domingo, 10 de maio de 2026

Os Vinis de Maio que Abril nos faz Tocar

Fotografia: Tânia Santos
         Quando se deu o 25 de Abril de 1974, éramos pequenos. Muito pequenos, tão pequenos que quase não nos lembramos de nada do que aconteceu em nosso redor. Algumas coisas aconteceram de facto e houve outras que julgamos saber, foi por que nos contaram. Lembro-me, por isso, de ter ouvido com frequência: “Vem aí os canhões”. E, mesmo assim, continuávamos a brincar naquelas ruas com muitas bicicletas e poucos carros. Logo depois, ouvíamos explosões na sede do PCP (Partido Comunista Português) e começámos a ter medo de encontrar os seus líderes e apaniguados à hora da sopa enquanto papões esfomeados de crianças irrequietas e impertinentes.
          Crescemos, portanto, com a ideia de que a revolução do 25 de Abril foi um acontecimento militar realizado lá para os lados de Lisboa, isto é, lá bem longe ou então em terras do Ultramar. Crescer no litoral teve a vantagem do Verão ser ocupado por idas à praia e passeios à beira-mar. A adolescência iniciava-nos também nas audições de músicas revolucionárias ou a ousadia na realização de programas musicais com o aparecimento dos rádios piratas, um pouco mais tarde, as rádios locais. Daí vir de imediato à memoria, pois claro, aquele radialista e a sua obsessão pelos objetos musicais em forma de vinil. Este possuía mais discos do que todos nós juntos. Sabia poupar, dizia-nos, e tinha também rasgo e sentido de oportunidade. Disse-nos que chegou a esvaziar discotecas em liquidação total. Relembre-se, pois, o seu fascínio pela chegada dos CD´s e da gravação digital bem como o desfazer de forma rápida e, algo precipitada, da sua enorme e diversificada colecção de vinis. Alguns de nós,  devemos-lhe, por isso, a aquisição de um momento para o outro, a preços módicos, dos discos do José Mário Branco, José Afonso, Luís Cília, Sérgio Godinho, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Né Ladeiras, entre tantos outros. 
      São estes agora os discos de Maio, os discos que Abril abriu, os vinis daquele período que queremos lembrar e que voltamos a tocar e a ouvir...até fartar.

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