domingo, 24 de maio de 2026

Banzo: Trágica Nostalgia!

       Já passaram, entretanto, vinte e seis anos de "Com Quase Nada", documentário sensível e poderoso de Margarida Cardoso e Carlos Barroco sobre as crianças caboverdianas e a invenção dos seus brinquedos nas ruas do arquipélago. 
Banzo na RTP2
     A RTP2 projectou, na sessão da noite de sábado, "Banzo", filme passado em São Tomé e Príncipe no início do século XX, interpretado por Carloto Cota, Gonçalo Waddington, Cirila Bossuet, Hoji Fortuna, Rúben Simões, Sara Carinhas, João Pedro Bénard, entre outros.
     Este filme que, conta já com vários prémios Sophia nesta última edição, gira em torno da ideia da nostalgia que mata, que afeta sobretudo a comunidade migrante e escrava - os serviçais - que não querem comer nem beber, apenas morrer. A vida dos escravos numa ilha tropical em torno das plantações de cacau. Um médico da metrópole desloca-se ao território para tentar saber as razões do sucedido, mas logo intui a sua ação impotente. Margarida Cardoso filmou essa melancolia, essa inacção, uma dolência que não impede de contemplarmos estas imagens e sons que vem das profundezas do tempo. Cinema em estado melancólico.

sábado, 23 de maio de 2026

Diário de Daniel Faria

Seja o que for
Será bom.
É tudo. 

in Poesia, Quase Edições, 2003.

Verso de Vinicius de Moraes

 De repente e não mais que de repente 

O Boémio de Petr Vaclav

   Esta co-produção Tchéquia-Itália foi exibida no final da tarde de sexta-feira, na sala azul, do Teatro Ribeiragrandense. O Boémio acompanha a saga biográfica da existência curta do compositor Josef Mysliveček (1737- Praga - 1781- Roma), um compositor que viria a tornar-se figura de destaque do século XVIII e referência para o genial Wolfgang Amadeus Mozart. Os 137 minutos de filme mostra-nos o seu lado boémio, a sua vida entre mulheres, os acessos de frustração pela doença e melancolia e, essencialmente, o seu valor criativo e musical.

Do Fogo Frio

Fogo Frio
Do Vulcão dos Capelinhos, 2008
Duarte Belo
 

Do Ecoponto Azul

      "A partir daí, o raciocínio torna-se cruel pela sua lógica. Entre quatro infernos subterrâneos coloridos, o azul talvez fosse o mais habitável. Menos vidro partido. Menos restos de comida. Menos líquidos. Menos arestas. Mais cartão para dobrar o frio. Mais cartão para dobrar o frio. Mais papel para fingir parede. Até  a miséria tem arquitectura. Foi com esse pensamento que comecei o dia."

João Mendes Coelho, in Açoriano Oriental, dia 23 de Maio de 2026.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Aos Biógrafos de Miguel Manso

Chico Buarque escreveu Budapeste 
sem ir a Budapeste 

há que escrever Chico Buarque 
sem ir ao Chico Buarque 

in Santo Subito, Carimbos de Gent, edição Lisboa, 2010.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Chegada de Baloiço à Caixa do Correio

       Alguns meses depois, chegam ecos deste “Baloiço”, desta feita acompanhados por correio eletrónico, são notícias da receção do “Baloiço”, via caixa dos correios. Há quem responda de imediato e há também quem guarde as palavras para ocasião mais propícia. E, evidentemente, há quem não responda ou agradeça o gesto. Estão no seu direito.
      Um objeto literário desta natureza só estará completo quando cada leitor/observador decidir abraçá-lo e contar  o que consumou de experienciar…nem que seja apenas pelo toque ou contacto e, mesmo assim, expressá-lo por via da fotografia.

                           PS. A imagem é do Vel.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Postal para Gdansk

Doravante a promessa de retorno
uma saída para omissa Primavera
nenhum aviso legado ou transmissão
quedou a dúvida a sombra hesitação 

um silêncio instalado no radar dos países
permanece a tocha flamejante
escasseiam folhas flores frutos
jacarandás coloridos 
as mãos sedentas de alento
à distante viajante
um reencontro ansiado.

Carlos Santos, in "Abrolhos", Sálvia Editora, 2026

terça-feira, 19 de maio de 2026

Escola: Matisse Sobre a Mesa

          “A Estética é uma disciplina filosófica que estuda o belo nas suas diferentes manifestações”, foi lembrando o professor. Pensemos, pois, nos anos 20 do século passado, quando a Europa se libertava de forma catártica dos horrores da guerra e da pandemia e em que os artistas se expressavam através dor, do desespero e dos sentimentos pessimistas da época. Ao mesmo tempo que projetavam a esperança e a alegria no horizonte bem como o gosto pela vida e outra formas de experienciar a existência. Viviam-se, portanto, períodos conturbados e ainda o surgimento dos movimentos artísticos, a afirmação  dos criadores e manifestações do seu estilo, a inovação e o desejo de transcendência através da arte. Cem anos depois, necessitamos novamente de despertar sentidos e consciências, estimular a paixão pela arte, incentivar a paz duradoura, sem ter a pretensão de salvar o globo ou a humanidade. 
          A escola é um local onde a criatividade, por vezes, ocorre. Jorra.  Nem só de rotinas, horários e programas é composto um ano letivo. Por vezes, é factual e, quanto menos se espera, a criação pode surtir no mais rígido dos contextos, dar lugar à invenção e a beleza pode acontecer, soltando-se a imaginação que, como todos sabemos, não tem fim.
          A constatação é real: há alguns alunos que secretamente desenham durante o decorrer das aulas! Há também estudantes que fora do espaço escolar cantam, escrevem poesia, compõe música e fazem pequenos filmes ou animações. A dificuldade é encontrar o momento/sítio certo onde possamos juntar, enquadrar a sua forma de exprimir, admitir essa possibilidade de que possam um dia viver do gesto de traçar, criar, imaginar o seu próprio destino. Há, sem dúvida, uma necessidade por colmatar, a abertura de uma área específica para que a expressão artística possa suceder, vivenciar e partilhar.
          Entretanto, a aula tinha, assim, terminado e o retrato de Henri Matisse, desenho feito durante a aula, foi pousado, deixado em cima da mesa, oferecido por quem o desenhou àquele professor. E logo o desenho de Henri Matisse, o pintor que afiançava que os artistas deviam possuir um eterno olhar infantil, a curiosidade e inocência de uma criança, como se tudo na vida pudesse ser visto e apreciado como se fosse sempre pela primeira vez.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Maio

     O quinto mês do ano deve o seu nome à deusa da terra e das flores, Maia, filha de Atlas.

Orlando Neves, in Dicionário do nome das coisas e outros epónimos, Notícias Editorial.

domingo, 17 de maio de 2026

Verso de Mina

 L´amore vero non finisce mai

Da Liberdade

      Numa terra pequena, a liberdade começa muitas vezes assim: com alguém a escrever o que não devia caber. E, de repente, cabe em todos nós mais mundo, mais discussão, mais empatia. E, talvez, mais paz. 

João Mendes Coelho, in Maria Fora-da-Caixa, Açoriano Oriental, 16 de Maio de 2026. 

sábado, 16 de maio de 2026

Diamantes: Juntas, Venceremos!

         O centenário Teatro Ribeiragrandense foi o lugar para a  estreia insular do filme  italiano "Diamanti",  de Ferzan Özpetek. Este película, apresentada em 2025, foi um sucesso de bilheteira em Itália, pois fez dois milhões de espectadores. 
       Na tela, um realizador convoca, à volta de uma mesa com lasanha, um grupo alargado de actrizes que quisessem imaginar um filme passado ano 70 numa alfaiataria de Roma. O guião vai sendo lido e o espectador é transportado para a vida de um "Palazzo romano" ocupado por muitas mulheres à volta de tesouras, alfinetes, tecido e máquinas de costura. A pressão das encomendas e o ritmo frenético da exigência marca a vida de quem dirige, sustenta e materializa os figurinos necessários para peças de teatro e filmes levados à tela. E é sobre a vida destas mulheres que se desenrola esta trama de pendor sensível e delicado em torno do universo feminino, pois ficamos a saber os segredos que cada uma delas esconde. De destacar, a força das actrizes Jasmine Trinca e Luisa Rainieri e ainda  uma banda sonora a lembrar as grandes orquestrações de Enio Morricone, para além das sempre entusiasmantes e delirantes canções ligeiras e românticas italianas.