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terça-feira, 19 de maio de 2026

Escola: Henri Matisse Sobre a Mesa

          “A Estética é uma disciplina filosófica que estuda o belo nas suas diferentes manifestações”, foi lembrando o professor. Pensemos, pois, nos anos 20 do século passado, quando a Europa se libertava de forma catártica dos horrores da guerra e da pandemia e em que os artistas se expressavam através dor, do desespero e dos sentimentos pessimistas da época. Ao mesmo tempo que projetavam a esperança e a alegria no horizonte bem como o gosto pela vida e outra formas de experienciar a existência. Viviam-se, portanto, períodos conturbados e ainda o surgimento dos movimentos artísticos, a afirmação  dos criadores e manifestações do seu estilo, a inovação e o desejo de transcendência através da arte. Cem anos depois, necessitamos novamente de despertar sentidos e consciências, estimular a paixão pela arte, incentivar a paz duradoura, sem ter a pretensão de salvar o globo ou a humanidade. 
          A escola é um local onde a criatividade, por vezes, ocorre. Jorra.  Nem só de rotinas, horários e programas é composto um ano letivo. Por vezes, é factual e, quanto menos se espera, a criação pode surtir no mais rígido dos contextos, dar lugar à invenção e a beleza pode acontecer, soltando-se a imaginação que, como todos sabemos, não tem fim.
          A constatação é real: há alguns alunos que secretamente desenham durante o decorrer das aulas! Há também estudantes que fora do espaço escolar cantam, escrevem poesia, compõe música e fazem pequenos filmes ou animações. A dificuldade é encontrar o momento/sítio certo onde possamos juntar, enquadrar a sua forma de exprimir, admitir essa possibilidade de que possam um dia viver do gesto de traçar, criar, imaginar o seu próprio destino. Há, sem dúvida, uma necessidade por colmatar, a abertura de uma área específica para que a expressão artística possa suceder, vivenciar e partilhar.
          Entretanto, a aula tinha, assim, terminado e o retrato de Henri Matisse, desenho feito durante a aula, foi pousado, deixado em cima da mesa, oferecido por quem o desenhou àquele professor. E logo o desenho de Henri Matisse, o pintor que afiançava que os artistas deviam possuir um eterno olhar infantil, a curiosidade e inocência de uma criança, como se tudo na vida pudesse ser visto e apreciado como se fosse sempre pela primeira vez.

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Uma Visão Alegre destes Dias

Anteontem houve deslocação até ao Casino Açores para ver a exposição “Cor e Fantasia: Um Guião para a Utopia’, do pintor micaelense, Carlos Carreiro. Com o barulho das slot machines ininterruptamente presente,  primeiramente o foco foi para os títulos e, só depois, para os delírios figurativos e cromáticos da sua pintura. De seguida, o natural mergulho naquele humor que é parte daquela inesperada fantasia e que compõe a narrativa surrealista dos seus quadros. Uma verdadeira folia policromática reveladora de um universo singular. Para quem escreve, Carlos Carreiro será sempre o pintor do políptico presente na Sala de Sessões Plenárias da Assembleia Regional dos Açores bem como o autor da capa do álbum “Valsa dos Detetives”, do agrupamento pop GNR, editado em 1989, com a belíssima faixa “Morte ao Sol”. Por agora, as pinturas e quadros de Carlos Carreiro merecem uma renovada e merecida atenção.
     Algum tempo depois, o destino foi a Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada para assistir ao lançamento da obra “Crónicas Alegres”, de Manuel Zebrone. Estas crónicas foram escolhidas e organizadas pelo historiador Carlos Lobão e o escritor Urbano Bettencourt, com a chancela do Núcleo Cultural da Horta. Éramos poucos na assistência para tão valioso objeto em presença e nem por isso os palestrantes deixaram de incitar e estimular tão alegre leitura. É que Manuel Zebrone, senhor de uma verve muito particular, questiona-se na crónica 86 deste seu livro: “A minha pena, sempre que lhe pego para escrever uma crónica, pergunta-me invariavelmente: «Esta semana o que temos?». E nós...o que temos no cardápio? Certamente o dever de o ler!

domingo, 29 de setembro de 2024

Encontros Sonoros do Atlântico: "Flores" no Arquipélago!

Francisco de Lacerda em viagem
       Terminou recentemente, com espectáculos por todo o arquipélago, os “Encontros Sonoros Atlânticos”, um programa de concertos alicerçados/inspirados na obra do compositor e maestro, natural da Ilha de São Jorge, Francisco de Lacerda. 
      Faz, por isso, agora uma semana que assistimos  ao concerto do guitarrista Nuno Costa e do pianista Óscar Graça na blackbox do Arquipélago, Centro de Artes Contemporâneas. Ambos os músicos tiveram a incumbência de fazer a banda sonora para o filme Flores de Jorge Jácome. Foi, sem dúvida, um belo fim de tarde inspirado com composições bem respiradas e soltas, até dissonantes, que tinham como compromisso embelezar a propagação da espécie das hidrângeas pelo território. Na verdade, são devaneios sonoros aprimorados e convincentes, ainda que arriscados, para um filme que vai conquistando cada vez mais adeptos, sobretudo, pelo seu desenrolar inusitado e final feliz com que nos devolve a espontaneidade e beleza natural do verde de que estamos rodeados.

sábado, 4 de março de 2023

Cineteatro Miramar: Há ir e Voltar!

          A única sessão de cinema que assisti no Cineteatro Miramar, espaço cultural da vila de Rabo de Peixe, tinha por título “Ama San” de Cláudia Varejão. Recordo-me dessa tarde sábado, sobretudo do ambiente desta vila micaelense com as ruas cheias de crianças e homens à porta dos cafés e com as mulheres sentadas na soleira das portas, lembrando de imediato outros espaços de sociabilidade, frequentados no passado, como, por exemplo, as Caxinas que conheci tão bem nos idos anos 80 e 90.
       O filme de Cláudia Varejão, talvez por causa do título, não despertou muito interesse aos locais, mesmo o facto de ser gratuito apenas mobilizou o público que está habituado a estas lides cinematográficas. No entanto, cá fora 
dava para observar que a vida continuava e seguia o seu rumo com a agitação do costume. O impacto, no final do filme, foi muito forte que, mesmo sendo um filme do Japão contemporâneo, essencialmente focado numa ilha remota com um grupo de mulheres de diferentes faixas etárias que mergulham em apneia à procura de moluscos (abalones), vivendo as suas vidas aparentemente de forma simples e harmoniosa, em contacto quotidiano com a natureza e com relações de grande cumplicidade, aquela sessão, naquele lugar, jamais seria olvidada, de tão bela que tinha sido. 
          Entretanto, passados tantos anos, soubemos esta semana do anúncio de uma empresa regional, com ligações institucionais ao governo dos Açores, ter como pretensão vender este Cineteatro Miramar em hasta pública, o que gerou uma onda de contestação política, sendo  que chegou a existir mesmo uma petição pública de repúdio perante tal decisão. A realidade daquele Cineteatro agrega jovens e outros músicos que usam semanalmente o espaço para aprender e tocar jazz, adolescentes e adultos que usam assim o espaço da Ludoteca para partilhar jogos, músicas e e-mails, reconhecendo dessa forma a importância deste espaço no atividade cultural daquela vila piscatória. Por isso, questione-se: o que terá passado pela cabeça de alguém para anunciar tal propósito?

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Figueira da Foz: "Os Cinéfilos da Sétima Arte"!

Cartaz de José Brandão
É sempre bom recordar, lembrar com acuidade aqueles dias ainda de sol do mês de Setembro, nem que seja porque vamos entrar no tempo do calendário em que o verão se despede. Por esta altura, há mais de três décadas, rumávamos para a Figueira da Foz e, sobretudo, estávamos preparados para invadir as salas de cinema do Casino daquela cidade costeira. Durante dez dias, víamos e ocupávamos as praças e esplanadas nas redondezas para conversar após os filmes naquelas salas povoadas de cinematografias oriundas de proveniências diversas acompanhados por gente ligada à realização e produção de objectos cinematográficos.  
    A Figueira da Foz, naqueles dias setembrinos, era o "farol" da sétima arte. Era lá que encontrávamos outros membros dos cineclubes de Portugal e estrangeiros, realizadores de cinema, amantes das imagens na tela e outros tantos curiosos da sétima arte. Muitos de nós éramos estudantes e, talvez por isso, havia um forte apoio nos transportes para ali chegar, na estadia e alojamento, bem como na alimentação necessária ao visionamento de várias jornadas cinematográficas ou ainda reduções no passe geral.
    Desta feita, rumar à Figueira por estes dias de Setembro era sinónimo de lazer misturado com descoberta da essência das imagens em movimento. Quem quisesse aprender em conjunto havia ainda tempo para ir às palestras matinais de Pierre Dumont, naquelas sessões apelidadas de “Quoi dire aprés le film?”. E, muito facilmente, sentados nos bancos e esplanadas se avistava e falava com gente conhecida na realização – Samuel Fuller, John Mekas, Fernando Lopes, entre tantos outros. Ou ainda aquele famoso transeunte que, de cada vez que nos encontrava, nos decidiu cunhar com um pleonasmo, ao referir-se aos "Cinéfilos da Sétima Arte", o grupo dos que chegavam à cidade por esta altura. 
Por último, convirá referir que a organização do Festival, sobretudo nas últimas edições, faz agora vinte anos da última edição, em 2002, nem sempre foi pautada pela perfeição, no entanto, graças à boa vontade e entusiasmo, tudo era superado por essa liberdade e disponibilidade de ver filmes sem critério, à deriva, à semelhança destes dias em que dizemos adeus à estação dos grilos e das melancias e vamos, assim, retomando labores e compromissos.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

"Rock n Roll Consciência - Letras”, de Thurston Moore ao Cair da Tarde


            Dou por mim a ler um caderno antigo que me acompanhou no regresso à ilha onde agora habito e fixo uma citação do músico norte-americano, Thurston Moore, fundador dos Sonic Youth, ao “Açoriano Oriental”, a 1 de Março de 2016, aquando da sua passagem por aqui: “A primeira coisa para que me alertaram quando cheguei aqui foi para o estado do tempo, com as quatro estações a acontecerem no mesmo dia. Fiquei espantado, mas já me apercebi que é mesmo assim: o sol, a chuva, o céu azul, ou o céu nublado podem caber num intervalo de apenas seis horas…contudo achei logo os Açores um óptimo lugar para a inspiração. Pelo que me dizem, esta é uma terra de poetas e sempre me interessei pelos lugares que levam as pessoas a escrever e sobre os ambientes que as inspiram.”. Lembro-me, portanto, de ver este músico em cafés que eu próprio frequentava, numa postura acessível de quem sabe que a fama do rock sónico não rimava com ilha verdejante de tempo lento, para lá das variações climatéricas a meio do atlântico.
     Entretanto, estamos no final de mais uma semana e, ao cair da tarde, recebo um telefonema de uma amiga de visita à cidade, a convocar-me para reencontro. Eis que chego já tarde ao local combinado e, em cima da mesa da livraria da respeitada instituição, avisto um livro com o título “Rock n Roll Consciência - Letras”, de Thurston Moore, realizado na Tipografia Micaelense, com os dizeres na contracapa de edição com apenas 100 exemplares, todos eles assinados pelo autor. Folheio o livro, ávido e atónito com a impressão em tipografia, observo as canções nas duas línguas e contemplo as fotografias do livro (uma paisagem, uma árvore, o respetivo músico sentado na soleira de casa de pedra, uma fotografias de composição na tipografia e uma do tipógrafo Diniz Botelho). De imediato, pergunto o preço do livro aos funcionários da livraria que, após alguma demora, alegremente soltam a resposta; “- É gratuito!”. Saio para esse reencontro do café com chocolate com uma sensação de ter encontrado um tesouro, provavelmente um acaso carregado de simbolismo, cinco anos depois. Desconhecia tal feito, eu que observei ao longe a passagem pela ilha de tão ilustre personagem do mundo sónico, não fazia ideia de tal publicação. Talvez, por esse motivo, sinto-me agora agradecido. No entanto, o meu amigo, Diniz Botelho, mestre de tipografia, já cá não se encontra, e, esse, sim, era uma pessoa a quem me habituei a agradecer! Em consciência!

sábado, 4 de abril de 2020

PDL: Um Coração Invisível

Fotografia Carlos Olyveira
E, subitamente, não há ninguém nas ruas da urbe principal de São Miguel. Ponta Delgada está agora deserta, desde que há cinco anos, com o aparecimento das companhias aéreas de baixo custo, se renovava de forma intensa e imprevista com tudo aquilo que o turismo podia mudar para melhor: iniciativa, criatividade e variedade na oferta de propostas, tanto comerciais como culturais.  
À parte as rendas para habitação de longa duração que dispararam em flecha, algumas mesmo para preços estratosféricos, foi muito interessante reparar na renovação de muitos edifícios e casas bem como no florescimento do comércio nas ruas do centro histórico. A cidade de Ponta Delgada ganhou, assim, uma nova dinâmica e colorido, pautada por um turismo muito eclético e diversificado. Deste modo, apareceram restaurantes para diferentes gostos e carteiras, alguns com muito bom gosto, cafés, lojas gourmet, galerias de arte e ainda outros serviços comerciais que se adaptaram e restauraram a sua montra e leque de oferta.  
Por esse motivo era, até há bem pouco tempo, muito entusiasmante constatar os diferentes linguajares à volta dos cafés e das praças, misturados com o sotaque local e ainda o ambiente de festa e de modernidade que por aqui se vivia. Por esta altura do ano, deveríamos estar todos a viver intensamente os dias do “Tremor”, um festival de música que todos os anos apresenta uma panóplia alargada de artistas oriundos das mais distintas partes do mundo, com um programa muito sui generis e eclético, marcado sobretudo por surpresas e descobertas. O dia principal do Tremor realiza-se a um sábado e é digno de registo e muito interessante verificar a dinâmica de que como a cidade interage com próprio festival, pois os concertos podem ser realizados, ora num café, igreja, estufa ou mesmo numa loja de roupa.
Ponta Delgada parece agora uma cidade adormecida, ainda que estes dias iniciais da Primavera com muita luz não deixem a cidade descansar de tanta beleza e comoção. O seu coração está, por agora, invisível, porventura aguardando com esperança e paciência que as artérias que lhe davam vida possam de novo fazer circular o seu melhor sangue.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

TASCÀ: A Poesia Volta no Outono!

Fotografia de Bruno Gaudêncio

          
        A TASCÀ está situada na Rua de Lisboa e há mais de dois anos que tem nas noites de quinta-feira tribuna aberta para a poesia. É um edifício muito antigo, uma verdadeira taberna minúscula, mas essencial para criar corpo e cumprir cumplicidades. As “hostilidades” poéticas deram início há três anos na Travessa dos Artistas mas foi pela mão dos amigos João da Ponte e João Malaquias e da conivência de Paulo Amado que se consolidaram naquele local citadino. A cidade de Ponta Delgada, em São Miguel, agradece. Durante dois anos aconteceram coisas boas no pequeno mundo da poesia: editaram-se os “Capítulos A, B e C”- uma colectânea de poetas a residir nos Açores, os dois  livros do Leonardo - “Âmbula” e “Onde Sequer o Luar” e ainda a dupla Medeiros/Lucas que convidou João Pedro Porto para escrever as canções de “Terra do Corpo”. Não esquecer: esta dupla apresentou-se pela primeira vez ao vivo neste peculiar estabelecimento pela mão do malogrado João da Ponte. O dono de tão ilustrado e bem frequentado antro poético, o senhor Paulo Amado, como é sabido, também é visto por vezes a ler poesia e participa das sessões, tal como jamais se esquece de refrear e serenar os bardos compulsivos quando pretendem prolongar a noite ou ainda arremessar farpas aos espúrios poetas que lá caem de pára-quedas ou outros meios de locomoção. As noites de poesia micaelense estão agora paradas e regressam, pois, em Setembro, com o Outono!

terça-feira, 21 de junho de 2016

Verão: Ainda agora Começou!

Não devia ter mais de dez anos naquele verão, naquela rua com nome de Ferreiros, uma rua com título de profissão há muita desaparecida daquele lugar de origem piscatória. A leitura ameaçava e crescia logo bem cedo, pela manhãzinha com a ida à Taberna do Senhor Miguel comprar pão e permanecer por lá até cansar as vistas. O taberneiro era um indivíduo polido, simpático q.b, um nada provinciano e austero, quase sempre com um semblante carregado e marcas de religiosidade profunda, dado que se vestia sempre de preto e não permitia conversas em tom muito alto ou o uso do calão e do vernáculo.  Até hoje penso que nunca me advertiu sobre a minha presença em tal estabelecimento comercial pelo facto de conhecer bem os meus pais, pensando talvez que ter por ali um miúdo de tenra idade a ler o jornal conferia dignidade a quem frequentasse o estaminé, sobretudo um antro de gente adulta com mais sede do que juízo. No entanto, eu sabia que estava sob a mira do seu olhar atento e punitivo, ainda que com a consciência exacta do imediato com que estes seriam avisados de qualquer infracção matinal que ali tivesse lugar. Sendo assim, a partir de certa altura tornei-me uma figura de tal modo assídua que alguns clientes se queixavam de já não ter o jornal diário disponível naquela única mesa em frente ao balcão. Como pediam as regras da concorrência, eu chegava mais cedo, comprava o pão, sentava-me e ficava por ali até que não houvesse mais nada para ler. Eu sabia que notícias novas e fresquinhas só viriam depois da praia, do gelado de gelo, das corridas de rolamentos e da bicicleta, das idas à videiras e às espigas ou então do competititvo jogo da carica ou do berlinde. Uma delícia.
Naquelas manhãs de leitura estival fazia-me, portanto, companhia o "Nia Congros", diminutivo de Agonia, um pescador rude já com alguma idade, que se caracterizava por ser muito alto e bastante magro, usando sempre um boné numa cara cheia de rugas tisnada pelo sol. Saía-se sempre com uma expressão que já trazia engatilhada: “Saia uma preta fresquinha, senhor Miguel!” Enquanto ele curava as mágoas duma noite de faina marítima em sobressalto junto da tripulação ou a ausência de descanso junto da casa das máquinas a cheirar a gasóleo por tudo o que era sítio, eu ia dando os primeiros passos na política nacional e internacional, descobrindo os crimes de faca e alguidar, os pequenos furtos e zaragatas, as aquisições do Varzim e do Sporting, a vida dos actores e das actrizes, a programação televisiva, a descoberta das das oito diferenças, etc. De vez em quando, o Nia perguntava-me se o mundo estava igual ao dia de ontem, ao qual eu respondia de forma perentória – “Ainda agora comecei”. Quem começava e não terminava de bebericar era este homem que aprendi a ver bêbado sem julgar nem confiar. Em duas horas era capaz de beber uma grade de cerveja tal era a secura que ostentava. Encostado ao balcão não era capaz de enunciar muitas frases, balbuciando nomes de peixes ou ficando a maioria das vezes pelas onomatopeias e por alguns piropos a quem entrasse um tanto ou nada atarefado.
Passados tantos anos, penso com redobrada ternura no Nia, um homem entre tantos outros que recusava o equilíbrio que a planura e a terra firme lhes concedia, optando assim pela contínua agitação líquida das marés. Aos dez anos, os adultos pareciam-me todos muito altos e muito proféticos nas suas inclinações e por esse motivo não me esqueço das suas saídas aflitas e baloiçantes por aquele corredor da taberna, tal e qual uma traineira à deriva. A luz do sol do meio-dia atirava-o para um descanso tardio enquanto que para mim era apenas o início. O despertar de um verão longo e comprido. A evocação de uma infância inesquecível e interminável.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Vinil de Música Açoreana


A capa azul celeste anuncia “Música Açoreana”, inclui Música e Sons das Festas do Senhor Santo Cristo, álbum gravado pela Stanton Productions, New Jersey, em 1976, pela mão de John Carey.  Um disco completamente desconhecido para ouvir com a ajuda da agulha em forma de descoberta e com elevada curiosidade dado o passar do tempo e da memória. Entretanto, a data histórica deste disco desperta e aguça a vontade de querer conhecer e saber quais razões que se encontram por detrás deste. É certamente mais um disco de recolha de música açoriana por gente culta e interessada, com a particularidade de uma capa azul celestial e a imagem de um poderoso milhafre de asas caídas e com as estrelas das nove ilhas açorianas na capa. Este objecto é revelador de alguma pomposidade na altura da gravação a que, segundo os autores, contribuíram para ele centenas de músicos e cantores açorianos. Gravado e produzido por John Carey, inclui no lado um os respectivos temas do Cancioneiro açoriano já conhecidos: “Pézinho”, “Fado Fadista”, “Bairro Alto”, “Chamarrita” e as mais que conhecidas e festivas “Cantigas ao Desafio”. O que permite abrir a uma maior curiosidade é a inclusão no lado dois de uma mistura de sons que inclui a Folia do Maranhão, sons de pássaros na montanha de São Miguel, bandas de música em coretos, fogo de artificio, coros religiosos e bandas de música no Domingo da Festa. Enfim, meia hora de experiências sonoras em território açoriano. Música e sons para ouvir num gira-discos perto de nós.

domingo, 14 de junho de 2015

Foram as Bicicletas que Inventaram o Verão

              A partir do momento em que as nuvens negras desaparecem, os guarda-chuvas são arrumados nas prateleiras, o azul do céu se torna estável e a temperatura aquece, há quem tire a bicicleta da garagem e anuncie aos quatro ventos que a democracia nas estradas ganhou um novo parceiro.
      Acreditem, isto não é nostalgia. E quem escreve não é nefelibata. As bicicletas também têm espaço neste mundo cheio de futuro ou de povos que insistem em não ter memória. Pois, para alegria de uns e desespero dos outros, o veículo de duas rodas nunca estará na moda aqui em Portugal, principalmente nas principais cidades. A prova máxima disso encontra-se na imagem do seu utilizador comum, que a maior parte das vezes ostenta uma cara dor e sacrifício sempre que é visto a puxar por pedais e cremalheiras. Outra das razões que os mais preguiçosos apontam para o insucesso deste velocípede tem a ver com a constituição física das nossas duas cidades maiores, onde abundam as descidas picadas e as subidas extremas.
       Estamos, por isso, longe do norte europeu, onde a bicicleta a pedal foi talvez o mais amado dos transportes terrestres. Em países como a Holanda, a Bélgica, a Dinamarca, o Reino Unido, jamais se pedalou por obrigação, mas por prazer, sendo raro conhecer-se belga, holandês ou dinamarquês que não tenha uma "ginga" arrumada no quintal ou na garagem. Mais ainda teriam a dizer os seus antepassados, pois não terá sido por acaso que a primeira bicicleta com pedais (na roda dianteira) foi construída, à volta de 1839, por Kirkpatrick Macmillan, um ferreiro escocês. Mas seria só em 1885 que apareceria a primeira bicicleta moderna reconhecível, com uma corrente fazendo a ligação dos pedais à roda traseira. Este modelo foi denominado "bicicleta segura", por ambas as rodas serem de tamanho igual, em vez do modelo anterior, no qual o ciclista se sentava no topo de uma enorme roda dianteira. Esta nova bicicleta criaria uma vaga ciclística na Europa e nos Estados Unidos, providenciando aos trabalhadores um meio de transporte barato e conveniente. O aparecimento do automóvel, nos primórdios do século XX, diminuiu gradualmente o papel da bicicleta nos países desenvolvidos, mas ela mantém-se como uma forma básica de transporte em muitas outras partes do mundo.
          Neste pequeno país do sul da Europa, os primeiros a tomarem o gosto à bicicleta foram os operários, que mais tarde, na sua condição de "remediados", deixaram as suas estimadas "pasteleiras" e adquiriram motorizadas de "terceira divisão", verdadeiras promotoras da poluição sonora e atmosférica. Hoje, os filhos da classe média sonham com motas potentes, dotadas de encantadores ruídos capazes de seduzir as suas femininas paixões. Um dia, já com a tal mota, perceberão que os pais delas teriam preferido que as filhas dessem umas voltas com eles nas bicicletas. "É mais seguro e mais económico" - dirão para os lençóis numa noite de sábado.
     Num passado não muito longínquo vivíamos agarrados às histórias dos descobrimentos e à visão poética do mar, dos barcos e dos marinheiros, que marcaram e definiram a imagem deste povo e da sua história trágico-marítima. Actualmente, deixámos o Atlântico e virámo-nos para a Europa, provando as estatísticas a espectacular subida das vendas de automóveis. Esses veículos poluidores, verdadeiros "dealers" de monóxido de carbono: grandes consumidores, para grandes viciados e grandes intoxicados. Tudo em grande. E foi mesmo o automóvel que, nos primórdios do século que passsou, fez diminuir o papel da bicicleta nos países desenvolvidos.
                Em Aveiro, pequena cidade do centro do país, criou-se entretanto a BUGA (Bicicleta de Uso Gratuito de Aveiro), fomentando o número de utilizadores, generalizando o seu uso, facilitando a mobilidade entre os vários espaços citadinos. É com pena que não se assiste à extensão desta medida autárquica a outras cidades planas do território nacional, como Guimarães, Évora, Esposende ou Vila do Conde.
                Pequena é porém a "elite" que insiste em tratar a bicicleta como meio de transporte nobre, que de facto ela é. São os chamados "alienados do pedal". E são realmente os pedais que os fazem mover por essas estradas fora, descida abaixo, subida acima, sempre a pedalar. Adoram a natureza, detestam o barulho e se pudessem acabavam de vez com a poluição no planeta. Para estes, andar de bicicleta representa um estádio superior de civilização. E quem os vê pedalar, cheios de vigor e entusiasmo, chega a pensar que a revolta das bicicletas estará próxima. Pois que seja para breve, bicicleteiros!

(Artigo publicado na zonanon em Abril de 2002)