domingo, 14 de maio de 2023

Da Literatura

         "A literatura foi para mim um instinto de defesa. Como dizia Pavese, a literatura é uma defesa contra as ofensas da vida. E é também uma forma de vingança."

Javier Cercas, entrevista de José Riço Direitinho, Ípsilon, 12 de Maio de 2023.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Rádio: Vidro Azul!

       Há quanto tempo ouço esta voz feminina a dizer-me de forma sussurrada ao ouvido: “Vidro Azul, duas horas de viagem, neste e noutro tempo, por paisagens de sombra e nevoeiro, um programa de Ricardo Mariano”? É muito realista, simples até, abrir o computador e soltar a mente para ouvir um programa de rádio quando nos dá na real gana. E, certamente, neste mergulhamos convictamente de que estaremos ali connosco e em silêncio, curiosos, a descobrir músicas, canções e temas que farão parte da nossa vida muito em breve, não fosse este “Vidro Azul” um círio no meio da escuridão que promove e faz culto e atenção da música nova que se vai fazendo por esse mundo fora. Agradecido, pois claro!

terça-feira, 9 de maio de 2023

Maio, Marítimo, Maio

     

Fotografia de Frederico Rocha
   Entramos no mês de Maio, vida e obra das flores, dizem. O tempo continua nublado, invernoso, imperturbável no seu cinzento operante, tão presente na inibição dos corpos e das energias. No entanto, no mar açoriano esta é a época em que vemos cruzar conjuntos de baleias azuis, não fossem estas os maiores animais existentes nas funduras do Atlântico. Os biólogos marinhos asseveram que a riqueza alimentícia do fundo do mar e as quantidades de krill são usados pelos cetáceos enquanto “estações de serviço”, fazendo com que estes se abasteçam de alimento, antes de rumarem até próximo dos calotes polares. Quem já presenciou esta passagem, no mais pequeno fogacho que fosse, soube apreciar tamanho acontecimento e júbilo visual, captando e guardando para si imagens nunca vistas. Por esta altura, os Açores voltam a ser a porta de entrada no continente europeu para milhares de velejadores e temerários do mar. As marinas ficam ocupadas de todo o tipo de iates, veleiros, navios, cruzeiros ou outro tipo de embarcações em circulação. Por aqui passam exemplares dignos de figurar na arte da construção naval, para lá das réplicas de embarcações de séculos anteriores que usufruem da Primavera para se lançar na navegação. Os marinheiros ou iatistas aproveitam a sua estadia para fixar pinturas das suas bandeiras nos passeios ou paredões, gozam também de tempo útil para conhecer os habitantes locais e relatar as suas façanhas e aventuras, ou, de forma natural, vazar o gin, o vinho ou a cerveja local. Há ainda muitos navios-escola carregados de juventude que encontra nas viagens marítimas espaço de aprendizagem, ciência ou terapia…ou, por muito que exista este cinismo contemporâneo, a esperança no futuro, como o caso do afamado veleiro “Três Hombres”, que a cada passo retorna para servir de modelo em registos do comércio justo, mantendo-se, assim, fiel ao transporte de mercadorias com o sabor do vento e das velas. E, por isso, apetece tanto cantar como os “The Waterboys”: “That was the River/ This is the sea!"

Maio

O quinto mês do ano deve o seu nome à deusa da terra e das flores, Maia, filha de Atlas. 
in Dicionário do nome das coisas e outros epónimos, Orlando Neves, Editorial Notícias.

domingo, 7 de maio de 2023

Obrigado, Alberto Gomes da Silva (1937-2023)


 

Poemas de Hanna Arendt

(Poemas 1924-1961)
Edições Relicárioedicoes.com
 

Da Proximidade

        "Antes de pensarem ir muito longe, reparem no que está à vossa porta. Muitas vezes ignoramos o que está próximo e saltamos para dentro de um avião para ir para fora do país. Olhem para Portugal e vejam que sítios bonitos têm aqui para visitar. E se forem mesmo viajar, considerem fazê-lo de uma maneira diferente: apanhar um ferry ou um comboio."

Phoebe Smith, in Fugas, Público, 6 de Maio de 2023. 

A Exceção e a Regra de Bertolt Brecht

 

sábado, 6 de maio de 2023

Elegia de Jorge Luis Borges

 Oh el destino el de Borges,
haver navegado por los diversos mares del mundo
o por el único e solitario mar de nombres diversos,
haber sido una parte de Edimburgo, de Zurich, de las dos
                         Córdobas
de Colombia e de Texas,
haber regressado, al cabo de cambiantes generaciones, 
a las antiguas tierras de su estirpe,
a Andalucia, a Portugal y a aquellos condados 
donde el sajón guerreó con el danés e mezclaron sus sangres,
haber envejecido en tantos espejos,
haber buscado en vano la mirada de mármol de las estatuas,
haber examinado litografías, enciclopedias, atlas,
haber visto las cosas que ven los hombres, 
la muerte, el torpe amanecer, la llanura
y las delicadas estrellas,
y no haber visto nada o casí nada 

in Obra Poética, 2, Alianza Editorial, Buenos Aires, 1997.