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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Da Estranheza

     As cartas começaram a empilhar-se na caixa do correio. Ninguém estranhou.
João Mendes Coelho, in "Lurdes" Açoriano Oriental, 14 de Fevereiro de 2026.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Dos Direitos

         "Vejo a violência doméstica à luz da conflitualidade humana, mas repudio-a. Acredito no entendimento, na busca pelo equilíbrio. No diálogo. Na concórdia. Não se ama uma mulher num momento, e no outro enfia-se-lhe uma faca no ventre. Não podemos baixar a guarda na defesa dos direitos, não só das mulheres, mas também de quem é mais vulnerável, seres humanos como eu."

Mário Roberto, in "Nas Asas da Igualdade", Açoriano Oriental, 30 de Novembro de 2025. 

terça-feira, 25 de novembro de 2025

59 de Manuel Zerbone

       "(...) Não sei bem porque sinto esta necessidade de deixar transparecer uma melancolia triste que me envolve, sem causa que eu possa precisamente determinar. Mas, todavia, é assim.
      Nem já os campos me alegram, essas crianças eternas, que despem cada Inverno o manto suavíssimo das suas ilusões, para novamente se enfeitarem com ele nas suas Primaveras que se sucedem; nem o mar com os seus suspiros de ternura, nem com os seus rugidos de cólera, nem com a sua vastidão imensa, por cima da qual o meu espírito paira e se agita às vezes, como a pena caída da asa de uma pomba, pode vogar em baldões, à tona de uma niágara que se despenha em cascatas de espuma. 
       Quando assim anda enlutado o nosso espírito, a ponto que nem mesmo a música
, esse bálsamo consolador de todas as amarguras, pode fazer-lhe bem, em tudo vemos um motivo tristeza, e os nossos corações abrem-se facilmente para receber e compreender as mágoas daqueles que nos parecem ainda mais infelizes que nós."

14 de Novembro de 1886, in Crónicas Alegres, 1884-1888, Organização Carlos Lobão e Urbano Bettencourt, Edição Núcleo Cultural da Horta. 

sábado, 2 de julho de 2022

Da Luz

     A maior parte da vida do Planeta precisa de luz, a maior parte do peixe depende do fundo e, nos Açores, temos muito pouco fundo com luz. Estes frágeis paraísos da vida marinha, povoados por espécies únicas. são ricos pela biodiversidade, mas muito pobres na quantidade, em parte por possuírem uma área de águas pouco profundas."

Luís Rodrigues, in "Pescar em terra que o mar não quis", Açoriano Oriental, 27 de Junho de 2022.

domingo, 14 de junho de 2020

"Trutas" de Rodrigo Alves Guerra Júnior

          "Que título esplêndido.
          Estou a ver já os gastrónomos antegozarem com estalos de língua aquele peixe de fino paladar, que chegou a dar o ser ao muito conhecido adágio:« Não se apanham trutas as bragas enxutas» A cena passa-se onde quiserem; no Cairo, no Egipto, em Malta, no Pico, em Nesquim, em***-aqui peço licença  para pôr as entrelinhas convencionais, à laia dos romances antigos: os cavaleiros embuçados entraram na freguesia de ***
         E de facto numa bela manhã de Julho, entraram três sujeitos de carruagem na freguesia de ***Deixo muito de propósito  estas três entrelinhas à investigação dos homens de ciência; uma equação a resolver.
         O que lhes afianço é que os os três entraram pela freguesia dentro  ao trote manhoso de três mulas, que o chicote do cocheiro não conseguia de maneira nenhuma despertar."
        
in Edição, conjunta Câmara Municipal da Horta e da Secretaria Regional da Educação e Cultura/Direcção Regional dos Assuntos Culturais, 1988.

terça-feira, 19 de maio de 2020

José Cutileiro (1934-2020)

        "Hoje, em autocarros de Bruxelas, anúncios exortam-nos a votar para escolher «o governo da Europa». É propaganda mentirosa (o governo da Europa está nas capitais dos países, e não nas instituições de Bruxelas), mas não é só propaganda. Na selva da globalização, nós, os europeus, só nos safaremos unidos. E contra nacionalismos populistas, a União só terá força se os povos sentirem que  precisam dela. O caminho passa também pelo Parlamento Europeu, por pouco votado, frívolo, irresponsável e distante que nos pareça hoje.
        Perante a concorrência desenfreada e impiedosa do resto do mundo, está-se a descobrir que os ovos afinal não estivessem tão cozidos como isso tudo. A omelete não será baveuse, mas, se não a quisermos comer, morreremos de fome." 
(23-05-2014)
in Inventário, Desabafos e digações de um céptico, Publicações Dom Quixote, Fevereiro 2020. 

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Da Neura

“O universo humano é uma associação frágil de natura e cultura. A vontade de tudo controlar, a obsessão da lei, de tudo regulamentar, de uma vez para sempre, a perda de sentido de humor, do dever sem prazer, tornam a vida uma neura.”
Frei Bento Domingues in Público.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A Quatro Mãos


                               “Mas de repente dou por mim a olhar para o nosso quintalinho literário e a perguntar-me: que se passa? Os escritores não precisam de estímulos? A realidade, agora a cores, basta-lhe? É ela o grande ópio? Quase tudo sóbrio e a trabalhar por obrigação. Acabaram-se os O´Neill e os Pachecos (o Luís e o Assis), os cafés e as tertúlias de onde se saía, ou de gatas ou com a cabeça cheia de ideias para escrever, ou as duas coisas juntas. Grande parte da literatura caiu nas malhas de uma triste engrenagem comercial que se julga alegre e viva, mas é cinzenta e igual. Ninguém arrisca uma gargalhada forte, satírica (Júlio Conrado acaba de dar uma, mas a gargalhada ressentida também não é sadia), a poesia anda melancólica, a prosa vive de memórias, o ensaio, depois do vigor do Eduardo Lourenço, academizou-se (e por mim falo). Falta-nos seiva (vamos buscá-la, de vez em quando, aos livros de Maria Gabriela Llansol), falta-nos a verve visceral, o humor certeiro – sempre vamos lendo o “Fora de Mercado” do Jorge (Silva Melo). A literatura que se faz será séria, sólida e serena, mas raramente nos desafia ou faz estremecer. Está a ficar frouxa. É dos tempos. (…) A escrita profissionalizou-se, é o que é, - hoje, todos temos que ser “profissionais” sem professar coisa nem causa nenhuma. E por muito que muitos continuem a dizer em entrevistas que escrever é “uma necessidade” (Necessidade? Ah, a língua portuguesa, tão traiçoeira, e tão poucos a servir-se disso, a fazer desta necessidade uma virtude!), os resultados raramente convencem.”
João Barrento, in “A Quatro Mãos”, Público, 28 de Julho de 2001.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Diário

“O importante é sempre isto: concentração. Concentração: etimologicamente – com um centro. Afastar  da luz excessiva mas sem movimentos violentos, sem grandes frases, sem altifalante.
Para se escrever é necessário um solo firme e movimentos mínimos. Os micro-movimentos da mão do próprio acto de escrever devem ser resultado das também subtis mudanças da posição dos pés, e ainda da calma voz e das calmas palavras.
         É necessário silêncio ou um ruído base fixo que não se excite minimamente com as constantes excitações do mundo(…)”

Gonçalo M. Tavares in Jornal de Letras, 19 de Dezembro de 2017

domingo, 14 de maio de 2017

Do Poeta Misterioso

Fotografia de Carlos Olyveira 
        “Alexandre O´Neill permanece, pelo menos para mim, um poeta misterioso. Um grande poeta misterioso que entrou na língua portuguesa e nela ficou, autorizando-nos a usar como nossas e de todos os dias as palavras e expressões que ele inventou. (…) Leiam-no porque têm agora uma oportunidade de o ler numa bela edição da Assírio& Alvim, “Poesias Completas& Dispersos”, editada por Maria Antónia Oliveira, a biógrafa e investigadora do poeta. A edição integra os poemas das sucessivas edições na Imprensa Nacional das Poesias Completas de 1951 a 1986 (algumas coreografadas à luz de novo conhecimento) e de outro livro de poesia “Anos 70: Poemas Dispersos”, de 2015, recolha de Maria Antónia Oliveira.

Clara Ferreira Alves, in Revista do Expresso, 6 de Maio de 2017

Trespassados

        "Não vão ser só os portugueses a ficar muito pobres nos próximos dez anos. Até as raças superiores terão de conter despesas e isso pode ser uma vantagem para nós: mais pobres, os do Norte talvez se sintam tentados a trocar Bali ou Rajastão como destino de férias de praia ou "culturais" em favor de locais mais baratos: as praias e o património exótico situado nas traseiras das suas casas.Portugal pode ser um desses destinos caseiros de emergência e, em vez de investimentos em eólicas, ou seja de atirarmos dinheiro ao vento, devíamos dedicar-nos a melhorar as praias, o acesso às praias, os hotéis, os campos de golfe, o património histórico-artístico português...e a disfarçar o melhor possível a devastação da paisagem urbana e rural a que nos dedicamos com afinco há 50 anos."

Paulo Varela Gomes, in Público, 16 de Abril de 2011

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A Periferia da Periférica

“Neste sentido, é importante investir em iniciativas que façam a ponte entre quem aqui trabalha e que, no âmbito de uma residência artística, um workshop, uma formação técnica, ou simples conferência, partilhe conhecimento com quem está mais longe dos centros, onde este tipo de experiência é mais regular, está disseminada de forma mais abrangente e não se encontra reduzida a uma cadência pontual e para uma público circunscrito, como é o nosso caso.”


Alexandre Pascoal, in Açoriano Oriental, 8 de Maio de 2017 

domingo, 5 de junho de 2016

Do Populismo

         "Populismo" já não designa nada da ordem da constituição e legitimação de um corpo político ou dos métodos de governação, já que o seu sentido está inteiramente do lado dos meios de comunicação, do regime mediático; não tem nada a ver com o povo, mas apenas com espectadores."

António Guerreiro, Ípslon, Sexta-feira, 27 de Maio de 2016,

quarta-feira, 9 de março de 2016

Roubo de Arte

       "E o roubo de arte é coisa séria: o quarto maior mercado negro mundial, segundo a revista Foreign Policy, depois da droga, da lavagem de dinheiro. E das armas."

João Pereira Coutinho, in Avenida Paulista, Quasi Edições (2005/2007)

sábado, 11 de maio de 2013

Balada para Angra


Fotografia de Tiago Rodrigues
"É pecado dizê-lo, amor, mas se eu fosse Deus, serias irremediavelmente minha namorada. Apanharia com doçura a tua mão esguia e os teus dedos breves como as madrugadas azuis do nosso silêncio saberia, então, encostar-me à tua baía de todas as bonanças. Se eu fosse Deus, amor, ia percorrer-te a cada instante nas tuas marginalidades e nos teus epicentros sempre prontos a bulir e acabaria, irremediavelmente pecaminoso, ancorado a uns lábios de um luar saboroso até que o mar acabasse. Amor, se fosse Deus, iria ajoelhar-me no fim de tudo para te levar, com glória, para um reino que não é deste mundo.
Decerto que endoideci de paixão. Em vez alguma poderei entrançar-me nos teus cabelos longos e lindos e belos, nem adormecer sossegadamente no teu colo de verdura tenra. Levou-te o mar para presente aos Oceanos."

José Daniel Macide, in Diário Insular, 18 de Junho de 1996

terça-feira, 23 de abril de 2013

Abril, depois de amanhã

       Ritualmente era assim: o jornal estava pronto, mas a rotativa não andava. Não porque tivesse enguiçado. O que emperrara durante décadas foi a vida dos portugueses. Para além de notícias de retórica e de assombrosos artigos de opinião fortemente tutelados pelo poder instalado, pela mentira e pela fraude, as salas de redacção dos jornais eram, por isso, um mórbido sítio onde, de entremeio com cinzeiros a abarrotar com “beatas” chupadas até ao queimar os dedos e envelopes de telegramas da agência noticiosa oficial, ardiam os valores e a dignidade de quem tinha que engolir em seco as tramóias da censura. Cada golpada dos agentes do regime era um soco no estômago a quem, porventura, arriscasse pôr o pé em cima do risco que limitava a mentira, o frete ou a subserviência ou então, simplesmente, dizer a verdade. O que não chegava às secretárias já escrito pelos fazedores de uma opinião pública cada vez mais tacanha e enriçada numa teia que o fascismo foi urdindo, era logo condicionado ao tratamento que os todo-poderosos entendiam ser divulgável. “Não referir”, “Não mencionar”, “Proibido desde aqui até ali”, “Proibida a divulgação” e outros que tais, eram epítetos utilizados pelos censores para controlar os jornalistas e o País. Uma batalha, de resto, com um vencedor previamente anunciado. Para isso lá estava atenta, veneradora e obrigada, a truculenta Pide de má memória no seu zeloso serviço de…servir a Pátria. A funda de David, em vez alguma, poderia largar uma pedrada num olho de Golias. Esqueceram-se, porém, que os dinossauros de há muito que estavam extintos e que as imitações são, normalmente, de duvidosa qualidade. Apodrecem e cedo cheiram mal.
Hoje, vinte e três anos depois, as rotativas imprimem os jornais logo que as redacções entendem que o trabalho está feito. Fulano de tal, a atingir os quarenta e que na altura usava calça curta, há-de lembrar-se das idas diárias ao escritório do censor com a prova final do jornal para que, finalmente, a máquina pudesse andar. Mas agora, na administração do mesmo periódico, já não têm que mandar “o rapaz” à censura. Mal acaba esta crónica – sou sempre o último a chegar – o jornal estará na rua. Mãos à obra, amiga impressora, que a tinta já está no tinteiro.
José Daniel Macide, 23 de Abril de 1996

quarta-feira, 20 de março de 2013

Três Sacrilégios no Peter

1.“Senor, is this Horta, is this Peter Island?” Não percebe nada de mar e veio aqui dar à costa, este inglesinho que, de certeza certa, fugiu à escola para brincar aos barquinhos. “And Faial Island, if you don´t mind”, digo eu. Não sossegou e acredito bem porquê: estou na catedral dos iatistas e pediu a Mr. Peter Azevedo uma coca-cola com muito gelo. Estava cometido o primeiro sacrilégio.
2.Sentado a uma bela e ossuda mesa de castanho roseira, ia deixando que o fresco gin me aquecesse a garganta “Lembras-te, José” – perguntava já meio tonto ao José que sou eu – “do Peter velho aqui ao lado com o velho Peter todo branquinho naquela cabeça a preparar gins porreirinhos às escondidas para ninguém saber o truque? Lembras-te, José, da tua primeira vez? Foi uma, foram duas, foram três e à quarta, pifaste! Tão novinho e pifaste José!.. Pifei, José!” – respondo eu ao José  que sou eu. Um puto em idade colegial e em férias pascais, entornar de uma só vez quatro torneiradas de gin-tónico, é cá um pifo e tantas. Sonhar com o que foi bom no passado, também é um sacrilégio. Este é o segundo da crónica.
3.Decididamente, não gosto dos “Cruzeiros”. Dói-me na alma olhar ali para a acrobática “Espalamaca” e vê-la na bancada, como menina trapezista de circo arrumada na prateleira. Sentado no muro em frente ao “Peter” e olhando defronte o Pico, falta-me as “lanchas” e os mestres e os marinheiros e os cestos de duas asas chegarem carregados de ameixas vermelhas e de homens e mulheres de chapéu-abeiro. E falta-me também aquelas testas tisnadas de mar do pessoal das “lanchas”. Nesta nostalgia, o terceiro sortilégio agora é meu: É pecado estar de costas seja para que altar for. É que eu já não sei se hei-de olhar para o Pico, ou vê-lo reflectido numa vigia do “Peter-Café Sport”.

José Daniel Macide, Junho de 1989, in Crónicas da Portugália 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Anarquistas

          Miguel M. é meu amigo por natureza e é anarquista por profissão. Por mais brilharetes que as chefias possam fazer, com ele nunca lucram nada. Se, por exemplo, chove, ele treme por um bronzeador que o ponha sãozinho que um pêro e maduro como uma amora. Está céu aberto e ei-lo a barafustar que as culturas vão ao ar, que os pássaros não encontram charco onde molhem o bico, que os peixinhos vermelhos do tanque estão aqui a afogar-se no lodo. Anarquista é o que ele diz ser. Por mim, chamo-lhe espírito de contradição nas horas boas e varrido-de-todo quando vou ficando sem paciência para o aturar. É claro que ele vai-se safando com desculpas de mau pagador e cita parábolas e tiradas filosóficas que, no fim, acabam em nada. Mas vai falando, o que não já não é nada mau. O que é mau é quando ele se arma em defensor de causa alheia e atira para cá fora umas tantas bacoradas que vê-se logo que não joga com os trunfos todos.
Pois é.
       Aqui há anos andava Miguel M. de manga arregaçada e língua em riste, desbaratando tudo e todos os que entendiam que a agricultura dos Açores ou levava uma reviravolta ou os curraizinhos de duas ou três vacas não chegariam para pagar o leite que o vitelinho – nené  ia chupar nas primeiras duas semanas de vida. “Uns comunas é o que eles são !” afogava-se o Miguel , no seu constante alarido contra o emparcelamento de terrenos que então se preconizava.“Uns grandessíssimos e alternadíssimos comunas, estes gajos!”.
         Hoje, Miguel M. já não fala assim. Usa gravata, faz a barba e joga mais rasteiro. Hoje Miguel M. é um fanático pela CEE, já vai ao futebol chamar filho-de-puta ao árbitro e entende, muito diplomaticamente, que o tal “emparcelamento de terrenos” há anos recomendado, é um maná que vem dos céus, é a chuva que vem saciar a terra árida, é o sol que vem dourar os trigais.
Lírico, anarquista, maluco e azarento, este Miguel. Os agricultores que nunca vão às pescas, paradoxalmente querem ensinar-lhe com quantos paus se faz uma canoa. Logo agora…


José Daniel MacideMarço de 1985, in Crónicas da Portugália