sábado, 19 de março de 2022

"O Priolo" de João Miguel Fernandes Jorge

 No quarto sobre uma cómoda
o priolo embalsamado.
Penas de branco-sujo e creme, tons de 
castanho queimado. Protege-o
no vidro de uma redoma. Mesmo na morte
um frouxel.

Tudo se avista deste quarto - 
  santos e pagelas por detrás das portas
do oratório - quando a noite e a ilha se 
estreitam na cama desamada.
Vem um cheiro a maresia, a porões e os 
passos de quem percorre, erradio, o 

embarcadouro
sem saber a hora da partida 
a hora de quem prometeu chegar. E
o pássaro na obediência da morte
fixado nas trevas que lhe povoam o canto, vê
na fronteira do lá fora
membros, ossos, vísceras, os meus erros,

o verso meu dentro do quarto. Sob a asa do 
priolo, prata e luz a esvoaçar ao redor do
candeeiro entre os actos da vida. 

in "Lagoeiros", Relógio D´Água, Novembro de 2011.

JSM: A Mesa Continuará Posta!

         

          Há quase trinta anos, andava eu pelo cineclube Octopus, na Póvoa de Varzim, sempre muito orgulhosos da exibição de Pasolini's e Tarkovsky's, quando apareceu disponível o belíssimo "Caro Diário", do Nanni Moretti. Lembrei-me, portanto, de arriscarmos uma sessão diferente e convidarmos o Jorge Silva Melo para vir à Póvoa falar sobre o filme. Surpreendentemente, ele não só veio como passei a ser para ele “o poveiro”, denominação que usava quando me encontrava pelas ruas de Lisboa. Creio que o Nanni Moretti iria ter adorado ter estado presente pois foram tantos os que ainda hoje se lembram do entusiasmo tal como pela obsessão do italiano em filmar-se a si próprio durante meses.
        Ainda a propósito dessa sessão “morettiana” de longa data, recordo-me de passarmos a tarde a conversar na biblioteca municipal, que ele adorou, e ainda de vermos o mar no Diana Bar, antes desta se tornar biblioteca balnear. A partir daquele momento e, durante anos, devorei os textos que o Jorge Silva Melo ia publicando na imprensa escrita. Primeiro no Combate, depois no Público, também no e onde fosse que ele escrevesse. Julgo que li mais o Jorge Silva Melo do que qualquer escritor, poeta ou filósofo. O Jorge Silva Melo respirava paixão e erudição em todos os parágrafos e cheguei a ver algumas peças em salas de teatro deste nosso país que ele gostava tanto de andar em digressão. Era maravilhoso ouvi-lo e lê-lo discorrer sobre cinema, teatro, belas artes ou literatura. Agora que o Jorge Silva Melo desapareceu a mesa continuará posta para continuarmos a dialogar sob a forma de palavras escritas em papéis.