quarta-feira, 22 de abril de 2026

Systema Naturae#17 de Urbano

Técnica mista sobre papel
2019
Edição Letras Lavadas
 

Ao Entardecer de K. P. Kaváfis

Não podia durar muito. A experiência dos anos
mo ensina. Ainda assim, que apressado foi
o Destino ao chegar-lhe e pôr-lhe fim.
Foi breve a vida bela.
Mas que fortes eram os perfumes,
que esplêndida a cama onde nos deitámos
a que prazer entregámos nossos corpos.

Um eco dos dias do prazer
um eco dos dias veio ter comigo,
algo do ardor da juventude de nós dois:
as minhas mãos voltaram a pegar na carta,
li e reli até não sobrar luz.

E melancólico saí para a varanda ---
para mudar de ideias, para ver ao menos
um pouco da cidade amada, 
um pouco do movimento das ruas e das loja.
(1907)
in Aquele Belo Rapaz, poesia completa, Assírio&Alvim, 2025.

Do Fogo Frio

Fotografia: Duarte Belo
in Fogo Frio
Assírio &Alvim, 2008
 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Verso de O Homem em Catarse

 Qual é o nosso valor?

100 Dicas de Autoajuda de Lígia Reyes

Fazer alguma coisa: deixar de fumar 
deixar de comer fast-food, inventar 
um corpo novo: deixar de ter medo.
Uma boneca não poderia ser mais perfeita, 
para que se possa brincar com ela:
um objeto de afeto desmesurado 
sem animus, pronta para ir atrás 
de um conjunto de ideias vagas - 
Ainda crê que é possível salvá-la 
de uma qualquer ideologia não permitida 
aos sonhos de um criador, uma importância 
fatídica no sistema amoroso, engrenagem
racional, infratemporal, partida 
onde não existe a possibilidade 
de consertar pequenos deuses 

nenhum de nós está a salvo 
de uma ideia de felicidade.


in O Êxodo das Sementes de Estrela, Os Livros de Oeiras, 2025

Plano de Vida de Luis A. Fernandes

quando nos dizem que é preciso
fazer planos resoluções ter objetivos 
projetos programar a vida 
deviam dizer-nos para planear 
apenas as coisas simples

quantas colheres no café no leite 
quanto tempo o pão na torradeira 
qual a faca certa para barrar a manteiga 

no máximo lembrar de colocar o alarme 
para regar as plantas tomar a pílula 
acordar ligar aos avós tudo coisas 
que nos esquecemos de fazer 
mais do que gostamos de admitir 

deviam dizer-nos sobretudo 
para não pensarmos nas coisas grandes 
em tudo o que devia importar 

não vale a pena 

o mundo tem um jeito irónico 
de se planear sozinho

in O que Nunca Mais Recuperamos, Os Livros de Oeiras, 2024.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

CAC: Espaço com Tempo Dilatado

          Estamos em finais de Abril e ainda trazemos vestidas as roupas de Inverno. A variabilidade atmosférica, tão características dos espaços insulares, mantém-se. Acrescente-se a tudo isto, o facto de passarmos a ter noites muito frias, a lembrar temperaturas de lugares bem altos e pouco afortunados pelo sol.
      Preocupados com mil afazeres relacionados com a sobrevivência, a verdade é que sobra muito pouco tempo para o prazer da discussão, alienados e absorvidos nos transportes e demais burocracia, quase não tomamos posição na hierarquia do que é realmente relevante. Para que serve, então, a cultura senão para pensarmos o nosso lugar nela?

    No passado sábado, dia 18 de abril, foi uma tarde com o tempo dilatado dentro do Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas. Num primeiro momento, assistimos à peça “O dia em que decidi encenar o Principezinho”, de Mário Coelho, às 16h00, na blackbox, em colaboração com Ponta Delgada 2026 – Capital Portuguesa da Cultura. Um desafio ao espectador para poder olhar a diferença e acreditar que é possível continuar a ver o mundo de diferentes perspectivas e, por isso, devemos fazer o esforço por cativar, isto é,  criar laços que possam durar no tempo. De seguida, deu-se a apresentação do “Roteiro de Arquitetura dos Açores: um itinerário crítico”
 (Vol. II e III), numa cuidada e organizada súmula coordenada por Flávia Almeida, sendo esta incentivada pelo jornal Açoriano Oriental. A obra envolve os anos de 2023 e 2024, obtendo a participação de diversos arquitectos e demais autores que contribuíram com textos, dissertações e fotografias das obras em questão.
       No final da apresentação, os autores e e arquitetos presentes dialogaram com a assistência sobre a valorização desta atividade, sendo esta hoje maioritariamente absorvida pela sociedade do espectáculo e mediatização, necessitando assim  de espaços públicos para a sua reflexão
 e questionamento. No fundo, a criação de plataformas amplas onde confluam e se mobilizem formas de pensar e praticar a arquitectura.  

domingo, 19 de abril de 2026

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Vais-te encostar na ceia de ontem à noite?

Da Autonomia

   Celebrar os cinquenta anos da autonomia faz sentido. Mas só se houver coragem para isto: não menos festa, mais espelho. Porque a autonomia não é um altar. É uma prova diária. 

João Mendes Coelho, Açoriano Oriental, 18 de Abril de 2026.

sábado, 18 de abril de 2026

A uma Amiga de Antero de Quental

Aqueles, que eu amei, não sei que vento 
Os dispersou no mundo que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo 
Visões que à noite evoca o sentimento... 

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos...que eu invejo...
Passam por mim, mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela Primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal...e escarnecê-lo!

in Sonetos Completos, Publicações Europa-América.

Roteiro de Arquitetura Açoriana

 
Roteiro de Arquitetura dos Açores: um itinerário crítico
18 horas

Lançamento de livro
Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas

CCRG: Um Zé Ninguém Contra a Guerra

Daqui: https://www.adorocinema.com/
            Há uma palavra com que se sai na ponta da língua depois de ver o documentário "Mr. Nobody contra Putin" - coragem! É preciso, sem dúvida, uma substantiva coragem para fazer o que fez Pavel Talankin, um professor de Kalabash  - a cidade mais poluída da Rússia e onde a esperança de vida é de 38 anos - colocando, assim, em risco a sua própria vida.
           Durante dois anos e meio, este professor que era coordenador dos registos de vídeo e eventos da sua escola, foi enviando imagens para David Borenstein, realizador americano a viver em Copenhaga, na Dinamarca. “Mr. Nobody contra Putin” mostra-nos o processo militar repressivo em curso – há aulas de patriotismo, revisionismo histórico e sessões de apresentação de minas e promoção das armas pelo exército e grupo Wagner – uma autocracia que perpetua a asfixia social e o défice democrático existente. Qual é o propósito desta guerra ou de qualquer guerra? Esta é, sem espinhas, a grande questão que este documentário engajado nos faz.
          “Mr. Nobody contra Putin”, que passou no final do dia de ontem no Teatro Ribeiragrandense, ganhou o  Óscar e o prémio Bafta para melhor Documentário. Dois galardões de peso para dois homens corajosos: David  Borenstein e Pavel Talankin.

Provérbio

nie mój cyrk, nie moje małpy

não é o meu circo nem são os meus macacos. 

Guia de Marcha

Na verdade,
todas as nossas impressões
são feitas
de memórias
e recordações assombrosas
no eco de distâncias
perdidas. 

Giovanni Cattani, in Escritos em Prosa e Verso.