sexta-feira, 7 de junho de 2013

Banana do Pico no “Amostram´isse” de Angra do Heroísmo


Banana do Pico é um documento fílmico iniciático, porventura um trabalho cinematográfico de fim de curso, mas nem por isso deixa de ser um objecto valioso, confirmando-se assim o reconhecimento e os prémios obtidos pelos festivais por onde tem passado. Desta forma, só há que louvar esta belíssima mostra de cinema açoriano intitulada “Amostram´isse”, prenúncio de dinamismo e alavanca exibicional há muito necessária desta pequena mas vital cinematografia produzida em solo açoriano e que merece uma divulgação condizente. Angra do Heroísmo foi, já que termina hoje à noite, a primeira a abrir as “hostilidades”…seguem-se Horta, Ponta Delgada e Lisboa.   
O que fazer depois do curso de cinema terminado? Deve ter sido esta a pergunta que o realizador de cinema Luís Bicudo, natural da Ilha do Faial, deve ter feito num país em que ser cineasta pode bem ser uma miragem, um sonho adiado ou uma batalha infinita pela obtenção de boas condições (financeiras, e não só!) para filmar e seguir adiante nessa profissão e labor da sétima arte. Daí este retorno às origens para filmar a casa dos avós, a ilha das suas férias estivais, as lembranças e memórias de infância e adolescência ali passadas ou ainda o reencontro com o bananal que serviu de espaço para brincadeiras e peripécias. “Banana do Pico” é, portanto, um objecto nostálgico mas tem a vitalidade de fazer perguntas certeiras e acutilantes num momento preciso, agora que já passaram três anos (o documentário é de 2010). O que Luís Bicudo nos mostra neste documentário até à exaustão é que pode existir um regresso doce às raízes, à infância e aos afectos vividos em Santa Cruz das Ribeiras, Ilha do Pico. O que depois fazer com a permanência parece ser a grande dificuldade dos que voltam aos lugares aonde foram felizes, já dizia Cesare Pavese, escritor italiano. Será que devemos continuar aquilo que outros começaram? Este documento levanta, portanto, questões muito sérias sobre os jovens açorianos que partem com o fito de melhorar a sua formação e um dia “decidem” voltar àquilo a que muitos apelidam de “terrinha”. Poderão eles trabalhar naquilo em que mais gostam nestas suas ilhas de nascimento? Poderão trabalhar a terra e produzir filmes numa ilha no meio do atlântico? O jovem cineasta empreendeu assim uma viagem às raízes para atestar a sua posição enquanto cidadão açoriano e atestar também a validade da sua cidadania num mundo que se globalizou pela negativa e em que o consumo e a distribuição de bananas à escala planetária não é alheia. Estes vinte e seis minutos são um importante documento de reflexão sobre o que são ou poderão vir a ser as Ilhas dos Açores muito em breve, isto é, serão lugares de esperança e estímulos para os que regressam ou o abandono e desespero total para os que ficam? O mesmo acontece com Santa Cruz das Ribeiras, a freguesia picarota que agora já não é o mesmo lugar, pois foi filmada com alma e coração de ilhéu, deixando de ser só o ponto de onde partem bananas para todo o arquipélago açoriano e antigo poiso de baleeiros mas também o sítio escolhido para filmar uma memória, uma passagem, uma vida e habitat açoriano a que muita gente quis ver, assistir e…sentir.

Por fim, lembre-se a abertura do filme quando o avó do realizador, Francisco Soares da Silva, disfere um rude golpe de asa à juventude actual: “Se eles não quiserem trabalhar hão-de comer amoras, de silvado.” Há nestas palavras um pessimismo quanto ao futuro, um lado lunar que se nos cola ao corpo lusitano e à fatalidade do destino, como se alguém com muita, muita experiência, nos viesse dizer que tanto as bananas bem como o cinema necessitam de toda a nossa dedicação, empenho e, porque não expressá-la, da nossa infinita devoção.