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quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Um Poema de Miguel Martins

A vida é impossível, não importa
o Vicks Vaporub, o que  nos fazem 
ou o que nós fazemos, se ou quando.
Desde que o primeiro homem se lembrou
de que não era cão, ficámos condenados
a saltérios e musas e juros com fermento,
à sina de gravatas e aprestos.
Que mal tinha ser cão, além do bem
de comer carne crua e cheirar cus
e vaguear pelas estações do mundo?
Mas não: havia que salgar a focinheira
do porco, pôr rosmaninho nas virilhas
e inventar a cadeira rotativa,
moribundelirar amores obtusos
e de tudo intentar a mais-valia,
composta e previdente e pequenina.

Ora acontece que, seja dia ou noite,
só me apetece ladrar à maresia. 

in "Do Lado de Fora - Dispersos escolhidos-1995-2017"-edições Abysmo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

"In God We Trust" de Miguel Mansilha

 Os portugueses de New Badford
ainda moram na ilha
E transportam a candura própria 
de quem respira o ar de São Miguel
Diferem dos credos, mesmo os cristãos,
pois tem uma relação menos materialista 
com o "american dream".
Quando olham as notas verdinhas do tio Sam,
chamam-lhe uma dólar 
com a ternura de quem faz amor
com uma couve tronchuda
depois das geadas de Janeiro (tão tenrinha!)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

"Balanço do ano literário" por Madalena de Castro Campos

 Alguém, alguém, alguém
se teria dado ao trabalho
de folhear ao menos o seu pobre livro?
Não diria comprá-lo, lê-lo,
arriscar-se a ter por mal empregue 
o dinheiro gasto.
Apenas espreitá-lo, de pé, na livraria,
assegurando-se de que ninguém olhava e
mantendo-o à distância para evitar o fedor.
Percorrer os títulos, avaliar o corpo,
verificar a pontuação.
Lavar as mãos depois. Os olhos, a boca,
a língua com a qual iluminar o mundo?

in A Gun in the Garland, Companhia das Ilhas, 2019. 

terça-feira, 12 de maio de 2020

terça-feira, 24 de março de 2015

[li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios]

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, que não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

Herberto Helder in A Faca não Corta o Fogo