segunda-feira, 21 de julho de 2025

Conselho

       "Num dos grandes filmes dos anos 2000 - Quase Famosos, de Cameron Crowe - o extraordinário Philip Seymour Hoffman interpreta o papel de um crítico de música da década de 1970 que vai dando sábios conselhos a um jovem jornalista que se prepara para acompanhar a banda em digressão. "Tu não podes ser amigo das estrelas de rock", explica-lhe ele. "Se tu escreves sobre rock, em primeiro lugar nunca vais ganhar muito. Mas vais receber discos de borla da editora. E vão pagar-te bebidas, vais conhecer miúdas, vais viajar de graça, vão ofercecer-te drogas...Eu sei. Parece incrível. Mas eles não são teus amigos. São pessoas que que querem que escrevas histórias grandiloquentes sobre o génio das estrelas rock. Estão a querer comprar respeitabilidade." Este continua a ser o melhor conselho que se pode dar a um crítico, a um comentador, até a um jornalista."

João Miguel Tavares, in Público, 17 de Abril de 2025. 

domingo, 20 de julho de 2025

Da Fobia

          "A xenofobia, por exemplo, é tão larga que poderia incluir várias outras fobias que assentam no medo do que não se conhece. Para combater a xenofobia - tão debilitante, tão estúpida, tão aleatória, tão cruel  e violenta - porque não a claustrofobia?
       A claustrofobia é que é o contrário de xenofobia: é o medo de ficar fechado, de ficar preso, de não poder sair, de não nos podermos mexer.
   Imagine-se a claustrofobia de só podermos comer comida portuguesa (ou lisboeta), só ouvir música portuguesa (ou alentejana) ou só ler livros portugueses (ou minhotos).
        Claustrofobia é o terror de ficarmos fechados em casa,  a aturar a nossa própria família, infinitamente protegidos pelas paredes de pedra da nossa casa e obrigados a proclamar a toda a hora o nosso orgulho de pertencermos àquela cultura tão rica e tão particular. 
        Não há horror que não mereça um horror maior."

Miguel Esteves Cardoso, in Elogio da Fobia Justa, Público, Abril de 2022. 

O Anzol de Raquel Vila Arisa

Lapa Brava, 2024


Atena de Ana Paula Inácio

nem dórica 
nem jónica 

dorsal 
a coluna majestática 
da infância 

das saias 
das irmãs 
a goma barata
rocegando-te 
as pernas descobertas 
do Verão

o pêlo eriçado 
um gato 

in Anónimos do Século XXI, Averno, 2016. 

sábado, 19 de julho de 2025

É na Horta...

Festival Maravilha 
De 17 a 20 de Julho de 2025

 

Pico

Fotografia: Tânia Neves dos Santos 
 

Da Cobardia

     "José Gil tem razão quando nos diz, de uma forma elegante, que nos ficou a cobardia, dos tempos do obscurantismo, temos muita dificuldade em expressarmos livremente o que sentimos. Mas já passaram 50 anos e várias gerações. Não diz, mas digo eu, que preferem mostrar a sua insatisfação através de radicalismos anónimos, expressos, cada vez mais, nos atos eleitorais."

José Gameiro, in Amorfos Felizes, Expresso, 11 de Julho de 2025. 

A Questão

 Tu de quem és? 

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Verso de Filipe Furtado

 Diz-me se a dor desvanece

Dos Gregos

     "Não há como imaginar o mundo sem a contribuição da Grécia. Está nos mares, nos céus...Não nos conseguimos livrar dos gregos."

Theodor Kallifatides, in Público, 3 de Julho de 2022

terça-feira, 15 de julho de 2025

Antero de Quental

para ti era a chama e não o fogo,
a arca secreta da verdade, 
lugar coberto de dor e pó de lágrima,
onde a memória guarda o sudário do futuro.

Emanuel Jorge Botelho e Urbano in a vida e uma manhã, Publiçor, 2010.

Sistema Naturae#45 de Urbano

Urbano 
Técnica mista sobre tela 
 


As Amoras de Sophia de Mello Breyner

O meu país sabe a amoras bravas 
no Verão
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce 
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo 
me traz amoras bravas 
os seu muros parecem-me brancos 
reparo que também no meu país o céu é azul 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Ciclo Imaginário de Cinema ao Ar Livre(2)

       O segundo filme deste ciclo imaginário de cinema ao ar livre seria para “Maria do Mar”, uma curta-metragem de João Rosas, realizada em 2015, seguido de “The Florida Project”, Sean Baker. O primeiro aborda a adolescência de Nicolau (Francisco Melo), a vida de um jovem que acompanha o irmão mais velho e amigos, num fim de semana estival até à cidade de Sintra. Esta curta-metragem continua a ser uma delicada estranheza, muito pela cumplicidade com que o personagem Nicolau vai estabelecendo com o espectador ao longo do filme. Agora que João Rosas estreou “Vida Luminosa”, e que completa a trilogia, seria de bom tom mostrar este “Maria do Mar”.  Quanto a  “The Florida Project”, o filme de 2017 do super oscarizado Sean Baker, é um fortíssimo cartão postal para conhecer a obra deste realizador. Trata-se da história de uma pequena criança de seis anos de idade, Moonee (Brooklynn Prince), que partilha com a mãe Halley (Bria Vinaite) um apartamento de um motel a beiras com a fantasia da Disney World. Podemos mesmo dizer que não há melhor projecto de enfrentamento de uma canícula abafada e lassa. Este filme é o retrato de uma Flórida à margem, com as contradicções e as típicas aventuras de um mundo precário e plastificado, em que a Disney World surge como a glorificação do desejo humano.