sábado, 7 de março de 2026

Poemas Pré-Primaveris de Naná da Ribeira

 Fole e Folia 

À mesma hora o mesmo dia
Afazer rotina calculada 
Foi-se o fole vaga folia 
Prender à casa arrastar o corpo
Nada se alcança mínimo esforço 
Desfeito lance transcendência 
Respiro firme quase asfixia 
O sossego não redime só magoa
Em magna alegria por ferver 

Soro e Sopro

Sobrevive no eterno presente 
O alimento de vida mastigado
Anémonas cavadas flores do mar 
Curso de memórias trituradas 
Nativos extasiados entorpecidos 
Aquecem o balão bem lá no ar 
Neste sopro que viaja mais lento que 
a luz

sexta-feira, 6 de março de 2026

Acende de Thurston Moore

Chego acreditando na tua luz 
O doce receptor na tua mente
Aumenta-o completamente 
Ouvir-te a chegar e a salvar o dia
É sonoro e claro o teu sinal, querida
Acende-o e tira-nos daqui 
Aumenta-o, estamos no vermelho
Traz-nos de volta à livre divindade 
Acende o teu feixe de televisão 
Liga-te à noite do anjo 
Liga-te à noite do anjo 
Acende o sonho da rádio 
Acende a tua luz divina

in »Rock N Roll Consciência« - Letras, Tipografia Micaelense, Tradução de Sara Coutinho, Ponta Delgada, Açores, 100 exemplares.

terça-feira, 3 de março de 2026

Não nos livramos da Guerra!

La Razon: diário de Madrid.
Tiragem: 41 mil exemplares.
 

Sal e Pele de Naná da Ribeira

Previsível reunião de sal e pele

Avançou no estio  à beira-mar

Guardadas distâncias só vontades

Bocas gretadas no calor a degustar

Céu lavado com árvores na amurada

Vaivém aflito de ondas a quebrar

Face e inquietude que tudo absorve

No ribombar da espuma interminável

Postal da Exposição no CAC

    O que Permanece: Memória do Edifício
                 ARQUIPÉLAGO
      Centro de Artes Contemporâneas 
            Fevereiro- Dezembro, 2026

segunda-feira, 2 de março de 2026

Afonso Dorido: Catarse no Colégio!

        Estamos em 2026, Ponta Delgada é a Capital Nacional da Cultura e a Igreja do Colégio é o palco escolhido para o músico Afonso Dorido, Homem em Catarse, apresentar o seu trabalho que já leva uma década de projectos musicais.
       O concerto deste músico, nascido e criado em Barcelos e a viver actualmente em Braga, abriu com “Paredes em Flor”, do álbum "Catarse Natural", lançado em 2024. A viagem sonora prosseguiu com  “Mergulho no Cávado”, “Depois do Vendaval”, tocado pela primeira vez ao vivo, “O Tempo Vem Atrás de Nós”, tema de complexa execução técnica e propulsão sonora, onde este explora diferentes territórios da guitarra e da própria voz. Desta feita, voz e guitarra iam, assim, povoando de forma discreta e etérea a Igreja do Colégio, sempre em crescendo seguido de uma trilogia de canções a tocar nos assuntos da actualidade - “Gueto da Paz”, “Padrão dos Encobrimentos” ou “Hipoteca”, sendo esta última um hino ao terrível problema da habitação que perpassa a sociedade contemporânea. O espectáculo fechou com “Guarda”, um tributo à cidade da Beira Alta, que mais parecia um lamento sincero e amargo sobre esse interior invisível e esquecido dos poderes públicos, tendo tido, por isso, aplausos de pé de toda a plateia açoriana. 
        Num momento em que a tendência é para a fruição dos objectos culturais em espaços domésticos, eis que nos próximos meses do ano o convite é para nos reunirmos nos espaços culturais da cidade, sejam eles onde forem, sendo este concerto um tónico e 
agradável prenúncio de tudo o que ainda pode estar a caminho.  

Provérbio

Em Março, tanto durmo quanto faço 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Em Escuta...

Catarse Natural, 2024
Homem em Catarse 
 

Querida Bicicleta, não te chamarei velocípede

Samuel Becket
Fotografia: Gisèle Freund
          Assim, levantei-me, ajustei as muletas e fui para a estrada, onde encontrei a minha bicicleta (olha, disso é que eu não estava mesmo à espera!) no mesmo sítio onde tinha sido obrigado a deixá-la. Isso permitiu-me comprovar que, embora estivesse todo estropiado, nessa altura ainda  sentia um certo prazer em andar de bicicleta. Era assim que eu fazia: prendia as muletas, uma de cada lado, à barra superior do quadro; enganchava  o pé da perna rígida (não me lembro de qual era, porque agora estou inválido das duas) na saliência do eixo da roda da frente e pedalava com a outra. Era uma bicicleta acatène, de roda livre, se é que isso existe. Querida bicicleta, não te chamarei de velocípede, estavas pintada de verde, como tantas outras bicicletas do teu género, nem sei porquê. Lembro-me muito bem dela. Terei todo o gosto em descrevê-la. Tinha um pequeno corne ou trompa em vez da campainha que agora está na moda. Accionar uma buzina destas era para mim um verdadeiro prazer, quase uma volúpia.

Samuel Beckett, in De Bicicleta, Antologia de Textos, Relógio D´Água, 2012.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026