sábado, 17 de janeiro de 2026

Jardim de Inverno

Um rumor de mar ao perto
e a breve agitação das rosas

-não aguardes outro sinal do vento
este serão sempre jardins da morte.

Caminhas entre palavras, inscrições
como nuvens baixas a teus pés. Os nomes 
mais leves do que as datas 
ardem ainda no lume que os sustenta,
uma lâmina abre os pulsos da infância, a mão
da criança noutra mão sobre portas há muito fechadas.

Agora, a Traurmasch de Mahler 
daria o fundo musical se a estridência dos metais 
não acordasse a quietação dos rostos 
captados no instante que em que a câmara os deixou
abstractos para sempre 
expostos à comoção alheia.

Deixa-os assim ao peso da chuva 
quando já não lhes resta um óbolo que redima a solidão
e os próprios vivos se interrogam sobre o desamparo
que será o deles no tempo de enfrentarem o silêncio 
a sua desolação irreparável.
(Janeiro de 2021)

Urbano Bettencourt,
in "Antes que o Mar se Retire", Companhia das Ilhas, 2023.

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