Mostrar mensagens com a etiqueta Charlas Quotidianas com Doutor Mara.. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Charlas Quotidianas com Doutor Mara.. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Estivalística

Um milagre tecnológico está prestes a acontecer…conseguimos uma charla com o Doutor Mara via skype. Como é que tudo isto foi possível, perguntará alguém de direito, mas hoje de facto tudo se tornou possível com estas novas tecnologias ao dispor de um clique. Aconteceu quando um fotógrafo subaquático, em fase de mergulho com jamantas no atlântico, se deparou com o doutor Mara em cima de uma rocha com a sua Olivetti Linea 103 a bater texto como há muito não se via. Admirado com semelhante atitude radical, bastante fora do que é usual, diga-se de passagem, o fotógrafo decidiu oferecer a Doutor Mara a sua tablet da quarta geração e, como contrapartida, este somente teria de encetar connosco mais uma magnífica, para não dizer estonteante charla sobre a beleza da vida e do mundo e, muito naturalmente, sobre o verão, as praias, a melancia, a soberania de Eros e da sardinha no pão.   

DM: Doutor Mara é verdade que se encontrava em cima de uma rocha a bater texto com grande intensidade? E, já agora, podemos ficar a saber o que é que se encontrava a escrever?
Doutor Mara: Meus caros amigos, vocês sabem que as rochas podem ser sítios de evasão e de fuga e…para quem como eu que escreve muita coisa que pode ser má, as rochas podem ser um excelente sítio para evacuar. E como passo o tempo a deitar tudo cá para fora, vou escrevendo cada vez mais, guardo muita coisa, é um facto, ao mesmo tempo que vou escrevendo mais e mais, volto a guardar, e escrevo mais e muitas mais vezes e não sei o que guardar. Sofro do drama da folha escrita que é o contrário da folha vazia. Recordo aqui, o meu amigo Pietro Tarantini, cozinheiro de sons, que, quando pensou que escrevia alguma coisa de jeito, enviou-me uma carta com o seguinte conteúdo:Sei que tudo o que escrevo é uma merda, mas continuo a escrever, porque se não escrever rebento e se rebentar é merda por todo o lado". Apesar de se encontrar em auspicioso exílio musical, P. Tarantini continua a escrever numa espreguiçadeira como um desalmado…há quem diga que adormece com a caneta na mão…já vi coisas bem piores.

DM: Como por exemplo?
Doutor Mara: Gente que escreve em cima de árvores, outros em cima de telhados, outros no quarto dos fundos e há quem sonha que escreve alguma coisa. No entanto, conheço um escritor que escreve de pé, entre a casa e o trabalho. O seu primeiro livro obteve o curioso título de “O Palmilhador”. Ele colocou inclusive a imagem dos seus sapatos na capa, com as palmilhas muito gastas, por sinal.

DM: Desconfiamos que deve ter sido um sucesso, não?
Doutor Mara: Por acaso não, saiu das montras das livrarias logo na primeira semana. A imagem da capa é usada muitas vezes pelas empresas de calçado junto dos funcionários como um mau exemplo do uso da palmilha.

DM: Doutor, temos uma pergunta engatilhada para si: o escritor-filósofo alemão Johann Wolfgang von Goethe afirmou um dia que “Só o verão vale a pena”. Acredita realmente nisso?
Doutor Mara: Sim, sobretudo quando os invernos são bastante compridos e o verão aparece como a estação redentora, para nos salvar muito bem não sei o quê. A luz que incide sobre os seres humanos ajuda a torná-los mais airosos, desenvoltos e virados uns para os outros. O verão devolve-nos a infância por instantes, os dias são maiores, as cidades ficam completamente vazias, as praias atulhadas de gente, um calor infernal nas terras do interior, os restaurantes sem mesas para sentar, crianças e adultos a fazer xixi no mar…há aqui algo de pueril, para não dizer de telúrico ou mesmo selvagem. Recentemente vi o filme “A Ultrapassagem”, do Dino Risi, e, aqueles minutos finais passados na praia são hilariantes. Cinquenta anos depois, aquela “praia” do sul da Europa não mudou absolutamente nada: barulho, confusão, gelados, bolas no ar, refrescos e uma latina propensão para improvisar a festa e a sempre bem característica ribaldaria colectiva.

DM: Doutor Mara, dizem más línguas (ou serão as boas???)  que está irreconhecível, que para além de um equilíbrio interior conseguiu neste verão aquilo que os gregos designavam por ataraxia…o equilíbrio entre o desejo e a realidade circundante. Por acaso, não está apaixonado?
Doutor Mara: Como diria o nosso poeta português contemporâneo Herberto Helder, autor do mais recente "Servidões": “A energia é a essência do mundo”. De facto, se o amor significar energia, mola, despertar, movimento, aí sim, estou verdadeiramente apaixonado. Nesta estação também sinto o desabrochar dos tecidos, o suor latente nos poros, uma tensão permanente com a nudez do sexo oposto, o destilar dos líquidos e a beleza das searas que clamam por mais seiva e fluidez nos encontros. Enfim…a soberania de Eros no verão é uma constante.Mas sim, sinto-me bastante sereno, tranquilo na alma e no espírito, sei mais do que nunca como enfrentar a dor e as adversidades, aceito as contradições existentes na realidade.

DM: O que tenciona fazer nesta estação de diferente?
Doutor Mara: Em primeiro lugar, comer muita melancia, a reposição dos líquidos é essencial nesta altura e secos já bastam os bolos a partir das cinco da tarde. E, se possível, voltar a comer sardinha no pão – depois dos santos populares, esta baixa naturalmente o seu preço! Tenho o desejo ainda de ver um ciclo de cinema italiano da reconstrução (começarei com “Francesca, Um Amor Impossível”, de Alberto Latuada). Por fim, caso for ainda possível, montarei a minha égua de seu nome Lisa.

DM: Sozinho?
Doutor Mara: Penso que já estão a querer saber demais. E...se me dão licença vou deixar esta maquineta à prova de água na poça desta rocha que está mesmo aqui à frente. Não levem a mal, mas julgo que o que é demais é exagero. Não me habituo a este mundo híper-tecnológico. Adeus.

DM: Muito obrigado, Doutor Mara, por mais uma inolvidável charla…pois, infelizmente, nunca saberemos quando será a próxima.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Cinepoemagrafia

       Inacreditavelmente conseguimos um número de telefone de uma pequena barbearia atlântica onde o Doutor Mara costuma frequentar por volta das 14h55, essencialmente para tirar dois dedos de conversar e colocar “os pontos nos is”, como se costuma dizer. Confessam-nos, no entanto, que o Doutor Mara somente permanece meia-hora nesta barbearia-café intitulada “Capilar Menos”. Às vezes irritam-se com ele pois ele sai à hora certa, nem segundo a mais, nem segundo a menos, pedindo desculpa pela sua saída cronometrada todos os dias à mesma hora. Avisaram-nos também que ultimamente só fala de clássicos de cinema e que tira grandes noitadas para ver dois, três filmes, no seu moinho austero e recuperado. Às vezes constatam também que ele diz um ou outro poema de cor e salteado, fazendo menção ao nome e biografia literária de um novíssimo poeta português que aproveita para citar. De qualquer modo, esperemos, no entanto, que ele fale connosco pois há muito, muito tempo, que não temos notícias dele. A ver vamos o que nos reservam as linhas telefónicas…  
DM: Estou sim, Doutor? Doutor…somos nós…Doutor Mara…que balanço é que faz deste seu retiro que nos parece já uma eternidade?
Doutor Mara: Estou sim…estou a ouvir muito mal, há muitos cortes e estranhas interferências. Estou? Estão a ouvir-me? Sim? Os chatos do costume…Balanço? Se querem que vos diga a verdade, durmo muito mais descansado nestes últimos tempos. A acrescentar o facto de já não ter olheiras, papos à volta dos olhos ou insónias prolongadas. E, no entanto, nunca me senti tão vivo como nestes últimos tempos. Ser produtor das coisas que como e bebo deixa-me muito mais sossegado e pronto para viver uma vida nova. Já agora pergunto-vos, alguma vez vos aconteceu isto?
DM: Evidentemente que não, doutor. Estamos verdadeiramente contentes com aquilo que está a acontecer consigo. Por acaso, ainda não nos aconteceu esse êxtase existencial mas é um facto, gostaríamos muito que um dia isso nos acontecesse. No entanto, deixe-nos dizer que nos parece um doutor Mara renascido, com um elixir da juventude, ou será que é consequência de uma vida mais próxima da natureza?
Doutor Mara: Não sei…simplesmente deixei de pensar nos vaqueiros micaelenses sempre que bebo um copo de leite, nos agricultores brasileiros sempre que bebo um café, nos pescadores dos mares do norte sempre que como uma posta de bacalhau, nas mulheres e homens alentejanos sempre que bebo um copo de tinto. Tornei-me auto-suficiente e retiro da natureza aquilo que quero e o que ela me quer dar. Nem mais. Quando não tenho, troco aquilo que vou armazenando no meu celeiro. De vez em quando, quando está muito mau tempo, abro o meu moinho restaurado para podermos ver os clássicos do cinema durante a noite…chegam a aparecer personalidades muito, muito interessantes.
DM: Doutor, sessões de cinema num moinho restaurado e aberto ao público??? Mas, Doutor Mara, isso era um sonho de qualquer cineclubista há trinta e nove anos atrás…mas conte-nos, aparece muita gente nessas sessões e que tipo de pessoas é que frequentam o seu moinho?
Doutor Mara: Há dias apareceu o senhor João Rafael, com oitenta e dois anos de idade, produtor de mel. Estivémos a ver o filme “O Apicultor” (O Melissokomos, 1986), do grego Theo Angelopolous, com o Marcello Mastroianni num dos seus melhores papéis. Um filme bem diferente destes últimos acontecimentos que nos tem dado a ver a Grécia. O personagem Spyros vagueia entre colmeias e pólen, deixando para trás o seu cargo como professor e a sua relação com a esposa. Spyros é acompanhado por uma jovem perdida e ambos buscam o amor numa paisagem grega de desolação e de dor. No final, era ver o João Rafael chorar e perguntar a todos os presentes como foi possível ter sido privado durante a sua existência da cinematografia daquele cineasta grego. Agora volta sempre acompanhado da sua neta de vinte e dois anos que quer ser realizadora de curtas metragens…
DM: E os jovens também se interessam pelo cinema que passa no moinho?
Doutor Mara: Há de tudo como na drogaria…há três dias veio cá um jovem, cerca de 27, 28 anos de idade, com um documentário do Chris Marker, “O Comboio do Cinema” ("Le Train en Marche", 1973), versão francesa e sem legendas, numa cópia restaurada. O rapaz dizia estar cá de passagem, a fazer um retiro de silêncio, apenas interrompido com este filme que disse querer ver há muito tempo e que nunca tinha tido oportunidade. Ainda hoje não sei onde é que ele foi buscar a bobine do filme. O moinho estava cheio de agricultores e pescadores, pois tínhamos acabado de confeccionar um “Brasas e Braseiros” com peixe variados e muito bem regado com vinho da região, para além de ter tido o cuidado de mandar retirar mais quatro “pufes” com palha improvisados da cave. Começámos a ver o documentário, que ficou célebre com aquele discurso fantástico do Medvedkin, cineasta russo, que nos conta a experiência utópica e invenção do comboio cinema que percorreu o interior da antiga União Soviética, para lá das centenas de filmes feitos e perdidos, mandados destruir pelo Estaline. No final, o jovem estava extasiado com o documentário, no entanto, constatou que à sua volta que alguns dos presentes, após uma longa jornada de trabalho, se encontravam já em pleno sono. Então, decidiu pôr-se em altos berros e acordar toda a gente, apelidando os presentes de intelectuais do sistema, uma linha fiada de burgueses e integrados na conspiração da alta finança e que devíamos ir com ele por aí de comboio mostrar o cinema às populações incultas, alienadas pela televisão e pelo facebock, etc e tal. Esqueceu-se, no entanto, que por aqui não há linhas de comboio…
DM: Já vimos, então, que as sessões cinematográficas bem animadas?
Doutor Mara: Na primeira noite  em que abri o moinho aos amantes do cinema deste lugar tive o cuidado de exibir o “Cenas da Vida Conjugal” do Ingmar Begman. Após visionamento do filme, o público estava inquieto, desassossegado, e implorou para ver a sequela que o realizador sueco tinha feito há bem pouco tempo e com os mesmos actores: “Saraband”. Quando o filme terminou, o sol raiava no exterior, e ninguém se entendia sobre a noção de fidelidade e o que era verdadeiramente essencial para manter uma relação em funcionamento durante muito tempo. Houve quem concordasse com a referência à frase que o actor Erland Josephson fez a um padre que ele tinha conhecido...
DM: - "Uma vez um padre disse-me que o amor tem duas componentes: uma boa amizade e um erotismo inabalável"?
Doutor Mara: Sim…essa. Foi deveras um debate interessante…terminou ao meio-dia do dia seguinte com uma alcatra de peixe com arroz branco.
DM: Ouvimos, entretanto, dizer que passa muito tempo a ler os novíssimos poetas portugueses, é verdade?
Doutor Mara: Nem por aqui consigo estar sossegado…quem vos disse isso??? E…com este poema intitulado “Mudar de Casa”, do José Miguel Silva, alegremente me despeço:É bom mudar de casa, de janela,/arrumar de outra maneira as ilusões,/tratar de coisas puras como tintas/e sofás, pôr ordem entre os livros/e a vida, simular a liberdade./Parece-nos possível voltar a acreditar/na mão que nos estende um pé de salsa,/na pechincha da beleza, quando passa/ no poente da razão./Apetece cometer uma loucura,/comprar um telescópio, decorar/o canto nono dos Lusíadas,/subir umas escadas do avesso,/pensar que nunca mais teremos frio.”
DM: Um grande abraço, Doutor. Muito obrigado por este bocadinho…havemos de voltar a incomodá-lo. Com sua licença, até à próxima.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Eremitonauta



O inédito sucedeu-se agora quando nos deparamos neste momento com o Doutor Mara, em pleno aeroporto e de malas prontas para demandar viagem. Ele está com o semblante carregado de quem dormiu menos do que as oito horas habituais. O inefável Doutor Mara traz consigo um canudo muito branco, com uma camélia dentro, e transporta consigo um jornal com as folhas bem amarelas, com notícias muito, muito atrasadas, crê-se do ano anterior. A sala do aeroporto, porém, pára de cada vez que o Doutor Mara pega no jornal para ler o rol de notícias do ano anterior.

DM: Doutor Mara, soubemos que irá partir, por que é que nos abandona num momento tão crítico como este?
Doutor Mara: Não vos irei abandonar, meus caros, simplesmente vou para um lugar muito pequeno, aconchegado do mundo, a meio do oceano atlântico. Preciso de ler a poesia portuguesa contemporânea, aquilo a que chamam agora os novíssimos da poesia portuguesa, pretendo lê-los de uma assentada bem como dedicar-me com afinco à produção de vinha e à moagem de cereais de forma tradicional. Quero concretizar um sonho antigo do período em que me considerava um digno representante do socialismo acrata ou anarquismo, como lhe queiram chamar, isto é, o período em que pretendia ideologicamente tornar-me auto-suficiente e recusar qualquer intromissão do aparelho estatista e da sua presumida ordem. Terei pão, vinho e poesia…o que é que um homem pode pedir mais?

DM: Fecha assim as portas a uma intervenção política e quem sabe vir um dia a honrar um compromisso público?
Doutor Mara: Nos próximos tempos está fora de questão uma intervenção púbica. Quero por agora viver coisas que não a coisa política. Continuarei de forma honrosa a defender todos os métodos participativos e comunitários: o associativismo, o sindicalismo ou as agremiações de bairro. Estou e vou continuar sem chefias, sem vaidades, sem “status”, sem partidos. Por agora, o que eu quero essencialmente é ler poesia e ter pão à mesa...

DM: Mas doutor hoje não ninguém lê poesia, os poetas editam trezentos exemplares por cada livro, no entanto somos neste momento auto-suficientes e excedentários no que ao vinho diz respeito. Há mais alguma razão para além destas evocadas, doutor? Decididamente, não compreendemos…
Doutor Mara: Hmmm…é certo que recuperei uma casa rural, uma adega e um moinho do século XVI que não posso recusar. Os donos estavam falidos e entregaram aquilo às finanças locais, por isso espero passar lá umas temporadas valentes, longe do mundo e sem acesso a qualquer tipo de informação ou contacto com o mundo exterior. É, sem dúvida, um retiro, um retiro desejado, como podem imaginar e, neste caso, certamente respeitar. Pode ser?

DM: Claro que pode, doutor. Não deixa de ser estranho, caríssimo Doutor Mara, num momento em que acabamos de saber que em caso de encerramento de fronteiras conseguiríamos que ninguém morresse à sede, pois  sabemos o quanto o doutor gosta de um bom copo. É certo que não abandona Portugal, mas porquê este súbito desapego à pátria e ao seu destino, este afastamento inédito da sua comunidade de pensamento. Não declare que ficou ofendido ao saber da nossa grande dependência de produtos da indústria de pesca?
Doutor Mara: Se fosse só por isso e…esqueceram-se novamente dos cereais? Meus amigos, vocês sabem tão bem como eu que o mais importante é aquilo que é distribuído por todo e tem que haver um equilíbrio entre a economia e o bem-estar dos cidadãos dos países. E como poderei aceitar que num país de dez milhões a tiragem de um livro de poesia seja de trezentos exemplares, às vezes, nem isso? E que haja filmes portugueses reconhecidos nos festivais de cinema que não tenham o eco devido bem como o reconhecimento merecido junto da população indígena. Ou que um jornal de referência venda apenas vinte mil exemplares? Não me digam que é por falta de incentivos…um livro de poesia, um jornal, um conto pode ler-se numa viagem de autocarro, de avião, ou mesmo de riquexó…que semidiâmetro de país é este que condena à fome os seus cineastas, poetas, os seus editores, os seus melhores escritores ou mesmo jornalistas???

DM: No entanto, há boas notícias, doutor, em caso de calamidade, conseguiríamos sobreviver sem grandes sobressaltos com aquilo que produzimos em termos de hortícolas, carne,  ovos, leite, frutos frescos e conservas de peixes. Não fica feliz por isso?
Doutor Mara: Claro que fico. Sempre gostei de uma boa lata de conservas num parque de campismo e sempre que realizava um inter-rail municiava-me das mais variadas conservas com os seus magníficos rótulos. Certo é que se esqueceram que continuamos a consumir muito bacalhau vindo do exterior, muitos congelados, secos e salgados. O que nos vale são os moluscos que pescamos em grandes quantidades, mesmo que seja a agricultura e a indústria as nossas maiores fontes de riqueza alimentar. Agora para o sítio onde vou levo apenas comigo uma lata de polvo em calda, mas não tenciono comê-la, é só para me lembrar no que estamos metidos quando atingir o ponto máximo do saudadómetro.

DM: Saudadómetro?
Doutor Mara: É um medidor da saudade…comprei-o há muitos anos numa dessas romarias populares conjuntamente com três lençóis vendido pelo preço de dois. Aproxima-se o objecto da mão direita e espera-se que o ponteiro indique o estado de saudade em que se encontra. Houve um momento em que estava de tal modo apaixonado que o ponteiro ficou colado no lado direito…tive que esperar uns dias até que a saudade ficasse pelos 96, 97, 98 por cento.

DM: É pena esta saída extemporânea do Doutor Mara, sobretudo agora que se fala na criação de um bom cartaz de teatro na televisão, vários campos de golfe bem drenados e uma panóplia variada de restaurantes japoneses. É, sem qualquer dúvida, um momento muito triste para todos nós a sua partida, doutor.
Doutor Mara: Para ser franco, nunca gostei muito de sushi. Depois vocês sabem que não vejo televisão e quanto ao golfe é certo que  vi durante muitos anos mas sobretudo em dvd...bastavam duas tacadas para adormecer…ficava, sem qualquer dúvida, mais barato que um calmante.

DM: Doutor, se não é indiscrição gostaríamos de saber qual foi o lugar escolhido para este retiro, ao qual, muito sinceramente, esperamos que seja breve?
Doutor Mara: Se não me levam a mal, não posso revelar.

DM: Muito obrigado, doutor. Boa viagem!!!

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Tarantoterapia


Ninguém acredita no que está neste momento a ver pois contra todas as probabilidades ali temos o incrível Doutor Mara, numa sexta-feira à noite, em discoteca bem conceituada, por sinal e, em plena coluna no centro da pista de dança a agitar-se desabridamente, feito exímio e excêntrico dançarino, com uma camisa às flores (julgamos ser hortênsias), encharcado em água e suor, sendo que este se encontra permanentemente a ser agraciado com baldes de cerveja que, ele simpática e educadamente, vai sucessivamente recusando. De qualquer modo, convém dizer que tem sido difícil para nós obtermos o seu depoimento e aproximarmo-nos até bem perto dele. Vamos, certamente, fazer a dita charla impossível, o que pedimos aos nossos leitores a máxima desculpa por algum baloiço e oscilação. 

DM: Doutor Mara, será que podemos ter a nossa charla habitual consigo?
Doutor Mara: Neste momento, não posso. Vocês não vêem que me encontro em pleno acto dançante. Que chatice…

DM: Sim, já reparámos. Você está frenético…está tudo em ordem?
Doutor Mara: Sim, à parte que neste momento padeço de Tarantismo súbito.

DM: Tarantismo súbito?
Doutor Mara: É um impulso frenético de dançar e a consequente incapacidade de suster e estancar os movimentos da dança. Eu estou, definitivamente, infatigável… mesmo que queira, não consigo, já houve gente internada por este dito achaque contemporâneo e também houve muitas pessoas que emagreceram muitos quilos depois disto. É também uma coisa interna, uma busca incessante da nossa verdade interior e da verdade colectiva na forma como os outros nos vêem. Posso garantir-vos, que durante o período da minha juventude, perdi uma ou outra namorada devido a este meu estado súbito de tarantismo. Peço-vos imensa desculpa, mas necessito continuar a dançar...o tarantismo quando chega nem sempre é para todos e...tenho que aproveitar.

DM: Mas, doutor, isso parece-nos muito grave, muito grave mesmo…não consegue mesmo parar de dançar?
Doutor Mara: É verdade…isto não tem explicação segundo os médicos nem a ciência moderna. Os músicos dizem que isto acontece quando um disco jóquei actual passa mais de três músicas seguidas com grande nível, o que é raro nos dias que correm. Por outro lado, quanto mais danço mais vontade tenho de fazer amor, desculpem, quando mais danço mais vontade tenho de fazer a revolução, desculpem outra vez, quanto mais danço mais vontade tenho de dançar…assim é que é…será? Tirei a noite para dançar…não sei, portanto, quando é que isto irá parar.

DM: Mas, Doutor, você é bom é a escrever, a produzir obras de grande valor estético, você está ao nível das grandes celebridades da literatura.
Doutor Mara: Isso é o que vocês críticos dizem… e como vos agradeço, tenho uma imensa dívida para convosco ao me ajudarem a pagar as contas da electricidade, da água e do gás. No entanto, escrever bem, como diria o velho Freud, é ser capaz de contar histórias, isto é, de se interessar pelo homem, pelo seu destino individual e colectivo. Vejam estes jovens que quase dançam aqui à minha volta, cada um traz consigo uma estória mas são muito poucos os que se interessam por eles…quem escreve sobre eles? A antiga sociedade de produtores só lhes consegue arranjar lugar como consumidores e é talvez por isso que eles ficam neste estado letárgico, ludibriando a incerteza do tempo em que vivem e atirando-os para a anomalia de não saber o que fazer com o mundo que têm pela frente. Alguns deles não dançam pois estão mais interessados em transmitir pequenos esgares e olhares furtivos ao mesmo tempo que tentam ser retribuídos nessa ânsia de serem desejados. E, por favor, se não se importam, vão-me desculpar, mas tenho que continuar a dançar...isto é uma verdadeira terapia.

DM: Doutor, pedimos desculpa pelo incómodo, estamos eternamente agradecido por esta charla impossível. Esperemos, entretanto, que consiga travar esse baloiço bailador em que está metido. E que não seja preciso camisas-de-força para tirá-lo daí. Até um dia destes. 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Maraísmo-Doutorite



Doutor, doutor, de fato e gravata e sapatos bem engraxados, que honra nos dá assim vestido. Serão reminiscências pascais da sua meninice? Ainda por cima com um relógio no pulso e um Iphone da quinta geração. Que probidade, doutor Mara, pois ficámos a saber que há instantes foi convidado para ser presidente de mais um organismo ligado à cultura, desta feita à cultura da alga e do salitre. É o terceiro cargo da mais elevada importância que irá ocupar no espaço de seis meses. Porque requisitam assim tanto os seus saberes e méritos para os mais altos cargos directivos, caríssimo doutor Doutor Mara?
Doutor Mara: De elevada importância? Altos cargos directivos? Vamos com calma, rapaziada…Como tenho o ancestral hábito de ir provas de vinho por questões de curiosidade e aprendizagem, no final do quarto ou quinto copo dessas agradáveis provas dos melhores néctares dos deuses, há aqueles senhores, enfatuados e ensoberbecidos, que devem pensar: “e…se arranjássemos um cargo para este gajo, que, por sinal, também é doutor, fala com eloquência e profere umas coisas acertadas e que ninguém consegue refutar?”. Como podem imaginar, quem tem algum poder gosta muito de distribuir cargos irrelevantes pelos seus subordinados para poder controlar o que se vai fazendo e assim continuar sem nada para fazer a não ser mandar. Depois, há também a muito batida troca de favores, que é uma prática muito antiga na nossa cultura, às vezes ridicularizada nos tempos modernos, essencialmente quando se recorda a entrega de diferentes oferendas e víveres ao cacique local, ao médico de família ou ao pároco da aldeia em tempos remotos.Hoje um favor é pago com outro favor sem grande alarido e fica tudo em família, ao contrário de antigamente. Há favores muito bem pagos ao longo do tempo. É por isso que eles se agarram ao poder como à carne sangrenta…

DM: Carne sangrenta, doutor?
Doutor Mara: Relembro aqui o crítico de arte John Ruskin (1819-1900) que um dia escreveu: “Não manda bem quem tem a ânsia de mandar”. Corremos, no entanto, o risco de ser esse o retrato que ficará do nosso amado país no final do século XX e inícios do XXI. Sobretudo daqueles que mandaram e se ocuparam dos mais altos cargos dirigentes em governos ditos republicanos, ao serviço da causa pública.Ficarão célebres pela sua ânsia de mandar e muito pouco serviram o seu povo ou círculo de eleitores. Daqui a pouco iremos ter eleições autárquicas e após contarmos a quantidade de anos que alguns autarcas passaram pelas respectivas câmaras, seria bom verificarmos por instantes como ficarão financeiramente as suas edilidades e arquitectónicamente as suas cidades.Alguém fará isso? É verdade que há quem deixe obra de qualidade e que tenha realizado dignamente o seu trabalho mas também houve muita gente que não cumpriu seriamente o serviço público para o qual se comprometeu. Alguns serviram-se muito mais do que serviram,“ansiosos apenas por mandar, agarram-se ao poder como a carne sangrenta”. Já para não falar vezes do factor C (Cunha) que imperou um pouco por todo o lado. 

DM: Acredita então que o factor D (Doutor) foi uma mais valia para os convites que lhe têm sido feitos recentemente? É caso para dizer que no seu caso o Factor D foi substituído pelo factor C?
Doutor Mara: Que engraçados, vocês, meus caros!!! Se bem me lembro, julgo que desde pequeno que me chamam Doutor. Julgo que foi uma forma de me tirarem um peso e uma dificuldade aquando da minha chegada à idade adulta. Creio que foi também para me ir habituando ao "país dos doutores" e que não tivesse contínuas faltas de respeito pelos meus colegas de escola ou ausência de reconhecimento social nos locais para onde fosse viver. É curioso, pois quando regressei da faculdade com o respectivo canudo, até o meu vizinho, conhecido por ser antipático e trombudo, me saudava com um feliz e retumbante: “Um excelente bom dia para sim senhor doutor Doutor Mara”. Comovente, sem qualquer dúvida.

DM: Bom…está agora a aparecer nas últimas online que escolheram o Doutor Mara para ser o presidente do Júri do primeiro  Festival de Teatro Mínimo…peças teatrais com apenas quinze minutos de novos autores, um mega evento em perspectiva e a que ninguém, mesmo ninguém, ficará indiferente. Face à situação actual do teatro, o Doutor Mara irá aceitar?
Doutor Mara: Lá estão vocês a exagerar…Festival de Teatro Mínimo? Logo eu que já vi uma peça de teatro de onze horas numa sala de cinema…que saudades do documentário teatral. Por vezes, sobram para mim estes cargos de cariz quase esotérico e residual que raramente não consigo dizer que não, sobretudo vindo de jovens actores, Casas do Povo ou associações culturais sem dinheiro para mandar cantar um cego. Julgo que aceitarei, desde que o pagamento seja feito com uns almoços e uns jantares bem regados. E que me deixem, entretanto, algum tempo para praticar o meu bilhar de três buracos.

DM: Sabe-se que o Doutor Mara tem rotinas diárias de um verdadeiro doutor, não é assim? Quer dizer-nos como ocupa as suas tarefas quotidianas?
DM: Nada de especial, meus caros. Levanto-me todos os dias às seis e quarenta e cinco da manhã invariavelmente. Bebo um sumo de limão e como uma tosta sem sal. Faço duas corridas ao bilhar grande, suo um pouco e entro no mar rapidamente com o objectivo de provocar um choque térmico e dilatação arterial. Limpo-me com uma toalha vermelha, escrevo e trabalho até às onze da manhã. A partir do meio-dia dedico-me a ler e a fazer perguntas sobre o estado do mundo e sobre o estado das artes em geral. Por volta das seis da tarde, passeio-me junto do mar com o meu psicanalista. Pelo menos três vezes por semana, este verifica se tenho muitos actos falhados, se continuo a sonhar com actrizes escandinavas dos anos setenta e se mantenho os meus instintos agressivos ao nível dos euros que trago no bolso. No final do dia, respondo às inúmeras cartas e solicitações que me enviam de toda a parte. Às dez horas da noite, encontro-me já a dormir que nem um executivo do Banco Central Europeu. Felizmente ou infelizmente, o taxímetro metabólico corporal comprova a sua existência com a a necessidade de evacuação de líquidos logo no alvoroçar da aurora. Ao fim de semana, não me perguntem...já vos dei algumas dicas. 

DM: Doutor Mara, muito pouco ou quase nada sabemos sobre a sua infância a não ser que já nessa altura o apelidavam de doutor. Será que nos pode contar alguma coisa sobre si?
Doutor Mara: Nasci no final da década de sessenta, no seio de uma família portuguesa, conservadora, de classe média. Fui uma criança muito feliz, com o devido respeito pelos vizinhos que possa ter importunado a cabeça e que não devem ter sido poucos. Recordo-me vagamente da escola primária e dos desenhos que fazia nas aulas. Um terror. Os meus desenhos eram horríveis. Apanhei grandes reguadas da professora por não saber desenhar uma montanha como deve ser ou então por estar sempre a procurar companhia para as brincadeiras ou galhofas. Mas foi também aí que descobri o meu amor às ciências do mar e às letras…enquanto sedução das minhas companheiras de carteira. A minha colega Eunice ainda hoje guarda as duzentas e vinte cartas que lhe enviei durante a minha passagem pelo ensino básico. Espero vivamente que ela não se lembre de as publicar no facebock...seria catastrófico, sobretudo do ponto de vista literário.

DM: O Doutor Mara era uma criança mal comportada, ou então uma criança hiperactiva como hoje se diz?
Doutor Mara: Nem uma coisa nem outra. Era sobretudo uma criança filha dos meus pais, do lugar onde cresci, do tempo e da história que estava a viver, um verdadeiro filho da pátria, portanto. Deu no que deu…como podem constatar!

DM: Muito obrigado, doutor Doutor Mara. Até um dia destes sem inflamação doutoral.


quinta-feira, 14 de março de 2013

Enomatria

   Algumas semanas depois da invernia ter começado, eis o Doutor Mara num tugúrio citadino mal-afamado, ainda por cima com uma bandeira nacional sobre os ombros e, acreditamos dizê-lo sem qualquer tipo de ofensa ou má criação, que o digníssimo se encontra encharcado em vinho tinto da cooperativa. Debaixo do braço do doutor Mara, o livro de Willy Helpach, “Geopsiché – l´ame humaine sous l´influence du temps, du climat, du sol et du paysage”, numa tradução francesa muito velhinha da editora Payot, de Paris. Doutor Mara, sem querer imiscuir-nos na sua vida pessoal, celebra-se alguma coisa por estes lados nesta noite chuvosa?
Doutor Mara: O fim do tinto. Tenho saudades do tempo em que se bebia bom vinho tinto e barato. A sério. A sociedade actual é baseada na trapaça da garrafa, o enfeitiçamento do invólucro, mas olhem, meus caros amigos, isto nem sempre foi assim. Hoje é impossível beber um bom vinho sem a garantia da garrafa e do nome do enólogo/a estampado nas traseiras do rótulo. Sou ainda do tempo em que as tascas, tabernas e casas de pasto deste país se orgulhavam de ter o melhor vinho produzido na cooperativa das suas regiões demarcadas. E muito baratinho, por sinal. Não sou saudosista, mas tenho francas saudades de um tinto digno desse nome servido em qualquer botequim citadino por alguém que sabia o que estava a dar aos seus clientes.
DM: Há alguma razão para trazer a bandeira portuguesa aos ombros, Doutor Mara?
Doutor Mara:  Alguma lata e algum descaramento, pois claro.  Mais concretamente a bandeira serve para eu me poder encostar com segurança ao balcão. Aqui o taberneiro, o meu amigo, Gonçalo Pratas, um homem de armas como vocês podem ver, não pode ver nada sujo e está sempre a deitar detergente e líxivia para cima do balcão. Com esta sua atitude, já me deu cabo de umas quantas camisas de cor compradas nas melhores boutiques de ocasião. Já se sabe, a bandeira protege das nódoas e esta foi comprada por alturas do Europeu e já está um pouco desbotada…as manchas não ofendem a pátria, pelo menos não tanto como aqueles que andam agora com um pin na lapela.
DM: Doutor Mara, há muita gente que gostaria de transmitir respostas e anseios ou então apenas devaneios chamados de torrente de ideias sobre o que vão lendo das suas charlas quotidianas. Tem noção do impacto que cada charla do Doutor Mara tem na nossa sociedade?
Doutor Mara: Deixem-se de bajulices, já vos tenho dito, qualquer dia deixo de conversar convosco e então será o fim do mundo. Pensar, reflectir e escrever são partes de um processo longo e do qual não tenho feito outra coisa ao longo da vida. O importante seria que cada cidadão pensasse e agisse por si próprio, que fosse aquilo que a sociedade ilustrada do século das luzes sempre sonhou: um cidadão atento, activo e participante nas decisões da polis. O meu grande amigo George Orwell tinha uma posição mais crítica sobre o que se publica por aí, pois este dizia que “jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique” e que “o resto é publicidade”.
DM: Constatamos também que o Doutor Mara não consegue viver, para além do tinto, da palavra escrita, isto é, sem escrever nem ler, parece-nos. De onde vem este seu gosto pelas palavras?
Doutor Mara: As palavras ajudam-nos a definir e a organizar o mundo em que vivemos ao mesmo tempo que nos ajudam a situar e a perspectivar o lugar de onde queremos vê-lo. O mundo está permanentemente a ser recriado pelas palavras, pois são estas que permitem novas significações. As grandes ditaduras e as sociedades capitalistas usam diferentes formas de manipulação das opiniões públicas, mas tocam-se no essencial: a propaganda e a publicidade. Podia ter sido pescador, mas fiquei em terra, a tecer redes de palavras...
DM: A conversa já vai longa. O que é que gostaria de transmitir aos portugueses, Doutor Mara.
Doutor Mara: Em primeiro lugar, que bebam vinho de qualidade. Que sejam exigentes e que leiam sobre os novos vinhos que tem vindo a ser feitos nas diferentes regiões vitivinícolas. Depois, não devem ter medo de oferecer às  namoradas/os, amigos e amigas  caixas de vinho ou mesmo garrafões de cinco litros de vinho, desde que sejam de qualidade, claro. Pode ser que, entretanto, baixem o preço das garrafas. Haja saúde.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Marafilia


DM: Desculpe-nos a interrogação, mas passamos junto do seu gabinete e tinha lá escrito: “Aqui trabalha e vive Doutor Mara…fui para junto do mar!”. Passou-se alguma coisa de grave, algum imprevisto, alguma situação menos clara, caríssimo Doutor Mara?
Doutor Mara: Não creio. No entanto, aviso que não sou pessoa de deixar bilhetes falsos ou pregar falsas partidas, sem razão aparente. Vim para junto do mar, é um facto, como podem comprovar. Há três dias que não paro de dar mergulhos no mar. Estamos no Inverno é certo, mas se é para voltar ao mar como já ouvi pela boca das mais altas instâncias então que voltemos em força. Sem medos nem quebrantos.

DM: Neste seu acto Doutor Mara perscrutamos muito mais do que mergulhos, parecem-nos um gesto de protesto e de afirmação de uma identidade que pode ser perdida?
Doutor Mara: Estamos neste momento numa encruzilhada. É um pouco como aqueles momentos da vida em que decidimos se havemos de partir ou ficar sem deixar nada para trás. Às vezes também tenho uma visão idílica dos antigos habitantes desta terra e então imagino as ruas das cidades cheias de gente e orgulhosos da sua cultura do mar e do campo, encho-me de vaidade das profissões que valorizam as mãos, ouço-os cantar as canções antigas de trabalho e a vestir fatos lindos ao domingo, mas depois não tenho em mente de alguma vez termos sido felizes e pobres ao mesmo tempo. Meus amigos, uma redundante certeza eu já tenho da minha parte: eu nunca abandonei o mar, mas já deixei bolo-rei no prato.

DM: Inclusive soubemos de fonte segura que já mergulhou com tubarões recentemente, é verdade?
Doutor Mara: Não tenho feito outra coisa nesta vida, sabem disso. Gosto de os ver passar, analisar o seu comportamento e perceber que nos temos que afastar se não quisermos que uma parte de nós sucumba. É muito simpático analisar a forma como os tubarões pequenos gostam de agradar aos tubarões de grande porte, manifestando a sua dedicação em manobras e outras diversões, sendo muitos destes de uma lealdade que faz impressão. Sabemos que a sua condição de predador deixa pouca margem de manobra para afastar-se da costa mas seria bom tom que em conjunto pudéssemos encontrar reservas naturais só para este tipo de animais.  

DM: Doutor Mara, vemos alguma nostalgia ou saudade nas suas palavras, coisa que não é muito comum, não é verdade?
DM: Os últimos tempos têm sido profícuos quanto à discussão daquilo que Portugal e os portugueses poderiam ou não fazer. É bom termos ganho consciência de que o país é a soma de todos os seres individuais. A certeza de que seremos muito mais fortes juntos. As democracias são por vezes injustas com as minorias, quando as maiorias são de facto medíocres impedem que essa minoria possa ter um país melhor, de tentar alcançar um bem-estar colectivo. É difícil combater este dom sebastianismo de séculos, que se manifesta nesta aceitação de figuras providenciais e salvíficas. Não tarda nada estão a meter-nos a mão no bolso. Costuma-se dizer que temos aquilo que merecemos.

DM: O diagnóstico já foi feito há muito tempo e só nos impede de juntar forças e agir. Doutor Mara, Estaremos já num beco sem saída?
Doutor Mara: Sim, é verdade, foi uma espécie de aragem que que entrou e que parece demorar a sair, acontece sempre isto com gente com mais olhos do que bucho e uma necessidade maior de parecer do que ser naquilo que seria esperado. Não sabemos o que virá a seguir mas certamente já não voltaremos ao ponto de partida.

DM: Talvez agora nos possa responder ou explicar por que é que quando lhe perguntamos na entrada do novo ano o que desejaria para este ano mergulhou numa resposta inusitada, respondendo: “um barco e uma flor”. Alguma resposta na manga?
Doutor Mara: Sabem, por diversas vezes quis abandonar este país, por desalento, por ver que as coisas não funcionam como deviam funcionar, até por falta de oportunidades, ou por sonhos de outra vida imaginados noutros lugares, quase sempre associados a “paraísos” de silêncio e algum anonimato. O que é verdade é que, muito embora tenha vivido várias vezes no estrangeiro, nunca abandonei definitivamente este país. Nunca. A pergunta será: é o mar ou é este país que me custa abandonar?

DM: E se for o mar?
Doutor Mara: Se for o mar precisarei de um barco…posso sempre partir e regressar. Há sempre rota de partida e de regresso.  

DM: E a flor, Doutor Mara, diga-nos, o que é que isso significa?
Doutor Mara: A flor significa a esperança, e esperança no país, obviamente. A esperança de que um país é um lugar para se amar e cuidar…por isso precisamos que a flor germine. Para isso é necessário terra, água, semente e tempo. Quem está disposto a abrir o primeiro sulco no chão?
DM: Estamos em suspenso, Doutor Mara, estamos em suspenso. Muito gostaríamos de ter uma resposta para lhe dar.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Óciologia


DM: Caro Doutor Mara,  boa tarde, sabemos que se encontra a preparar mais uma conferência de grande envergadura, certamente em mais um tema fracturante para a sociedade portuguesa. Será que nos pode levantar o véu daquilo que iremos ouvir muito em breve e que é motivo da sua total entrega, dispêndio de tempo e de energia?
Doutor Mara:  Sim, posso, sem qualquer problema. Não há aqui qualquer segredo, permitam-me que  vos diga, pois  ultimamente tenho tentado perceber como funciona o ócio na sociedade portuguesa e demais. A Conferência versa a inacção, isto é, o que é isso de ser improdutivo numa sociedade e num planeta que  já vimos  produzir de forma explosiva e excedentária e que caminha rapidamente para a sua extinção. No entanto, apesar da elevada produção, consumo, desperdício e extinção dos seus recursos naturais, reparem bem na quantidade de gente desempregada que estas sociedades geram e a angustia de todos aqueles que não encontram trabalho e consequentemente dinheiro para suprir as suas necessidades básicas do dia-dia. Com estas máquinas e toda a panóplia tecnológica existente, o "exército" da produção necessita  cada vez menos de "soldados". Há, portanto, perguntas que têm que ser feitas: O que fazer com o tempo livre que aí vem? O que fazer nas horas de ócio? Será que estão a pensar taxar a preguiça? O que pensam fazer com tanta gente que não possui dinheiro para comprar o ócio que lhes oferecem?
DM: Certo, Doutor Mara, compreendemos. Mesmo assim o que será do mundo e das nossas sociedades se não houver gente que produza e coloque alface fresca pela manhã no mercado municipal? 
Doutor Mara: Percebo a vossa inquietação, mas o meu estudo e, neste caso esta minha prelecção, vai irreversivelmente noutro sentido, pois interessa-me sobretudo estudar o lado ocioso, o "dolce fare niente" contemporâneo, o sector mesmo improdutivo das nossas sociedades. Interessa-me essencialmente esta gente que passa os dias recluso nas suas casas e quartos ou ainda parados nas praças e nos mercados sem nada para fazer, ainda que muitos deles com imensas histórias para contar. A conclusão a que eu chego é que a nossa sociedade já não sabe viver com o tempo livre que dispõe. É muito curiosa a expressão "tempo livre", não é? Tenho, por assim dizer, uma imensa ternura pelos vadios, boémios, marialvas, estoura-vergas, valdevinos e, demais criaturas e seres improdutivos que, sem prejudicar ou extorquir o próximo, conseguem encontrar o seu espaço nesta sociedade do deve e haver. Penso ainda assim que é preciso muito, mas mesmo muita imaginação para conseguir sobreviver, ainda que com alguns trocos, evidentemente.

DM: Curioso o que nos acaba de dizer, Doutor Mara. Será que podemos considerá-lo um defensor acérrimo do ócio criativo?
Doutor Mara: Eu gostaria mas nem sempre consigo tornar o meu próprio ócio criativo, o mesmo penso que  acontece  convosco, não é assim? Deixe que vos conte uma história: tenho um amigo que, em plena adolescência, a sua casa de banho mais parecia uma biblioteca pública, ainda que a maioria dos livros  fosse da Walt Disney e afins. Os pais pensavam que ele iria tornar-se um brilhante leitor e, posteriormente, num excelente estudante. No entanto, ele em vez de ter ficado viciado no Tio Patinhas desenvolveu uma enorme empatia com o Zé Carioca, encerrando-se nesse universo de ócio e preguiça do qual nunca mais se libertou. Curioso, não é? Hoje é dono de uma livraria com livros em segunda mão, aquilo a que se chama um Alfarrabista. É perito em raridades bibliográficas, "monos" e livros de bolso. Abre às seis da tarde e fecha às oito da noite, dependendo da clientela. Nunca o vi a dizer um palavrão.  

DM: As pessoas quando têm férias ou tempo disponível costumam viajar para paraísos turísticos, sítios exóticos, quanto mais excêntricos, melhor. O que é que o Doutor Mara que estuda com afinco estes assuntos tem a dizer sobre isto?
Doutor Mara: Muito pouco, ou quase nada, evidentemente. Ainda que conheça um indivíduo que gosta de passar férias em zonas de guerra ou conflito armado eminente. Já vi fotografias deste em situações de guerra, junto de carros armadilhados e bombas a explodir ou em ambientes hostis, a ferver de adrenalina e intensidade. Vi-o, inclusive, na selva da Rodésia a fugir de um leão faminto, tendo sido salvo pela trompa de um elefante que o ajudou a subir um muro. Há gostos para tudo, creio que nestes casos, é ter algo para contar e sair de um aborrecimento contínuo para uma ou duas semanas de aventura. Tudo isto talvez sejam consequências de uma sociedade impreparada para o verdadeiro ócio...para o usufruir verdadeiramente de um tempo livre em que os indivíduos é que devem ter a última palavra a dizer! Normalmente vão atrás da primeira frase que lhes dizem: o hotel em frente ao mar, a temperatura da água e as águas cristalinas, o gelado de seis sabores. A maior parte das vezes, aborrecem-se e apanham o avião de volta. Nada a fazer.   

DM: Conte-nos, Doutor Mara, como é que costuma ocupar os seus tempos livres?
Doutor Mara: Faço aquilo que o comum dos mortais normalmente faz: corto as unhas, lavo os dentes, dou um passeio pela cidade ou à beira-mar, escrevo cartas em folhas de papel branco, componho canções de inverno e veraneio, vagueio com livros pelos cafés da cidade, planto erva-doce e rúcula, participo no mercado de trocas e, sobretudo, durmo de papo para o ar e de boca aberta. Normalmente, entra mosca.  

DM: Uma pergunta bastante pessoal pois soubemos que o seu plasma ainda se encontra dentro de uma caixa de papelão. Onde é que vê televisão: fora de casa ou na Internet ?
Doutor Mara: É muito, muito raro mesmo ver essa caixa que de facto mudou o nosso mundo. Neste período de chuvas fortes, peço à vizinhança, dado não conseguir ver televisão sozinho. Incomoda-me imenso a chuva a cair com as bátegas de chuva a bater nas vidraças e eu ali a ver televisão, como se não houvesse mais nada para fazer. Tenho a sorte dessa família ser bastante numerosa e ocorrer passarmos serões a discutir a programação dos diferentes canais. Por vezes, dão-se debates muito interessantes que ninguém quer deixar de mandar a sua bicada, como se costuma dizer. Há dias discutimos sobre o que é isso do serviço público de televisão. Dei-lhes o exemplo do desaparecido TV Rural...um programa sobre o mundo rural feito na altura para citadinos...tinha bastante audiência.

DM: O que significa a palavra trabalho para si? 
Doutor Mara: Será que é que aquilo que fazemos por prazer ou obrigação? Não sei.Ando há dezenas de anos a tentar perceber se o trabalho liberta...custa muito acreditar neste premissa. (Toca o telefone). Desculpem, é trabalho, estão a pedir-me serviços, sentido de missão e sapiência...vou ter que voltar ao meu estudo, peço imensa desculpa!

DM: Para terminar, uma pergunta um pouco absurda, mesmo assim não podemos deixar de a fazer: o que é que espera estar a fazer daqui a dez anos?
Doutor Mara: Nada. Absolutamente nada!

DM: Muito obrigado, Doutor Mara! Um bom serão para si e esperamos vê-lo entretanto!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Futurofagia

DM: Caro Doutor Mara,  soubemos que passou o ano no seu gabinete à espera das doze badaladas e só algum tempo depois é que abriu uma das janelas que dá para a rua. Alguma superstição?
Doutor Mara: Nada disso. A verdade é que desde pequeno que sou muito sensível ao barulho dos relógios de corda, julgo que aquele som remete a minha imaginação para a adorada e irrecuperável infância que eu tive. Nestas alturas da entrada de um novo ano, sinto sempre uma fina e doce aragem infantil que me invade a alma, deixando-me completamente letárgico, desassossegado e anestesiado, o que pode parecer contraditório. Julgo que foi o tempo suficiente para acender um puro e desfrutar do amável aroma das fábricas de tabaco da minha Havana querida. 

DM: Doutor Mara, compreendemos. Sinceramemente, diga-nos, o que espera de 2013?
Doutor Mara: Sinceramente, preferia entrar já em 2014. Como o próprio número indica, temos que ser cautelosos com o que aí vem. Sabem que não sou de dar palpites nem gosto de abusar de prognósticos, como devem calcular. Nós, latinos, somos dados ao pessimismo, o que por um lado é muito bom, mas há que ter em conta que nestes momentos é muito importante agir. Ainda que com uma boa dose de preguiça, pois claro. Sou, como se costuma dizer um "pugilista" dos novos tempos, portanto, quem tiver um quintal deve começar já a fazer a sua horta, quem tiver bicicletas deve levá-las ao mecânico, quem tiver relógios deve voltar a andar com eles no pulso, quem tiver uma enxada no sótão deve ir buscá-la, quem gostar de democracia deve comprar um guarda-chuva e quem for adepto do cinema iraniano deve comprar um viagem de avião para o Festival de Berlim. 

DM: Sente que a cultura em Portugal está ameaçada?
Doutor Mara: Creio que nunca deixou de estar. O meu avó, que não era propriamente um intelectual, dizia sempre que ainda havíamos de acabar todos a jogar matraquilhos. Estou confiante que as suas previsões vão chegar mais cedo do que o previsto. Tenho receio, no entanto, que esta crise irá, no entanto, agravar a variedade e diversidade de equipas em disputa. O Sporting se continuar a jogar assim no campeonato corre o risco de desaparecer do mundo dos matrecos, o que é uma autêntica desgraça, e o Sporting de Braga que substituirá o Sporting, muito provavelmente  terá que usar o seu equipamento alternativo para não ser confundido com o Sport Lisboa e Benfica. A ser assim, ficamos com mais um problema de economia real para os detentores destes jogos de sorte e azar espalhados pelo país e ilhas.  É caso para dizer: o que mais nos irá acontecer?

DM: Soubemos, no entanto, que ficou bastante desiludido com a escolha dos melhores livros, filmes e álbuns de 2012?
Doutor Mara: Talvez tenha havido aqui alguma fuga de informação. Não foi bem desilusão, é não chegar a perceber para quê que aquilo serve. É como aquelas estrelas que os críticos atribuem...uma coisa é expressar uma opinião a outra é atribuir bolinhas ou estrelas consoante a boa ou má disposição com que se acorda pela manhã. Um músico, um cineasta, um actor, um poeta ou um escritor não deviam ter este tipo de escrutínio redutor, simplista e faccioso. Todos os anos lá estão as listas, as bolinhas e as estrelas...eu prefiro as serpentinas, os cigarros de chocolate e os rebuçados do doutor Bayard para a tosse.

DM: Por pouco quase que tocava a sua irritação com o ranking anual das escolas?
Doutor Mara: Sim, é verdade, esta foi de raspão. São simplificações que servem uma determinada opinião pública e que visa tornar ainda maior o fosso entre as escolas públicas e as  escolas privadas. É uma espécie de  nouvelle cuisine...misturar alhos com bugalhos, lançar a confusão e depois  dizer que não tem nada a ver uma coisa com a outra e que as escolas saem beneficiadas deste tipo de julgamento e escrutínio. É típico da xico-espertice lusitana, pois todos sabemos que estamos a avaliar pessoas de contextos sociais, culturais e económicos diferenciados em contexto de exame.  Por outro lado, a maior parte de nós aprendeu na escola a não querer uma data de coisas que são hoje para nós bens essenciais à existência, tais como o direito à diferença, ler e aprender o que não está nos programas, sonhar com outro tipo de escolhas para lá daquela que a escola nos oferecia, enfim, coisas que escapam aos rankings e aos topes contemporâneos.  Ou será que alguém vai lançar o ranking das escolas com os melhores resultados na sua relação com o meio e relevância para a cultura de todo um povo? 

DM: Doutor, uma pergunta bastante pessoal: o que espera de Portugal em 2013 ?
Doutor Mara: Um barco e uma flor. 

DM: Um barco e uma flor???
Doutor Mara: Um dia explicar-vos-ei porquê. Um bom ano para todos vós e que não vos falte a voz! Um amplexo Doutor Mariano!

DM: Muito obrigado, doutor. Esperamos vê-lo pela cidade um destes dias...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Metereopatia

DM: Caro Doutor Mara,  fale-nos aos estudos que tem vindo a desenvolver, pois temo-lo visto a passar pelo centro da cidade com muitos livros e, pouco agasalhado, o que não é normal para esta altura do ano.
Doutor Mara: Neste momento, fruto de uma pausa laboral imposta por este governo de sábios da numerologia, dedico-me ao estudo da Metereopatia.
DM: Doutor Mara, estamos atónitos, sinceramente, diga-nos, em primeiro lugar, em que consiste a Metereopatia?
Doutor Mara: Como a própria palavra indica refere-se à alteração que o estado do tempo provoca no comportamento humano - visível e invisível. As mudanças e variações que o estado do tempo provoca no eu individual e colectivo dos povos. Nós, portugueses, somos completamente dominados pelo estado do tempo e raramente temos consciência disso. Os suecos ganharam consciência desse facto e arranjaram formas de lidar com esse  problema. É impressionante o número de bandas suecas pop da actualidade  que cantam os verões do sul, por exemplo. Há, inclusive, uma banda intitulada "El Perro de Barcelona", já para não ir lá atrás buscar os ABBA. É uma forma de aliviar a pressão de muitos meses de inverno, passados dentro de casa ou fechados no quarto junto de computadores. A social-democracia sueca, por exemplo, foi muito longe porque na Suécia, não só devido à cultura e ética protestante, mas também devido a invernos longos e prolongados, pois as pessoas vivem muito isoladas e desenvolvem formas de autonomia, sobrevivência e independência muito maiores que no sul. A falta de luz no exterior faz com que se procure a luz no interior da comunidade.
DM: Por que é que decidiu dedicar uma boa parte do seu tempo a um estudo, uma parcela do conhecimento, com tão pouca cientificidade no nosso país?
Doutor Mara: Bom, há quem se dedique a estudar a influência da Vitamina B12, uma das componentes da sardinha, na dita melancolia e saudade portuguesa. Mas, foi sobretudo em dia de grande tempestade. Eu encontrava-me  no norte do país a mostrar uma cidade do litoral a um encenador lisboeta, chovia imenso, e era impossível caminhar pelas ruas da cidade, quando este me disse  que aquele dia de chuva intensa era propício à leitura de romances russos...um dia assim seria para ler na cama os romancistas russos, com Dostoievsky e Tolstoi à cabeça. Foi aí que pensei: "Há aqui uma mina de estudo para desenvolver". A partir daquele momento, revi os meus conhecimentos básicos da psicologia moderna e atirei-me de galochas para o estudo da Metereopatia. 
DM: E que dados concretos foi descobrindo?
Doutor Mara: O sério desta questão é que o estado do tempo tem uma influência de forma acentuada no eu, individual e colectivo. Vivemos numa sociedade com um elevado número de metereopáticos. Há pessoas que funcionam muito com a presença ou não da luz do sol nas suas vidas, pessoas que gostariam de não ter que se confrontar com nuvens durante algum tempo ou pessoas que se modificam, se reinventam, com a chegada dos raios de sol. Veja-se, por exemplo, o caso das nossas ilhas e a quantidade de escritores que estas já forneceram ao nosso país. Herberto Helder é o escritor  que é,  um escritor em tom maior, devido ao sol da Madeira, os Açores  tem uma bruma na literatura que não se vê em mais nenhum outro sítio. Ou então, ouçam-se os coros e os corais alentejanos para perceber que são tudo expressões e influência do estado do tempo, em que depois  a cultura e a música logo se encarrega de expressar. A Metereopatia devia ser tida em conta na economia e a verdade é que não é. Os povos do norte trabalham e produzem muito mais por uma questão de temperatura e depois bebem mais cerveja para compensar essa dedicação ao trabalho. Os invernos rigorosos e a impossibilidade de andar na rua no Inverno casa obriga a uma outra estratégia para lidar com a natureza e a sobrevivência. 
DM: Dizem inclusive que os povos mais felizes são os latino americanos, será que é por não estarem sujeitos à metereopatia?
Doutor Mara: Sim, completamente. Ali combina-se a temperatura e a lentidão do progresso económico e tecnológico. Tudo tem o seu tempo e depois há a música em tons maiores que faz com que qualquer sueco seja o melhor dançarino após a ingestão de uma cuba livre ou dois goles de tequila. 
DM: Doutor, uma pergunta muito pessoal:  considera-se um metereopata contemporâneo?
Doutor Mara: Sim, dentro do possível e de um quadro clínico ainda por desvendar. Em manhãs de nevoeiro, por exemplo, como sempre uma anona e, por vezes, uma barra de chocolate para aumentar os níveis de serotonina  no cérebro.