quinta-feira, 23 de abril de 2026

Um Livreiro no Dia Mundial do Livro

           É confrangedora a ausência de ritmo e da música intrínsecas a toda a boa poesia. Na maioria dos poemas, os versos sucedem-se por justaposição ou assemblage de frases e citações, sendo cada vez mais difícil encontrar poemas com uma arquitectura interna derivada do sentir profundo de os escrever. Claro que esta opinião poderá ser rebatida pelos hipotéticos leitores deslumbrados com poetas recentes.

in Urzes de Manuel Hermínio Monteiro, Livros Independente, 2004.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Systema Naturae#17 de Urbano

Técnica mista sobre papel
2019
Edição Letras Lavadas
 

Ao Entardecer de K. P. Kaváfis

Não podia durar muito. A experiência dos anos
mo ensina. Ainda assim, que apressado foi
o Destino ao chegar-lhe e pôr-lhe fim.
Foi breve a vida bela.
Mas que fortes eram os perfumes,
que esplêndida a cama onde nos deitámos
a que prazer entregámos nossos corpos.

Um eco dos dias do prazer
um eco dos dias veio ter comigo,
algo do ardor da juventude de nós dois:
as minhas mãos voltaram a pegar na carta,
li e reli até não sobrar luz.

E melancólico saí para a varanda ---
para mudar de ideias, para ver ao menos
um pouco da cidade amada, 
um pouco do movimento das ruas e das loja.
(1907)
in Aquele Belo Rapaz, poesia completa, Assírio&Alvim, 2025.

Do Fogo Frio

Fotografia: Duarte Belo
in Fogo Frio
Assírio &Alvim, 2008
 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Verso de O Homem em Catarse

 Qual é o nosso valor?

100 Dicas de Autoajuda de Lígia Reyes

Fazer alguma coisa: deixar de fumar 
deixar de comer fast-food, inventar 
um corpo novo: deixar de ter medo.
Uma boneca não poderia ser mais perfeita, 
para que se possa brincar com ela:
um objeto de afeto desmesurado 
sem animus, pronta para ir atrás 
de um conjunto de ideias vagas - 
Ainda crê que é possível salvá-la 
de uma qualquer ideologia não permitida 
aos sonhos de um criador, uma importância 
fatídica no sistema amoroso, engrenagem
racional, infratemporal, partida 
onde não existe a possibilidade 
de consertar pequenos deuses 

nenhum de nós está a salvo 
de uma ideia de felicidade.


in O Êxodo das Sementes de Estrela, Os Livros de Oeiras, 2025

Plano de Vida de Luis A. Fernandes

quando nos dizem que é preciso
fazer planos resoluções ter objetivos 
projetos programar a vida 
deviam dizer-nos para planear 
apenas as coisas simples

quantas colheres no café no leite 
quanto tempo o pão na torradeira 
qual a faca certa para barrar a manteiga 

no máximo lembrar de colocar o alarme 
para regar as plantas tomar a pílula 
acordar ligar aos avós tudo coisas 
que nos esquecemos de fazer 
mais do que gostamos de admitir 

deviam dizer-nos sobretudo 
para não pensarmos nas coisas grandes 
em tudo o que devia importar 

não vale a pena 

o mundo tem um jeito irónico 
de se planear sozinho

in O que Nunca Mais Recuperamos, Os Livros de Oeiras, 2024.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

CAC: Espaço com Tempo Dilatado

          Estamos em finais de Abril e ainda trazemos vestidas as roupas de Inverno. A variabilidade atmosférica, tão características dos espaços insulares, mantém-se. Acrescente-se a tudo isto, o facto de passarmos a ter noites muito frias, a lembrar temperaturas de lugares bem altos e pouco afortunados pelo sol.
      Preocupados com mil afazeres relacionados com a sobrevivência, a verdade é que sobra muito pouco tempo para o prazer da discussão, alienados e absorvidos nos transportes e demais burocracia, quase não tomamos posição na hierarquia do que é realmente relevante. Para que serve, então, a cultura senão para pensarmos o nosso lugar nela?

    No passado sábado, dia 18 de abril, foi uma tarde com o tempo dilatado dentro do Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas. Num primeiro momento, assistimos à peça “O dia em que decidi encenar o Principezinho”, de Mário Coelho, às 16h00, na blackbox, em colaboração com Ponta Delgada 2026 – Capital Portuguesa da Cultura. Um desafio ao espectador para poder olhar a diferença e acreditar que é possível continuar a ver o mundo de diferentes perspectivas e, por isso, devemos fazer o esforço por cativar, isto é,  criar laços que possam durar no tempo. De seguida, deu-se a apresentação do “Roteiro de Arquitetura dos Açores: um itinerário crítico”
 (Vol. II e III), numa cuidada e organizada súmula coordenada por Flávia Almeida, sendo esta incentivada pelo jornal Açoriano Oriental. A obra envolve os anos de 2023 e 2024, obtendo a participação de diversos arquitectos e demais autores que contribuíram com textos, dissertações e fotografias das obras em questão.
       No final da apresentação, os autores e e arquitetos presentes dialogaram com a assistência sobre a valorização desta atividade, sendo esta hoje maioritariamente absorvida pela sociedade do espectáculo e mediatização, necessitando assim  de espaços públicos para a sua reflexão
 e questionamento. No fundo, a criação de plataformas amplas onde confluam e se mobilizem formas de pensar e praticar a arquitectura.  

domingo, 19 de abril de 2026

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Vais-te encostar na ceia de ontem à noite?

Da Autonomia

   Celebrar os cinquenta anos da autonomia faz sentido. Mas só se houver coragem para isto: não menos festa, mais espelho. Porque a autonomia não é um altar. É uma prova diária. 

João Mendes Coelho, Açoriano Oriental, 18 de Abril de 2026.

sábado, 18 de abril de 2026

A uma Amiga de Antero de Quental

Aqueles, que eu amei, não sei que vento 
Os dispersou no mundo que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo 
Visões que à noite evoca o sentimento... 

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos...que eu invejo...
Passam por mim, mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela Primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal...e escarnecê-lo!

in Sonetos Completos, Publicações Europa-América.

Roteiro de Arquitetura Açoriana

 
Roteiro de Arquitetura dos Açores: um itinerário crítico
18 horas

Lançamento de livro
Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas

CCRG: Um Zé Ninguém Contra a Guerra

Daqui: https://www.adorocinema.com/
            Há uma palavra com que se sai na ponta da língua depois de ver o documentário "Mr. Nobody contra Putin" - coragem! É preciso, sem dúvida, uma substantiva coragem para fazer o que fez Pavel Talankin, um professor de Kalabash  - a cidade mais poluída da Rússia e onde a esperança de vida é de 38 anos - colocando, assim, em risco a sua própria vida.
           Durante dois anos e meio, este professor que era coordenador dos registos de vídeo e eventos da sua escola, foi enviando imagens para David Borenstein, realizador americano a viver em Copenhaga, na Dinamarca. “Mr. Nobody contra Putin” mostra-nos o processo militar repressivo em curso – há aulas de patriotismo, revisionismo histórico e sessões de apresentação de minas e promoção das armas pelo exército e grupo Wagner – uma autocracia que perpetua a asfixia social e o défice democrático existente. Qual é o propósito desta guerra ou de qualquer guerra? Esta é, sem espinhas, a grande questão que este documentário engajado nos faz.
          “Mr. Nobody contra Putin”, que passou no final do dia de ontem no Teatro Ribeiragrandense, ganhou o  Óscar e o prémio Bafta para melhor Documentário. Dois galardões de peso para dois homens corajosos: David  Borenstein e Pavel Talankin.

Provérbio

nie mój cyrk, nie moje małpy

não é o meu circo nem são os meus macacos. 

Guia de Marcha

Na verdade,
todas as nossas impressões
são feitas
de memórias
e recordações assombrosas
no eco de distâncias
perdidas. 

Giovanni Cattani, in Escritos em Prosa e Verso.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Folha de Sala de Emanuel Jorge Botelho

coisas do ser do Mundo
aquelas a que agora dás entendimento;
(essa espécie de lume, ou asa de água,
que te põe aos ombros do silêncio).

sai de um regresso muito antigo
a aspa com que abres a memória,
e o teu braço, largo de tangido, 
cobre de linho os nomes da terra.

e vais dizendo que o tudo só é um, e não mais nada,
porque Deus assim o quis ao dar-lhe vida,
e vais traçando a linha mais perfeita
com se urde o rumor do sobressalto.

a tua cobra nunca atira a língua 
ao guarda rios,
as tuas flores têm o tempo que guarda a sua cor. 

era uma vez um peixe de dar escamas.


(na exposição Systema Naturae), Ponta Delgada, Açores, Outubro de 2019

Systema Naturae #16 de Urbano

2019
Técnica mista sobre papel


domingo, 12 de abril de 2026

CAC: Visões da América Contemporânea

     
Fantasy Life de Matthew Shear 
     É a quinta vez que a FLAD (Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento) organiza  Outsiders - Ciclo de Cinema Independente Americano e que se apresenta pela primeira vez em São Miguel, mais concretamente, no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande. O programa, com a curadoria de Carlos Nogueira, teve como propósito dar a conhecer uma reunião de filmes que pertencem ao circuito de cinema independente americano, pontuados, assim, pela sua diversidade de abordagens e temáticas difíceis de encontrar no dito cinema mainstream. Desta feita, iniciativas valiosas destas precisam-se, porventura, até de outros países e demais desconhecidas cinematografias.
      Conviria, então, expressar o visionamento de "Featherweight", de Robert Kolodny, 2024, a prova de que o boxe é um desporto que vai muito além de um ringue, manifestamente povoado por personagens carismáticas e plenas de sangue na guelra e valores arreigados. Willie Pep, antigo campeão de boxe (detentor de maior número de vitórias de sempre), é-nos dado a conhecer através do actor James Madio (que belíssima interpretação!) e em que as semelhanças com o boxista são incríveis.
"Good One" de India Donaldson
Daqui:https://www.flad.pt/outsiders 

   Também "Good One", promissora primeira obra de India Donaldson, é um retrato do final da adolescência protagonizado pela jovem actriz Lily Collias, sendo que esta pretensa comédia deixa um sabor agridoce no final. Afinal, crescer é aceitar que o mundo em redor não é perfeito e é necessário saber com quem podemos contar para nos proteger...não só dos ursos. Por último, referência ainda para "Fantasy Life", do realizador Matthew Shear, uma comédia romântica que tem como epicentro um ataque de pânico de Sam Stein que, após perder o emprego enquanto assistente jurídico, tenta dar um novo impulso à sua vida tomando conta de crianças de um casal sui generis. Destas interpretações, registe-se o papel da belíssima Amanda Peet e do próprio Mattew Shear, sobretudo no que este nos faz pensar sobre a ansiedade e a forma como lidamos com el
a.

Verso dos The Sundays

 It´s good to have something to live for, you´ll find

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Da Psicanálise

     "Notei uma mudança brutal entre o falar - que teve vários efeitos na minha vida, de alguma forma até a salvou  - e o escrever, que produziu um ou outro momento no qual eu fiz outras elaborações a partir do que fora contando oralmente. Na verdade, o fim de uma análise deve caminhar para a escrita, porque é uma outra forma de dar destino à experiência do invisível. Somos seres da linguagem, estamos sempre a tentar produzir alguma coisa para dar conta desse excesso que é a vida."

Entrevista de Vera Iaconeli a José Riço Direitinho, Ípsilon, Sexta-feira, 10 de Abril de 2026.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Verso de Thurston Moore

A morphine woman 

Do Público

      Este mundo aterrador não é desprovido de encantos, das manhãs que fazem com que o acordar valha a pena.

Wislawa Szymborska, poeta, in Escrito na Pedra, 9 de Abril de 2016.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Da Natureza

     "O desligamento (da natureza) é responsável pela desestruturação das sociedades humanas. O posicionamento da espécie como espécie única, no topo do vértice de um triângulo, é um disparate."

Helena Freitas, in "A natureza aproxima-nos da nossa condição humana", Revista Expresso, 27 de Março de 2026. 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Profetiza de Pedro Monteiro

Se és um 
és dois 
e isso dá três 
mais o quatro 
são dez 
o um e o zero
cinco é a união 
seis  e sete já passaram
oito é a ampulheta infinita 
o nove não é nada
o onze é mestre
e doze o devir 
a outra vez 

in Poezia Bruxa, Faro, 2024.

Um Poema de Eucanaã Ferraz

Enquanto descansa, dorme,
a mulher que amo, que me ama, 
algo neste exercício de ternura exata
e comum

cuidar, de quando em quando,
que as treliças da janela
amenizem a manhã em sua rudeza de adaga,
ainda que doméstica lâmina,

e, assim, em volta da mulher que amo, 
que me ama, vá o dia
como deve ser: o sol
necessário, um debrum. 

in Desassombro, Quasi Edições, Outubro de 2001.

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Um veste cinta e samarra, o outro capa e batina. 

sábado, 4 de abril de 2026

Da Imigração

        A imigração é, cada vez mais, um fenómeno que tem impacto em diversas dimensões dimensões da nossa sociedade e da organização do Estado no modelo económico e no mercado de trabalho, na organização do Estado social, na coesão e na diversidade cultural, nos debates sobre a identidade nacional e no funcionamento da democracia. O modo como Portugal tem vindo a lidar com os fluxos migratórios - oriundos de contextos tão diversos como o Brasil, PALOP, a Europa de Leste ou a Ásia - revela, simultaneamente, uma atitude de abertura e de esforço de inclusão, mas também um conjunto de limitações na integração que importa não escamotear. 
         A crescente diversidade dos países de origem é um dos grandes desafios. Segundo o último relatório da AIMA que disponibiliza esta informação, que é de 2024 e contém os dados relativos a 2023, os nacionais do Brasil são, destacadamente, os mais representados: 368 449, o que corresponde a 35,3%. Seguem-se os de Angola, 55 589 (5,3%); Cabo Verde, 48 885 (4,7%); Reino Unido, 47 409 (4,5%) e Índia, 44 051 (4,2%). Mas note-se  que, quando se olha para os números agregados por continente, sobressai o aumento significativo de nacionais oriundos da Ásia: de 123 875 em 2022 para 165 430 em 2023, ou seja, mais 33,5.
     Importa também sublinhar o contributo significativo que a imigração tem dado para o crescimento da população residente em Portugal nos últimos anos. Face a saldos naturais negativos, em consequência do decréscimo da natalidade, têm sido os saldos positivos a assegurar o crescimento efetivo da população residente, o que permitiu inverter a linha de declínio. Em 2024, o saldo natural foi de - 33732 e o saldo migratório  foi de 143 641, o que resultou no crescimento da população residente em Portugal  para 10 749 635 pessoas. Este saldo reflete-se também na forma positiva no contributo para a Segurança Social: o número de imigrantes a realizar descontos para a Segurança Social quadruplicou, passando de 244 773 para 1 036 290 entre 2017 e 2024.


Nuno Sampaio, in "Imigração e Contrato Social"  Livros leves. Opiniões de peso. (15 anos da Fundação). Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Verso de A Garota Não

 tenho saudades tuas

Provérbio

 Abril, ora chora, ora ri

A Voz de Hind Rajab: Alta Tensão

  Kauother Ben Hania, cineasta tunisina, realizou este filme em torno de uma gravação de setenta minutos de uma criança palestiniana que, após fuga e disparos sobre a sua família numa viatura, no norte de Gaza, apela à ajuda dos elementos do Crescente Vermelho Palestiniano, em Ramallah. Assistimos, assim, à possível reprodução dos momentos finais da sua existência e à tentativa da equipa de socorristas, via telefone, em mantê-la viva. 
   Um documento cinematográfico que vale pela pertinência de nos mostrar o horror e o absurdo da guerra num território massacrado por histórias de dor e sofrimento. A alta tensão, no entanto, por lá continua!