segunda-feira, 20 de março de 2023

A Poesia Vai Acabar

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? 
                                                                                                                                                                      Manuel António Pina in  Ainda Não é o Fim nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas um Pouco Tarde, A Regra do Jogo, 1974.

Os Sapatos das Duas Estações

Na Primavera ou no Verão 
usava sempre sapatos de duas cores 
E glicínias como atacadores

Jorge Sousa Braga in "O Segredo da Púrpura",  O Poeta Nu. 

Do Comunismo

        "O comunismo é dos maiores paradoxos da história da humanidade, com a sua intenção de igualitarismo, de colocar o ser humano no centro do desenvolvimento social, de o estado servir o cidadão através de uma utopia saudável. Mas isso gerou monstros, ditadores."

Mário Lúcio, entrevista a João Pacheco, Revista Electra, Inverno, 2022/2023.

domingo, 19 de março de 2023

João Correia Rebelo: Um Arquitecto Moderno nos Açores

 
João Correia Rebelo por Pedro Valim
(Boletim Cultural Fazendo)
  "Ao evocar a criação e a postura de João Rebelo como arquitecto, dois traços fundamentais da sua maneira de ser avultam imediatamente, numa primeira apreciação: o seu grande talento. Terá sido esta última uma das razões para que o valor da sua obra  como arquitecto não tivesse sido reconhecido mais cedo. Mas houve outra razão, de natureza material: o nomadismo condicionou a sua vida. Tal circunstância conduziu a uma produção dispersa e fragmentada e impediu-o de constituir atelier próprio de carácter duradouro, onde a sequência dos projectos permitisse construir uma obra com consistência e visibilidade."
      Nuno Teotónio Pereira, in Uma Vida Nómada, uma obra fragmentada, uma pessoa íntegra, in "João Correia Rebelo", Instituto Açoriano de Cultura, 2002.

"Morphine" de Sebastião Belfort Cerqueira

Não dei a volta ao mundo 
Nem tenho tempo a perder com  essas merdas
Mesmo ao pé de casa 
Encontrei estrangeiros bastantes 
A quem ainda hoje digo coisas 
Que não podiam perceber 

Tu e eu falamos uma língua 
Que o silêncio errado fez morrer 


Às vezes dou voltas à ideia 
Já me habituei e já não tenho 
Vergonha de dizer
Que não percebo 
Esta coisa de parecer um estranho 
De visita àquilo que viu crescer 

Tu e eu falámos uma língua
Durante anos 
Entendemo-nos tanto
Que agora não há nada a fazer 

in "Música Normal", Companhia das Ilhas, Janeiro de 2021.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Da Mediarquia

     "Os nossos sistemas políticos são, fundamentalmente, mediarquias (sistemas de poder estruturados pelos nossos meios técnicos de comunicação), muito antes de serem democracias (democracias de poder baseados na vontade do povo)".
Yves Citton, Revista Electra, Inverno, 2023.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Da Terra

    "Se olhares bem, em Cabo Verde, não podes dizer a ninguém: "Vai para a tua terra. Porque ninguém é de lá. O mais velho, só está lá há cinco séculos. É uma experiência bonita." 

Mário Lúcio, entrevista de João Pacheco, Revista Electra nº19, Inverno.

As Ilhas de Barco

 -Uma ilha à noite e outra de dia?
Amaya Sumpsi: Sair do Faial ao anoitecer para chegar às Flores ao amanhecer. Não há dinheiro neste mundo que pague essa viagem, acreditem.

in Questionário Marado, FALTA#5, Fevereiro de 2023.

segunda-feira, 13 de março de 2023

Da Prosperidade...

         “(…) Não me interpretem mal, sou fã da prosperidade. Há imensas vantagens na riqueza que a pobreza não deve impedir. Mas há umas poucas vantagens da pobreza que a riqueza não deve ocultar. Humildade, sentido de comunidade e de partilha são por maiores que podem ficar para trás quando andamos focados na caça ao guito. Esses eram os nossos maiores tesouros. É para abrir mão deles em definitivo?
         Talvez isto de ganância e do consumismo seja um sinal dos tempos…Mas temos mesmo aceitar os tempos que nos dão ou podemos criar os nossos? Não dá para continuar a ser quem somos e tornamo-nos prósperos? É impossível sermos ricos sem nos tornarmos gananciosos e consumistas?
          Tem já alguns anos que procuro casa para morar. Intensifiquei a busca este ano, depois de ter um bebé e achar conveniente dar-lhe um teto permanente. Não que seja necessário, que nos países do norte grande parte não terá casa própria. Mas ao preço a que por cá os arrendamentos andam…
        Está tudo tão caro. Na região só o mormaço, a humidade, a falta de tacto, de criatividade e de arrojo continuam a um preço simbólico. Valha-nos isso."

 Francisco Bradford Câmara in “9 Bairros”, Setembro/Dezembro de 2022