quinta-feira, 7 de maio de 2026

Idanha-a-Nova: Foi há 20 anos!

         "Vão-se todos embora, ficamos nós", ouvi tantas vezes da boca daquelas pessoas que habitavam aquele território, com um sorriso duro, franco e aberto. Ali era o interior profundo, lugar de nuvens carregadas, cor de farda, na paisagem duradoura do Inverno, ainda a serenidade e a melancolia na ausência de palavras durante a Primavera. Eram, no entanto, planícies e searas que se erguiam roliças na lonjura e secura do verão, compondo este meu retrato de uma permanência duas décadas depois. Nunca mais lá voltei. Avancei, sem pestanejar perante a força do granito, somente a saudade e a promessa de um retorno.
      Ali ficava também Monsanto, Medelim, Ladoeiro, Rosmaninhal ou Penha Garcia, que visitava pelo seu sossego, panorama e silêncio, naquela minha vontade de tornar excessivo aquele momento, permitir-me à força da contemplação e ao brilho das suas imagens. A memória, agora, chega por via da revista Adufe, vasculhando algumas passagens e capas, escritos de nomes de árvores, pássaros, os adufes guardados, ou textos em cadernos antigos, parágrafos soltos que emergem à superfície, ansiosos por inquietar. 
         Duas décadas depois, apetecia tanto lá voltar!

terça-feira, 5 de maio de 2026

Verso de Samuel Úria

 Ou da ternura em que tropeço?

Avenida Marginal: Domingo de Santo

       É domingo de Santo Cristo e o cozido de carnes prenuncia-se por espanta-espíritos que chega antes de qualquer mão à porta da Mâe de Deus. Tudo é sagrado pela avó que dura, pelo Santo que terá feições a merecerem avaliação dia-fora e pela sopa que, mesmo antes de lá morarem as carnes anunciadas de cheiro, dá aquecimento ao prato e ao tio alcoólatra que repete por três vezes esse aguado sagrado, vinho em dobro por cada prato, silêncio multiplicado em duração de tudo.
   Aprende-se com o avô a chorar antecipadamente a possibilidade da última vez neste lugar de circunstância - bem se recordam as lajes de pedra dessa escadaria da igreja de São José, pai do dito e residência alternada por que o Santos e alberga por uma das noites de festa, a única do ano para ele. Chorava sempre Rolando pela oportunidade de se pronunciar em contradição silenciosa postura que mantinha ao efectivo justificativo de ali estarem juntos para lembrar que, com mais ou menos rigor previsionista, aquela seria a sua última crepuscular vez do lado dos que jogam na selecção dos vivos.


Tiago Ribeiro, in Avenida Marginal - Ficções, Ponta Delgada, 2019.

Fumo de João Habitualmente

Sigo-te:
perco o rumo

Olhas-me: 
fico  cego

Prendes-me:
sou algema
 
Ardes-me:
já sou fumo

in Poemas em Peças, Quase Dito#3, Fevereiro de 2014.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

De Vigias e Faroleiros

in Na Língua da Maré, 2023
Texto: Abel Coentrão
Fotografia: Hélder Luís 
Âncora Editora 
 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Namorados de Sarajevo de Rui Duarte Rodrigues

 ao turno da tarde 
Destruíram os nossos jovens
e as nossas memórias - disse à reportagem
uma velha habitante de Sarajevo.

Referia-se ao castanheiro centenário 
          no parque central da cidade.
Lembrou que à sua sombra costumava reunir-se 
           namorados e guitarras.
Mas foi um Inverno longo e violento,
sob cerco - o de mil novecentos e noventa e três,
e o velho castanheiro também teve de ser 
           abatido
para aquecer as pessoas.

Arderam os corações e as memórias 
dos namorados de Sarajevo.

in "Meu Poema é Isto - Poesia Reunida", coordenação de Luiz Fagundes Duarte, edição Instituto Açoriano de Cultura, 2025.

domingo, 26 de abril de 2026

Do Que Não Volta Mais de Luís A. Fernandes

 1.
há dias em que é necessário o abandono
deixar a solidão expressar-se sem amarras 
respeitar os impulsos da humanidade

permitir que o corpo inútil
se feche numa hibernação 
forçado pelo passar dos dias 


2
depois acordamos pode ser 
um dia pode ser um mês depois
mas eventualmente acordamos 

respiramos fundo a vida toda 
ameaça reaparecer passo a passo 
até chegarem as pessoas as vozes 

3
há vozes que nos levam 
a todo o lado empurrados 
pela violência de um grito
 
vozes que invocam demónios 
vozes que desdobram o tempo 
há que estimar essa magia 

in Livros de Oeiras.

sábado, 25 de abril de 2026

Resistência de Jonathan Jakubowicz

      Em 1940, os nazis invadem uma casa de família, em Lyon, pertencente à  pequena judia Eslbeth e assassinam os seus pais mesmo à sua frente. Este é o mote inicial do filme que tem como função evocar a façanha heróica de Marcel Marceau - sim, o mimo - o facto de este ter salvo centenas de crianças judias durante o período da resistência na Segunda Guerra Mundial. O venezuelano Jonathan Jakubowicz serve-se do actor Jesse Eisenberg para contar a coragem e a criatividade do mimo, contando ainda com uma banda sonora de enorme qualidade e intensidade. 

Pós-Modernismo de Lígia Reyes

A sua descrença na felicidade,
era o mais próximo que havia encontrado
sobre a juventude.

A sua descrença no amor,
era o mais próximo que havia encontrado 
sobre a sociedade tecnológica.

A sua descrença era tão-só
a mais lógica perspicácia
para me fazer sua.

in Livros de Oeiras.

Verso de Zeca Afonso

 Em todas as terras, em todas as fronteiras 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Um Livreiro no Dia Mundial do Livro

           É confrangedora a ausência de ritmo e da música intrínsecas a toda a boa poesia. Na maioria dos poemas, os versos sucedem-se por justaposição ou assemblage de frases e citações, sendo cada vez mais difícil encontrar poemas com uma arquitectura interna derivada do sentir profundo de os escrever. Claro que esta opinião poderá ser rebatida pelos hipotéticos leitores deslumbrados com poetas recentes.

in Urzes de Manuel Hermínio Monteiro, Livros Independente, 2004.