Eu só quero ouvir os meus passos nas praias vazias
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sábado, 2 de dezembro de 2023
sábado, 3 de dezembro de 2022
quinta-feira, 17 de novembro de 2022
Um Poema de Miguel Martins
A vida é impossível, não importa
o Vicks Vaporub, o que nos fazem
ou o que nós fazemos, se ou quando.
Desde que o primeiro homem se lembrou
de que não era cão, ficámos condenados
a saltérios e musas e juros com fermento,
à sina de gravatas e aprestos.
Que mal tinha ser cão, além do bem
de comer carne crua e cheirar cus
e vaguear pelas estações do mundo?
Mas não: havia que salgar a focinheira
do porco, pôr rosmaninho nas virilhas
e inventar a cadeira rotativa,
moribundelirar amores obtusos
e de tudo intentar a mais-valia,
composta e previdente e pequenina.
o Vicks Vaporub, o que nos fazem
ou o que nós fazemos, se ou quando.
Desde que o primeiro homem se lembrou
de que não era cão, ficámos condenados
a saltérios e musas e juros com fermento,
à sina de gravatas e aprestos.
Que mal tinha ser cão, além do bem
de comer carne crua e cheirar cus
e vaguear pelas estações do mundo?
Mas não: havia que salgar a focinheira
do porco, pôr rosmaninho nas virilhas
e inventar a cadeira rotativa,
moribundelirar amores obtusos
e de tudo intentar a mais-valia,
composta e previdente e pequenina.
Ora acontece que, seja dia ou noite,
só me apetece ladrar à maresia.
só me apetece ladrar à maresia.
in "Do Lado de Fora - Dispersos escolhidos-1995-2017"-edições Abysmo.
segunda-feira, 22 de agosto de 2022
"In God We Trust" de Miguel Mansilha
Os portugueses de New Badford
ainda moram na ilha
E transportam a candura própria
de quem respira o ar de São Miguel
Diferem dos credos, mesmo os cristãos,
pois tem uma relação menos materialista
com o "american dream".
Quando olham as notas verdinhas do tio Sam,
chamam-lhe uma dólar
com a ternura de quem faz amor
com uma couve tronchuda
depois das geadas de Janeiro (tão tenrinha!)
ainda moram na ilha
E transportam a candura própria
de quem respira o ar de São Miguel
Diferem dos credos, mesmo os cristãos,
pois tem uma relação menos materialista
com o "american dream".
Quando olham as notas verdinhas do tio Sam,
chamam-lhe uma dólar
com a ternura de quem faz amor
com uma couve tronchuda
depois das geadas de Janeiro (tão tenrinha!)
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022
Lembrar os Versos de Jorge de Sena
Acreditai que nenhum mundo, que nada
nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
"Balanço do ano literário" por Madalena de Castro Campos
Alguém, alguém, alguém
se teria dado ao trabalho
de folhear ao menos o seu pobre livro?
Não diria comprá-lo, lê-lo,
arriscar-se a ter por mal empregue
o dinheiro gasto.
Apenas espreitá-lo, de pé, na livraria,
assegurando-se de que ninguém olhava e
mantendo-o à distância para evitar o fedor.
Percorrer os títulos, avaliar o corpo,
verificar a pontuação.
Lavar as mãos depois. Os olhos, a boca,
a língua com a qual iluminar o mundo?
se teria dado ao trabalho
de folhear ao menos o seu pobre livro?
Não diria comprá-lo, lê-lo,
arriscar-se a ter por mal empregue
o dinheiro gasto.
Apenas espreitá-lo, de pé, na livraria,
assegurando-se de que ninguém olhava e
mantendo-o à distância para evitar o fedor.
Percorrer os títulos, avaliar o corpo,
verificar a pontuação.
Lavar as mãos depois. Os olhos, a boca,
a língua com a qual iluminar o mundo?
in A Gun in the Garland, Companhia das Ilhas, 2019.
terça-feira, 12 de maio de 2020
terça-feira, 24 de março de 2015
[li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios]
li algures que os gregos antigos
não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam
apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero
saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas
gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras
para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus
precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio
tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens
extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas
grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se
inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para
tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que
responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta
comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma
canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que
fôlego,
que alguém perguntasse: tinha
paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino,
o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu
dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e
moderna,
os cegos, os temperados, que não,
que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega
Herberto
Helder in A Faca não Corta o Fogo
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