda - Anton Jäger - e a sua tese é muito fácil de resumir : estamos a viver num tempo de "politização extrema sem consequências políticas”. Jäger não apresenta grandes soluções para sair do imbróglio em que as democracias liberais estão enfiadas, mas tem o mérito de formular o problema de um modo claro, e ao mesmo tempo contra-intuitivo. Andamos todos iludidos pela gritaria no espaço público: sim, os novos políticos falam muito alto; sim, os cidadãos estão muito zangados; sim, existe conflito nas redes sociais; sim, existe capacidade de mobilização; sim, de vez em quando até há umas manifestações vistosas – mas tudo espremido, nada realmente muda e nada realmente mexe.
João Miguel Tavares, in Público, "Os Eleitores Zangam-se . Os políticos gritam. Mas nada mexe."14 de Maio de 2026.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Turismo: Até onde vai o Acelerador?

Fotografia: Tânia Santos 
O turismo é um acelerador. Um acelerador maior. Estamos perante um dispositivo que é portador de energia simbólica, que carrega a promessa de alteração da paisagem, uma mudança social e a consequente transformação económica. É também um anelo carregado de progresso, a proclamação de satisfação generalizada, conectada à ideia garantida de um bem-estar generalizado. À semelhança da corrente futurista do início do século XX, o turismo é também a exaltação do porvir, a ânsia de um período em que se engendravam cidades com máquinas em movimento, com elevado dínamo ou suprema energia, uma perfeição mantida pela fina e arguta camada dos materiais, a glorificação do movimento e da viagem.
            Ao mesmo tempo que, passado todos estes vários indicadores de velocidade, há quem olhe pelo vídeo do retrovisor e assista ao espectáculo das reacções. Revoltam-se as pedras e seixos, abandonam-se objetos físicos e as ruínas instalam-se. Urge encontrar significado para o edificado abandonado. Será ainda possível? Imóveis que hodiernamente passam a inutilizados, relegados para segundo plano, desprezados. Desfeitos do seu ímpeto inicial ou traço original, aguardam restauro ou nova funcionalidade. Nessa volúpia ou promessa de dias vindouros, abandona-se o gesto primevo, surgem ao nosso olhar com um lastro irreparável na paisagem e resquícios do que poderia ter sido. 
          O que sobra, então, desse acelerador que asseverava ser democrático e dourado? Ambos, passado e futuro, não se encontraram nessa restituição, não há recuo possível, só nuvens que se dissipam no ar. Sobejam, portanto, ruínas, o descarado desleixe, numa arquitectura de escombros e destroços. Ninguém já devolverá a paisagem em frações, nem guardaremos a emoção que resta dessa visão desoladora. Apenas o desgosto, também ele acelerado, condizendo com o tempo!
             O turismo é hoje (apenas!) presente e futuro, a galinha dos ovos de ouro, maná, não quer saber do passado. Monocultura dourada, super estimulada, promovida até à exaustão. Ouvimos todos os dias falar desse futuro carregado de milhões de euros em investimentos em hotéis, empreendimentos ou bungalows à beira mar, promessas de centenas de empregos no turismo e aumento aos magotes no número de casas disponíveis para o alojamento local. Nenhum travão se afigura, obstáculo que seja. O choque já não se dá porque o futuro venceu, impõe-se, tal é a pífia ultrapassagem rumo ao abismo.
     Acredite-se, assim, que desacelerar é preciso ou, então, seremos apenas resíduos, fragmentos, estilhaços, dessa aceleração!