quinta-feira, 23 de abril de 2026

Um Livreiro no Dia Mundial do Livro

           É confrangedora a ausência de ritmo e da música intrínsecas a toda a boa poesia. Na maioria dos poemas, os versos sucedem-se por justaposição ou assemblage de frases e citações, sendo cada vez mais difícil encontrar poemas com uma arquitectura interna derivada do sentir profundo de os escrever. Claro que esta opinião poderá ser rebatida pelos hipotéticos leitores deslumbrados com poetas recentes.

in Urzes de Manuel Hermínio Monteiro, Livros Independente, 2004.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Systema Naturae#17 de Urbano

Técnica mista sobre papel
2019
Edição Letras Lavadas
 

Ao Entardecer de K. P. Kaváfis

Não podia durar muito. A experiência dos anos
mo ensina. Ainda assim, que apressado foi
o Destino ao chegar-lhe e pôr-lhe fim.
Foi breve a vida bela.
Mas que fortes eram os perfumes,
que esplêndida a cama onde nos deitámos
a que prazer entregámos nossos corpos.

Um eco dos dias do prazer
um eco dos dias veio ter comigo,
algo do ardor da juventude de nós dois:
as minhas mãos voltaram a pegar na carta,
li e reli até não sobrar luz.

E melancólico saí para a varanda ---
para mudar de ideias, para ver ao menos
um pouco da cidade amada, 
um pouco do movimento das ruas e das loja.
(1907)
in Aquele Belo Rapaz, poesia completa, Assírio&Alvim, 2025.

Do Fogo Frio

Fotografia: Duarte Belo
in Fogo Frio
Assírio &Alvim, 2008
 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Verso de O Homem em Catarse

 Qual é o nosso valor?

100 Dicas de Autoajuda de Lígia Reyes

Fazer alguma coisa: deixar de fumar 
deixar de comer fast-food, inventar 
um corpo novo: deixar de ter medo.
Uma boneca não poderia ser mais perfeita, 
para que se possa brincar com ela:
um objeto de afeto desmesurado 
sem animus, pronta para ir atrás 
de um conjunto de ideias vagas - 
Ainda crê que é possível salvá-la 
de uma qualquer ideologia não permitida 
aos sonhos de um criador, uma importância 
fatídica no sistema amoroso, engrenagem
racional, infratemporal, partida 
onde não existe a possibilidade 
de consertar pequenos deuses 

nenhum de nós está a salvo 
de uma ideia de felicidade.


in O Êxodo das Sementes de Estrela, Os Livros de Oeiras, 2025

Plano de Vida de Luis A. Fernandes

quando nos dizem que é preciso
fazer planos resoluções ter objetivos 
projetos programar a vida 
deviam dizer-nos para planear 
apenas as coisas simples

quantas colheres no café no leite 
quanto tempo o pão na torradeira 
qual a faca certa para barrar a manteiga 

no máximo lembrar de colocar o alarme 
para regar as plantas tomar a pílula 
acordar ligar aos avós tudo coisas 
que nos esquecemos de fazer 
mais do que gostamos de admitir 

deviam dizer-nos sobretudo 
para não pensarmos nas coisas grandes 
em tudo o que devia importar 

não vale a pena 

o mundo tem um jeito irónico 
de se planear sozinho

in O que Nunca Mais Recuperamos, Os Livros de Oeiras, 2024.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

CAC: Espaço com Tempo Dilatado

          Estamos em finais de Abril e ainda trazemos vestidas as roupas de Inverno. A variabilidade atmosférica, tão características dos espaços insulares, mantém-se. Acrescente-se a tudo isto, o facto de passarmos a ter noites muito frias, a lembrar temperaturas de lugares bem altos e pouco afortunados pelo sol.
      Preocupados com mil afazeres relacionados com a sobrevivência, a verdade é que sobra muito pouco tempo para o prazer da discussão, alienados e absorvidos nos transportes e demais burocracia, quase não tomamos posição na hierarquia do que é realmente relevante. Para que serve, então, a cultura senão para pensarmos o nosso lugar nela?

    No passado sábado, dia 18 de abril, foi uma tarde com o tempo dilatado dentro do Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas. Num primeiro momento, assistimos à peça “O dia em que decidi encenar o Principezinho”, de Mário Coelho, às 16h00, na blackbox, em colaboração com Ponta Delgada 2026 – Capital Portuguesa da Cultura. Um desafio ao espectador para poder olhar a diferença e acreditar que é possível continuar a ver o mundo de diferentes perspectivas e, por isso, devemos fazer o esforço por cativar, isto é,  criar laços que possam durar no tempo. De seguida, deu-se a apresentação do “Roteiro de Arquitetura dos Açores: um itinerário crítico”
 (Vol. II e III), numa cuidada e organizada súmula coordenada por Flávia Almeida, sendo esta incentivada pelo jornal Açoriano Oriental. A obra envolve os anos de 2023 e 2024, obtendo a participação de diversos arquitectos e demais autores que contribuíram com textos, dissertações e fotografias das obras em questão.
       No final da apresentação, os autores e e arquitetos presentes dialogaram com a assistência sobre a valorização desta atividade, sendo esta hoje maioritariamente absorvida pela sociedade do espectáculo e mediatização, necessitando assim  de espaços públicos para a sua reflexão
 e questionamento. No fundo, a criação de plataformas amplas onde confluam e se mobilizem formas de pensar e praticar a arquitectura.  

domingo, 19 de abril de 2026

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Vais-te encostar na ceia de ontem à noite?

Da Autonomia

   Celebrar os cinquenta anos da autonomia faz sentido. Mas só se houver coragem para isto: não menos festa, mais espelho. Porque a autonomia não é um altar. É uma prova diária. 

João Mendes Coelho, Açoriano Oriental, 18 de Abril de 2026.

sábado, 18 de abril de 2026

A uma Amiga de Antero de Quental

Aqueles, que eu amei, não sei que vento 
Os dispersou no mundo que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo 
Visões que à noite evoca o sentimento... 

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos...que eu invejo...
Passam por mim, mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela Primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal...e escarnecê-lo!

in Sonetos Completos, Publicações Europa-América.

Roteiro de Arquitetura Açoriana

 
Roteiro de Arquitetura dos Açores: um itinerário crítico
18 horas

Lançamento de livro
Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas

CCRG: Um Zé Ninguém Contra a Guerra

Daqui: https://www.adorocinema.com/
            Há uma palavra com que se sai na ponta da língua depois de ver o documentário "Mr. Nobody contra Putin" - coragem! É preciso, sem dúvida, uma substantiva coragem para fazer o que fez Pavel Talankin, um professor de Kalabash  - a cidade mais poluída da Rússia e onde a esperança de vida é de 38 anos - colocando, assim, em risco a sua própria vida.
           Durante dois anos e meio, este professor que era coordenador dos registos de vídeo e eventos da sua escola, foi enviando imagens para David Borenstein, realizador americano a viver em Copenhaga, na Dinamarca. “Mr. Nobody contra Putin” mostra-nos o processo militar repressivo em curso – há aulas de patriotismo, revisionismo histórico e sessões de apresentação de minas e promoção das armas pelo exército e grupo Wagner – uma autocracia que perpetua a asfixia social e o défice democrático existente. Qual é o propósito desta guerra ou de qualquer guerra? Esta é, sem espinhas, a grande questão que este documentário engajado nos faz.
          “Mr. Nobody contra Putin”, que passou no final do dia de ontem no Teatro Ribeiragrandense, ganhou o  Óscar e o prémio Bafta para melhor Documentário. Dois galardões de peso para dois homens corajosos: David  Borenstein e Pavel Talankin.

Provérbio

nie mój cyrk, nie moje małpy

não é o meu circo nem são os meus macacos. 

Guia de Marcha

Na verdade,
todas as nossas impressões
são feitas
de memórias
e recordações assombrosas
no eco de distâncias
perdidas. 

Giovanni Cattani, in Escritos em Prosa e Verso.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Folha de Sala de Emanuel Jorge Botelho

coisas do ser do Mundo
aquelas a que agora dás entendimento;
(essa espécie de lume, ou asa de água,
que te põe aos ombros do silêncio).

sai de um regresso muito antigo
a aspa com que abres a memória,
e o teu braço, largo de tangido, 
cobre de linho os nomes da terra.

e vais dizendo que o tudo só é um, e não mais nada,
porque Deus assim o quis ao dar-lhe vida,
e vais traçando a linha mais perfeita
com se urde o rumor do sobressalto.

a tua cobra nunca atira a língua 
ao guarda rios,
as tuas flores têm o tempo que guarda a sua cor. 

era uma vez um peixe de dar escamas.


(na exposição Systema Naturae), Ponta Delgada, Açores, Outubro de 2019

Systema Naturae #16 de Urbano

2019
Técnica mista sobre papel


domingo, 12 de abril de 2026

CAC: Visões da América Contemporânea

     
Fantasy Life de Matthew Shear 
     É a quinta vez que a FLAD (Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento) organiza  Outsiders - Ciclo de Cinema Independente Americano e que se apresenta pela primeira vez em São Miguel, mais concretamente, no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande. O programa, com a curadoria de Carlos Nogueira, teve como propósito dar a conhecer uma reunião de filmes que pertencem ao circuito de cinema independente americano, pontuados, assim, pela sua diversidade de abordagens e temáticas difíceis de encontrar no dito cinema mainstream. Desta feita, iniciativas valiosas destas precisam-se, porventura, até de outros países e demais desconhecidas cinematografias.
      Conviria, então, expressar o visionamento de "Featherweight", de Robert Kolodny, 2024, a prova de que o boxe é um desporto que vai muito além de um ringue, manifestamente povoado por personagens carismáticas e plenas de sangue na guelra e valores arreigados. Willie Pep, antigo campeão de boxe (detentor de maior número de vitórias de sempre), é-nos dado a conhecer através do actor James Madio (que belíssima interpretação!) e em que as semelhanças com o boxista são incríveis.
"Good One" de India Donaldson
Daqui:https://www.flad.pt/outsiders 

   Também "Good One", promissora primeira obra de India Donaldson, é um retrato do final da adolescência protagonizado pela jovem actriz Lily Collias, sendo que esta pretensa comédia deixa um sabor agridoce no final. Afinal, crescer é aceitar que o mundo em redor não é perfeito e é necessário saber com quem podemos contar para nos proteger...não só dos ursos. Por último, referência ainda para "Fantasy Life", do realizador Matthew Shear, uma comédia romântica que tem como epicentro um ataque de pânico de Sam Stein que, após perder o emprego enquanto assistente jurídico, tenta dar um novo impulso à sua vida tomando conta de crianças de um casal sui generis. Destas interpretações, registe-se o papel da belíssima Amanda Peet e do próprio Mattew Shear, sobretudo no que este nos faz pensar sobre a ansiedade e a forma como lidamos com el
a.

Verso dos The Sundays

 It´s good to have something to live for, you´ll find

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Da Psicanálise

     "Notei uma mudança brutal entre o falar - que teve vários efeitos na minha vida, de alguma forma até a salvou  - e o escrever, que produziu um ou outro momento no qual eu fiz outras elaborações a partir do que fora contando oralmente. Na verdade, o fim de uma análise deve caminhar para a escrita, porque é uma outra forma de dar destino à experiência do invisível. Somos seres da linguagem, estamos sempre a tentar produzir alguma coisa para dar conta desse excesso que é a vida."

Entrevista de Vera Iaconeli a José Riço Direitinho, Ípsilon, Sexta-feira, 10 de Abril de 2026.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Verso de Thurston Moore

A morphine woman 

Do Público

      Este mundo aterrador não é desprovido de encantos, das manhãs que fazem com que o acordar valha a pena.

Wislawa Szymborska, poeta, in Escrito na Pedra, 9 de Abril de 2016.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Da Natureza

     "O desligamento (da natureza) é responsável pela desestruturação das sociedades humanas. O posicionamento da espécie como espécie única, no topo do vértice de um triângulo, é um disparate."

Helena Freitas, in "A natureza aproxima-nos da nossa condição humana", Revista Expresso, 27 de Março de 2026. 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Profetiza de Pedro Monteiro

Se és um 
és dois 
e isso dá três 
mais o quatro 
são dez 
o um e o zero
cinco é a união 
seis  e sete já passaram
oito é a ampulheta infinita 
o nove não é nada
o onze é mestre
e doze o devir 
a outra vez 

in Poezia Bruxa, Faro, 2024.

Um Poema de Eucanaã Ferraz

Enquanto descansa, dorme,
a mulher que amo, que me ama, 
algo neste exercício de ternura exata
e comum

cuidar, de quando em quando,
que as treliças da janela
amenizem a manhã em sua rudeza de adaga,
ainda que doméstica lâmina,

e, assim, em volta da mulher que amo, 
que me ama, vá o dia
como deve ser: o sol
necessário, um debrum. 

in Desassombro, Quasi Edições, Outubro de 2001.

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Um veste cinta e samarra, o outro capa e batina. 

sábado, 4 de abril de 2026

Da Imigração

        A imigração é, cada vez mais, um fenómeno que tem impacto em diversas dimensões dimensões da nossa sociedade e da organização do Estado no modelo económico e no mercado de trabalho, na organização do Estado social, na coesão e na diversidade cultural, nos debates sobre a identidade nacional e no funcionamento da democracia. O modo como Portugal tem vindo a lidar com os fluxos migratórios - oriundos de contextos tão diversos como o Brasil, PALOP, a Europa de Leste ou a Ásia - revela, simultaneamente, uma atitude de abertura e de esforço de inclusão, mas também um conjunto de limitações na integração que importa não escamotear. 
         A crescente diversidade dos países de origem é um dos grandes desafios. Segundo o último relatório da AIMA que disponibiliza esta informação, que é de 2024 e contém os dados relativos a 2023, os nacionais do Brasil são, destacadamente, os mais representados: 368 449, o que corresponde a 35,3%. Seguem-se os de Angola, 55 589 (5,3%); Cabo Verde, 48 885 (4,7%); Reino Unido, 47 409 (4,5%) e Índia, 44 051 (4,2%). Mas note-se  que, quando se olha para os números agregados por continente, sobressai o aumento significativo de nacionais oriundos da Ásia: de 123 875 em 2022 para 165 430 em 2023, ou seja, mais 33,5.
     Importa também sublinhar o contributo significativo que a imigração tem dado para o crescimento da população residente em Portugal nos últimos anos. Face a saldos naturais negativos, em consequência do decréscimo da natalidade, têm sido os saldos positivos a assegurar o crescimento efetivo da população residente, o que permitiu inverter a linha de declínio. Em 2024, o saldo natural foi de - 33732 e o saldo migratório  foi de 143 641, o que resultou no crescimento da população residente em Portugal  para 10 749 635 pessoas. Este saldo reflete-se também na forma positiva no contributo para a Segurança Social: o número de imigrantes a realizar descontos para a Segurança Social quadruplicou, passando de 244 773 para 1 036 290 entre 2017 e 2024.


Nuno Sampaio, in "Imigração e Contrato Social"  Livros leves. Opiniões de peso. (15 anos da Fundação). Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Verso de A Garota Não

 tenho saudades tuas

Provérbio

 Abril, ora chora, ora ri

A Voz de Hind Rajab: Alta Tensão

  Kauother Ben Hania, cineasta tunisina, realizou este filme em torno de uma gravação de setenta minutos de uma criança palestiniana que, após fuga e disparos sobre a sua família numa viatura, no norte de Gaza, apela à ajuda dos elementos do Crescente Vermelho Palestiniano, em Ramallah. Assistimos, assim, à possível reprodução dos momentos finais da sua existência e à tentativa da equipa de socorristas, via telefone, em mantê-la viva. 
   Um documento cinematográfico que vale pela pertinência de nos mostrar o horror e o absurdo da guerra num território massacrado por histórias de dor e sofrimento. A alta tensão, no entanto, por lá continua!

segunda-feira, 30 de março de 2026

Douta identidade na continuidade

 O olhar na esparsa nuvem de romeiros,
 cai na montra da frutaria,
vencedora de concursos,
expondo o burro e a sua fruta.
Olhar fixo, leio:
- "TÁ  AÍ, MAS AGE".
Age?
Age, mantém a identidade:
 - O elogio e apalpação da fruta.

Jorge Kol de Carvalho

sexta-feira, 20 de março de 2026

Sexta-feira de Rui Duarte Rodrigues

Novela policial
solo de jazz no gramofone
na vida
tudo assim lhe digo
 
porque é sexta-feira
e o meu aborrecimento
não tem mais cabimento
neste compartimento amontoado de livros
discos jornais roupas fumo
 
nevoeiro na cidade 
porque é sexta-feira
 
na vida
tudo assim lhe digo
e endereço-lhe este poema de forma muito especial

porque é sexta-feira
duche frio, leite, bolo
novela policial
e solo de jazz no gramofone
all the things you are
(Konitz/Mulligan)

in "Com Segredos e Silêncios", 1994.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Márcio Vilela: Previsão de Deriva

Previsão de Deriva no Arquipélago - CAC
https://arquipelagocentrodeartes.azores.gov.pt/
     
            “Previsão de Deriva” é um projecto de Márcio Vilela, conta já com cinco anos desde a sua ação artística e científica encetada durante uma residência artística no Pico do Refúgio, em São Miguel, Açores. O resultado é um conjunto de imagens, filmes e objetos que nos mostram a sua demanda existencial junto daquela força da natureza. 
          O artista visual esteve à deriva 56 horas numa balsa salva-vidas a 7 milhas da costa, ainda que monitorizado pela marinha, pela Autoridade Marítima Nacional (AMN) e pelo Comando da Zona Marítima dos Açores -Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo de Ponta Delgada (MRCC).
          Desta feita, “Previsão de Deriva” incita à reflexão, um apelo à imaginação e ao mergulho existencial, pois tal como escreve José Maçãs de Carvalho no texto de apresentação: “Estar à deriva é estar entre a imprevisibilidade e a liberdade absoluta, num lugar fora. Fora de controlo e do conforto num teste à capacidade de enfrentar aquilo que nos é estranhamente familiar”. 
       Esta exposição, patente no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas até ao dia 14 de Junho, é uma proposta da Curadoria de Artes Visuais de Ponta Delgada 2026, Capital da Cultura. Atentemos, pois, às belíssimas imagens deste oceano atlântico e mar largo que temos pela frente.

domingo, 15 de março de 2026

24 Frames: O Adeus às Imagens

            Abbas Kiarostami despediu-se do cinema há dez anos e durante a sua existência foi também um apaixonado pela pintura. 
         Há muitos anos, no Curtas de Vila do Conde, foi um privilégio assistir a uma retropectiva dos seus filmes - " O Pão e a Rua", 1970 e "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?", 1987 - e que dessa forma nos mantiveram atentos para o que viria a seguir: "O Saber da Cereja", Palma de Ouro em Cannes em 1997 ou o "Vento Levar-nos-á", de 1999, o pináculo na carreira de Abbas.
     O último documento cinematográfico de Kiarostami, "24 Frames", a película que nos foi dada a possibilidade de assistir na noite de ontem, foi exibida a título póstumo e mostra-nos o elevado gosto pela fotografia e pela pintura do realizado iraniano. A partir das suas próprias fotografias e da sua interpretação de um quadro de Bruegel, Kiarostami trabalha a animação das imagens a seu bel prazer, reflectindo sobre os elementos naturais, a humanidade, o tempo que passa, o antes e o depois de cada frame no trabalho de composição. No fundo, um exercício sobre as origens e o futuro do cinema.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Ante - Primavera de Gastão Cruz

Antes de Maio quando florirá 
na rápida viagem tropical
o roxo ramo do jacarandá 
há-de o poema dizer que não há sal

que para sempre salgue a terra Já
terá a Primavera virtual
nascido em folhas novas Haverá 
pássaros que regressam ao beiral

abandonado como nos dizia 
nos livros de leitura aprisionada
em tempos de incerta poesia 

Antes que a roxa flor cubra a entrada 
do verão sob a luz do meio-dia 
dá folhas o arbusto na estrada 

in "Os Poemas", Assírio&Alvim, 2009.

Ontem, escrito numa parede da cidade

 A primeira vez que ouvi morna chorei

quarta-feira, 11 de março de 2026

terça-feira, 10 de março de 2026

Testemunha Poliglota


Português: Testemunha 
Castelhano: Testigo
Italiano: Testimonia 
Francês: Temoin 
Alemão: Zugge 
Inglês: Witness 
Polacoświadek
Sueco: Bevittna
Eslovaco: Svedok

IAC: Edição de Meu Poema é Isto

Meu Poema é Isto
de Rui Duarte Rodrigues
14 de Março, 18h30
Galeria do IAC


 

sábado, 7 de março de 2026

Poemas Pré-Primaveris de Naná da Ribeira

 Fole e Folia 

À mesma hora o mesmo dia
Afazer rotina calculada 
Foi-se o fole vaga folia 
Prender à casa arrastar o corpo
Nada se alcança mínimo esforço 
Desfeito lance transcendência 
Respiro firme quase asfixia 
O sossego não redime só magoa
Em magna alegria por ferver 

Soro e Sopro

Sobrevive no eterno presente 
O alimento de vida mastigado
Anémonas cavadas e flores do mar 
Curso de memórias trituradas 
Nativos extasiados entorpecidos 
Aquecem o balão bem lá no ar 
Neste sopro que viaja mais lento que 
a luz

sexta-feira, 6 de março de 2026

Acende de Thurston Moore

Chego acreditando na tua luz 
O doce receptor na tua mente
Aumenta-o completamente 
Ouvir-te a chegar e a salvar o dia
É sonoro e claro o teu sinal, querida
Acende-o e tira-nos daqui 
Aumenta-o, estamos no vermelho
Traz-nos de volta à livre divindade 
Acende o teu feixe de televisão 
Liga-te à noite do anjo 
Liga-te à noite do anjo 
Acende o sonho da rádio 
Acende a tua luz divina

in »Rock N Roll Consciência« - Letras, Tipografia Micaelense, Tradução de Sara Coutinho, Ponta Delgada, Açores, 100 exemplares.

terça-feira, 3 de março de 2026

Não nos livramos da Guerra!

La Razon: diário de Madrid.
Tiragem: 41 mil exemplares.
 

Sal e Pele de Naná da Ribeira

Previsível reunião de sal e pele

Avançou no estio  à beira-mar

Guardadas distâncias só vontades

Bocas gretadas no calor a degustar

Céu lavado com árvores na amurada

Vaivém aflito de ondas a quebrar

Face e inquietude que tudo absorve

No ribombar da espuma interminável

Postal da Exposição no CAC

    O que Permanece: Memória do Edifício
                 ARQUIPÉLAGO
      Centro de Artes Contemporâneas 
            Fevereiro- Dezembro, 2026

segunda-feira, 2 de março de 2026

Afonso Dorido: Catarse no Colégio!

        Estamos em 2026, Ponta Delgada é a Capital Nacional da Cultura e a Igreja do Colégio é o palco escolhido para o músico Afonso Dorido, Homem em Catarse, apresentar o seu trabalho que já leva uma década de projectos musicais.
       O concerto deste músico, nascido e criado em Barcelos e a viver actualmente em Braga, abriu com “Paredes em Flor”, do álbum "Catarse Natural", lançado em 2024. A viagem sonora prosseguiu com  “Mergulho no Cávado”, “Depois do Vendaval”, tocado pela primeira vez ao vivo, “O Tempo Vem Atrás de Nós”, tema de complexa execução técnica e propulsão sonora, onde este explora diferentes territórios da guitarra e da própria voz. Desta feita, voz e guitarra iam, assim, povoando de forma discreta e etérea a Igreja do Colégio, sempre em crescendo seguido de uma trilogia de canções a tocar nos assuntos da actualidade - “Gueto da Paz”, “Padrão dos Encobrimentos” ou “Hipoteca”, sendo esta última um hino ao terrível problema da habitação que perpassa a sociedade contemporânea. O espectáculo fechou com “Guarda”, um tributo à cidade da Beira Alta, que mais parecia um lamento sincero e amargo sobre esse interior invisível e esquecido dos poderes públicos, tendo tido, por isso, aplausos de pé de toda a plateia açoriana. 
        Num momento em que a tendência é para a fruição dos objectos culturais em espaços domésticos, eis que nos próximos meses do ano o convite é para nos reunirmos nos espaços culturais da cidade, sejam eles onde forem, sendo este concerto um tónico e 
agradável prenúncio de tudo o que ainda pode estar a caminho.  

Provérbio

Em Março, tanto durmo quanto faço 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Em Escuta...

Catarse Natural, 2024
Homem em Catarse 
 

Querida Bicicleta, não te chamarei velocípede

Samuel Becket
Fotografia: Gisèle Freund
          Assim, levantei-me, ajustei as muletas e fui para a estrada, onde encontrei a minha bicicleta (olha, disso é que eu não estava mesmo à espera!) no mesmo sítio onde tinha sido obrigado a deixá-la. Isso permitiu-me comprovar que, embora estivesse todo estropiado, nessa altura ainda  sentia um certo prazer em andar de bicicleta. Era assim que eu fazia: prendia as muletas, uma de cada lado, à barra superior do quadro; enganchava  o pé da perna rígida (não me lembro de qual era, porque agora estou inválido das duas) na saliência do eixo da roda da frente e pedalava com a outra. Era uma bicicleta acatène, de roda livre, se é que isso existe. Querida bicicleta, não te chamarei de velocípede, estavas pintada de verde, como tantas outras bicicletas do teu género, nem sei porquê. Lembro-me muito bem dela. Terei todo o gosto em descrevê-la. Tinha um pequeno corne ou trompa em vez da campainha que agora está na moda. Accionar uma buzina destas era para mim um verdadeiro prazer, quase uma volúpia.

Samuel Beckett, in De Bicicleta, Antologia de Textos, Relógio D´Água, 2012.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Ladrões de Bicicletas

  Quanto à repressão dos furtos das bicicletas e quanto à vigilância, isto é, quanto à polícia, ouçam o seguinte: esta manhã, antes de ir à Porta Portese, passei pela Piazza del Monte. Apesar de saber que, ao domingo, a praia está completamente vazia de ladrões, quis confirmá-lo pessoalmente. Efectivamente, a praça estava vazia. Apenas se via, hirto a um canto, um melancólico polícia municipal fardado. Estava com um pé apoiado no degrau de uma porta de entrada. Parecia um bêbado matinal. À janela, uma rapariga, uma rameira, conversava com ele; utilizando, com as mãos, o alfabeto figurado dos surdo-mudos e dos presos. Tive vontade de troçar dele e aproximei-me para lhe perguntar, sem mais nem menos, o seguinte: 
«Bom, onde param, esta manhã, os ladrões?»

Aforismo de Karmelo C. Iribaren

    Preciso de uns sapatos novos urgentemente, os que tenho levam-me sempre aos mesmo sítios
Tradução livre

Verso de Zeca Veloso

 A manhã já se aproxima

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O que permanece: memória do edifício.

Centro de Artes Contemporâneas
Ribeira Grande

Fevereiro - Dezembro, 2026
         Quem assiste a esta exposição no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, para lá do itinerário expositivo que nos é dado por Miguel Leal, depara-se com um programa de televisão da RTP, gravado em 1978, intitulado “Tabaqueiros e Tabaqueiras”, realizado pelo Centro Português de Cinema. É mais um documento histórico de grande relevância gravado neste território em torno dos labores agrícolas aqui efectuados. Desta feita, tratou de documentar os contextos laborais de jovens, rapazes e raparigas, que contribuíram para a existência da indústria tabaqueira na Ilha de São Miguel, mais concretamente na zona da Ribeira Grande.
       “Eduarda Moniz Pereira, 16 anos de idade, moro na Rua da Praia, nº36. Trabalho aqui, estou nos primeiros dias, não sei quanto ganho, porque estou aqui há três dias. Enfio tabaco, quando acabar de enfiar tabaco, vou-me sentar”, afirma uma das raparigas intervenientes no vídeo numa pausa do seu trabalho. Quase meio século depois, descobre-se agora que a senhora Eduarda é técnica auxiliar educativa numa escola da Ribeira Grande e que desconhecia a sua presença nesta memória evocativa de tão renomado edifício, em exibição na sua entrada até ao final do ano de 2026.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Arte Poética III de Inês Lourenço

O poeta disse: a inspiração
não existe. De há muito, as musas
ficaram desempregadas. E desvendou
alguns métodos de trabalho
à parca assistência, altivo e contemporâneo,
enquanto lá fora o mar e as altas palmeiras 
resistindo ao tráfego do fim da tarde,
pouco se interessavam 
pela carpintaria dos versos. 


in Um Quarto com Cidades ao Fundo (poesia reunida.1980-2000), Quasi Edições. 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Verso de Paolo Conte

 Chissà chissà la nave passerà

Lubo de Giorgio Diritti

Filme de Giorgio Diritti, 2024

     Lubo Moser (Franz Rogowski) é um errante tal como a sua família durante a segunda guerra mundial. Ele é um artista que anda de cidade em cidade a animar as populações. Este, muito embora pertença à etnia cigana ieniche, é integrado à força no exército suíço para proteger as fronteiras. Enquanto é integrado, recebe a notícia que a sua companheira foi morta enquanto protegia os seus descendentes menores ao mesmo tempo que estes eram assimilados no programa eugenista “Kinder der Landstrasse”. A partir daqui, Lubo torna-se um “contra mundum”, vivendo uma vida desesperada, lutando até ao fim pela sobrevivência e recuperação do afeto dos filhos. Uma ode aos sentimentos profundos e dignidade humana, com uma excelente banda sonora. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Das Relações

    Nos supermercados não temos de falar com ninguém, na net não temos de relacionar com outras pessoas...É perigoso para a democracia e para a saúde mental.

David Byrne, Expresso Revista, 12 de Fevereiro de 2026.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Verso dos Orquestrada

Enfio-me nas ruas atiro os olhos ao chão

Vem Lobo!

      "Não é o rio que transborda, são as casas que foram sendo construídas no leito da cheia, não é o mar que se mostra bravio, são as pessoas que insistem em construir onde isso nunca deve ser feito. Não é a mata que arde, são as povoações que deixaram de estar cercadas por hortas e arvoredo mais resistentes, mas algo distantes. Enfim, gritar "Vem Lobo" não parece ser suficiente e voltar a estudar Geografia devia ser mais que obrigatório. "

Francisco Maduro Dias, in Açoriano Oriental, dia 16 de Fevereiro de 2026. 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

A Incrível História do Carteiro Cheval

Imagem daqui: https://www.cinemacity.pt/
Filme de Nils Tavernier, 2018
  Será que a dedicação, o amor, a obsessão, as causaus maiores da razão de existir? 
    Nils Tavernier fez um filme sobre um personagem extremamente contido que emprega nos gestos e no trabalho diário o valor dos seus afectos, ainda que sob a forma naïf, como modo de transmissão e herança. Jacques Gamblin tem aqui o papel do Carteiro Cheval, figura estoica, que vive com uma mulher Philomène, Laetitia Casta, de uma  beleza cada vez mais surpreendente, sendo eles elementos de uma história apoiada num personagem com existência real e que nos prende até ao fim. Trata-se, assim, de um curioso documento cinematográfico  sobre as possibilidades infindáveis do amor. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Stéphane Hessel: Empenhai-vos!

      A descoberta de Stéphane Hessel  foi há mais de trinta anos, no Festival de Cinema da Figueira da Foz, por culpa do documentário, "Der Diplomat", de Antje Starost e Hans Helmut Grotjahn. Deviam ser umas cinco ou seis pessoas no interior da sala, alguns cineclubistas e outros curiosos. À altura, fiquei fascinado pela sua figura moral, pela sua presença e carisma, uma assombração de um diplomata franco e genuíno.
        Stéphane Hessel nasceu na Alemanha, em 1917, emigrou para França com apenas  cinco anos e naturalizou-se francês em 1937, tornando-se embaixador e diplomata ao longo da vida, tendo pertencido à resistência francesa durante a Segunda Guerra e onde desempenhou as funções de agente do Bureau Central et Renseignements et  d´Action, os serviços de inteligência francesa.
      Regressemos, pois, ao livro “Empenhai-vos”, da Planeta Editora, que consiste numa entrevista de Gilles Vanderpooten a Stéphane Hessel  e, em que este a determinada altura afirma:  “Aqui a palavra “consciência ética” deve tornar-nos sensíveis ao facto de que o que fazemos hoje tem repercussões para os que vierem a seguir. É bom que que reflitctamos e que façamos os possíveis para que as gerações seguintes  possam prosseguir a felicidade das suas existências.”
       Trata-se dum anseio propositivo sobre o futuro das sociedades em que vivemos, uma cogitação viva sobre os direitos humanos face à condição actual do mundo. Já passaram quinze anos sobre esta edição, o livro foi editado em 2011, muito antes de uma pandemia e de uma guerra às portas da Europa e outra dentro dela, mas vale a pena pensarmos com alguém que se manifestou sempre e colocou o  seu empenho na defesa da dignidade e liberdades humanas.

Pequeños Grandes Momentos

Viajar en tren

con la vista

en el paisage

 

 deseando

no llegar todavia

a tu lugar de destino

 

para que la felicidad

no empiece

a terminarse… 

Karmelo C. Iribaren

Pensar

    Pensar de pernas para o ar é uma grande maneira de pensar com toda a gente a pensar como toda a gente ninguém pensava nada diferente.

Manuel António Pina 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Parece que Estou a Mais de Denys Arcand

Poster: https://www.magazine-hd.com/

       O filme “Parece que Estou a Mais” do realizador canadiano, Denys Arcand, autor de “Declínio do Império Americano”, 1986, e “Invasões Bárbaras”, 2003, começa com a narração de um homem  idoso, que se encontra sozinho a viver num lar moderno e onde  o seu entusiasmo existencial vai declinando a cada dia que passa com a visita a cemitérios e a perda dos seus amigos mais próximos. Durante a sua estadia no lar, Jean Michel (Rémy Girard) dá de caras com Suzanne (Sophie Lorain), a administradora, com quem desenvolve uma relação delicodoce e  conflitual. Pelo meio, constata a chegada e a parada de manifestantes junto do jardim da instituição, passando a reivindicar a retirada de uma obra de arte ofensiva às primeiras nações. Denys Arcand serve-se do humor e da velhice para criticar implicitamente o politicamente correcto da sociedade canadiana e ainda para ridicularizar a polarização cultural em que estamos submersos. 
        O filme termina quando pressentimos na narração de Jean Michel uma nova coloração sentimental pois este descobre-se enamorado por Suzanne, ao mesmo tempo que esta se aproxima de uma filha desavinda e desaparecida. No fundo, a sensação de que “Parece que Estou a Mais” foi realizado para que possamos pensar naquilo que é essencial, melhor, uma reflexão pertinente de que ainda podemos recomeçar a viver mesmo que nos encontremos no Inverno das nossas vidas.