sábado, 28 de fevereiro de 2026

Em Escuta...

Catarse Natural, 2024
Homem em Catarse 
 

Querida Bicicleta, não te chamarei velocípede

Samuel Becket
Fotografia: Gisèle Freund
          Assim, levantei-me, ajustei as muletas e fui para a estrada, onde encontrei a minha bicicleta (olha, disso é que eu não estava mesmo à espera!) no mesmo sítio onde tinha sido obrigado a deixá-la. Isso permitiu-me comprovar que, embora estivesse todo estropiado, nessa altura ainda  sentia um certo prazer em andar de bicicleta. Era assim que eu fazia: prendia as muletas, uma de cada lado, à barra superior do quadro; enganchava  o pé da perna rígida (não me lembro de qual era, porque agora estou inválido das duas) na saliência do eixo da roda da frente e pedalava com a outra. Era uma bicicleta acatène, de roda livre, se é que isso existe. Querida bicicleta, não te chamarei de velocípede, estavas pintada de verde, como tantas outras bicicletas do teu género, nem sei porquê. Lembro-me muito bem dela. Terei todo o gosto em descrevê-la. Tinha um pequeno corne ou trompa em vez da campainha que agora está na moda. Accionar uma buzina destas era para mim um verdadeiro prazer, quase uma volúpia.

Samuel Beckett, in De Bicicleta, Antologia de Textos, Relógio D´Água, 2012.