Mostrar mensagens com a etiqueta Citaçõe: Poesia.. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Citaçõe: Poesia.. Mostrar todas as mensagens

domingo, 19 de dezembro de 2021

"Fim de Semana" de Alexandre O´Neill

Estirado na areia, a olhar o azul,

Ainda me treme o parvalhão do corpo,

Do que houve que fazer para ganhar o nosso,

Do que houve que esburgar para limpar o osso,

Do que houve que descer para alcançar o céu,

Já não digo esse de Vossa Reverência,

Mas este onde estou, de azul e areia,

Para onde, aos milhares, nos abalançamos,

Como quem, às pressas, o corpo semeia.

 in Ombro na Ombreira, Publicações Dom Quixote, 1969.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Um Poema de Fernando Moreira

do féretro que levo na vida
ao ovni da minha esperança
a ti é hélida dorida:
 Numa noite calada
     dos meus sonhos distantes
Teci teu corpo
     na miragem do meu nenúfar
Poisei tímido
      no teu gineceu errante
E vibrante ...
      derramei em êxtase
      na minha hélida dorida
      abatida e sem esperança
      ... o último espasmo do meu
                                       corpo
  Já caía o amanhecer!

 in "Mar Branco".

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

"a pão e água" de Joaquim Castro Caldas

ainda há gente boa, de cabeça deslumbrada, o coração em cima

da mesa com uma pistola descarregada, a contar a última aventu-

ra sem medo que lh´a levem, ainda gente pura que partilha

a aventura e empresta a pistola, carrega o coração às costas com

a cabeça à mostra: ainda há gente, e bem haja, com quem se

pode abrir a vida toda e a quem se deve o prazer de ser gente,

não só a bem de quem mas à maneira de ser gente pura e mais

nada. Ainda há gente rija e linda que demora mais a amar do que

é amada. um grande amor ainda espera pelo amor mais do que

uma vida inteira.

in Mágoa das Pedras, Deriva Editora, 2008.

domingo, 21 de novembro de 2021

"as algas e o musgo" de Joaquim Castro Caldas

o fim do verão deixou
debaixo das pedras vento
vísceras e sol
 
não há sombras
e a meio do Outono
as gaivotas rompem a neblina
com o bico
 
os barcos brincam em dueto
ao apito com eco
 
para a claridade
há um biombo
e a silhueta de uma mulher
despe-se
 
mergulho no desenho
azul medo do mar
bebemos buio
fumamos breu
 
conservas o coração
quente para sobreviver
aos rigores do Inverno
e tudo se passa por dentro

 in Mágoa das Pedras, Deriva Editores, 2008.

sábado, 20 de novembro de 2021

"Na Ilha de Porto Santo" de Ana Hatherly

Por sobre a esmeralda líquida do mar 
o poeta espraia lentamente o olhar 
e enquanto as pequeninas ondas 
correndo para a praia se abatem 
por sobre a areia quase distraidamente
o espírito do lugar penetra-lhe os sentidos
e no seu pensamento subitamente brilha 
o perfil mágico, mítico, da ilha.  

in Itinerários, Quasi Edições, 2003. 

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

"Avec le Temps" de Ana Hatherly

 Com o tempo

tudo passa

do possível ao improvável

 

Com o tempo

desabitamos

as condições do corpo

a sua assinatura

 

Com o tempo

descobrimos o sentido fractal –

na face do Banquete

as coisas conhecidas

tornam-se sussurro

 

O futuro é um despiste amargo

um vértice truncado

que se esfuma

 

Divorciados do acaso

afastamo-nos calados


No deserto

surdamente gritamos

 

in “Itinerários”, Quasi Edições, Março de 2003

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

"Tenerife ao Longe" de Ana Hatherly

As nuvens parecia 
que tinham sido penteadas
com pentes de largos dentes 
que deixavam
largos riscos no toucado do mar
Ao longe 
o vulto difuso da pequena ilha 
emergia 
acima de uma bruma rósea
com seu pico nevado 
Sonhei estar a teu lado
falar-te 
ouvir-te
Mas o vulcão está mudo
e tudo me afasta de tudo


in Itinerários, Quasi Edições, Março de 2003. 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Agosto de João Habitualmente

 Tarda-me tudo tanto tudo sob os dedos

 Não sou capaz de nada

algo que esconde um rastilho

atear um fogo

planear uma emboscada

 

Mesmo os teus cabelos 

tarda-me em tê-los

 

Esperei por ti

o cumprimento dos dias

Começava logo de manhã

e ficava na mesma pedra até ao sol posto

 

E no entanto sabia que não virias

Desde criança que chego ao Inverno em Agosto

sábado, 6 de junho de 2020

Ao Fim da Tarde

De qualquer maneira não durariam muito. A observação
mostra-mo há muitos anos. Embora um tanto apressadamente
veio e parou-as a Sina então.
Foi breve a bela vida.
Porém quanto das essências a tensão,
em que leito excelente nos deitámos,
em que prazer os nossos corpos demos.

Um eco dos dias do prazer,
um eco dos dias junto de mim veio,
algo da juventude de nós ambos em ardente exaltação;
um carta voltei a pegar na minha mão
e lia mais e mais até falhar a luz.

E saí para a varanda melancolicamente -
saí para mudar de pensamentos vendo pelo menos
pouca cidade amada,
pouco movimento da rua e das loja.

Kostandinos Kavafis, in "Os Poemas", Relógio D´Água Editores, Julho de 2005.