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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Aos Biógrafos de Miguel Manso

Chico Buarque escreveu Budapeste 
sem ir a Budapeste 

há que escrever Chico Buarque 
sem ir ao Chico Buarque 

in Santo Subito, Carimbos de Gent, edição Lisboa, 2010.

sábado, 27 de abril de 2024

Volto Sempre ao Café Central

Volto sempre ao Café Central, ao da Ribeira 
Grande. As chávenas já não trazem a desenhada letra
Café Central
anunciam somente a marca do fornecedor, creio
que nunca bebi por uma dessas chávenas antigas. As cadeiras,
pesadas, no confronto da madeira e do aro de ferro que 
lhes dá forma. (Passo os olhos pelo Açoriano Oriental, mais 
manso nas suas invectivas.)
Na última prateleira da vitrine, altivas, as três últimas bandeiras 
a banca, a azul e branca
em pleno coroadas, a republicana
(em desespero de cor, mas não é esse o mais
caminho português?)
têm por baixo, alinhados como se fossem soldadinhos de chumbo, 
um pelotão de açucareiros em desuso.

Em fila, potes antigos de faiança
capazes de resistirem à pedra funda de pastor

e além do vidro grande da montra 
as janelas, as portas do teatro

e a dona Zélia pergunta-me quantos dias vou ficar. Ficar, chegar,
partir. No jardim
os metrosíderos cobrem-se de pisado vermelho
flor de sangue, o sentido desses verbos

depois, a água  em queda na ribeira
quando subo a rua do Barracão velho.


João Miguel Fernandes Jorge, in "Lagoeiros", Relógio D´Água, Novembro de 2011.

domingo, 24 de maio de 2020

Poeta

para quem aspira - breve utopia - ao fenómeno
ajuízado da decriação, este texto já vai longo

e o erro será, mais uma vez, continuar

não vale peva o transtorno dos ensaios
tentar perfeições geométricas, filosóficas, de estilo
a vida colocar-nos no devido lugar

a grande lição aprendi-a hoje ao ouvir uma
bem intencionada asserção que resultou num alto
(honestíssimo) deslize idiomático:

"o miguel é pateta" (joão diogo, 4 anos) 

Miguel-Manso, in Santo Subito, Lisboa, Março 2010. 

domingo, 17 de maio de 2020

Janela

dedico-me ao poema como um
homem velho se dedica a um vaso
com flores

Miguel-Manso, in Santo Subito, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

domingo, 19 de abril de 2020

Pequenos Trabalhos de Domingo

não saio antes
que tudo esteja pronto

a loiça a escorrer na cozinha
o aspirador cheio
a varanda lavada pelo dia
o rádio em off

nessa hora em que 
a noite se aproxima devagar
do meu rosto
escrevo poema nenhum
falta-me língua

sento-me num banco do jardim 
mais próximo
onde (que perfeição)

nada acontece

Miguel-Manso, in "Santo Subito", 2010.