terça-feira, 5 de maio de 2026

Avenida Marginal: Domingo de Santo

       É domingo de Santo Cristo e o cozido de carnes prenuncia-se por espanta-espíritos que chega antes de qualquer mão à porta da Mâe de Deus. Tudo é sagrado pela avó que dura, pelo Santo que terá feições a merecerem avaliação dia-fora e pela sopa que, mesmo antes de lá morarem as carnes anunciadas de cheiro, dá aquecimento ao prato e ao tio alcoólatra que repete por três vezes esse aguado sagrado, vinho em dobro por cada prato, silêncio multiplicado em duração de tudo.
   Aprende-se com o avô a chorar antecipadamente a possibilidade da última vez neste lugar de circunstância - bem se recordam as lajes de pedra dessa escadaria da igreja de São José, pai do dito e residência alternada por que o Santos e alberga por uma das noites de festa, a única do ano para ele. Chorava sempre Rolando pela oportunidade de se pronunciar em contradição silenciosa postura que mantinha ao efectivo justificativo de ali estarem juntos para lembrar que, com mais ou menos rigor previsionista, aquela seria a sua última crepuscular vez do lado dos que jogam na selecção dos vivos.


Tiago Ribeiro, in Avenida Marginal - Ficções, Ponta Delgada, 2019.

Sem comentários:

Enviar um comentário