quarta-feira, 17 de junho de 2026

monólogo com Sophia.4 de Tiago Araújo

 as pedras que quebram
em gritos 
as gargantas de cristal
e as sombras, tristes, que camuflamos nas cores
desse ténue arco-íris - a esperança 
de ressurgir neste lugar
de grutas escavadas por dedos de metal 
onde se escondem os nossos olhos, dolorosos, 
que emprestam claridade às escarpas de pedra

pedras preciosas que embrulhamos 
em sarapilheiras 
lágrimas que o sal embacia
e que juramos ser a maresia que se condensa.


in diapositivos, a ilusão do movimento,  Quasi Edições, 2001.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Os Bons Vi Sempre Passar

Esparsa 
sua ao desconcerto do mundo 
Os bons vi sempre passar 
no mundo graves tormentos;
e, para mais m´espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado.
Assi que, só para mim
anda o mundo concertado.
Luiz Vaz de Camões 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Catarina: A Beleza de Poder Decidir

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas
Teatro Micaelense - 30 e 31 de Maio
Fotografia: Carlos Fernandes 

Não é expectável ver uma sala de espectáculos tão repleta para ver teatro, devem ter sido cerca de mil e quinhentas pessoas as que viram a peça de teatro “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, de Tiago Rodrigues, neste último fim de semana no Teatro Micaelense. Inserida na programação de PDL26, a peça trazia consigo um volume conhecido de representações e consideráveis recomendações apelativas da crítica e (também) da polémica nos lugares por onde passou.
 A peça é um exercício direto sobre a liberdade de pensamento, nada ali é excluído de ser pensado, inclusive o acto de matar e é, por isso, uma reflexão sobre a democracia e os limites da tolerância face aos que a pretendem subverter. No entanto, não deixa de ser um trabalho teatral de grande exigência, um gesto inteiro de combate a quem pretende ferir a democracia no seu âmago. Há, de facto, muitas tensões a ser resolvidas ao longo destes cento e cinquenta minutos. Sim, é verdade, que o cenário é irrepreensível, o texto tem momentos de grande respiração e profundidade – aquela narração pontuada pelo actor (Marco Mendonça) com os headphones e a sua música é marcada por um ritmo cadenciado e silabado de excelsa beleza - e, por fim, não se pode deixar de pensar nos momentos finais, protagonizados pelo actor Romeu Costa, porventura, exagerados para o efeito produzido. Há que reconhecer o incómodo face ao que estava a ser dito ainda que se discorde do barulho permanente face aos doze minutos daquele discurso político. É verdade: ninguém é obrigado a ouvir aquele discurso, mas convenhamos que se trata de um texto de pendor propagandístico e repetitivo nas suas nuances de populismo, com o intuito de acicatar os espíritos democráticos. Teatro, portanto. Até quando?
  Em suma, é bem provável que este momento teatral perdure no tempo, sobretudo aquela clareza em que nos apercebemos que tolerar a intolerância pode ser fatal para quem pretende defender uma democracia indefesa, isto é, de quem procura protegê-la dos que estão sempre a encontrar brechas para a corroer por dentro. 

Sol i Dão