sexta-feira, 15 de maio de 2026

Hiperpolítica: e é só inquietação?

Capa do Ípsilon, dia  15 de Maio de 2026

           Acaba de chegar às livrarias uma obra fundamental para compreender o nosso presente. Chama-se Hiperpolítica, foi escrita por um homem de esquerda - Anton Jäger - e a sua tese é muito fácil de resumir : estamos a viver num tempo de "politização extremas sem consequências políticas”. Jäger não apresenta grandes soluções para sair do imbróglio em que as democracias liberais estão enfiadas, mas tem o mérito de formular o problema de um modo claro, e ao mesmo tempo contra-intuitivo. Andamos todos iludidos pela gritaria no espaço público: sim, os novos políticos falam muito alto; sim, os cidadãos estão muito zangados; sim, existe conflito nas redes sociais; sim, existe capacidade de mobilização; sim, de vez em quando até há umas manifestações vistosas – mas tudo espremido, nada realmente muda e nada realmente mexe.
João Miguel Tavares, in Público, "Os Eleitores Zangam-se . Os políticos gritam. Mas nada mexe."14 de Maio de 2026.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Turismo: Até onde vai o Acelerador?

Fotografia: Tânia Santos 
O turismo é um acelerador. Um acelerador maior. Estamos perante um dispositivo que é portador de energia simbólica, que carrega a promessa de alteração da paisagem, uma mudança social e a consequente transformação económica. É também um anelo carregado de progresso, a proclamação de satisfação generalizada, conectada à ideia garantida de um bem-estar generalizado. À semelhança da corrente futurista do início do século XX, o turismo é também a exaltação do porvir, a ânsia de um período em que se engendravam cidades com máquinas em movimento, com elevado dínamo ou suprema energia, uma perfeição mantida pela fina e arguta camada dos materiais, a glorificação do movimento e da viagem.
            Ao mesmo tempo que, passado todos estes vários indicadores de velocidade, há quem olhe pelo vídeo do retrovisor e assista ao espectáculo das reacções. Revoltam-se as pedras e seixos, abandonam-se objetos físicos e as ruínas instalam-se. Urge encontrar significado para o edificado abandonado. Será ainda possível? Imóveis que hodiernamente passam a inutilizados, relegados para segundo plano, desprezados. Desfeitos do seu ímpeto inicial ou traço original, aguardam restauro ou nova funcionalidade. Nessa volúpia ou promessa de dias vindouros, abandona-se o gesto primevo, surgem ao nosso olhar com um lastro irreparável na paisagem e resquícios do que poderia ter sido. 
          O que sobra, então, desse acelerador que asseverava ser democrático e dourado? Ambos, passado e futuro, não se encontraram nessa restituição, não há recuo possível, só nuvens que se dissipam no ar. Sobejam, portanto, ruínas, o descarado desleixe, numa arquitectura de escombros e destroços. Ninguém já devolverá a paisagem em frações, nem guardaremos a emoção que resta dessa visão desoladora. Apenas o desgosto, também ele acelerado, condizendo com o tempo!
             O turismo é hoje (apenas!) presente e futuro, a galinha dos ovos de ouro, maná, não quer saber do passado. Monocultura dourada, super estimulada, promovida até à exaustão. Ouvimos todos os dias falar desse futuro carregado de milhões de euros em investimentos em hotéis, empreendimentos ou bungalows à beira mar, promessas de centenas de empregos no turismo e aumento aos magotes no número de casas disponíveis para o alojamento local. Nenhum travão se afigura, obstáculo que seja. O choque já não se dá porque o futuro venceu, impõe-se, tal é a pífia ultrapassagem rumo ao abismo.
     Acredite-se, assim, que desacelerar é preciso ou, então, seremos apenas resíduos, fragmentos, estilhaços, dessa aceleração!

quarta-feira, 13 de maio de 2026

FUSO INSULAR: Até domingo no CAC!

Hoje, quarta-feira, no CAC 
14h00-17h00 na Blackbox
Entrada Livre
     A consolidação de uma cultura urbana e o eclodir de um novo modus vivendi viria a ter um corte e travão profundo com o surgimento da pandemia e o distanciamento social. O aparecimento das viagens de baixo custo trouxe uma dinâmica cultural inusitada, eram os primeiros anos de um turismo curioso e abundante. Houve, inclusive, o surgimento de um público jovem que acompanhava as atividades de forma interessada e entusiástica. Os espaços ditos culturais enchiam-se e as propostas multiplicavam-se bem como se diversificavam as vontades. 
     Curiosamente, o Fuso Insular inicial dá-se por alturas do Covid-19 e a sua afirmação é feita em contraciclo, no auge do confinamento, nesse período de clausura e medo de estar juntos. Cinco anos depois, esta projecção contínua é uma proposta e vivência a ser partilhada em conjunto, o resultado destes últimos cinco anos de criatividade sob a forma de colectivo. Na verdade, uma vitória sobre este aparato tecnológico concentrado no consumo individual e doméstico.

terça-feira, 12 de maio de 2026

segunda-feira, 11 de maio de 2026

A partir de Amanhã no Arquipélago - CAC

De Terça a Sexta-feira, 12 a 15 de Maio de 2026
14h00-17h00 na Blackbox do Arquipélago - CAC
Entrada Livre 
 

domingo, 10 de maio de 2026

Os Vinis de Maio que Abril nos faz Tocar

Fotografia: Tânia Santos
         Quando se deu o 25 de Abril de 1974, éramos pequenos. Muito pequenos, tão pequenos que quase não nos lembramos de nada do que aconteceu em nosso redor. Algumas coisas aconteceram de facto e houve outras que julgamos saber, foi por que nos contaram. Lembro-me, por isso, de ter ouvido com frequência: “Vem aí os canhões”. E, mesmo assim, continuávamos a brincar naquelas ruas com muitas bicicletas e poucos carros. Logo depois, ouvíamos explosões na sede do PCP (Partido Comunista Português) e começámos a ter medo de encontrar os seus líderes e apaniguados à hora da sopa enquanto papões esfomeados de crianças irrequietas e impertinentes.
          Crescemos, portanto, com a ideia de que a revolução do 25 de Abril foi um acontecimento militar realizado lá para os lados de Lisboa, isto é, lá bem longe ou então em terras do Ultramar. Crescer no litoral teve a vantagem do Verão ser ocupado por idas à praia e passeios à beira-mar. A adolescência iniciava-nos também nas audições de músicas revolucionárias ou a ousadia na realização de programas musicais com o aparecimento dos rádios piratas, um pouco mais tarde, as rádios locais. Daí vir de imediato à memoria, pois claro, aquele radialista e a sua obsessão pelos objetos musicais em forma de vinil. Este possuía mais discos do que todos nós juntos. Sabia poupar, dizia-nos, e tinha também rasgo e sentido de oportunidade. Disse-nos que chegou a esvaziar discotecas em liquidação total. Relembre-se, pois, o seu fascínio pela chegada dos CD´s e da gravação digital bem como o desfazer de forma rápida e, algo precipitada, da sua enorme e diversificada colecção de vinis. Alguns de nós,  devemos-lhe, por isso, a aquisição de um momento para o outro, a preços módicos, dos discos do José Mário Branco, José Afonso, Luís Cília, Sérgio Godinho, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Né Ladeiras, entre tantos outros. 
      São estes agora os discos de Maio, os discos que Abril abriu, os vinis daquele período que queremos lembrar e que voltamos a tocar e a ouvir...até fartar.

sábado, 9 de maio de 2026

Rua Manuel António Pina

Caminhava lentamente
como quem pede licença ao mundo
para o nomear. Óculos pousados na face
(um gato
guardado no bolso) tive-o
algumas tardes regressado do Li-Jin
de onde trazia take-way
(e haikai)
para jantar. Escolhia a minha mesa para
um rápido café e
eu ficava absorto (nem dava pela minha falta)
ouvindo-o sobre o real (o seu
real
imaginado). O relógio dava as horas
(de rigueur ia tirando)
chamavam artéria à rua onde a tarde nos juntava
na verdade era uma veia se 
o trânsito era 
todo para cá. Não o fui ver ao hospital. Talvez 
o quisesse ter para sempre
nesta alegria. Às vezes sei ser 
tão cobarde.  

João Luís Barreto Guimarães, in Movimento, Quetzal, 2023

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Amanhã, dia 8, no Rubro!

Procura Nada de Eduardo Brito
Sexta-feira, 8 de Maio, no Rubro
18h30



 

Idanha-a-Nova: Foi há 20 anos!

         "Vão-se todos embora, ficamos nós", ouvi tantas vezes da boca daquelas pessoas que habitavam aquele território, com um sorriso duro, franco e aberto. Ali era o interior profundo, lugar de nuvens carregadas, cor de farda, na paisagem duradoura do Inverno, ainda a serenidade e a melancolia na ausência de palavras durante a Primavera. Eram, no entanto, planícies e searas que se erguiam roliças na lonjura e secura do verão, compondo este meu retrato de uma permanência duas décadas depois. Nunca mais lá voltei. Avancei, sem pestanejar perante a força do granito, somente a saudade e a promessa de um retorno.
      Ali ficavam também Monsanto, Medelim, Ladoeiro, Rosmaninhal ou Penha Garcia, que visitava pelo seu sossego, panorama e silêncio, naquela minha vontade de tornar excessivo aquele momento, permitir-me à força da contemplação e ao brilho das suas imagens. A memória, agora, chega por via da revista Adufe, vasculhando algumas passagens e capas, escritos de nomes de árvores, pássaros, os adufes guardados, ou textos coligidos em cadernos antigos, parágrafos soltos que emergem à superfície, ansiosos por inquietar. 
         Duas décadas depois, apetecia tanto lá voltar!

terça-feira, 5 de maio de 2026

Verso de Samuel Úria

 Ou da ternura em que tropeço?

Avenida Marginal: Domingo de Santo

       É domingo de Santo Cristo e o cozido de carnes prenuncia-se por espanta-espíritos que chega antes de qualquer mão à porta da Mâe de Deus. Tudo é sagrado pela avó que dura, pelo Santo que terá feições a merecerem avaliação dia-fora e pela sopa que, mesmo antes de lá morarem as carnes anunciadas de cheiro, dá aquecimento ao prato e ao tio alcoólatra que repete por três vezes esse aguado sagrado, vinho em dobro por cada prato, silêncio multiplicado em duração de tudo.
   Aprende-se com o avô a chorar antecipadamente a possibilidade da última vez neste lugar de circunstância - bem se recordam as lajes de pedra dessa escadaria da igreja de São José, pai do dito e residência alternada por que o Santos e alberga por uma das noites de festa, a única do ano para ele. Chorava sempre Rolando pela oportunidade de se pronunciar em contradição silenciosa postura que mantinha ao efectivo justificativo de ali estarem juntos para lembrar que, com mais ou menos rigor previsionista, aquela seria a sua última crepuscular vez do lado dos que jogam na selecção dos vivos.


Tiago Ribeiro, in Avenida Marginal - Ficções, Ponta Delgada, 2019.

Fumo de João Habitualmente

Sigo-te:
perco o rumo

Olhas-me: 
fico  cego

Prendes-me:
sou algema
 
Ardes-me:
já sou fumo

in Poemas em Peças, Quase Dito#3, Fevereiro de 2014.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

De Vigias e Faroleiros

in Na Língua da Maré, 2023
Texto: Abel Coentrão
Fotografia: Hélder Luís 
Âncora Editora 
 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Namorados de Sarajevo de Rui Duarte Rodrigues

 ao turno da tarde 
Destruíram os nossos jovens
e as nossas memórias - disse à reportagem
uma velha habitante de Sarajevo.

Referia-se ao castanheiro centenário 
          no parque central da cidade.
Lembrou que à sua sombra costumava reunir-se 
           namorados e guitarras.
Mas foi um Inverno longo e violento,
sob cerco - o de mil novecentos e noventa e três,
e o velho castanheiro também teve de ser 
           abatido
para aquecer as pessoas.

Arderam os corações e as memórias 
dos namorados de Sarajevo.

in "Meu Poema é Isto - Poesia Reunida", coordenação de Luiz Fagundes Duarte, edição Instituto Açoriano de Cultura, 2025.

domingo, 26 de abril de 2026

Do Que Não Volta Mais de Luís A. Fernandes

 1.
há dias em que é necessário o abandono
deixar a solidão expressar-se sem amarras 
respeitar os impulsos da humanidade

permitir que o corpo inútil
se feche numa hibernação 
forçado pelo passar dos dias 


2
depois acordamos pode ser 
um dia pode ser um mês depois
mas eventualmente acordamos 

respiramos fundo a vida toda 
ameaça reaparecer passo a passo 
até chegarem as pessoas as vozes 

3
há vozes que nos levam 
a todo o lado empurrados 
pela violência de um grito
 
vozes que invocam demónios 
vozes que desdobram o tempo 
há que estimar essa magia 

in Livros de Oeiras.

sábado, 25 de abril de 2026

Resistência de Jonathan Jakubowicz

      Em 1940, os nazis invadem uma casa de família, em Lyon, pertencente à  pequena judia Eslbeth e assassinam os seus pais mesmo à sua frente. Este é o mote inicial do filme que tem como função evocar a façanha heróica de Marcel Marceau - sim, o mimo - o facto de este ter salvo centenas de crianças judias durante o período da resistência na Segunda Guerra Mundial. O venezuelano Jonathan Jakubowicz serve-se do actor Jesse Eisenberg para contar a coragem e a criatividade do mimo, contando ainda com uma banda sonora de enorme qualidade e intensidade. 

Pós-Modernismo de Lígia Reyes

A sua descrença na felicidade,
era o mais próximo que havia encontrado
sobre a juventude.

A sua descrença no amor,
era o mais próximo que havia encontrado 
sobre a sociedade tecnológica.

A sua descrença era tão-só
a mais lógica perspicácia
para me fazer sua.

in Livros de Oeiras.

Verso de Zeca Afonso

 Em todas as terras, em todas as fronteiras 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Um Livreiro no Dia Mundial do Livro

           É confrangedora a ausência de ritmo e da música intrínsecas a toda a boa poesia. Na maioria dos poemas, os versos sucedem-se por justaposição ou assemblage de frases e citações, sendo cada vez mais difícil encontrar poemas com uma arquitectura interna derivada do sentir profundo de os escrever. Claro que esta opinião poderá ser rebatida pelos hipotéticos leitores deslumbrados com poetas recentes.

in Urzes de Manuel Hermínio Monteiro, Livros Independente, 2004.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Systema Naturae#17 de Urbano

Técnica mista sobre papel
2019
Edição Letras Lavadas
 

Ao Entardecer de K. P. Kaváfis

Não podia durar muito. A experiência dos anos
mo ensina. Ainda assim, que apressado foi
o Destino ao chegar-lhe e pôr-lhe fim.
Foi breve a vida bela.
Mas que fortes eram os perfumes,
que esplêndida a cama onde nos deitámos
a que prazer entregámos nossos corpos.

Um eco dos dias do prazer
um eco dos dias veio ter comigo,
algo do ardor da juventude de nós dois:
as minhas mãos voltaram a pegar na carta,
li e reli até não sobrar luz.

E melancólico saí para a varanda ---
para mudar de ideias, para ver ao menos
um pouco da cidade amada, 
um pouco do movimento das ruas e das lojas.
(1907)
in Aquele Belo Rapaz, poesia completa, Assírio&Alvim, 2025.

Do Fogo Frio

Fotografia: Duarte Belo
in Fogo Frio
Assírio &Alvim, 2008
 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Verso de O Homem em Catarse

 Qual é o nosso valor?

100 Dicas de Autoajuda de Lígia Reyes

Fazer alguma coisa: deixar de fumar 
deixar de comer fast-food, inventar 
um corpo novo: deixar de ter medo.
Uma boneca não poderia ser mais perfeita, 
para que se possa brincar com ela:
um objeto de afeto desmesurado 
sem animus, pronta para ir atrás 
de um conjunto de ideias vagas - 
Ainda crê que é possível salvá-la 
de uma qualquer ideologia não permitida 
aos sonhos de um criador, uma importância 
fatídica no sistema amoroso, engrenagem
racional, infratemporal, partida 
onde não existe a possibilidade 
de consertar pequenos deuses 

nenhum de nós está a salvo 
de uma ideia de felicidade.


in O Êxodo das Sementes de Estrela, Os Livros de Oeiras, 2025

Plano de Vida de Luis A. Fernandes

quando nos dizem que é preciso
fazer planos resoluções ter objetivos 
projetos programar a vida 
deviam dizer-nos para planear 
apenas as coisas simples

quantas colheres no café no leite 
quanto tempo o pão na torradeira 
qual a faca certa para barrar a manteiga 

no máximo lembrar de colocar o alarme 
para regar as plantas tomar a pílula 
acordar ligar aos avós tudo coisas 
que nos esquecemos de fazer 
mais do que gostamos de admitir 

deviam dizer-nos sobretudo 
para não pensarmos nas coisas grandes 
em tudo o que devia importar 

não vale a pena 

o mundo tem um jeito irónico 
de se planear sozinho

in O que Nunca Mais Recuperamos, Os Livros de Oeiras, 2024.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

CAC: Espaço com Tempo Dilatado

          Estamos em finais de Abril e ainda trazemos vestidas as roupas de Inverno. A variabilidade atmosférica, tão características dos espaços insulares, mantém-se. Acrescente-se a tudo isto, o facto de passarmos a ter noites muito frias, a lembrar temperaturas de lugares bem altos e pouco afortunados pelo sol.
      Preocupados com mil afazeres relacionados com a sobrevivência, a verdade é que sobra muito pouco tempo para o prazer da discussão, alienados e absorvidos nos transportes e demais burocracia, quase não tomamos posição na hierarquia do que é realmente relevante. Para que serve, então, a cultura senão para pensarmos o nosso lugar nela?

    No passado sábado, dia 18 de abril, foi uma tarde com o tempo dilatado dentro do Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas. Num primeiro momento, assistimos à peça “O dia em que decidi encenar o Principezinho”, de Mário Coelho, às 16h00, na blackbox, em colaboração com Ponta Delgada 2026 – Capital Portuguesa da Cultura. Um desafio ao espectador para poder olhar a diferença e acreditar que é possível continuar a ver o mundo de diferentes perspectivas e, por isso, devemos fazer o esforço por cativar, isto é,  criar laços que possam durar no tempo. De seguida, deu-se a apresentação do “Roteiro de Arquitetura dos Açores: um itinerário crítico”
 (Vol. II e III), numa cuidada e organizada súmula coordenada por Flávia Almeida, sendo esta incentivada pelo jornal Açoriano Oriental. A obra envolve os anos de 2023 e 2024, obtendo a participação de diversos arquitectos e demais autores que contribuíram com textos, dissertações e fotografias das obras em questão.
       No final da apresentação, os autores e e arquitetos presentes dialogaram com a assistência sobre a valorização desta atividade, sendo esta hoje maioritariamente absorvida pela sociedade do espectáculo e mediatização, necessitando assim  de espaços públicos para a sua reflexão
 e questionamento. No fundo, a criação de plataformas amplas onde confluam e se mobilizem formas de pensar e praticar a arquitectura.  

domingo, 19 de abril de 2026

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Vais-te encostar na ceia de ontem à noite?

Da Autonomia

   Celebrar os cinquenta anos da autonomia faz sentido. Mas só se houver coragem para isto: não menos festa, mais espelho. Porque a autonomia não é um altar. É uma prova diária. 

João Mendes Coelho, Açoriano Oriental, 18 de Abril de 2026.

sábado, 18 de abril de 2026

A uma Amiga de Antero de Quental

Aqueles, que eu amei, não sei que vento 
Os dispersou no mundo que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo 
Visões que à noite evoca o sentimento... 

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos...que eu invejo...
Passam por mim, mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela Primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal...e escarnecê-lo!

in Sonetos Completos, Publicações Europa-América.

Roteiro de Arquitetura Açoriana

 
Roteiro de Arquitetura dos Açores: um itinerário crítico
18 horas

Lançamento de livro
Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas

CCRG: Um Zé Ninguém Contra a Guerra

Daqui: https://www.adorocinema.com/
            Há uma palavra com que se sai na ponta da língua depois de ver o documentário "Mr. Nobody contra Putin" - coragem! É preciso, sem dúvida, uma substantiva coragem para fazer o que fez Pavel Talankin, um professor de Kalabash  - a cidade mais poluída da Rússia e onde a esperança de vida é de 38 anos - colocando, assim, em risco a sua própria vida.
           Durante dois anos e meio, este professor que era coordenador dos registos de vídeo e eventos da sua escola, foi enviando imagens para David Borenstein, realizador americano a viver em Copenhaga, na Dinamarca. “Mr. Nobody contra Putin” mostra-nos o processo militar repressivo em curso – há aulas de patriotismo, revisionismo histórico e sessões de apresentação de minas e promoção das armas pelo exército e grupo Wagner – uma autocracia que perpetua a asfixia social e o défice democrático existente. Qual é o propósito desta guerra ou de qualquer guerra? Esta é, sem espinhas, a grande questão que este documentário engajado nos faz.
          “Mr. Nobody contra Putin”, que passou no final do dia de ontem no Teatro Ribeiragrandense, ganhou o  Óscar e o prémio Bafta para melhor Documentário. Dois galardões de peso para dois homens corajosos: David  Borenstein e Pavel Talankin.

Provérbio

nie mój cyrk, nie moje małpy

não é o meu circo nem são os meus macacos. 

Guia de Marcha

Na verdade,
todas as nossas impressões
são feitas
de memórias
e recordações assombrosas
no eco de distâncias
perdidas. 

Giovanni Cattani, in Escritos em Prosa e Verso.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Folha de Sala de Emanuel Jorge Botelho

coisas do ser do Mundo
aquelas a que agora dás entendimento;
(essa espécie de lume, ou asa de água,
que te põe aos ombros do silêncio).

sai de um regresso muito antigo
a aspa com que abres a memória,
e o teu braço, largo de tangido, 
cobre de linho os nomes da terra.

e vais dizendo que o tudo só é um, e não mais nada,
porque Deus assim o quis ao dar-lhe vida,
e vais traçando a linha mais perfeita
com se urde o rumor do sobressalto.

a tua cobra nunca atira a língua 
ao guarda rios,
as tuas flores têm o tempo que guarda a sua cor. 

era uma vez um peixe de dar escamas.


(na exposição Systema Naturae), Ponta Delgada, Açores, Outubro de 2019

Systema Naturae #16 de Urbano

2019
Técnica mista sobre papel


domingo, 12 de abril de 2026

CAC: Visões da América Contemporânea

     
Fantasy Life de Matthew Shear 
     É a quinta vez que a FLAD (Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento) organiza  Outsiders - Ciclo de Cinema Independente Americano e que se apresenta pela primeira vez em São Miguel, mais concretamente, no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande. O programa, com a curadoria de Carlos Nogueira, teve como propósito dar a conhecer uma reunião de filmes que pertencem ao circuito de cinema independente americano, pontuados, assim, pela sua diversidade de abordagens e temáticas difíceis de encontrar no dito cinema mainstream. Desta feita, iniciativas valiosas destas precisam-se, porventura, até de outros países e demais desconhecidas cinematografias.
      Conviria, então, expressar o visionamento de "Featherweight", de Robert Kolodny, 2024, a prova de que o boxe é um desporto que vai muito além de um ringue, manifestamente povoado por personagens carismáticas e plenas de sangue na guelra e valores arreigados. Willie Pep, antigo campeão de boxe (detentor de maior número de vitórias de sempre), é-nos dado a conhecer através do actor James Madio (que belíssima interpretação!) e em que as semelhanças com o boxista são incríveis.
"Good One" de India Donaldson
Daqui:https://www.flad.pt/outsiders 

   Também "Good One", promissora primeira obra de India Donaldson, é um retrato do final da adolescência protagonizado pela jovem actriz Lily Collias, sendo que esta pretensa comédia deixa um sabor agridoce no final. Afinal, crescer é aceitar que o mundo em redor não é perfeito e é necessário saber com quem podemos contar para nos proteger...não só dos ursos. Por último, referência ainda para "Fantasy Life", do realizador Matthew Shear, uma comédia romântica que tem como epicentro um ataque de pânico de Sam Stein que, após perder o emprego enquanto assistente jurídico, tenta dar um novo impulso à sua vida tomando conta de crianças de um casal sui generis. Destas interpretações, registe-se o papel da belíssima Amanda Peet e do próprio Mattew Shear, sobretudo no que este nos faz pensar sobre a ansiedade e a forma como lidamos com el
a.

Verso dos The Sundays

 It´s good to have something to live for, you´ll find

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Da Psicanálise

     "Notei uma mudança brutal entre o falar - que teve vários efeitos na minha vida, de alguma forma até a salvou  - e o escrever, que produziu um ou outro momento no qual eu fiz outras elaborações a partir do que fora contando oralmente. Na verdade, o fim de uma análise deve caminhar para a escrita, porque é uma outra forma de dar destino à experiência do invisível. Somos seres da linguagem, estamos sempre a tentar produzir alguma coisa para dar conta desse excesso que é a vida."

Entrevista de Vera Iaconeli a José Riço Direitinho, Ípsilon, Sexta-feira, 10 de Abril de 2026.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Verso de Thurston Moore

A morphine woman 

Do Público

      Este mundo aterrador não é desprovido de encantos, das manhãs que fazem com que o acordar valha a pena.

Wislawa Szymborska, poeta, in Escrito na Pedra, 9 de Abril de 2016.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Da Natureza

     "O desligamento (da natureza) é responsável pela desestruturação das sociedades humanas. O posicionamento da espécie como espécie única, no topo do vértice de um triângulo, é um disparate."

Helena Freitas, in "A natureza aproxima-nos da nossa condição humana", Revista Expresso, 27 de Março de 2026. 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Profetiza de Pedro Monteiro

Se és um 
és dois 
e isso dá três 
mais o quatro 
são dez 
o um e o zero
cinco é a união 
seis  e sete já passaram
oito é a ampulheta infinita 
o nove não é nada
o onze é mestre
e doze o devir 
a outra vez 

in Poezia Bruxa, Faro, 2024.

Um Poema de Eucanaã Ferraz

Enquanto descansa, dorme,
a mulher que amo, que me ama, 
algo neste exercício de ternura exata
e comum

cuidar, de quando em quando,
que as treliças da janela
amenizem a manhã em sua rudeza de adaga,
ainda que doméstica lâmina,

e, assim, em volta da mulher que amo, 
que me ama, vá o dia
como deve ser: o sol
necessário, um debrum. 

in Desassombro, Quasi Edições, Outubro de 2001.

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Um veste cinta e samarra, o outro capa e batina. 

sábado, 4 de abril de 2026

Da Imigração

        A imigração é, cada vez mais, um fenómeno que tem impacto em diversas dimensões dimensões da nossa sociedade e da organização do Estado no modelo económico e no mercado de trabalho, na organização do Estado social, na coesão e na diversidade cultural, nos debates sobre a identidade nacional e no funcionamento da democracia. O modo como Portugal tem vindo a lidar com os fluxos migratórios - oriundos de contextos tão diversos como o Brasil, PALOP, a Europa de Leste ou a Ásia - revela, simultaneamente, uma atitude de abertura e de esforço de inclusão, mas também um conjunto de limitações na integração que importa não escamotear. 
         A crescente diversidade dos países de origem é um dos grandes desafios. Segundo o último relatório da AIMA que disponibiliza esta informação, que é de 2024 e contém os dados relativos a 2023, os nacionais do Brasil são, destacadamente, os mais representados: 368 449, o que corresponde a 35,3%. Seguem-se os de Angola, 55 589 (5,3%); Cabo Verde, 48 885 (4,7%); Reino Unido, 47 409 (4,5%) e Índia, 44 051 (4,2%). Mas note-se  que, quando se olha para os números agregados por continente, sobressai o aumento significativo de nacionais oriundos da Ásia: de 123 875 em 2022 para 165 430 em 2023, ou seja, mais 33,5.
     Importa também sublinhar o contributo significativo que a imigração tem dado para o crescimento da população residente em Portugal nos últimos anos. Face a saldos naturais negativos, em consequência do decréscimo da natalidade, têm sido os saldos positivos a assegurar o crescimento efetivo da população residente, o que permitiu inverter a linha de declínio. Em 2024, o saldo natural foi de - 33732 e o saldo migratório  foi de 143 641, o que resultou no crescimento da população residente em Portugal  para 10 749 635 pessoas. Este saldo reflete-se também na forma positiva no contributo para a Segurança Social: o número de imigrantes a realizar descontos para a Segurança Social quadruplicou, passando de 244 773 para 1 036 290 entre 2017 e 2024.


Nuno Sampaio, in "Imigração e Contrato Social"  Livros leves. Opiniões de peso. (15 anos da Fundação). Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Verso de A Garota Não

 tenho saudades tuas

Provérbio

 Abril, ora chora, ora ri

A Voz de Hind Rajab: Alta Tensão

  Kauother Ben Hania, cineasta tunisina, realizou este filme em torno de uma gravação de setenta minutos de uma criança palestiniana que, após fuga e disparos sobre a sua família numa viatura, no norte de Gaza, apela à ajuda dos elementos do Crescente Vermelho Palestiniano, em Ramallah. Assistimos, assim, à possível reprodução dos momentos finais da sua existência e à tentativa da equipa de socorristas, via telefone, em mantê-la viva. 
   Um documento cinematográfico que vale pela pertinência de nos mostrar o horror e o absurdo da guerra num território massacrado por histórias de dor e sofrimento. A alta tensão, no entanto, por lá continua!

segunda-feira, 30 de março de 2026

Douta identidade na continuidade

 O olhar na esparsa nuvem de romeiros,
 cai na montra da frutaria,
vencedora de concursos,
expondo o burro e a sua fruta.
Olhar fixo, leio:
- "TÁ  AÍ, MAS AGE".
Age?
Age, mantém a identidade:
 - O elogio e apalpação da fruta.

Jorge Kol de Carvalho

sexta-feira, 20 de março de 2026

Sexta-feira de Rui Duarte Rodrigues

Novela policial
solo de jazz no gramofone
na vida
tudo assim lhe digo
 
porque é sexta-feira
e o meu aborrecimento
não tem mais cabimento
neste compartimento amontoado de livros
discos jornais roupas fumo
 
nevoeiro na cidade 
porque é sexta-feira
 
na vida
tudo assim lhe digo
e endereço-lhe este poema de forma muito especial

porque é sexta-feira
duche frio, leite, bolo
novela policial
e solo de jazz no gramofone
all the things you are
(Konitz/Mulligan)

in "Com Segredos e Silêncios", 1994.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Márcio Vilela: Previsão de Deriva

Previsão de Deriva no Arquipélago - CAC
https://arquipelagocentrodeartes.azores.gov.pt/
     
            “Previsão de Deriva” é um projecto de Márcio Vilela, conta já com cinco anos desde a sua ação artística e científica encetada durante uma residência artística no Pico do Refúgio, em São Miguel, Açores. O resultado é um conjunto de imagens, filmes e objetos que nos mostram a sua demanda existencial junto daquela força da natureza. 
          O artista visual esteve à deriva 56 horas numa balsa salva-vidas a 7 milhas da costa, ainda que monitorizado pela marinha, pela Autoridade Marítima Nacional (AMN) e pelo Comando da Zona Marítima dos Açores -Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo de Ponta Delgada (MRCC).
          Desta feita, “Previsão de Deriva” incita à reflexão, um apelo à imaginação e ao mergulho existencial, pois tal como escreve José Maçãs de Carvalho no texto de apresentação: “Estar à deriva é estar entre a imprevisibilidade e a liberdade absoluta, num lugar fora. Fora de controlo e do conforto num teste à capacidade de enfrentar aquilo que nos é estranhamente familiar”. 
       Esta exposição, patente no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas até ao dia 14 de Junho, é uma proposta da Curadoria de Artes Visuais de Ponta Delgada 2026, Capital da Cultura. Atentemos, pois, às belíssimas imagens deste oceano atlântico e mar largo que temos pela frente.

domingo, 15 de março de 2026

24 Frames: O Adeus às Imagens

            Abbas Kiarostami despediu-se do cinema há dez anos e durante a sua existência foi também um apaixonado pela pintura. 
         Há muitos anos, no Curtas de Vila do Conde, foi um privilégio assistir a uma retropectiva dos seus filmes - " O Pão e a Rua", 1970 e "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?", 1987 - e que dessa forma nos mantiveram atentos para o que viria a seguir: "O Saber da Cereja", Palma de Ouro em Cannes em 1997 ou o "Vento Levar-nos-á", de 1999, o pináculo na carreira de Abbas.
     O último documento cinematográfico de Kiarostami, "24 Frames", a película que nos foi dada a possibilidade de assistir na noite de ontem, foi exibida a título póstumo e mostra-nos o elevado gosto pela fotografia e pela pintura do realizado iraniano. A partir das suas próprias fotografias e da sua interpretação de um quadro de Bruegel, Kiarostami trabalha a animação das imagens a seu bel prazer, reflectindo sobre os elementos naturais, a humanidade, o tempo que passa, o antes e o depois de cada frame no trabalho de composição. No fundo, um exercício sobre as origens e o futuro do cinema.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Ante - Primavera de Gastão Cruz

Antes de Maio quando florirá 
na rápida viagem tropical
o roxo ramo do jacarandá 
há-de o poema dizer que não há sal

que para sempre salgue a terra Já
terá a Primavera virtual
nascido em folhas novas Haverá 
pássaros que regressam ao beiral

abandonado como nos dizia 
nos livros de leitura aprisionada
em tempos de incerta poesia 

Antes que a roxa flor cubra a entrada 
do verão sob a luz do meio-dia 
dá folhas o arbusto na estrada 

in "Os Poemas", Assírio&Alvim, 2009.

Ontem, escrito numa parede da cidade

 A primeira vez que ouvi morna chorei

quarta-feira, 11 de março de 2026

terça-feira, 10 de março de 2026

Testemunha Poliglota


Português: Testemunha 
Castelhano: Testigo
Italiano: Testimonia 
Francês: Temoin 
Alemão: Zugge 
Inglês: Witness 
Polacoświadek
Sueco: Bevittna
Eslovaco: Svedok

IAC: Edição de Meu Poema é Isto

Meu Poema é Isto
de Rui Duarte Rodrigues
14 de Março, 18h30
Galeria do IAC


 

sábado, 7 de março de 2026

Poemas Pré-Primaveris de Naná da Ribeira

 Fole e Folia 

À mesma hora o mesmo dia
Afazer rotina calculada 
Foi-se o fole vaga folia 
Prender à casa arrastar o corpo
Nada se alcança mínimo esforço 
Desfeito lance transcendência 
Respiro firme quase asfixia 
O sossego não redime só magoa
Em magna alegria por ferver 

Soro e Sopro

Sobrevive no eterno presente 
O alimento de vida mastigado
Anémonas cavadas e flores do mar 
Curso de memórias trituradas 
Nativos extasiados entorpecidos 
Aquecem o balão bem lá no ar 
Neste sopro que viaja mais lento que 
a luz

sexta-feira, 6 de março de 2026

Acende de Thurston Moore

Chego acreditando na tua luz 
O doce receptor na tua mente
Aumenta-o completamente 
Ouvir-te a chegar e a salvar o dia
É sonoro e claro o teu sinal, querida
Acende-o e tira-nos daqui 
Aumenta-o, estamos no vermelho
Traz-nos de volta à livre divindade 
Acende o teu feixe de televisão 
Liga-te à noite do anjo 
Liga-te à noite do anjo 
Acende o sonho da rádio 
Acende a tua luz divina

in »Rock N Roll Consciência« - Letras, Tipografia Micaelense, Tradução de Sara Coutinho, Ponta Delgada, Açores, 100 exemplares.