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sexta-feira, 2 de novembro de 2018
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
Um Poema de Daniel Gonçalves
Talvez
valha a pena, falhar tantas vezes, corrigindo
a moda
dos vestidos, mudando o nome da moeda,
a taxo
do juro que nunca te esquecerei, como
paciência
que garimpa o fundo dos teus olhos, à procura
do que
escapou, como fissura que se abrandasse,
água que
nunca escaldasse, amor que ficasse,
voluntário
e feliz, como uma palavra sem defeito.
in Estes Assuntos Tristes, Labirinto, 2016.
terça-feira, 30 de outubro de 2018
domingo, 28 de outubro de 2018
Castello Branco: O Peso do Meu Coração
Você não é
Quem você
pensa que é
Você não tem
Quem você
pensa que tem
Pra entender
o amor
Faça um
trato com a fé
Diz que o
céu, quando quer
Força o
braço que for
E abrir o
mar aí
E abrir o
mar, aí
Pra entender
o amor
Faça um
trato com a fé
Diz que o
céu, quando quer
Força o
braço que for
E abrir o
mar aí
Fica mais
leve
O peso do
meu coração
Fica mais
leve
O peso do
meu coração
álbum "Sintoma" de 2017.
sábado, 27 de outubro de 2018
terça-feira, 23 de outubro de 2018
A Mala sem Fundo de Vivien Meyer
Caminhamos lado a lado
ao quarto daquela residência
ao quarto daquela residência
despertos pela guita e o deleite
do que ambos lograríamos pronunciar
promessas de enigmas a horizonte
contidas pelo fresco hálito da semelhança
anseios num desejo em torvelinho
sopro imprevisível que alevanta moinhos
sopro imprevisível que alevanta moinhos
demais estruturas assentes em antigos pilastres
o desatino de espelhos por revelar
já sem o temor da fornalha iminente.
já sem o temor da fornalha iminente.
Antes que o Retiro se Assome
Despedimo-nos daquele ensaio
imprevisto,
o cabelo molhado por entre as
folhas do jornal,
o ar distante a deslocar-se a
oriente,
análogo à fuga dos garajaus no anil
do céu,
aportamos ali, acanhados em permanecer,
sem garantias dum destino radiante,
o mal que nos fazem os pingos da
chuva, dizes,
somente a mortalha, o espiar do
sol,
agonia das nuvens, ventosas, inquietas,
agonia das nuvens, ventosas, inquietas,
vão connosco, sem rota, à deriva,
de olhos bem fechados,
antes que o retiro se assome.
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
No Sorriso Louco das Mães de Herberto Helder
No
sorriso louco das mães batem as leves
gotas
de chuva. Nas amadas
caras
loucas batem e batem
os
dedos amarelos das candeias.
Que
balouçam. Que são puras.
Gotas
e candeias puras. E as mães
aproximam-se
soprando os dedos frios.
Seu
corpo move-se
pelo
meio dos ossos filiais, pelos tendões
e
órgãos mergulhados,
e
as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas
cabeças filiais.
Sentam-se,
e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo
tudo,
e
queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto
o amor é cada vez mais forte.
Pequeno excerto de do
poema «Fonte», de Herberto Helder, publicado
em A Colher na Boca, 1961.
domingo, 21 de outubro de 2018
Parte Poética
Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar
Concluindo, só pelas duas da manhã,
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.
José Miguel Silva, in "Últimos Poemas", 2017.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar
Concluindo, só pelas duas da manhã,
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.
José Miguel Silva, in "Últimos Poemas", 2017.
sábado, 20 de outubro de 2018
Da Escrita
"Isabel Lucas: Os
Cus de Judas é
publicado logo depois de Memória de Elefante. Pela primeira vez aprofunda o
tema da guerra.
António Lobo Antunes: É difícil falar de guerra. Não sei se a guerra era tanto o tema quanto o
espanto daquele rapaz que teve uma infância agradável. Os meus pais não eram
ricos, não havia semanadas; se queríamos dinheiro, tínhamos de o ganhar. O meu
pai ganhava pouco. Era o desespero da minha mãe, porque ia para o consultório
e, em vez de levar dinheiro aos doentes, levava-os para casa. Não era capaz de
levar dinheiro às pessoas porque estavam doentes. E nós éramos seis filhos.
Tínhamos uma casa grande que o meu avô, pai do meu pai, tinha comprado. Ele era
rico. Chamava-se António Lobo Antunes e eu adorava-o. Quando soube que eu
escrevia, tinha eu 8 ou 9 anos, chamou-me e perguntou-me: “Ouve lá, tu és
paneleiro?” Eu não sabia o que era paneleiro. E fui perguntar e a explicação
deixou-me ainda mais aflito."
Excerto da entrevista de Isabel Lucas a António Lobo
Antunes, Ípsilon, 19 de Outubro
de 2018.
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