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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Notas de um Diário

1.Um músico que queixa por outro elemento da banda não arranjar tempo para ensaiar pelo motivo de encontrar envolvido nas danças de Carnaval.
2.Um arquitecto desempregado que diz que o inverno açoriano é muito difícil de viver e que o verão terceirense é deveras espectacular.
3.A rapariga que nunca teve necessidade de estudar para fora porque não gostava da escola e que mesmo assim foi viajando em férias.
4.O jurista que diz à mesa do café que se gasta mais em prisões do que na educação das pessoas e que a preocupação destas sociedades é satisfazer o consumo dos seus cidadãos.
5.Do leitor de clássicos que se espanta quando o grego antigo anuncia em livro de comédia ser proveniente de Atenas, o país das belas trirremes.
6.O estudante que se desloca diariamente ao aeroporto para tirar fotografias a aviões de transporte, de combustível e de carga, e outros de cariz militar.
7.O historiador que escreve sobre a tertúlia do café que era frequentado por intelectuais , artistas plásticos, músicos, jornalistas e figuras típicas.
8-Um futuro fotógrafo paisagista que ao fotografar a rocha basáltica com a inscrição “Belo Abismo” reconhece não ter coragem para mergulhar nas águas com a temperatura do Inverno.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Incomoda não haver...

Uma das capas do disco
    Amigos terceirenses mostram-me a curiosa capa do disco "O Cantar Na M´ Incomoda" - disco de 1998, estranhamente esgotado! Extraordinário trabalho de Carlos Medeiros que há dois anos conheci na "sede" do Boletim Cultural
Fazendo(https://issuu.com/fazendofazendo), na Ilha do Faial. Há músicas que não se cansam de ser escutadas, como são as canções florentinas: "O Marujo", "Santiana" e "Rema", esta última tocada vezes sem conta pelo José Serpa no verão passado, em plena Fajã Grande, na Ilha das Flores, com a sua guitarra portuguesa. Músicas maravilhosas, como bem sabemos! E assim chegamos, contemporaneamente, ao Pedro Lucas e aos dois trabalhos do "O Experimentar na M´Incomoda", CD´s que homenageiam o trabalho do Carlos Medeiros e do José da Lata, mas que também não se encontram aqui à venda ou disponível ao público em nenhum local. Quando saiu recentemente o "2: Sagrado e o Profano", disco agraciado com as melhores críticas na imprensa continental - "Público" e "Expresso",  pensou-se que finalmente o(s) disco(s) se estenderiam às mais diferentes ilhas açorianas, o que não se veio a verificar. Por outro lado, continua a ser uma surpresa o silêncio da imprensa terceirense, omitindo até ao momento a existência do disco, não mencionando ou fazer qualquer referência a este trabalho. Gosto muito dos trabalhos e da voz do Carlos Medeiros, dos discos do Zeca Medeiros, da reinvenção do Pedro Lucas, mas à semelhança do Museu das Flores que fechou no mês de Agosto de passado, continuarei sem perceber por que é que os discos destes músicos não estão disponíveis em todas as ilhas em qualquer instituição pública açoriana. Os Açores são ilhas de bons e conceituados músicos - dizem que muito disso se deve às Filarmónicas -  mas continua, no entanto, a faltar qualquer coisa para uma distribuição efectiva dos autores açorianos. Qualquer forasteiro que aqui chegue devia poder encontrar mais qualquer coisa do que o folclore tradicional. 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Diários de Angra

        Ainda sob o efeito de "O Menino Mija", tradição que se prolongará até meados de Janeiro, passa-se à noite pelo Teatro Angrense e é de pasmar perante a beleza deste edifício considerado património de utilidade pública. Data do século XIX a sua construção, remetendo de imediato para o imaginário dos tempos áureos  da ópera italiana e do teatro romântico. Hoje a necessitar de obras urgentes de remodelação e recuperação, fala-se de uma verba de oitenta mil euros mas ainda sem data marcada para a sua execução. Imagine-se, portanto, as noites em que a população terceirense invade esta rua (Esperança de nome) e diminui a ventania nocturna que aqui se vive, insuflando vida e animação a este distinto lugar citadino, tão próximo da baixa e dos seus cafés. E quem já viu este teatro aberto, em forma de ferradura, exemplar único em Angra do Heroísmo e uma referência em todo o arquipélago, sabe como é necessária a sua abertura e actividade regular deste espaço para a vivência cultural da Ilha Terceira. É mais que sabido que a diversidade cultural irá diminuir em 2013 perante os cenários negros que se nos apresentam diariamente, basta verificar que os  Açores foram a região que mais reduziu o seu investimento na cultura (-23,6%), daí que este velhinho Teatro Angrense, belo e renovado, poderia ser um espaço de resistência e afirmação da cultura e identidade terceirense e açoriana.   

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Diários de Angra

       Os cafés de Angra do Heroísmo são uma seguríssima porta de entrada nesta cidade património da humanidade. Os cafés formam a personalidade da Angra convivial, tolerante, conversadora, aberta ao discurso do outro e da boémia, evidentemente. O sítio  mais badalado culturalmente é a "Pastelaria Portugália", antigo poiso de jornalistas, músicos, poetas e gente das mais diversas linhas e cruzamentos. Há também uma rua viva e com a preguiça típica das  esplanadas, que é certamente a Rua da Palha, sempre movimentada. Ali é só comprar o jornal e  seguir o caminho e o cheiro que exala dos cafés até às mesas expostas na rua com o mar ao fundo, com muito comércio e lojas de roupa e artesanato para apreciar. Quem resiste à Menina de Canela ("Cinnamon Roles") feitos com receita pessoal, cartão de visita do "Marquês", confeccionados por quem já esteve e regressou das Américas? Angra é certamente terra de doçaria e  com variedade de petiscos para o almoço, lanche ou mesmo jantar, fácil de comprová-lo  no Petiskaky, porto de abrigo de estudantes e demais clientes oriundos da escola secundária, tribunal e direcção regional da cultura, dos edifícios citadinos que ali gravitam. Na baixa, há também o "Marcelinos" que anima um centro há muito despovoado e com pouca ou quase nenhuma animação nocturna, sobretudo aos dias da semana. Aos fins de semana, é difícil não dar conta da animação do Dona Amélia, no Alto das Covas, muito bem servido de jornais e livros e sempre com música a condizer, à escolha do freguês ou cliente com gosto ecléctico e aberto às diferentes andanças musicais. E como faz falta uma sala de espectáculos em pleno de actividades e que possa servir de alimento e oxigénio à respiração nocturna destes cafés que à noite estão mais que desertos ou então inundados e entupidos de imagens televisivas de jogos da bola repetidos ad nauseam...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Diários de Angra

       Visita ao Pico das Cruzinhas no Monte Brasil, paisagem protegida, para  obter assim uma panorâmica geral da cidade. Há oitenta anos ergueu-se aqui um padrão para assinalar os quinhentos anos da descoberta da Ilha Terceira. E daqui é possível ver a imponência arquitectónica da cidade e absorver Angra do Heroísmo sob a forma nebulosa e melancólica, há muito considerada monumento regional.Passaram trinta e dois anos sobre o enorme terramoto que arrasou com Angra do Herosímo, tendo este  destruído a baixa da cidade e uma das suas mais emblemáticas igrejas, a Catedral da Sé  (séculos XV e XVI), que teria novo episódio alguns meses mais tarde com a ocorrência de um incêndio que destruiu a talha dourada. A cidade seria reconstruída na sua forma original  e reconhecida pela UNESCO como Património da Humanidade. Pela manhã houve também visita ao Mercado do Duque de Bragança, na Rua do Rego, para adquirir bens essenciais e participar no festival de cores ali disponível: anonas, castanhas, laranjas, bananas, ervas aromáticas, peixes vários e legumes com fartura. Longe do frenesim automobilístico das vetustas e admiráveis ruas da baixa, aqui ainda é possível conversar, discutir os preços, os cortes e os impostos, bem como caminhar como quem participa num espectáculo policromático com a banda sonora de palavras amigas e discretas. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Diários de Angra

   Caminhar pelas ruas antigas de Angra do Heroísmo é descobrir-lhe o peso e as virtudes arquitectónicas do passado, passear e ver cada canto e espaço iluminado, ainda que à noite estes passeios estejam desertos e as estradas ocupadas por carros estacionados. Mesmo assim, com o passado espelhado nas fachadas, varandas e janelas, nem um único sinal que seja, um rasto possível ou imaginário da vivência da família ou da vida  de José Júlio de Souza Pinto, pintor naturalista, angrense de nascimento, de quem José Augusto França disse ser "o mais brilhante dos paisagistas". Leio também que começou a desenhar aos quatro anos de idade, por influência da mãe, Anna de Souza Loureiro, também ela pintora, e que este ficava com o coração despedaçado sempre que lhe tiravam a lousa com os seus desenhos. É destas árvores com troncos que continuam a folha da vida por gerações a fio que impressionam e nos querem fazer acreditar na transmissão do "gene das artes". E, entretanto,  em deambulações pelo jardim do Duque no centro da cidade -   recentemente em livro de imagens com "humor e ternura" pelo fotógrafo Paulo Garrão - que imagino essa mesma continuação da tradição de pintores e artesãos da palavra ao longo dos tempos. O mesmo espanto sentido ao saber que o poeta angrense Rui Duarte Rodrigues (autor do livro com o título dos títulos - "Os Meninos Morrem dentro dos Homens", 1970) deixou descendência literária em Tiago Prenda Rodrigues, autor de um promissor  livro de poemas com o singelo nome de  "1" (2001, edições teatrinho, espaço de criação), estando este acessível em estantes de cafés da vida angrense, como é o caso do Dona Amélia.  Em suma, as mãos percorrem esse trabalho de asa que é a transmissão dessa correia do passado até ao presente e a partir dali vivenciá-lo, irradiá-lo de energia e amplitude, mantendo a chama da vida  acesa e contagiante. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Diários de Angra II

A Recolha das Batatas, 1898, Óleo sobre tela,
Paris, Museu d'Orsay
  Procuro por aqui sinais da existência do pintor José Júlio de Souza Pinto. O pintor nasceu  em Angra do Heroísmo, a 15 de Setembro de 1856 e era filho do Dr. Lino António de Souza Pinto, natural de Valongo, e de Ana de Sousa Loureiro, da freguesia da Sé, no Porto. O seu irmão, António de Souza Pinto, também se dedicou à pintura. Descubro assim que viveu nas ilhas atlânticas até aos catorze anos, para além dos primeiros anos na Ilha Terceira, passou por Santa Maria e São Miguel. No Museu de Angra do Heroísmo há alguns desenhos dele mas, segundo vozes avisadas do museu, não há qualquer referência na obra deste à sua vivência na ilha Terceira. E pergunto: o que é que terá acontecido? Primeiro, a ausência de referências na obra do pintor ao seu local de nascimento e crescimento, por outro lado a inexistência por aqui de uma obra, uma rua, uma placa evocativa da sua origem terceirense. É curioso que este tenha pintado "A Volta dos Barcos" aos trinta e cinco anos...