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terça-feira, 9 de junho de 2020

Excerto de"Vista Desarmada", por Lígia Soares

           "(...)A linguagem fez-se por comparação. Não temos culpa. Sabemos que somos diferentes das árvores porque nos comparámos, e assim queremos ficar. Diferentes por comparação, isto é, mais bronzeados com mais firmeza e por mais tempo. Se não estamos perdidos.
           Teremos de olhar tudo do início outra vez. Como cientistas. Como aqueles que continuam a abrir hipóteses, a perguntar porquê.
               Os cientistas, quem é que quer saber deles?
           Dizem tudo tão explicadinho, tudo com tanta falta de estilo, e depois querem ser ouvidos. Não fora algumas estrelas de Hollywood que se vão dando ao trabalho de divulgar na internet entre uma outra fotografia na carpete..."
 in Gerador, Janeiro de 2020. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Beatriz, Beatriz!

Excertos de uma entrevista da actriz Beatriz Batarda a Lúcia Crespo no suplemento Weekend do Jornal de Negócios, no dia 24 de Janeiro de 2014:

Beatriz Batarda em "Quaresma" de José Álvaro de Morais
I
        “Por vezes, sinto uma certa indecisão na forma de estar do portugueses, se devemos ser activos no desenhar do caminho do país ou apenas seguirmos, numa posição demissionária e ausente, responsabilizando os governantes e desconsiderando o poder individual. Eu tento participar, dentro daquilo que é o meu espaço e a minha limitação, no desenho daquilo que pode ser o futuro. A verdade é que não sei muito mais do que isto. Tenho, desde que me lembro, dedicado a vida à representação, à arte de contar histórias, e também ao ensino, esperando poder contribuir para a passagem de um testemunho.”
II
      “Não sei qual o caminho futuro que nos propõem ao sujeitarem-nos a tanto sofrimento. Seria muito injusto culparmos a geração dos nossos pais, mas não podemos deixar de pensar que eles são, de certa forma, responsáveis, porque nos foram passando o seu próprio desencanto.”
III
         “A cultura, por exemplo, é um dos espaços mais humanos e democráticos a partir do qual pode nascer a reflexão e diálogo, por ser interior, por ser íntimo. Às vezes, a vida corre e não nos permite fazer esse exercício do espelho, e a cultura devolve-nos esse momento. Não é, como disse, uma função moralizante, nem tão pouco pedagógica, mas é a de criar espaço de diálogo. A ausência, o vazio, o silêncio – que eu espero que não venha a acontecer de uma forma definitiva - é de facto uma perda grave para todos os portugueses. Acho legítimo dizer que a nossa sanidade está em risco."

sexta-feira, 14 de junho de 2013

"Ok, essa é a sua opinião"

        “Há anos estava no Funchal a fazer Beckett, no Teatro Baltazar Dias, que é uma casa lindíssima, quando vi na avenida muitos carros pretos a parar. De um deles saiu o Pik Bota, o Presidente de África do Sul, que visitava a Madeira. Não me contive e comecei a gritar, de punho erguido, “ANC, Mandela”, “You are racist” – uma vergonha, reconheço. O Bota foi, no entanto, impecável, virou-se para mim e disse: “OK, essa é a sua opinião.”
Mário Viegas contou este episódio numa das suas últimas entrevistas, há precisamente dez anos, ao jornalista Fernando Dacosta,  na revista semanal do Jornal Público.