Em todas as terras, em todas as fronteiras
Douta Melancolia
"C’è la stessa malinconia e la stessa speranza" Vittorio Lega
sábado, 25 de abril de 2026
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Um Livreiro no Dia Mundial do Livro
É confrangedora a
ausência de ritmo e da música intrínsecas a toda a boa poesia. Na maioria dos
poemas, os versos sucedem-se por justaposição ou assemblage de frases e
citações, sendo cada vez mais difícil encontrar poemas com uma arquitectura
interna derivada do sentir profundo de os escrever. Claro que esta opinião
poderá ser rebatida pelos hipotéticos leitores deslumbrados com poetas
recentes.
in Urzes de Manuel Hermínio Monteiro, Livros Independente, 2004.
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Ao Entardecer de K. P. Kaváfis
Não podia durar muito. A experiência dos anos
mo ensina. Ainda assim, que apressado foi
o Destino ao chegar-lhe e pôr-lhe fim.
Foi breve a vida bela.
Mas que fortes eram os perfumes,
que esplêndida a cama onde nos deitámos
a que prazer entregámos nossos corpos.
mo ensina. Ainda assim, que apressado foi
o Destino ao chegar-lhe e pôr-lhe fim.
Foi breve a vida bela.
Mas que fortes eram os perfumes,
que esplêndida a cama onde nos deitámos
a que prazer entregámos nossos corpos.
Um eco dos dias do prazer
um eco dos dias veio ter comigo,
algo do ardor da juventude de nós dois:
as minhas mãos voltaram a pegar na carta,
li e reli até não sobrar luz.
E melancólico saí para a varanda ---
para mudar de ideias, para ver ao menos
um pouco da cidade amada,
um pouco do movimento das ruas e das loja.
(1907)
in Aquele Belo Rapaz, poesia completa, Assírio&Alvim, 2025.
terça-feira, 21 de abril de 2026
100 Dicas de Autoajuda de Lígia Reyes
Fazer alguma coisa: deixar de fumar
deixar de comer fast-food, inventar
um corpo novo: deixar de ter medo.
Uma boneca não poderia ser mais perfeita,
para que se possa brincar com ela:
um objeto de afeto desmesurado
sem animus, pronta para ir atrás
de um conjunto de ideias vagas -
Ainda crê que é possível salvá-la
de uma qualquer ideologia não permitida
aos sonhos de um criador, uma importância
fatídica no sistema amoroso, engrenagem
racional, infratemporal, partida
onde não existe a possibilidade
de consertar pequenos deuses
deixar de comer fast-food, inventar
um corpo novo: deixar de ter medo.
Uma boneca não poderia ser mais perfeita,
para que se possa brincar com ela:
um objeto de afeto desmesurado
sem animus, pronta para ir atrás
de um conjunto de ideias vagas -
Ainda crê que é possível salvá-la
de uma qualquer ideologia não permitida
aos sonhos de um criador, uma importância
fatídica no sistema amoroso, engrenagem
racional, infratemporal, partida
onde não existe a possibilidade
de consertar pequenos deuses
nenhum de nós está a salvo
de uma ideia de felicidade.
de uma ideia de felicidade.
in O Êxodo das Sementes de Estrela, Os Livros de Oeiras, 2025
Plano de Vida de Luis A. Fernandes
quando nos dizem que é preciso
fazer planos resoluções ter objetivos
projetos programar a vida
deviam dizer-nos para planear
apenas as coisas simples
fazer planos resoluções ter objetivos
projetos programar a vida
deviam dizer-nos para planear
apenas as coisas simples
quantas colheres no café no leite
quanto tempo o pão na torradeira
qual a faca certa para barrar a manteiga
no máximo lembrar de colocar o alarme
para regar as plantas tomar a pílula
acordar ligar aos avós tudo coisas
que nos esquecemos de fazer
mais do que gostamos de admitir
deviam dizer-nos sobretudo
para não pensarmos nas coisas grandes
em tudo o que devia importar
não vale a pena
o mundo tem um jeito irónico
de se planear sozinho
in O que Nunca Mais Recuperamos, Os Livros de Oeiras, 2024.
segunda-feira, 20 de abril de 2026
CAC: Espaço com Tempo Dilatado
Estamos em finais de Abril e ainda trazemos vestidas as roupas de Inverno. A variabilidade atmosférica, tão características dos espaços insulares, mantém-se. Acrescente-se a tudo isto, o facto de passarmos a ter noites muito frias, a lembrar temperaturas de lugares bem altos e pouco afortunados pelo sol.
Preocupados com mil afazeres relacionados com a sobrevivência, a verdade é que sobra muito pouco tempo para o prazer da discussão, alienados e absorvidos nos transportes e demais burocracia, quase não tomamos posição na hierarquia do que é realmente relevante. Para que serve, então, a cultura senão para pensarmos o nosso lugar nela?
Preocupados com mil afazeres relacionados com a sobrevivência, a verdade é que sobra muito pouco tempo para o prazer da discussão, alienados e absorvidos nos transportes e demais burocracia, quase não tomamos posição na hierarquia do que é realmente relevante. Para que serve, então, a cultura senão para pensarmos o nosso lugar nela?
No passado sábado, dia 18 de abril, foi uma tarde com o tempo dilatado dentro do Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas. Num primeiro momento, assistimos à peça “O dia em que decidi encenar o Principezinho”, de Mário Coelho, às 16h00, na blackbox, em colaboração com Ponta Delgada 2026 – Capital Portuguesa da Cultura. Um desafio ao espectador para poder olhar a diferença e acreditar que é possível continuar a ver o mundo de diferentes perspectivas e, por isso, devemos fazer o esforço por cativar, isto é, criar laços que possam durar no tempo. De seguida, deu-se a apresentação do “Roteiro de Arquitetura dos Açores: um itinerário crítico” (Vol. II e III), numa cuidada e organizada súmula coordenada por Flávia Almeida, sendo esta incentivada pelo jornal Açoriano Oriental. A obra envolve os anos de 2023 e 2024, obtendo a participação de diversos arquitectos e demais autores que contribuíram com textos, dissertações e fotografias das obras em questão.
domingo, 19 de abril de 2026
Da Autonomia
Celebrar os cinquenta anos da autonomia faz sentido. Mas só se houver coragem para isto: não menos festa, mais espelho. Porque a autonomia não é um altar. É uma prova diária.
João Mendes Coelho, Açoriano Oriental, 18 de Abril de 2026.
sábado, 18 de abril de 2026
A uma Amiga de Antero de Quental
Aqueles, que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Os dispersou no mundo que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que à noite evoca o sentimento...
Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos...que eu invejo...
Passam por mim, mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!
Daquela Primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!
Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal...e escarnecê-lo!
in Sonetos Completos, Publicações Europa-América.
Roteiro de Arquitetura Açoriana
CCRG: Um Zé Ninguém Contra a Guerra
![]() |
| Daqui: https://www.adorocinema.com/ |
Durante dois anos e meio, este professor que era coordenador dos registos de vídeo e eventos da sua escola, foi enviando imagens para David Borenstein, realizador americano a viver em Copenhaga, na Dinamarca. “Mr. Nobody contra Putin” mostra-nos o processo militar repressivo em curso – há aulas de patriotismo, revisionismo histórico e sessões de apresentação de minas e promoção das armas pelo exército e grupo Wagner – uma autocracia que perpetua a asfixia social e o défice democrático existente. Qual é o propósito desta guerra ou de qualquer guerra? Esta é, sem espinhas, a grande questão que este documentário engajado nos faz.
“Mr. Nobody contra Putin”, que passou no final do dia de ontem no Teatro Ribeiragrandense, ganhou o Óscar e o prémio Bafta para melhor Documentário. Dois galardões de peso para dois homens corajosos: David Borenstein e Pavel Talankin.
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