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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Das Ausências...

         
Filme "Domenica d´Agosto", de Luciano Emmer
(imagem do sítio "Cinefilia Ritrovata")
 "O que me passa pela cabeça são as ausências. Isto é, o espaço vazio que deixam e que são ocupadas pelas imagens, as palavras e as músicas. Proponho não encarar as ausências que nos acompanham como um espaço vazio mas como um espaço aberto para serem habitadas pelos nossos desejos.
            Falando de desejo: a minha lua-de-mel levou-me a Bologna e ocupei a ausência da selecção italiana do campeonato do mundo com enormes doses de amor, ragù e filmes no Cinema Ritrovato. Uma descoberta: Luciano Emmer e os retratos de ficção, da Itália e Europa dos anos 50, a rebentar de vida - tão comovente, despretensiosa e verdadeira que parece ter deixado uma ausência no cinema de hoje. Em Domenica d´Agosto (1950), as classes sociais fogem do calor de Roma para se atirarem ao mar de Ostia. Dois jovens furam a barreira que separa a areia dos pobres da areia dos ricos e apaixonam-se à beira-mar, fingindo, como jovens actores, que têm hábitos e fortunas, crendo que o outro é aristocrata. Na cidade, um casal de namorados fica para trás e descobre que o seu amor é abalado pela realidade: a gravidez dela provoca o despedimento daa casa onde trabalha, como empregada, e a incerteza provocada pela ausência de dinheiro, no polícia sinaleiro, fá-lo perder a capacidade de orientar a vida à sua volta. É verão e tudo nos diz, nestes rostos, que a vida continuará quando o calor se fizer sentir pela sua ausência."

Francisco Valente, programador e realizador, Ípsilon, 25 de Janeiro de 2019

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Trespassados

“Não vão ser só os portugueses a ficar muito pobres nos próximos dez anos. Até as raças superiores terão que conter despesas e isso pode ser uma vantagem para nós: mais pobres os do Norte talvez se sintam tentados a trocar Bali ou Rajastão como destinos de férias de praia ou “culturais” em favor de lugares mais baratos: as praias e o património exótico situado nas traseiras das suas casas. Portugal pode ser um desses destinos caseiros de emergência e, em vez de investirmos em eólicas, ou seja, de atirarmos dinheiro ao vento, devíamos dedicar-nos a melhorar as praias, os acessos às praias, os hotéis, os campos de golfe, o património histórico-artístico português…e a disfarçar o melhor que for possível a devastação da paisagem urbana e rural a que nos dedicamos com afinco há 50 anos.
(…) No final de contas isto já foi tudo trespassado às raças superiores. Agora é só a questão de as convencer a aproveitarem as vantagens: o mínimo que podemos fazer é mostrar-lhes sítios bonitos, alindar esses sítios, escondermos a fealdade…e levá-las à praia.”

Paulo Varela Gomes, in P2 , Jornal Público, Abril 2011

segunda-feira, 11 de abril de 2016

"Mar" de Tiago Miranda

Tiago Miranda, Pianola, 2013.
O mar em grego é uma palavra do género feminino e foi assim que os antigos helénicos começaram por  tratar desta força da natureza. Uma potência geradora e aglutinadora de vida. “O mar é” disse-me um dia o meu pai para calar aquilo, sobretudo com que o mar nos dá mas que também nos tira. O mar é, foi e será sempre, fonte de riqueza e inspiração neste país com tanto de mar como de lua, daí "o país de lunáticos" do Alexandre O´Neill. Para lá do peixe, dos recursos marinhos e da frota pesqueira, a nossa costa está repleta de praias e locais para nos dedicarmos ao sol, aos mergulhos, aos passeios, ao desporto, ao namoro, à contemplação. Foi isso que Tiago Miranda, repórter fotográfico do Expresso, quis fixar de forma quase diarística, num périplo costeiro de onde resultaram as imagens deste “Mar”. 
Ao longo deste particularíssimo e pulcro objecto, encontramos muitas praias, algumas bem conhecidas e outras menos, mas todas de igual relevância para o respectivo conjunto.  A beleza deste objecto é tanta que aumenta o desejo de viajar pelas praias da nossa infância e adolescência. 
Este livro de fotografias de Tiago Miranda contém ainda um poema de Rui Miguel Ribeiro (“Fez-se chamar com a fúria cava/ de uma onda ou a táctil cobertura/ de uma espuma”), sendo a revisão de Mariana Pinto dos Santos, tendo sido composto e paginado por Eduardo Brito. A tiragem, com a chancela da Pianola, foi de trezentos exemplares. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

A Miolo da Rua de Pedro Homem

       
Galeria Miolo na Rua de Pedro Homem
Miolo é um novo ponto de paragem e observação na rua de Pedro Homem, no centro histórico de Ponta Delgada. Segundo reza a história, Pedro Homem foi escrivão do Ouvidor do rei D. João III, viveu e morreu por ali, caracterizando-se por possuir capacete ou adaga e terá sido este o introdutor de várias aves - falcões, cisnes e milhafres - na Ilha de São Miguel. A nova galeria que passa agora a existir no número 45 desta rua pretende ser, cinco séculos depois, mais um ex-libris de forte atracção e interesse, não só histórico, mas também cultural e turístico. E porquê? É que nesta rua já existe o restaurante vegetariano “Rotas”, o Hostel The NooK, o Bed and Breakfast “By Lapsa” e, para além de tudo isto, há também um cabeleireiro, um dentista e uma farmácia na esquina.
         Em Janeiro deste ano a Miolo inaugurou a sua primeira exposição de fotografia, e que é  o resultado do seu primeiro mês de existência e abertura ao público. Aliás, quem descobriu, entretanto, o espaço passou de imediato a fazer parte da exposição – ainda que de forma livre e espontânea vontade – pois bastava deixar-se fotografar em lugar próprio, à entrada da galeria. A exposição inaugural intitulou-se “Work in Progress” e mostrou a todos os que visitaram aquele espaço e viram esta ideia e conceito em movimento, descobrindo assim as diferentes fotografias expostas consoante a passagem dos dias, aproveitando para de algum modo conhecer o seu interior e o que esta dupla fundadora tem para “oferecer”.
        Vitor Marques e Mário Roberto pressentiram ser este o momento para combinar as capacidades criativas de ambos e contemplarem a Miolo, enquanto editora, aliada ao projecto Malavelha Photografia, que recuperará assim os primórdios da revelação fotográfica, demonstrando o que o passado das imagens nos pode hoje ainda oferecer. Esta ideia antiga foi posta em prática com um risco diminuto por estes assumido, conscientes que estão que após a “Miolo” outras iniciativas semelhantes irão ter lugar no "miolo" citadino.
         Ao longo deste ano, a Miolo tem já várias actividades agendadas, pretendendo, em primeiro lugar, funcionar como espaço de galeria de fotografia e ilustração, seguindo-se à exposição de Paulo Prata, autores como Carlos Medeiros, Luísa Aguiar, Ian Allaway entre outros, podendo ainda os visitantes da galeria adquirir vários múltiplos de artes de artistas conhecidos da nossa praça – Tomaz Borba Vieira, José Nuno da Câmara Pereira, França Machado, Pedro Cabrita Reis, Alice Geirinhas, Inês Ribeiro, André Laranjinha ou simplesmente a Agenda Luz, de vários criativos micaelenses, para o ano de 2016.