sexta-feira, 20 de março de 2026

Sexta-feira de Rui Duarte Rodrigues

Novela policial
solo de jazz no gramofone
na vida
tudo assim lhe digo
 
porque é sexta-feira
e o meu aborrecimento
não tem mais cabimento
neste compartimento amontoado de livros
discos jornais roupas fumo
 
nevoeiro na cidade 
porque é sexta-feira
 
na vida
tudo assim lhe digo
e endereço-lhe este poema de forma muito especial

porque é sexta-feira
duche frio, leite, bolo
novela policial
e solo de jazz no gramofone
all the things you have
(Konitz/Mulligan)

in "Com Segredos e Silêncios", 1994.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Márcio Vilela: Previsão de Deriva

Previsão de Deriva no Arquipélago - CAC
https://arquipelagocentrodeartes.azores.gov.pt/
     
            “Previsão de Deriva” é um projecto de Márcio Vilela, conta já com cinco anos desde a sua ação artística e científica encetada durante uma residência artística no Pico do Refúgio, em São Miguel, Açores. O resultado é um conjunto de imagens, filmes e objetos que nos mostram a sua demanda existencial junto daquela força da natureza. 
          O artista visual esteve à deriva 56 horas numa balsa salva-vidas a 7 milhas da costa, ainda que monitorizado pela marinha, pela Autoridade Marítima Nacional (AMN) e pelo Comando da Zona Marítima dos Açores -Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo de Ponta Delgada (MRCC).
          Desta feita, “Previsão de Deriva” incita à reflexão, um apelo à imaginação e ao mergulho existencial, pois tal como escreve José Maçãs de Carvalho no texto de apresentação: “Estar à deriva é estar entre a imprevisibilidade e a liberdade absoluta, num lugar fora. Fora de controlo e do conforto num teste à capacidade de enfrentar aquilo que nos é estranhamente familiar”. 
       Esta exposição, patente no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas até ao dia 14 de Junho, é uma proposta da Curadoria de Artes Visuais de Ponta Delgada 2026, Capital da Cultura. Atentemos, pois, às belíssimas imagens deste oceano atlântico e mar largo que temos pela frente.

domingo, 15 de março de 2026

24 Frames: O Adeus às Imagens

            Abbas Kiarostami despediu-se do cinema há dez anos e durante a sua existência foi também um apaixonado pela pintura. 
         Há muitos anos, no Curtas de Vila do Conde, foi um privilégio assistir a uma retropectiva dos seus filmes - " O Pão e a Rua", 1970 e "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?", 1987 - e que dessa forma nos mantiveram atentos para o que viria a seguir: "O Saber da Cereja", Palma de Ouro em Cannes em 1997 ou o "Vento Levar-nos-á", de 1999, o pináculo na carreira de Abbas.
     O último documento cinematográfico de Kiarostami, "24 Frames", a película que nos foi dada a possibilidade de assistir na noite de ontem, foi exibida a título póstumo e mostra-nos o elevado gosto pela fotografia e pela pintura do realizado iraniano. A partir das suas próprias fotografias e da sua interpretação de um quadro de Bruegel, Kiarostami trabalha a animação das imagens a seu bel prazer, reflectindo sobre os elementos naturais, a humanidade, o tempo que passa, o antes e o depois de cada frame no trabalho de composição. No fundo, um exercício sobre as origens e o futuro do cinema.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Ante - Primavera de Gastão Cruz

Antes de Maio quando florirá 
na rápida viagem tropical
o roxo ramo do jacarandá 
há-de o poema dizer que não há sal

que para sempre salgue a terra Já
terá a Primavera virtual
nascido em folhas novas Haverá 
pássaros que regressam ao beiral

abandonado como nos dizia 
nos livros de leitura aprisionada
em tempos de incerta poesia 

Antes que a roxa flor cubra a entrada 
do verão sob a luz do meio-dia 
dá folhas o arbusto na estrada 

in "Os Poemas", Assírio&Alvim, 2009.

Ontem, escrito numa parede da cidade

 A primeira vez que ouvi morna chorei

quarta-feira, 11 de março de 2026

terça-feira, 10 de março de 2026

Testemunha Poliglota


Português: Testemunha 
Castelhano: Testigo
Italiano: Testimonia 
Francês: Temoin 
Alemão: Zugge 
Inglês: Witness 
Polacoświadek
Sueco: Bevittna
Eslovaco: Svedok

IAC: Edição de Meu Poema é Isto

Meu Poema é Isto
de Rui Duarte Rodrigues
14 de Março, 18h30
Galeria do IAC


 

sábado, 7 de março de 2026

Poemas Pré-Primaveris de Naná da Ribeira

 Fole e Folia 

À mesma hora o mesmo dia
Afazer rotina calculada 
Foi-se o fole vaga folia 
Prender à casa arrastar o corpo
Nada se alcança mínimo esforço 
Desfeito lance transcendência 
Respiro firme quase asfixia 
O sossego não redime só magoa
Em magna alegria por ferver 

Soro e Sopro

Sobrevive no eterno presente 
O alimento de vida mastigado
Anémonas cavadas flores do mar 
Curso de memórias trituradas 
Nativos extasiados entorpecidos 
Aquecem o balão bem lá no ar 
Neste sopro que viaja mais lento que 
a luz

sexta-feira, 6 de março de 2026

Acende de Thurston Moore

Chego acreditando na tua luz 
O doce receptor na tua mente
Aumenta-o completamente 
Ouvir-te a chegar e a salvar o dia
É sonoro e claro o teu sinal, querida
Acende-o e tira-nos daqui 
Aumenta-o, estamos no vermelho
Traz-nos de volta à livre divindade 
Acende o teu feixe de televisão 
Liga-te à noite do anjo 
Liga-te à noite do anjo 
Acende o sonho da rádio 
Acende a tua luz divina

in »Rock N Roll Consciência« - Letras, Tipografia Micaelense, Tradução de Sara Coutinho, Ponta Delgada, Açores, 100 exemplares.

terça-feira, 3 de março de 2026

Não nos livramos da Guerra!

La Razon: diário de Madrid.
Tiragem: 41 mil exemplares.
 

Sal e Pele de Naná da Ribeira

Previsível reunião de sal e pele

Avançou no estio  à beira-mar

Guardadas distâncias só vontades

Bocas gretadas no calor a degustar

Céu lavado com árvores na amurada

Vaivém aflito de ondas a quebrar

Face e inquietude que tudo absorve

No ribombar da espuma interminável

Postal da Exposição no CAC

    O que Permanece: Memória do Edifício
                 ARQUIPÉLAGO
      Centro de Artes Contemporâneas 
            Fevereiro- Dezembro, 2026

segunda-feira, 2 de março de 2026

Afonso Dorido: Catarse no Colégio!

        Estamos em 2026, Ponta Delgada é a Capital Nacional da Cultura e a Igreja do Colégio é o palco escolhido para o músico Afonso Dorido, Homem em Catarse, apresentar o seu trabalho que já leva uma década de projectos musicais.
       O concerto deste músico, nascido e criado em Barcelos e a viver actualmente em Braga, abriu com “Paredes em Flor”, do álbum "Catarse Natural", lançado em 2024. A viagem sonora prosseguiu com  “Mergulho no Cávado”, “Depois do Vendaval”, tocado pela primeira vez ao vivo, “O Tempo Vem Atrás de Nós”, tema de complexa execução técnica e propulsão sonora, onde este explora diferentes territórios da guitarra e da própria voz. Desta feita, voz e guitarra iam, assim, povoando de forma discreta e etérea a Igreja do Colégio, sempre em crescendo seguido de uma trilogia de canções a tocar nos assuntos da actualidade - “Gueto da Paz”, “Padrão dos Encobrimentos” ou “Hipoteca”, sendo esta última um hino ao terrível problema da habitação que perpassa a sociedade contemporânea. O espectáculo fechou com “Guarda”, um tributo à cidade da Beira Alta, que mais parecia um lamento sincero e amargo sobre esse interior invisível e esquecido dos poderes públicos, tendo tido, por isso, aplausos de pé de toda a plateia açoriana. 
        Num momento em que a tendência é para a fruição dos objectos culturais em espaços domésticos, eis que nos próximos meses do ano o convite é para nos reunirmos nos espaços culturais da cidade, sejam eles onde forem, sendo este concerto um tónico e 
agradável prenúncio de tudo o que ainda pode estar a caminho.  

Provérbio

Em Março, tanto durmo quanto faço