segunda-feira, 1 de junho de 2026

Catarina: A Beleza de Poder Decidir

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas
Teatro Micaelense - 30 e 31 de Maio
Fotografia: Carlos Fernandes 

Não é expectável ver uma sala de espectáculos tão repleta para ver teatro, devem ter sido cerca de mil e quinhentas pessoas as que viram a peça de teatro “Catarina, a Beleza de Matar Fascistas”, de Tiago Rodrigues, neste último fim de semana no Teatro Micaelense. Inserida na programação de PDL26, a peça trazia consigo um volume conhecido de representações e consideráveis recomendações apelativas da crítica e (também) da polémica nos lugares por onde passou.
 A peça é um exercício direto sobre a liberdade de pensamento, nada ali é excluído de ser pensado, inclusive o acto de matar e é, por isso, uma reflexão sobre a democracia e os limites da tolerância face aos que a pretendem subverter. No entanto, não deixa de ser um trabalho teatral de grande exigência, um gesto inteiro de combate a quem pretende ferir a democracia no seu âmago. Há, de facto, muitas tensões a ser resolvidas ao longo destes cento e cinquenta minutos. Sim, é verdade, que o cenário é irrepreensível, o texto tem momentos de grande respiração e profundidade – aquela narração pontuada pelo actor (Marco Mendonça) com os headphones e a sua música é marcada por um ritmo cadenciado e silabado de excelsa beleza - e, por fim, não se pode deixar de pensar nos momentos finais, protagonizados pelo actor Romeu Costa, porventura, exagerados para o efeito produzido. Há que reconhecer o incómodo face ao que estava a ser dito ainda que se discorde do barulho permanente face aos doze minutos daquele discurso político. É verdade: ninguém é obrigado a ouvir aquele discurso, mas convenhamos que se trata de um texto de pendor propagandístico e repetitivo nas suas nuances de populismo, com o intuito de acicatar os espíritos democráticos. Teatro, portanto. Até quando?
  Em suma, é bem provável que este momento teatral perdure no tempo, sobretudo aquela clareza em que nos apercebemos que tolerar a intolerância pode ser fatal para quem pretende defender uma democracia indefesa, isto é, de quem procura protegê-la dos que estão sempre a encontrar brechas para a corroer por dentro. 

Sol i Dão

 




sábado, 30 de maio de 2026

CCRG: A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros

      Documentário narrado de forma bastante pessoal e biográfica sobre a imigração na Suíça desde a segunda guerra mundial. Este objecto cinematográfico, produzido pela Suíça e Itália, encontra semelhanças com os dias de hoje e, por isso, revela o registo da dificuldade em encontrar formas de convivência pacíficas e duradouras entre nacionais e estrangeiros.
        A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros foi realizado por Samir, iraquiano, também ele imigrante na Suíça desde tenra idade. Ao longo do filme podemos ver álbuns pessoais, fotografias e filmes de arquivo, pedaços de canções e animações que nos mostram a sua visão sobre a experiência migrante no país de acolhimento. Uma obra digna de reflexão, ritmo e entusiasmo. 

Tiago Rodrigues no Micaelense

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas
Encenação de Tiago Rodrigues 
Dias 30 e 31 de Maio
Teatro Micaelense 
 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Estorvo de Chico Buarque

 

Verso de José Mário Branco

 Só se pode ser salvo pelo amor

Vitorino Nemésio pelo Teatro Escondido

Mercado Negro, Ponta Delgada
Terça-Feira, 26 de Maio
20h00
 

De Pequenos Troféus...

          "Ela gozou de toda uma infância em proximidade íntima com o mar. Com ele aprendeu a resistência, a nostalgia da lonjura a alcançar. Nadava com braçadas desenvoltas que suprimiam a distância entre ela e o pai. Frequentemente se desafiavam, quer em distâncias longas, quer em curtas, conforme se tratasse de um exercício de tenacidade ou rapidez. Ela ganhava-lhe aos pontos neste e naquele debatia-se inutilmente, ficando para trás. Em caso de vitória, eivava-a uma excitação viva que a deixava prostrada na areia, incompleta e insegura quanto àquele terror. Em casa, ele batia-lhe e ela revelava-lhe a impotência da rapidez. Ao mesmo tempo, amedrontava-se com o demónio da vitória. Inútil vencer e, sabê-lo, era instituir-se por dentro das coisas revirando-as do avesso, surpreendendo-lhes a vacuidade."

Ana Paula Inácio in Putas - Novo Conto Português e Brasileiro, Quasi Edições, 2003

domingo, 24 de maio de 2026

Banzo: Trágica Nostalgia!

       Já passaram, entretanto, vinte e seis anos de "Com Quase Nada", documentário sensível e poderoso de Margarida Cardoso e Carlos Barroco sobre as crianças caboverdianas e a invenção dos seus brinquedos nas ruas do arquipélago. 
Banzo na RTP2
     A RTP2 projectou, na sessão da noite de sábado, "Banzo", filme passado em São Tomé e Príncipe no início do século XX, interpretado por Carloto Cota, Gonçalo Waddington, Cirila Bossuet, Hoji Fortuna, Rúben Simões, Sara Carinhas, João Pedro Bénard, entre outros.
     Este filme que, conta já com vários prémios Sophia nesta última edição, gira em torno da ideia da nostalgia que mata, que afeta sobretudo a comunidade migrante e escrava - os serviçais - que não querem comer nem beber, apenas morrer. A vida dos escravos numa ilha tropical em torno das plantações de cacau. Um médico da metrópole desloca-se ao território para tentar saber as razões do sucedido, mas logo intui a sua ação impotente. Margarida Cardoso filmou essa melancolia, essa inacção, uma dolência que não impede de contemplarmos estas imagens e sons que vem das profundezas do tempo. Cinema em estado melancólico.

sábado, 23 de maio de 2026

Diário de Daniel Faria

Seja o que for
Será bom.
É tudo. 

in Poesia, Quase Edições, 2003.

Verso de Vinicius de Moraes

 De repente e não mais que de repente 

O Boémio de Petr Vaclav

   Esta co-produção Tchéquia-Itália foi exibida no final da tarde de sexta-feira, na sala azul, do Teatro Ribeiragrandense. O Boémio acompanha a saga biográfica da existência curta do compositor Josef Mysliveček (1737- Praga - 1781- Roma), um compositor que viria a tornar-se figura de destaque do século XVIII e referência para o genial Wolfgang Amadeus Mozart. Os 137 minutos de filme mostra-nos o seu lado boémio, a sua vida entre mulheres, os acessos de frustração pela doença e melancolia e, essencialmente, o seu valor criativo e musical.

Do Fogo Frio

Fogo Frio
Do Vulcão dos Capelinhos, 2008
Duarte Belo