Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema.. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema.. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 25 de julho de 2025

A Paixão de Dodin Bouffant: O Napoleão da Arte Culinária!

       
Imagem daquihttps://revistadeguste.com/
Comer é uma actividade essencial do ser humano mas convenhamos que este verbo tem um vasto leque de signficados, com diferentes ligações à existência. No que diz respeito a este filme - La Passion de Dodin Bouffant, de Tran Anh Hung - que obteve em português a tradução de "O Sabor da Vida" - trata-se de uma incursão exclusivamente sensorial a partir do universo de uma cozinha partilhada por dois esmerados cozinheiros. A acção cinematográfica decorre entre tachos, panelas e fogões, degustando sabores, aprimorando paladares e seguindo sugestões de aprendizagens efectuadas aquando da ingestão de alimentos e reconhecimento dos aromas. É um agradável filme de seguir, não só pelo facto de ficarmos sugestionados e com apetite, bem como pelas interpretações competentes dos dois actores em presença:  Juliette Binoche e Benoît Magimel.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Orgias de Praga: A Privação de Liberdade!

Daqui: https://www.filmcenter.cz
         O título envia-nos para um ambiente estranho, ali para os finais de 70 do século passado, numa das capitais mais bonitas da Europa Central e que se encontrava a viver um regime opressor e totalitário. Alguns anos antes, Alexander Dubcek, antigo Chefe de Estado da comunista Checoslováquia, forçou uma abertura do regime e logo seria esmagado pelos tanques soviéticos. Aquele período ficaria marcado pela “Primavera de Praga”, mas seria sol de pouco dura já que o regime se tornou cruel para os dissidentes e o ar tornar-se-ia irrespirável. E a razão do título, melhor, a razão do filme? Um escritor judeu norte-americano viaja para Praga à procura avidamente de um manuscrito inédito que lhe trará histórias de um país asfixiado, privado de liberdade. A trama adensa-se com o final do filme em que a inevitabilidade da expulsão do escritor  Nathan Zuckerman (Jonas Chernick), conclui o processo de sufoco presente em todo o drama. Realizado por Irena Pavlásková, o filme foi decantado do romance do escritor Philip Roth,  com o mesmo nome. Uma película que, sem ser muito entusiasmante, valeu pelo reavivar de memórias de quem por ali passou nos idos anos 90.

domingo, 15 de junho de 2025

Noite na Terra: Há Salsifré no Táxi!

       Decorriam os anos noventa do século passado quando "Night on Earth" estreou e este foi, certamente, o filme mais amado pelo público, no que toca a Jim Jarmusch. Cineasta de nicho, "Night on Earth" trazia para o grande público o realizador de "Stranger Than Paradise" ou "Down By Law", a partir de cinco narrativas no interior de táxis em cinco diferentes cidades, a saber: Los Angeles, Nova Iorque, Paris, Roma e Helsínquia. A música é de Tom Waits e nas interpretrações encontramos: Winona Rider, Gena Rowlands, Giancarlo Esposito, Rosie Perez, Armin Mueller Stahl, Isaac de Bankolé, Béatrice Dal, Roberto Begnini (o incrível táxista romano!) e Matti Pellonpaa. 
       "Noite na Terra" é, antes de mais, uma película que nos remete para a riqueza da diversidade humana, tal é o  encanto na sua revisão três décadas depois. Não é um filme genial mas é um hino à compreensão e tolerância humanas neste tempo de rejeição da diferença e o desprezo pelos mais frágeis e vulneráveis.

domingo, 23 de junho de 2024

Um Dia Inesquecível de Ettore Scola

Una Giornata Particolare,
 
de Ettore Scola, 1977

Imagem daqui: https://www.superguidatv.it/

      No momento em que o Verão entra pelos poros dos corpos adentro, seria tão bom ver os filmes italianos mais recentes, a começar logo pelo Il Sole Dell´Avvenire, do Nanni Moretti, ou ainda de La Chimera, de Alice Rowerwacher, autora do maravilhoso “Lazaro Felice”, mas a verdade é que teremos que aguardar por outras geografias e paragens.
      Sabemos,  é certo, que não adianta o lamento, e  que os filmes anunciados nos suplementos dos semanários irão demorar  ou então nunca chegarão às salas de cinema do território insular. É assim que aceitamos um convite para assistir, em casa de amigo cinéfilo,  a clássico italiano de conhecido temática tão apropriada ao momento que estamos a viver. É que “Una Giornata Particolare”, de Ettore Scola, convoca-nos para um dos períodos mais perigosos da Europa do século XX – a ascensão do nazismo ao poder, na Alemanha, e do fascismo, em Itália. Sob o pano de fundo de democracias frágeis, emergiram regimes totalitários em que os seres humanos eram balizados segundo as cartilhas ideológicas rígidas, não havendo lugar para a individualidade ou diversidade. Um filme livre, carregado afectos e tolerância, com duas interpretações incríveis de Marcello Mastroiani  Sophia Loren.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

João Botelho e a "Oneilliana" Melancolia!

Um Filme em Forma de Assim de João Botelho
         O realizador João Botelho fez um filme cheio de palavras do Alexandre O´Neill. Este foi um grande poeta, um verdadeiro artesão na arte de bem tratar a língua portuguesa e um amante da capital portuguesa, a Lisboa onde nasceu e viveu. Durante o filme percebemos a importância da biografia literária escrita pela Maria Antónia Oliveira e também do ritmo e da força dos versos de um poeta que vagueava pelas ruas, frequentava tascas e a boémia lisboeta. "Um Filme em Forma de Assim" pode ter muito artificio mas também sabe como fazer vibrar esta "Oneilliana" melancolia à portuguesa!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

"Três Andares" de Nanni Moretti no Teatro Micaelense

     “O ser espectador de cinema conta muito na minha vida. Quando, durante a pandemia, esperei que reabrissem as salas, não quis vender "Três Andares" à Amazon, à Disney, etc. Esperei que as salas abrissem. Fi-lo porque ainda antes de ser realizador, produtor ou exibidor, falo como espectador. Uma das coisas que mais me faltaram durante o lockdown foi ir ver os filmes em sala. Não é uma questão ideológica ou nostálgica. Faz parte estruturalmente da minha vida, dos meus dias.”
         Nanni Moretti,  Ípsilon, 5 de Novembro de 2021.

Tínhamos muitas saudades de ver filmes de Nanni Moretti no grande écran: a sua ironia, o seu desplante crítico, a sua forma prazerosa de fazer cinema e estar na vida. “Três Andares” não tem nada disso, não há ironia, nem identificação fácil com um único personagem. É um filme duro, tal como o tempo que nos encontramos a viver. Os seres humanos, ali evidenciados, colocam-nos questões, as vidas dos condóminos não são a preto e branco e, talvez por isso, saímos dali sem nenhuma certezas sobre o bem e o mal. Baseado num romance do israelita Eshkol Nevo, o filme “Três Andares” é um outro Moretti que emerge, muito mais próximo de Thanatos do que de Eros, ainda que haja redenção no fim de tudo isso. 

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Diogo Lima: o Cineasta Irónico!

 

         

          Diogo Lima tem 28 anos e nasceu na Ribeira Grande, em São Miguel. Desde muito cedo quis fazer filmes para mudar o mundo, transformar o lugar onde cresceu, ser conhecido pelos registos audiovisuais que realiza. Ele era muito novo, quando aos dezassete anos, decidiu partir para Lisboa e estudar Cinema na Universidade Lusófona. Logo no segundo ano da universidade, realizou o documentário “PDL-LIS”, que acabou por vencer o Prémio Açores e o de Novo Talento Regional/ Restart no Panazorean Film Festival de 2012. Depois, prosseguiu o seu percurso em torno das imagens num registo pontuado pela ironia e crítica aos seus contemporâneos, mantendo o seu elo de ligação aos Açores, participando com regularidade com diferentes documentos visuais para o Festival Tremor ou Walk and Talk.
                Passou, entretanto, uma década desde o seu primeiro documentário "PDL-LIS", e agora Diogo Lima acabou de realizar o “Os Últimos Dias de Emanuel Raposo", uma média metragem de 46 minutos centrada na vida de um apresentador de televisão nos Açores, isto é, focada no aparecimento e desenvolvimento da televisão no arquipélago. O filme foi já apresentado no Teatro Micaelense, em Julho último, e, teve uma participação honrosa no Doc Lisboa, aguardando estreia na RTP Açores. É uma paródia sobre a vida deste apresentador cheio de trejeitos e manias, que vive ao sabor dos seus humores e feitio e é, sobretudo, uma crítica ao meio televisivo da altura, ainda que, também ele, o próprio meio, carregado de energia, criatividade e boa disposição.

domingo, 5 de setembro de 2021

Verão: Teremos Sempre o Norte

              São precisas três horas para chegar à casa de sempre. É aqui que se impõem os velhos hábitos e refeições a horas certas. Felizmente, a presença os alimentos de terras de cultivo ali próximas tal como o concentrado de ómega-3 no peixe local que, passado tanto tempo, continuam imponentes à mesa. Pelo meio do périplo familiar, ruma-se a Braga e ao Porto que parecem agora despertar de um longo Inverno, evidenciando já os habituais tons luminosos do estio e alimentando as peripécias e belezas monumentais de outrora.                              Estamos, assim, no Verão e as ruas de ambas as cidades nortenhas estão novamente cheias de turistas com línguas, trejeitos e modos de estar e sentir diferentes. Os forasteiros, em férias, regressam ao país da boa comida, do mar e do sol. Há, subitamente, peças de teatro e filmes para ver. Comecemos pelo Teatro Carlos Alberto com a peça “Act of Cod”, pela companhia de Dança e Teatro da Esquiva, numa celebração coreográfica à epopeia da pesca do bacalhau. Ainda na cidade Invicta, o Cinema Trindade mantém uma programação cinematográfica diversificada e eclética com algumas sessões a pertencerem aos clássicos italianos – “Milagre em Milão” e “Ladrão de Bicicletas” de Vitorio de Sica ou “A Rapariga da Mala” de Valerio Zurlini. No entanto, a escolha recai sobre “A Voz Humana”, do cineasta madrileno Pedro Almodôvar. O filme parte do texto e ideia original de Jean Cocteau, embora modificado, realçando a força do monólogo e estilo da actriz, Tilda Swinton. Este é o primeiro filme de Almodovar em inglês, que vive sobretudo do seu cenário teatral e da estética dita “almodovariana”, com as habituais cores quentes e garridas, numa volúpia policromática. Entretanto, há outros filmes vistos em cineclubes das cidades limítrofes para ver e que deste modo também renascem neste período estival com sessões em sala e com horários curiosos. Em primeiro lugar, "Las Niñas”, de Pilar Palomero, no Cineclube Octopus, no renovado Cineteatro Garrett. É uma história que nos mete pela infância e adolescência adentro, sendo um mergulho nesses dias de puberdade e dores de crescimento, ainda que repleto de lugares-comuns. Seguiu-se “Marighella”, de Wagner Moura, documento militante sobre os tempos dramáticos da ditadura militar brasileira, que viria a durar cerca de vinte e um anos (1961-!984). Na tela esteve exposto esse tempo de terrores e excessos, politicamente intensos e visíveis nos intérpretes e rostos políticos da altura, marcados pela violência e privação de liberdades e da democracia. Oriundo do Brasil, houve também tempo para assistir, na Solar Arte Galeria Cinemática, em Vila do Conde, o documentário "Onde Está Você, João Gilberto?”, de Georges Gachot, filme em que o próprio autor  decide ir ao encontro do criador da bossa nova, João Gilberto, mas em que sabíamos de antemão que isso não iria acontecer ainda que a expectativa e curiosidade estivesse sempre latente. Um belíssimo filme carregado de boas memórias e deliciosas temperaturas musicais transatlânticas.                                                        
         Por fim, “Sweet Thing”, de Alexandre Rockweel, que retrata o universo de três crianças à deriva num mundo em que os adultos se omitem da educação dos mais novos envolvidos que estão nos seus dramas e frustrações pessoais. Um périplo à infância que valeu essencialmente pela inesquecível banda sonora. E, talvez por isso, num verão que se pretendia renascido...teremos sempre o Norte!

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Sweet Thing de Alexandre Rockwell

    "Sweet Thing", de Alezandre Rockweel, aborda o universo de três criançass à deriva num mundo em que os adultos desapareceram ou estão entretidos ou "absorvidos" nos seus dramas pessoais. Com a sombra presente e imaginária da diva "Billie Holiday", a estrela do filme é a pequena Billie (Lana Rockweel) que nos encanta pela simplicidade com que nos guia pelas encruzilhadas e peripécias da sua vida, bem como  do seu irmão Nico (Nico Rockweel) e do amigo Malik (Jabari Watkins). A singularidade do filme reside nesse universo mágico que é a infância, ainda que povoado de fantasmas e travessuras, ausente de protecção e cuidado pelos progenitores e demais. A vivacidade e sagacidade dos personagens é acompanhada por uma banda sonora feliz e condizente, intuindo assim que nada melhor que a música para poder sentir as agruras da existência ou vivências felizes que povoam a tela onde se desenrola a acção. O poster aqui do lado do filme é pertença de Jana Jarger e espelha bem a curiosidade intrínseca que é percorrer estes noventa minutos duma infância à deriva, um universo adulto em ruínas, ainda que com hipótese de redenção, envolvendo estes personagens plenos de força e encantamento.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

"Mais uma Rodada" de Thomas Vintemberg

       "Druk" é um filme de Thomas Vintemberg e foi convertido para português com o título de "Mais uma  Rodada" e que, após ter estreado em Abril e uma presença vitoriosa em dezenas de festivais e na secção internacional dos óscares, chegou agora à sala do Teatro Micaelense.
    "Mais uma rodada" parte de um citação de um filósofo norueguês Finn Skårderud,   que sustenta que o nosso corpo necessita de 0,5 de álcool no sangue para funcionar como deve ser. Os quatro professores do filme passam a acreditar nisso, à semelhança de outras figuras históricas, ainda que tentem ludibriar e contornar quotidianos chatos e aborrecidos até que as coisas desatam mesmo a correr mal ou ultrapassam os limites do desejável. Nenhum mal vinha ao mundo se isto não se passasse  na organizada e ultra desenvolvida Dinamarca, país nórdico com altos índices de literacia e civilidade mas em que qualquer  iniciação à vida adulta é feita com a ajuda de quantidades colossais de álcool no sangue, com o hino nacional como pano de fundo. 
      Thomas Vintemberg filma obsessivamente Mads Mikkelsen (já o tinha feito em "Caça", 2013) - o seu olhar intenso e perdido, os seus movimentos delicados e bruscos, os seus gestos mais visíveis e secretos. Ele sabe, no entanto, que é um actor em estado de graça (basta ver a forma como dança no final), e é, pois, de uma segurança e brilhantismo que não se pode ocultar esta presença absolutamente estimulante e cativante. É por isso que "Mais uma Rodada"  faz jus ao título, sobretudo para lembrar que esta obra permanecerá na memória por muitos e muitos anos e, que quem a viu merece, por essa mesma razão, celebrá-la e fazer o respectivo pedido

terça-feira, 5 de maio de 2020

"A Herdade": um filme de Tiago Guedes

O filme “A Herdade”, de Tiago Guedes, acabou de ser exibido na RTP 1, em quatro episódios. Esta longa metragem teve um enorme impacto aquando da sua estreia, registando 70 mil espectadores em sala, venceu inclusive um prémio Bisato d´Oro (Melhor Realização) no Festival de Veneza tal como ainda foi nomeado enquanto película representante de Portugal nos Óscares do ano passado.
Tiago Guedes compôs aqui um retrato vivo do Estado Novo até ao Portugal contemporâneo através de uma família proprietária de um latifúndio a sul do Tejo. O filme incide sobretudo no final da ditadura, os acontecimentos do pós 25 de Abril até à normalização europeia, com a entrada na CEE. O realizador contou nessa tarefa com a colaboração do argumentista Rui Cardoso Martins, sendo que a tessitura psicológica e dramática das personagens esteve a cargo do realizador. Ressalte-se deste modo a representação do actor Albano Jerónimo, com trejeitos de galã irascível, ao interpretar o papel de João Fernandes, o dono da herdade, e que tem o condão de prender e seduzir o espectador nessa travessia à volta da nossa história recente. O “dono disto tudo” não poderia ter sido melhor representado num país e num mundo em transformação, aliás, numa mudança que não teria mais retorno. Curiosamente, a sua personagem faz muito lembrar outra do cinema português - a de “Tomás Palma Bravo”, obra de Fernando Lopes/José Cardoso Pires, em o “Delfim”. A acompanhá-lo estão também Sandra Faleiro (Leonor), Miguel Borges(Joaquim) João Pedro Mamede (Miguel),  entre outros, numa produção de Paulo Branco. “A Herdade” é, pois, um filme suado e bem trabalhado, com garra e uma banda sonora que cria tensão suficiente, para lá de uma fotografia que apela a um tempo lento e delicado. 

quarta-feira, 22 de abril de 2020

"Roma, Cidade Aberta" de Roberto Rosselini

         Aldo Fabrizi, Marcello Pagliero e Ana Magnani são alguns dos atores que fazem parte do elenco do filme "Roma, Cidade Aberta", de Roberto Rossellini. Este filme, obra debutante do neorealismo italiano, trata a ocupação durante nove meses da Itália pela Alemanha nazi durante a Segunda Guerra Mundial. A película retrata a vida italiana, pobre e desesperada, unida contra o invasor, criando redes de solidariedade social e disseminando a luta clandestina, envolvendo tipógrafos, padres e activistas políticos. Ana Magnani (Pina) é uma mulher solitária, que se descobre grávida, e que morre no dia do seu próprio casamento. A revolta alastra, no entanto as perseguições e o cerco vai aumentando a repressão.
          "Roma, Cidade Aberta" esteve disponível nesta quarentena pela Medeia Filmes, possibilitando acesso a uma obra imprescindível e fundamental do cinema mundial. 

domingo, 12 de janeiro de 2020

Ver Cinema a Norte


Tempo de interioridade, estação do frio e do recolhimento, espaço de encontro com as artes visuais. Cineclubismo em alta, condições renovadas e aprimoradas da sala do Cineteatro Garret – Póvoa de Varzim - para desfrutar da sétima arte, partilha e pluralidade de visões do mundo bem como diferentes cinematografias. A começar, o filme “Parasitas”, de Bong Joon-Ho, uma película aclamada com a Palma de Ouro no último Festival de Cannes, reconhecida com as melhores críticas da especialidade. Um filme que mistura diferentes géneros, ao mesmo tempo que centra a sua ação no interior de uma casa arquitetonicamente preparada para o efeito e no confronto “classista” entre duas famílias. Repleto de humor, imaginação e ironia sobre o “elevador social” coreano, “Parasitas” é um filme que agarra o espectador, provocando emoções díspares sobre o comportamento humano em diferentes situações. Chega a ser confrangedor e motivo de vergonha alheia o momento em que, aproveitando-se a ausência dos proprietários da casa, a família de vigaristas se reúne para celebrar o golpe e desvendar as motivações rasteiras que estiveram na origem daquele ajuntamento.
Ali mesmo ao lado, na segunda maior cidade deste pequeno país, onde já se viveram outras histórias e memórias, relembre-se que o Cinema Trindade, no Porto, é sala com mais de um século, continue, por isso, com nova dinâmica, atrai agora um leque alargado de amantes do cinema, sendo já novo pólo de encontro e curiosos interessados nos diferentes géneros da sétima arte. A quarta vida renascida deste espaço deve-se a Américo Santos, fundador da Nitrato Filmes, empenhado que está em dar cinema quatro vezes por semana aos portuenses e seus visitantes. O primeiro filme a ser visto foi “Rapariga Fácil”, de Rebeca Zlotowski, um drama em jeito de comédia, procurando nesse cenário estival, Cannes, sul de França, a leveza e diversão em tornos desses anos voluptuosos e sensoriais do período juvenil. A câmara acompanha duas jovens Naima e Sofia em plenas férias, as noites quentes de verão, o glamour e a luxúria das marinas. No final, a sabedoria pertence obviamente a Sofia. Surpreendente é o filme “Clara e Claire”, de Safy Nebbou, numa adaptação do romance de Camille Laurens. Uma película densa que, apesar do tom palavroso ou mesmo de grande pendor descritivo, recupera o gosto pela celebração da arte da representação, a diversidade das emoções humanas e das expressões faciais, denotando também um especial gosto pela duplicidade e exploração da “persona”, aqui expresso na personagem interpretada pela actriz multifacetada – Juliette Binoche. A actriz francesa interpreta aqui Claire, uma professora universitária, de meia idade, recém-divorciada, que inventa um perfil no Facebook, vivendo assim uma outra vida, jogando aí outra existência, virtual e arriscada.Um filme que é, per si, uma belíssima homenagem à actriz francesa, que nos continua a seduzir e agarrar  desde o princípio até ao final da narrativa, por sinal, muito bem engendrada. 

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

3xKaurismäki

         

             Agora que o filme "O Outro Lado da Esperança" se encontra disponível nas salas é possível ver ou rever em DVD estas três películas do finlandês -"Contratei um Assassino"(1990), "A Vida de Boémia" (1992) e "Le Havre" (2011), todos eles contidos na caixa da Midas. Mergulhe-se neste cinema nostálgico, na sua estética lúgrubre composta de melancolia e esperança. No visionamento de "Vida de Boémia" sobressai a amizade, em "Contratei um Assassino", o amor, e em "Le Havre" sobressaem os dois em conjunto, ainda a solidariedade. 
            Aki Kaurismäki vive entre a Helsínquia, Finlândia, e Monção, em Portugal. São muitos os que começaram a ver filmes os seus filmes nos cineclubes e certamente se lembrarão das reacções a esta obstinada e resistente cinematografia: estranheza e  perplexidade. Tantos anos depois as invectivas à particularidade e exceção mantém-se e há por isso que continuar  a exercer o salutar direito de ver e reflectir!

domingo, 31 de dezembro de 2017

Cineclube Octopus: o Quadrado a Fechar 2017!

De volta ao norte, à cidade atlântica de seu nome Póvoa de Varzim, hoje, sossegada, longe das catervas de gente em passeio dito alegre, afastada desse estio com praias repletas de gente em veraneio, a paisagem agora parece outra. É uma cidade líquida, com chuva, frio e uma calmaria interior que se instaura. Por isso há passagem pelo renovado Cine Teatro Garrett para espreitar a programação do Cineclube local pertencente ao “Octopus – Grupo de Investigação Científica e Animação Cultural”, que com este ano novo que se anuncia celebrará 40 anos da sua actividade ininterrupta, percorridos por diferentes gerações que souberam prestar serviço público na divulgação da ciência e das artes que mais gostavam. E, para quem por aqui andou nos idos anos 90 do século passado, sente nisso uma enorme admiração, o orgulho de já lhe ter pertencido e, entretanto, reparar que pouco ou nada mudou neste espírito subjacente à sua acção. A isso acrescente-se uma programação cuidada e actual na escolha dos filmes e ainda um espírito cineclubista digno desse nome. Basta ver a lista de filmes do mês de Dezembro, que começou logo com “A Fábrica do Nada”, de Pedro Pinho, uma película portuguesa galardoada em muitos festivais por onde tem passado, seguiu-se a longa-metragem dos irmãos Safdie “Good Time” (Quem ainda se lembra de “Vão-me Buscar Alecrim”?), depois veio “O Outro Lado da Esperança”, do finlandês Aki Kaurismäki, e, por fim, o vencedor da edição deste ano do Festival de Cannes – “O Quadrado”, de Ruben Östlund. Este último com a sala praticamente cheia, caucionada pela qualidade de uma projecção cinematográfica irrepreensível.
Relativamente à premiada obra de Ruben Östlund, apelidada com o curioso título de “O Quadrado”, podemos concluir que se trata de um filme deveras instigante, dilemático, e, porque não dizê-lo, inteiramente hodierno. Logo para começar, vê-se que é um filme atento e "observador" da arte dita contemporânea e da influência social que gira em torno do mercado da arte e dos seus fiéis seguidores. A trama gira, portanto, em torno de um curador bem sucedido que no decorrer da preparação de uma exposição se vê espoliado da carteira, telemóvel e botões dos punhos do avó à saída do metro. Este acontecimento aparentemente perturbante irá funcionar como bola de neve para novos episódios que se sucedem em catadupa não permitindo ao espectador respirar. Aqui entram, pois, os diálogos dilemáticos de Ruben Östlund, nada é dado como garantido e as certezas vão sendo lentamente postas em causa, aproximando-se do caos e da permanente tensão até à alucinante cena que ocorre durante o jantar de apresentação.
         Este filme, por sinal sintoma e expressão de uma Europa polimorfa e diversa, atente-se na origem e feições faciais dos actores e actrizes, deveria ser motivo de orgulho a presença dum cineasta que interroga as convenções, põe em causa a redoma em que vivemos e permite-se inclusive duvidar do "lugar de onde cada um de nós fala", convocando-nos para uma reflexão sobre o "outro", porventura, aquele que excluímos dentro de nós. A parte final é reveladora dessa humanidade que tarda em chegar, esse reencontro connosco que só assume clareza pós a queda e onde não nos devíamos esquecer do princípio que nos devia reger: a dignidade. É essa dignidade que não precisa de nenhuma figura geométrica para se demonstrar, melhor dizendo, do lugar onde estamos nem sempre nos é permitido qualquer redenção!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

"A Sonata de Outono" de Ingmar Bergman



        Bergman quis abordar a relação parental em “Sonata de Outono”, para isso juntou na tela duas das suas actrizes predilectas: Ingrid Bergman e Liv Ullmann. O filme mostra uma mãe, pianista de profissão com uma carreira ascendente, e uma filha à beira do precipício emocional. Quando se fecham os nossos próprios olhos e apenas se ouvem estes diálogos, esse sussurrar entre mãe e filha é audível o transtorno, sendo que é como se estivéssemos perante um ajuste de contas na idade adulta. Incomodados, pois, sentimo-nos ao observar esta arena familiar e que, à medida que o filme avança, vamos também percebendo que esta espiral é tal e qual o debulhar duma cebola, já que presenciamos várias camadas, isto é, o alumiar duma relação agitada marcada essencialmente pela ausência e por tudo aquilo que nos vai escapando em função de outras ambições menos terrenas, imersos que estamos na voragem invisível da passagem dos dias e das estações.
         Este filme convocou também e, pela primeiríssima vez, o encontro entre um realizador e a actriz conhecidos além fronteiras europeias, ambos oriundos de Estocolmo, mas com percursos e posições estéticas diferentes. Conta-se que o reencontro e as filmagens terão sido turbulentas e com direito a várias peripécias, narradas ainda hoje pela actriz norueguesa, Liv Ullmann. É certo que as salas de cinema já não comportam estas intimidades e espessura cinematográfica mas valeria bem a pena tentar. 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Miguel Gonçalves Mendes: Cinema Instigação!


         Organizado pela Galeria Arco 8, terminou na última quinta-feira um ciclo de cinema dedicado a Miguel Gonçalves Mendes. Os seus documentários foram sendo exibidos ao longo de três semanas deste recente mês de Setembro e sempre com entrada gratuita. O ciclo começou com “Nada Tenho de Meu”, seguindo-se “Cruzeiro Seixas: Cartas do Rei Artur” (aqui enquanto produtor), depois “Autografia” e, por fim, “José e Pilar”. Estes dois últimos filmes apresentados e, que tiveram lugar na passada quarta e quinta-feira, contaram com a presença do realizador que acedeu conversar e acolher perguntas duma vasta e interessada audiência que aproveitou a presença deste em território insular. Sendo assim, uma palavra de apreço e gratidão para o Pedro Bento, sempre ele, a pontuar a chamada “actividade cultural alternativa do Outono”, marcando assim a rentrée da ilha e anunciando a partida do estio de calendário, ainda que este tarde em arrefecer. Graças a ele, e à sua persistência, foi mais uma vez possível ver cinema de cariz documental e, essencialmente, instigante!
Registe-se, assim, que todo o trabalho documental visa dar conta do objecto em questão e aproximar esse mesmo objecto do público espectador. Estes filmes não só aproximaram como também promoveram o pensamento sobre aquilo que somos e andamos à procura. Comece-se pelo inquietante “Nada Tenho de Meu”, que nos pareceu ser o trabalho mais complexo dado tratar-se de uma procura da identidade individual e do real, sabendo de antemão que grande parte do que contamos sobre nós próprios há muito de inventado, ficcionado. Seguiu-se “Cruzeiro Seixas: Cartas do Rei Artur”, documentário revelador de uma paixão entre essas duas figuras maiores do surrealismo, amantes  das pintura e das letras, aqui revelado em registo epistolar e intimista. Nada que já não tivéssemos sondando no visionamento de “Autografia”, apresentado algum tempo antes e ao que se sabe um retrato livre e despojado da vida dum poeta maior da língua portuguesa, infelizmente já desaparecido: Mário Cesariny. Neste documentário vemos a importância da confiança e da liberdade discursiva criada entre quem filma e se deixa filmar. Por último, o visionamento de “José e Pilar” que são três actos de amor em conjunto, um olhar errante e exaustivo sobre uma relação a dois, o poder e a força impressa no outro por quem sabe que só o amor nos leva pela estrada mais directa ao coração. Sim, é verdade, aqui vemos um homem que escreve novelas e uma mulher que se dedica a tomar conta da vida deles os dois. Uma experiência intensa, de tão rica como imaginada, ao intuir o movimento realizado inicialmente até o sabermos, por fim, concluído.
No final de todas as sessões, ficámos a saber que Miguel Gonçalves Mendes já encerrou as filmagens do seu documentário, “O Sentido da Vida”, produzido por Fernando Meirelles, encontrando-se agora em fase de montagem. As filmagens duraram quatro anos e o filme foi rodado na Islândia, Brasil, Macau, tendo começado em Vila do Conde. Assim o possamos rapidamente ver tal qual esperemos que seja mais uma razão para que, à semelhança dos sete ilustres convidados presentes na narrativa, o realizador possa continuar a dar a conhecer o seu trabalho e, assim, regressar ao arquipélago açoriano.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Coração de Cão no Teatro Micaelense

Coração de Cão de Laurie Anderson
(4 de Março, às 21h30)
        
     "Há imenso sofrimento no mundo, imensa tristeza, a ideia é não ficar imobilizado, não nos tornarmos sofrimento e tristeza. Porque essa filosofia é um sistema diferente daquele que avalia através do trabalho: estamos aqui para nos divertirmos. Valorizo essa filosofia porque no meu trabalho tenho de lidar com coisas que não são boas."
Laurie Anderson, in Ípsilon