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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Turismo: Até onde vai o Acelerador?

Fotografia: Tânia Santos 
O turismo é um acelerador. Um acelerador maior. Estamos perante um dispositivo que é portador de energia simbólica, que carrega a promessa de alteração da paisagem, uma mudança social e a consequente transformação económica. É também um anelo carregado de progresso, a proclamação de satisfação generalizada, conectada à ideia garantida de um bem-estar generalizado. À semelhança da corrente futurista do início do século XX, o turismo é também a exaltação do porvir, a ânsia de um período em que se engendravam cidades com máquinas em movimento, com elevado dínamo ou suprema energia, uma perfeição mantida pela fina e arguta camada dos materiais, a glorificação do movimento e da viagem.
            Ao mesmo tempo que, passado todos estes vários indicadores de velocidade, há quem olhe pelo vídeo do retrovisor e assista ao espectáculo das reacções. Revoltam-se as pedras e seixos, abandonam-se objetos físicos e as ruínas instalam-se. Urge encontrar significado para o edificado abandonado. Será ainda possível? Imóveis que hodiernamente passam a inutilizados, relegados para segundo plano, desprezados. Desfeitos do seu ímpeto inicial ou traço original, aguardam restauro ou nova funcionalidade. Nessa volúpia ou promessa de dias vindouros, abandona-se o gesto primevo, surgem ao nosso olhar com um lastro irreparável na paisagem e resquícios do que poderia ter sido. 
          O que sobra, então, desse acelerador que asseverava ser democrático e dourado? Ambos, passado e futuro, não se encontraram nessa restituição, não há recuo possível, só nuvens que se dissipam no ar. Sobejam, portanto, ruínas, o descarado desleixe, numa arquitectura de escombros e destroços. Ninguém já devolverá a paisagem em frações, nem guardaremos a emoção que resta dessa visão desoladora. Apenas o desgosto, também ele acelerado, condizendo com o tempo!
             O turismo é hoje (apenas!) presente e futuro, a galinha dos ovos de ouro, maná, não quer saber do passado. Monocultura dourada, super estimulada, promovida até à exaustão. Ouvimos todos os dias falar desse futuro carregado de milhões de euros em investimentos em hotéis, empreendimentos ou bungalows à beira mar, promessas de centenas de empregos no turismo e aumento aos magotes no número de casas disponíveis para o alojamento local. Nenhum travão se afigura, obstáculo que seja. O choque já não se dá porque o futuro venceu, impõe-se, tal é a pífia ultrapassagem rumo ao abismo.
     Acredite-se, assim, que desacelerar é preciso ou, então, seremos apenas resíduos, fragmentos, estilhaços, dessa aceleração!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

2025: Adeus 2024!

         
      Regressar à rotina, à ilha, sem antes ter provado o fel dos atrasos aéreos, as longas e demoradas horas nos aeroportos. É, pois, normal que assim seja por alturas de dias invernais ou no momento de começo ou encerramento dos períodos festivos. Nada disso estraga ou corrompe a memória de um continente com dias de céu aberto e azulado, o frenesí e a azáfama das ruas e comércio, ainda que com noites muito friorentas. Pelo sul, aquando da passagem por Lisboa e Leiria, sente-se ambas as cidades acolhedoras e hospitaleiras como há muito não se via. Há também muitos imigrantes a conduzir autocarros, os restaurantes cheios de gente a falar diferentes línguas ou ainda a máxima surpresa pelo estado anómalo em que se encontra a estação de comboios de uma capital de distrito, refiro-me concretamente à cidade afamada pelo rio Lis. No norte, a mesma tenacidade e empenho nas tarefas, o encontro de tanta gente que não se cansa de agitar as águas, é o que acontece à Feira de edições Independentes no Centro de Estudo Anterianos promovida pela Associação Cabe Cave, na cidade de Vila do Conde.
         Entretanto, houve ainda tempo para assistir ao mais recente filme do mais conhecido cineasta espanhol da actualidade: Pedro Almodóvar. A película gira em torno de duas amigas que partilharam a mesma profissão na juventude enquanto jornalistas.Uma delas com o nome Martha (Tilda Swinton), o que  é sinónimo de proteção, isto é, de alguém que é dona de si própria e que luta para não sucumbir perante a adversidade. Há, pois, que terminar com a existência com a ajuda de um medicamento comprado no mercado negro. Pedro Almodóvar dá-nos a ver em "O Quarto do Lado" uma mulher guerreira,  destemida e, que perante a sentença de morte, socorreu-se da amizade para falar do que importa viver. Acompanha-a Ingrid (Julianne Moore), aqui no papel de escritora célebre e amiga cuidadora, com muito medo de morrer. Em contrponto, temos Damian, um activista climático que conta já com o fim do mundo para breve, mantendo o seu humor por instantes. Para além de tudo isso, o que não é pouco, uma bela e discreta banda sonora de Alberto Iglésias, mantendo os seus cenários habituais. 

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O “Ardina” Chega Sempre à Hora Certa


Não se avista ninguém nas ruas e, subitamente, há um homem que canta, mal e desafinado, é certo, mas canta, há outro que grita frases soltas e desconexas e há ainda quem distribua, sempre que pode, jornais aos amigos. Os jornais encontram-se agora sem compradores, a versão impressa vende muito pouco. E desde que o confinamento começou, aguentam-se os mais robustos financeiramente, os que já estavam instalados há mais tempo ou aqueles que sempre tiveram um grande grupo económico por detrás. Os jornalistas são pessoas que vivem de palavras, têm que comer, vivem com famílias ou necessitam de pagar as suas contas e encher o frigorífico. Os quiosques abrem a horas certas para que os leitores possam ler as notícias, tactear o virar das folhas, pressentir o cheiro a tinta do jornal impresso.
O “Ardina”, habituado à sua disciplina e hábitos matinais, valoriza os pequenos gestos e este tipo de coisas, já que dá a sua volta higiénica para fazer as suas compras diárias e manter os músculos activos, ao mesmo tempo que faz a radiografia matinal da cidade, acompanhado pela sua objectiva. Uma coisa é certa, ele parece conhecer de ginjeira as pessoas que gostam de ler, aqueles que, tal como ele, não passam um dia sem folhear as páginas de um jornal actual, ou mesmo antigo. Talvez, por isso, habituou-se recentemente a bater-lhes à porta, ou então, a deixar os periódicos e as revistas na caixa do correio. “Depois faremos contas!”, diz, despedindo-se com um sorriso nos lábios, como quem sabe das virtudes e dos vícios humanos, ou somente do simples e permanente prazer de ler um jornal. Este ardina não é um ardina qualquer, ao contrário dos ardinas tradicionais ele distribui os periódicos no seu carro, por iniciativa individual, por amizade, por mera atenção ao outro. Sem que ninguém lhe peça ou lhe faça alguma exigência. Este “ardina” é um amigo, um bom amigo, mas contas são contas!