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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Missiva para Janeiro Alves já com a Taça de Espumante na Mão

 Caro janeiro Alves,

 Escrevo para comunicar-lhe que estamos no fim de mais um ano. E que ano!  É mais um ano que passa e daqui a pouco lá contaremos as passas, não as do Algarve, mas aquelas que abrilhantarão o nosso futuro próximo. 2022 será um ano deveras glorioso, pleno de feitos esplendorosos e repleto de brilhantina para a nossa humanidade. Acabo de receber a novidade de que teremos a melhor safra de vinho das últimas décadas.

Não posso terminar o ano de 2021 sem deixar de lhe transmitir que recebi uma fortuna incalculável de dinheiro proveniente de uma parente que não vejo há anos, mas que se lembrava de termos ido várias vezes à Galiza, seis pessoas num FIAT127, comprar caramelos e bacalhau seco, durante a minha meninice. Descobri, assim, que esta familiar mantém-se viva e alegre, muito embora a sua longeva idade. Disse-me também que actualmente se encontra autossuficiente e que não tem a quem ofertar a herança acumulada de anos. Imagine, amigo Janeiro, que não se trata apenas dum verdadeiro saco de notas em dinheiro vivo dado que também me falou em conceder a chave da sua casa de férias em Burgau, no barlavento algarvio, onde diz ter passado os últimos invernos. Conta-me, assim, que já não possui paciência para descer até à praia e que pretende conservar-se pela sua Idanha-a-Velha querida, muito embora o frio acachapante das Beiras nesta estação. 

Deste modo, foram dias intensos nesta quadra passados ao telefone a relembrar memórias de tempos pueris não obstante permaneça demasiado reticente em aceitar tanto dinheiro, ainda por cima vindo de alguém que aparenta ter pouco juízo. Esta fez questão de assegurar que receberei o dinheiro nos próximos dias e que, caso decida não o aceitar, poderei doá-lo ou oferecê-lo a uma instituição ou até mesmo dá-lo de mão beijada a um amigo ou conhecido. A ausência de herdeiros a isso justifica e permite.

Por isso, pretendo que me diga onde posso realizar os melhores investimentos, as melhoras apostas nos anos vindouros que se seguirão ou até mesmo perguntar-lhe se o meu caro amigo continua com dívidas de grande estrondo ou necessita de comprar um novo esquentador.

Despeço-me e aguardo a sua resposta ainda no decorrer do ano em curso. Acredito que o mês de Janeiro se repita e que o meu amigo não reforce no mês homónimo os trabalhos do carteiro.

                     Aperto de falanges bem robusta

 Doutor Mara

sábado, 24 de abril de 2021

Postal Urgente a Janeiro Alves (antes que Maio Moço Maio entre pela janela)

       Ribeira das Tainhas, fim de Abril.

              Caro Janeiro Alves,

                        Folgo em saber que tem um quarto reservado para mim na sua nova mansão, pois tenciono visitá-lo muito em breve. O dia está próximo, julgo que será no Dia Internacional dos Museus, onde pretendo visitar o seu distinto museu caseiro dedicado aos pequenos brinquedos de madeira com que brincávamos na infância. Fico também feliz em saber que já se encontra a preparar os melhores filetes de peixe para nossa degustação, no entanto, dispenso o espumante Raposeira, dado que ultimamente só consigo saborear o Frescobaldi Pomino, oriundo da minha Toscânia querida. Estou, assim, ansioso por pernoitar em seus aposentos e desfrutar dessas duas raspadinhas e da lata de salsichas do tipo Frankfurt com que me presenteará nas boas vindas. No dia seguinte, após a chapa memorial-repetitiva que imortalizará o nosso pequeno almoço para todo o sempre, regressarei a casa num balão de ar quente. Sei há muito que Janeiro Alves é um apreciador da normalidade e, ainda que pudesse permanecer muito mais tempo, é meu desejo entrar em casa antes do anoitecer.

Termino, assim, este postal com um calo vigoroso no dedo do meio e uma dor de costas intolerável, muito porque que escrevo deitado no chão para que as ideias possam fluir. A propósito do regresso de Miriam ao solar não posso estar mais de acordo consigo, já que acabei de saber que Miriam partiu rumo ao deserto em busca duma liberdade juvenil perdida. Felizmente travei a tempo o meu ímpeto primaveril para me enamorar! Ou será que o deserto é o lugar terapêutico necessário para quebrar com todas as ambições e augúrios terrenos?

                                                                 Ansioso por revê-lo e  com elevada estima,

                                                                                                                  Doutor Mara

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Carta a Janeiro Alves num Confinado Abril

Caro Janeiro Alves,

Meu caro amigo, prolixo, padrinho, pintor, profeta, poliglota, profícuo, pastor e profissional da escrita, diga-me: o que é que tem feito? Será que há novidades desse seu confinamento e isolamento social? Soube, entretanto, por fontes fidedignas, que Janeiro Alves se tem dedicado à pintura entre dez a quinze horas diárias. O que é que tem andado a aprontar nas catacumbas do seu ser? Perdoe-me esta minha curiosidade excessiva, mas anseio por novidades suas, tal e qual a chegada dos cagarros muito em breve.
Estamos ainda no mês de Abril e sabemos que é tempo de transformação e liberdade. Depois virá Maio que é, entre todos, o mês mais belo, superando em pulcritude os restantes meses. Poucas letras compõe o nome deste mês que irá robustecer os dias primaveris há muito aguardados. Daqui a muito pouco tempo, celebraremos a ascensão da temperatura e renunciaremos a roupa quente que, entretanto, guardaremos nas gavetas pesadas de bolor. Juntos permaneceremos na presença dos dias que admitimos maiores, ampliando o tempo ao gosto das horas e do calor. Assim, visionaremos a metamorfose do azul e contemplaremos luscos-fuscos memoráveis.
Eu, por aqui, vou conversando com a Miriam, que está de regresso após longa viagem pela Índia. Partilhamos a meias o Solar dos Manaias, ainda que nos encontremos somente no jardim para bebericar um chá verde, oriundo das melhores folhas de Camélia Sinensis. Sempre dá para dividir o pacote de bolachas Maria, ler o horóscopo e trocar impressões sobre as cores crepusculares do entardecer. Comunico-lhe que Miriam está diferente, mais bonita, é certo. A viagem tornou-a mais tolerante e dócil. No entanto, medita várias vezes ao dia, o que torna os nossos encontros demasiado dolentes e silenciosos. Às vezes julgo estar na presença de uma sombra, de um fantasma de outrora, sem rasgo ou chama. Quase ausente. 
Despeço-me com a sensação que talvez ainda possa chegar uma missiva na caixa do correio por estes dias. Regurgito, melhor, anseio por um passeio e pelo sorriso imaculado e galante das donzelas que despertam na fulgência primaveril. Por agora é tudo o que me ocorre, e quero, simplesmente, sugerir-lhe que me envie um tupperware com filetes de pescada confecionados pelo meu querido amigo. Será que é possível?
Com  elevado apreço e estima,
Doutor Mara

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Uma Missiva Janeirinha para Janeiro Alves

Insigne Janeiro Alves,

Acolhi a sua carta de fim de ano enrolado em cobertores e fui lendo as suas sentenças e narrativas com o eflúvio das derradeiras brasas espargidas na salamandra. O meu amigo Janeiro com a sua missiva à laia de 31 fez jus ao número e à atitude, confirmando com este seu gesto o que já é uma longa tradição de décadas. Só não percebo, ainda que tenha feito mesmo um grande esforço, quem lhe possa ter dito que eu fui cantando aqui e ali pequenos trechos do Gingle Bells, quando na verdade interpretei (em plena avenida de Santa Catarina) trechos intermináveis da Carmina Burana, do germânico Carl Orff. Que sucesso retumbante!
Comunico-lhe, assim, que visitei durante alguns dias da quadra festiva uma estação termal de São Pedro do Sul onde realizei banhos quentes, desta feita mergulhei em tanques de vinho e chocolate muito quente, sempre a temperaturas simpáticas e bem agradáveis, a contrastar com o gelo que fazia cá fora. Apesar do gosto pela familiaridade e das corridas colectivas ao consumo propício da quadra, passei, entretanto, jornadas de felicidade pura instalado nesses tanques aromáticos ou então no recato da minha habitação rodeado de livros de poesia obscura, muita música dita alternativa e um conjunto de filmes marginais. Sim, tudo isto foi o bastante para me ocupar e afastar das compras e presentes natalícios. Por sorte, encontrei por lá a amiga e curadora, a estoniana de origem francesa, a Annemarie Ripsmed, com quem partilhei chá verde e uma caixa de queijadinhas da Ilha Graciosa.
Mencionado este pequeno lembrete, e porque o ano já vai com algum gás, relembro-lhe que agora estou já acomodado no meio do atlântico a recolher material para mais uma obra ensaística e, quem sabe, um romance sobre a natureza das relações humanas. Não gostaria de terminar esta carta sem lhe dizer que não me recordo de alguma vez me ter emprestado cem euros. De qualquer modo, guardei o seu nib para o caso de me sair alguns trocos na raspadinha diária que realizo no snack-bar do meu bairro. Sei que o amigo Janeiro aprecia uma boa esmola despreocupada. 
Digo-lhe adeus como se estivesse fascinado por gladíolos ou impressionado pelo voo secreto das mariposas, augurando ao amigo Janeiro um novo ano muito diferente do anterior, sabendo que só poderei voltar a ouvi-lo em Fevereiro, o que muito me encanta.   

Obediências e cotejos deste seu amigo que não o esquece,

Doutor Mara

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Missiva à laia de 31 pelo Janeiro Alves em Moimenta da Beira

 Ilustre Doutor Mara,
Ou muito me engano, ou esta carta com vista para dois mil e vinte encontrará um Doutor Mara ainda inebriado pela quadra natalícia, envergando a sua habitual camisola de lã com renas e o respectivo gorro vermelho com pompom, e cantando aqui e ali pequenos trechos do Gingle Bells. Ainda esta semana obtive a informação de que fulano o viu assim numa casa de pasto insular, tendo-me contactado logo de seguida. Disse-lhe telefonicamente, e depois de um longo bocejo, que de nada de preocupante se tratava, e que era apenas uma forma de o Doutor Mara chamar a atenção. 
Registado este pequeno apontamento, e porque hoje é o último dia do ano, escrevo-lhe de Moimenta da Beira, localidade pitoresca do interior do país. Foi aqui que muita da história de Portugal aconteceu,  e que o gasóleo da auto-caravana acabou. Acabei por vendê-la a um estrangeiro, para pagar dívidas de mercearia. Estou hospedado na estalagem central, preparando-me já para a grande noite de Reveillon. Para além do habitual caldo verde e das passas, a estalagem apresenta mais logo um espectáculo de música ao vivo com o incontornável Tó Organista. Como se deve recordar, conheci o Tó Organista numa feira de gado há uns anos atrás e ficámos muito amigos. Espero que ele ainda se lembre de mim, pois é certo que me convidará para subir ao palco e cantar um ou dois temas. Pelo sim pelo não já comecei a beber Macieira, que como o próprio nome indica, amacia a voz.
Assim, e apesar de não me ter convidado, não me vai ser possível passar o Reveillon deste ano consigo, com muita pena sua. Mas a vida é assim. Como dizem os franceses, “parfois ensemble pour le Reveillon, parfois non…”. Acabo esta carta com uma boa notícia para si. Lembra-se daqueles cem euros que lhe emprestei há uns anos atrás para o Doutor Mara fazer face àquela situação constrangedora que por zelo não nomearei nesta carta? Para além de não lhe pedir qualquer juro, ainda lhe reduzo a dívida para oitenta euros. No envelope encontrará um pequeno papel com o meu nib, e rapidamente o assunto ficará esquecido para sempre.
Despeço-me com um olhar fascinado e comovido sobre dois mil e vinte e a promessa de voltar em Fevereiro com todo o fulgor que a química moderna me permitir, desejando ao meu amigo um novo ano melhor do que o presente, que já não foi mau, mas que poderia ter sido melhor, como aliás todos os anos acontece, à excepção de alguns onde se verifica precisamente o contrário. 

Cumprimentos reveillonistas,
Janeiro Alves

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Missiva Natalícia para Janeiro Alves

Ilhas Atlânticas, dia 9 de Dezembro de 2019
Caro Janeiro Alves,

Reestabeleço contacto com o amigo Janeiro, nesta tarde outonal, na esperança de descobri-lo moço e ambicioso. Sim, é verdade, a sua última missiva tresandava a desencanto e abandono. Inesperado, para não dizer surreal, este retorno às raízes do amigo Janeiro. Soa a ranço, para não dizer nostálgico, este professar dum adeus à antiga capital do império para refugiar-se no pinhal rodeado de vegetais e salchichas. Isso só pode simbolizar rendição à gentrificação, melhor, cedência ao “modus operandi turisticus” a que muitos dos nossos concidadãos foram submetidos.
Aproveito, assim, para comunicar-lhe que me tornei economicamente viável, já que acabei de participar num encontro literário com a preleção “E Rimbaud…gostava de Ramboia?”, com a assistência a rejubilar com tamanha agudeza e assertividade, não podendo deixar de soltar uma lágrima aquando da ovação de pé durante cerca de onze minutos. Nesta minha magnífica palestra não me esqueci de exaltar a paciência dos editores e livreiros que, ainda assim, continuam a convidar-me para estar presente nestes eventos de grande gabarito.
Desta feita, volto a referir que as suas mais recentes missivas revelam um Janeiro Alves cada vez mais eremita e misantropo. Por isso, não sei se irei aceitar o seu convite já que tenho receio de me distrair com o que terão para dizer figurões e personagens como Victor Klaus, Alberto Ai, Andar Carrasco, Fausto, Giorgio Delle Mare ou, imagine, soube da presença, este Natal, do curassário, Nikos Falácia Cautela, que me afiançou estar ansioso por degustar as iguarias e néctares dos deuses da sua mesa natalícia. Desconfio que serão muitos os artistas presentes mas, confesso-lhe, que o Movimento Alarvista está perdido, descamba a toda hora com tanta opacidade e nulidade criativa. A colocação de ananases em telas douradas não é bastante para renovar a arte hodierna.
Assim, despeço-me, já que estou atrasado e os correios estão a abarrotar de gente neste período. Aguardo, por isso, novidades suas apenas em Fevereiro…ou será que terei alguma surpresa pelo caminho?
Com a estima mais do que devida,
Doutor Mara

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Uma Missiva de Pré-Natal de Janeiro Alves

Caro Doutor Mara,
Abro aqui mais uma página da nossa já longa e solitária correspondência, com a mais profunda curiosidade em saber se ainda se encontra vivo, se ainda não foi raptado por traficantes de órgãos, ou adoptado por uma velha baronesa sedenta de diversão. Dados os últimos acontecimentos, temo ainda que tenha fugido para o Brasil ou que se encontre numa casa de saúde algures no meio da floresta Laurissilva (apenas por prudência). Apesar desta minha perversa curiosidade, mantenho a confiança de que o Doutor se mantém indexado aos cânones estabelecidos pela sociologia moderna, e que a sua farta cabeleira permanece bem armada, pois sei que nela guarda alguns objectos pessoais de valor inestimável e outros de uso mais diário.
Quero pô-lo ao corrente da vida de Lisboa, mas ficará para outra oportunidade, pois não me encontro lá. Estou neste momento no meio do pinhal, a respirar o ar puro e cristalino da natureza, e a grelhar umas salsichas tipo Frankfurt para o almoço. Perguntará nesta altura o Doutor Mara aos seus colegas de quarto: “o que estará Janeiro a fazer no meio do pinhal?”. Trata-se de uma desatenção da sua parte, caro Doutor. Acabei de lhe dizer que estou a grelhar salsichas para o almoço.
Mas o que o Doutor Mara não imagina, e que, se estiver acompanhado, encenará um enorme interesse em saber, é que decidi vender a minha sub-cave urbana e comprar uma autocaravana. Aventuro-me agora independente pelas sinuosas estradas do desconhecido, com dois faróis iluministas, uma cama, um frigorífico e um velho rádio a passar cassetes nostálgicas. Será neste escritório móvel e ao som de Swing e Yé-Yé que começarei em breve a redacção da minha nova obra – Compêndio Geral de Compêndios. Após este meu périplo por pinhais do interior de Portugal, conto chegar a Penedono pelo Natal, onde pretendo estacionar temporariamente para a tradicional celebração da época festiva. Para este ano conto assar meio cabrito. É neste ponto que justifico esta minha missiva. Quero convidar oficialmente o Doutor Mara para passar o dia de Natal com este seu velho amigo, e para me ajudar a comer os restos do cabrito da noite anterior. Obviamente que o repasto será bem regado com vinho a jarro de produção local, uma categoria.
Aguardo, portanto, o seu sinal relativamente a este convite. O sinal é de apenas 15 euros, e os restantes 25 euros poder-me-ão ser entregues em mão no dia do almoço.
Com elevadíssima estima e magnífica impressão,
Janeiro Alves

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Resposta Urgente de Janeiro Alves com a Humidade nos 90%

Lisboa, Octogésimo Primeiro dia a contar do Treze de Maio

Caro Doutor Mara,

Enceto esta carta com um veemente pedido de desculpas pela minha prolongada ausência, desejando que a mesma o encontre de boa saúde e dentro dos percentis estipulados pela ciência moderna. De facto, ao se aventurar a redigir bojardas sobre a minha pessoa, o Doutor Mara tem em parte razão, perdendo-a logo de seguida. Fui efectivamente alcançado pela máquina demolidora da turistificação. Fui expulso do meu apartamento em Campo de Ourique, e acabei numa sub-cave desagradável e residual, onde mal tenho espaço para a minha colecção de insectos embalsamados. Compreendo também o seu ímpeto provocador ao se referir a uma tal barbearia (que é apenas uma fantasia da sua cabeça e dos seus amigos intelectuais de trazer por casa), e começo a pensar que o Doutor Mara sente inveja desta barba bem lavrada, pois é conhecido o seu desejo de vir a ser aceite pela nossa Confraria dos Barbudos só para poder usufruir das excursões que organizamos às melhores casas de pasto nacionais. Relativamente a este assunto, deixe que lhe diga que a fotografia que há uns dias enviou juntamente com a ficha de inscrição de sócio, onde envergava nitidamente uma barba postiça foi no mínimo constrangedor. Quando os meus camaradas me perguntaram se o conhecia, afirmei “O nome dele não me é estranho…”, mas o Deodato que é cego sentiu a minha voz um pouco trémula. Este episódio não belisca em nada a nossa já longa amizade, apesar de não poder dizer com segurança que esta frase seja de uma autenticidade imaculada.
Posto isto, gostaria de lhe dar uma vaga noção dos meus tempos recentes, mas nada de relevante me ocorre. Os dias seguem o seu curso, as árvores preparam-se para caducar, as gentes movem-se em vagas que se precipitam sobre os areais, e os pombos assumem-se cada vez mais como espécie reinante, olhando sobranceiros e circunspectos os transeuntes foto-génios entediados pelo turismo. Recentemente arranjei trabalho numa biblioteca, e a minha função é limpar o pó dos livros. Tiro um livro, limpo o pó, meto no lugar. Tiro outro livro, limpo o pó, e meto no lugar. E assim sucessivamente. Tenho lido excelentes capas e contracapas. Já as lombadas dispenso, uma vez que me obriga a flectir o pescoço, e o Doutor Mara sabe em que estado fiquei quando me precipitei para salvar o Bobi de ser atropelado. Aproveito para lhe comunicar que o cão morreu engasgado na semana passada.
Acabo esta breve carta com uma nota de encorajamento e motivação, e uma outra de prudência. Sei que está motivado com o seu mergulho às profundezas do oceano, e que se de lá conseguir sair terá um ou outro episódio curioso para partilhar. Digo-lhe que tenho a profunda convicção que dado o seu considerável peso em quilogramas, rapidamente alcançará o fundo. A nota de prudência prende-se com os Alarvistas. O Doutor Mara afaste-se dessa gente, se não quer ficar como eles. Se ao invés quiser ficar como eles, não se afaste. Nesse caso aproxime-se, ou mantenha-se apenas por perto, caso a aproximação já esteja no limiar da “distância pessoal” tal como definida pelo Grande Livro da Ergonomia.
                                    Duma sub-cave Lisboeta, despeço-me com uma Vénia de Milo desnuda.
Janeiro Alves

Missiva para Janeiro Alves no Mês dos Grilos

Ponta Delgada, quadragésimo segundo dia após o início do Estio Açoriano.

Caro amigo Janeiro Alves,

Escrevo-lhe esta missiva com alguma urgência dado que daqui a instantes tenho que fazer as malas de viagem e ainda aconchegar o estômago com um repasto no Baptista, uma casa de pasto à moda antiga que descobri a semana passada a oito quilómetros do lugar onde durmo. Foi no Batista que provei as melhores asinhas de frango, com muito molho e vinagre, mas, confesso-lhe, o mais importante foi o convívio com outros elementos do Movimento Alarvista. Os Alarvistas são, de facto, imprevisíveis e originalmente fecundos. Imagine só, que um dos seus mais reputados e afamados elementos do Alarvismo, um tal de Alberto Ai, replicou que apesar do seu nome, nunca ninguém o viu desesperado.
Aproveito, assim, para desejar-lhe um Agosto incrível, que seja um oitavo mês repleto de peixe graúdo e fresco, sobretudo bem lá do fundo, com vinho branco das castas Arinto ou Malvasia, sem esquecer a sobremesa de melancias bem rubras e adocicadas. Felizmente, para mim, Agosto é altura de muito trabalho. Este é o mês onde, por norma, labuto 24 sobre 24, já que me espera um batíscafo onde conto fazer um mergulho às fossas marianas. Imagine que fui convidado para visitar as respectivas fossas (há quem jure a pés juntos serem estas minha propriedade) e assim concretizar um mergulho de 11 mil metros de profundidade. Ainda hoje partirei para as Filipinas onde farei os aprestos iniciais após uma década de preparação. O amigo Janeiro Alves poderá constatar que quase não terei muito tempo para respirar (mesmo que eu quisesse lá no fundo, não poderia, já que tenho que suster o pouco ar em disputa). O mergulho é apenas de quatro horas dentro das fossas, no entanto serão precisas muitas horas de treino para ser o quarto a bater mais este recorde.
            E, caro amigo Janeiro, como decorre o Estio? Dentro de uma normalidade esperada ou a debandada geral para o litoral? Nada sei de si de viva voz…mas soube através de uma amiga longa data, que espero não seja das más línguas, que também foi interceptado nas malhas da turistificação ao criar mais um empreendimento dedicado ao alojamento local, em pleno centro histórico da capital. Corre por aqui a notícia que o meu amigo transformou as águas furtadas onde residia numa barbearia tipo gourmet onde vende experiências e sonhos a jovens famosos de todo o planeta que queiram dormir numa cadeira de barbeiro e acordar duas horas mais tarde com a barba feita e o cabelo cortado. Curioso é o nome do empreendimento/barbearia - “AL/FAMA”…caso para dizer que quem fama cria deita-se na barbearia.
                Despeço-me, esperando que Agosto seja fresco e acutilante.
Com estima e descomunal admiração

Doutor Mara

segunda-feira, 11 de março de 2019

Missiva Pré-Primaveril ainda que tardia de Janeiro Alves

Caro Doutor Mara,
É com enorme satisfação que recebo a sua carta, apresentando desde já as minhas desculpas pelo atraso na resposta. Devo dizer-lhe que os últimos dias têm sido conturbados, devido a determinados acontecimentos que se sucederam inapelavelmente e à vista do meu olhar incrédulo. Pois imagine o Doutor que fui convidado para o Certame das Piores Obras Literárias Europeias, que este ano aconteceu em Saint Tropez. O Doutor Mara sabe como aqueles porcos chauvinistas gostam do freak show, mas eu não me importei nada. Hotel pago, pensão completa, passagens de pullman incluídas, champanhe no quarto, banhos na Côte D’Azur, oh la la… Foi caso para voltar a escovar o meu fato asas de grilo e reafirmar a categoria dos meus sapatos italianos de cetim afivelados. Para banhos reservei a minha melhor tanga, monocromática, robusta e confortável. Saímos de Lisboa rumo a França, com algumas paragens. A última seria em Perpignan, uma simpática localidade no litoral Sul. Tínhamos cerca de meia hora, e acabei por me perder. De repente dei por falta da carteira, e tentei sem sucesso voltar aos sítios por onde tinha passado. Corri para a praça central, e o autocarro já tinha partido sem mim. Vi-me assim sem dinheiro, sem mala, sem nada. Lembrei-me então que Victor Klaus estava a viver em Rivesaltes, uma zona de vinhas perto dali, e pus-me à boleia. Lá chegado, não demorei a encontrá-lo. O Doutor Mara não imagina a fama que Klaus tem em Rivesaltes! Mas concluirei rapidamente. Fiquei então uns dias por cá, em casa de Klaus, e tenho estado a trabalhar na apanha do tomate. O objectivo inicial era conseguir algum dinheiro para regressar a Lisboa, mas neste momento o local já me é aprazível. O meu caro amigo sabe como gosto de andar a pé, e Lisboa está um inferno com os trotineteiros e ciclistas. Cada vez mais o peão é um alvo a abater, e isso deixa-me furioso! Comecei a atirar-lhes com pedras da calçada, mas o Doutor imaginará a dificuldade em acertar em alvos em movimento…
Relativamente a Felício, compreendo a sua angústia, é efectivamente uma péssima ideia querer interrogá-lo. A última vez que o vi foi há uns quinze anos. Passei pela sua rua, e vi uma silhueta por detrás das cortinas da sua sala de jantar. Imagino que fosse ele, tendo em conta que não tem por hábito receber visitas, à excepção do contador do gás. Imagino portanto que, como abrilhantador de entrevistas e perguntador de alto gabarito, o Doutor Mara encare este como o maior desafio da sua já longa (porém curta) carreira. É caso para lhe desejar sorte, e lhe dizer que, dado o meu paradeiro, assistirei ao longe áquilo que poderá ser a sua consagração ou quem sabe, o seu categórico declínio.
Com elevada expectativa e a ancestral admiração,
Janeiro Alves

segunda-feira, 4 de março de 2019

Missiva Pré-Primaveril com Destino a Janeiro Alves no Entrudo Pleno

Caro Janeiro Alves,

Redijo-lhe estas linhas nos debutantes sussurros primaveris de 2019, desejando que o meu amigo se encontre guarnecido das mais promissoras expectativas para o próximo estio, que segundo asseveram as mais altas patentes da meteorologia, será o mais quente de sempre. Quaisquer mangas cavas ou demais refrescos e gelados será sempre pouco para o verão tórrido que se avizinha!
O motivo desta missiva é interrogar-lhe sobre o seu conhecimento de um tal Felício Chanfra. Recebi um convite duma publicação azórico-lusitana de reconhecido gabarito para interrogar este psicoterapeuta dada a sua reputação, trabalho e reconhecimento em terapias psicológicas oportunamente avançadas. Encetei com contumácia as questões necessárias e li mesmo toda a literatura ilustrada sobre a Psicologia Moderna. Até aqui labor intenso e esforçado. O meu amigo Janeiro Alves sabe que sou um brilhante interrogador, possuidor de um estrepitoso charme e assertivo nas minhas convicções hodiernas. Doravante, eis que não saberei o que me irá acontecer. É que quando procurei recolher informações sobre Felício Chanfra no grande motor de busca global, fui confrontado com ausência biográfica, surgiram mesmo algumas frases redondas e referências próprias de uma fragilidade inconfundível, muitas delas poderiam mesmo constar de qualquer mural nas redes sociais. Isto, para não falar de uma hiperealidade abissal. Indaguei assim a razão do sucesso de Felício na lista das personalidades promissoras deste novo século, e nada consegui concluir. Na lista de grandes promessas figuram ainda o irreparável Victor Klaus e o inefável Alberto Ai. Conjecture lá, Janeiro Alves, tamanho descaramento!
Como deve imaginar, não sei o que hei-de fazer para diminuir a ansiedade, desatei por isso a escrever e escutar interrogatórios de forma compulsiva, socorrendo-me apenas da recordação dos momentos de folia quando interroguei Giorgio Delle Mare e Andar Carrasco. Em breve, faço questão de lhe endereçar o resumo, a súmula do depressivo e suculento encontro que irei ter com esse famoso psicoterapeuta retirado do mundo. Segundo me afiançam, convirá também ficar atento aos ligeiros achaques e altivez a que habituou o seu público desde que ganhou o Prémio Sigismundo F, atribuído pela Academia dos Atos Falhados.
Despeço-me no ápice da euforia e no cúmulo da folia sobretudo pelo trabalho que o meu amigo tem vindo a realizar em prol da literatura de cordel, augurando-lhe, desde já, um Feliz Entrudo. Com um até breve na caixa do correio. 
No esplendor máximo da estima e da consideração,

Doutor Mara

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

2018 despediu-se...com Janeiro Alves na Caixa do Correio


Caro Doutor Mara,
            
           Escrevo-lhe esta carta no último suspiro de 2018, desejando que a mesma o encontre capacitado para as artimanhas que um ano com a fisionomia de 2019 deixa antever. Todo o cuidado é pouco para um ano deste calibre, meu caro amigo!
A razão desta carta é dar-lhe um pequeno vislumbre da minha actual situação e das circunstâncias que a ela me conduziram. Recebi um convite do Royal Hotel Magestic para a gala do fim de ano, estabelecimento de grande categoria e reputação, onde curiosamente recebi o galardão de autor da “Pior Obra Literária do Ano”. Preparei logo o meu fraque Suiço e puxei todo o lustro que consegui aos meus sapatos italianos de cetim afivelados. Até aqui tudo normal. O Doutor Mara sabe que me dou bem nos círculos da alta roda. Mas eis que o mais inesperado aconteceu. Insólito mesmo, para não dizer de uma estranheza teatral. Quando entro no grande salão presidencial, deparo-me com mesas redondas de uma elegância inolvidável, com pessoas de uma beleza de cristal já sentadas a conversar e a bebericar pequenas doses do melhor champagne. Procurei o meu nome na lista de mesas, e foi então que fiquei estupefacto. Na minha mesa estavam os seguintes nomes: Janeiro Alves, Victor Klaus, Alberto Ai, Andar Carrasco, Fausto e Giorgio Delle Mare. Imagine Doutor Mara! Estou neste momento sentado com todos eles a degustar belas iguarias com acompanhamento vínico de gabarito internacional.
Como deve entender, agora não me posso alongar mais, pois há um ano para passar, mas certamente dentro de dias lhe enviarei informações detalhadas sobre este curioso encontro, que tem tudo para correr bem, e tudo para correr muito mal.
É portanto com um nervoso miudinho e ligeiros tiques no sobrolho que lhe desejo um excelente 2019, e uma noite de Reveillon com toda manigância e prestidigitação a que já habituou os seus convivas, desde que fez desaparecer a roupa interior da sua vizinha, fazendo em seu lugar surgir uma sangria de frutos vermelhos pronta a servir. Bom ano Doutor Mara, e até breve se não for antes.
No limite da hora e com toda a estima,
Janeiro Alves

sábado, 8 de dezembro de 2018

Resposta a Janeiro Alves Antes que o Inverno Irrompa

Caro Janeiro Alves,
               Respondo-lhe no pináculo da minha popularidade, no cocuruto da minha notoriedade pois já não consigo palmilhar qualquer rua sem ser suspendido por vários transeuntes a implorar por autógrafos, selfies e perguntas sem nexo. Uma verdadeira amolação. 
Aproveito assim para retorquir a sua missiva em plena classe executiva do avião com os nervos à flor da pele, bastante perturbado até, tendo acabado por relê-la na Sala VIP do Varna Film Festival. Constato que Janeiro criticou publicamente o aparecimento do meu nome no horário nobre da televisão pública, irou-se com as respetivas loas da intelligentzia local à minha participação num folheto considerado por si de origem duvidosa, bem como denegriu, aliás, feriu de morte, a comunidade artística presente na apresentação do tão badalado opúsculo acabadinho de editar. Desta feita, pude constatar que Janeiro não suporta o glamour televisivo e cinematográfico, rejeitando de forma desmedida o universo da vernissage e do croquete. Entretanto, a recepcionista do hotel veio devolver-me o kit de banho que o meu bom amigo tinha esquecido durante o período da residência realizada em Varna, em que se dedicou à pintura na Primavera passada. Já cá mora para lhe entregar na sua próxima visita.
Fiquei estupefacto, deixe-me confessar. E, à flor da pele, aspiro tecer duras críticas a seu respeito, já que não poderia deixar de lamentar aqueles seus calções de banho com listas verticais vermelhas e uma toalha verde-alface da mais alta burguesia, decadente e dondoca, onde o meu amigo se move como uma jamanta. Imagine e, tendo em conta a nossa já longa amizade, que decidi arriscar uma entrada no mar negro com os seus rubros calções listrados. De imediato, senti-me com uma autêntica planta exótica a derreter, mirrei da cabeça aos pés e quase desapareci de tanta brancura. Certo que podia ter nadado com o meu escafandro, coisa que sempre fiz nos mares gelados, mas quis experimentar o seu kit, sentir-me à medida de Janeiro Alves, mas acabei um mês numa cama de hospital em convalescença.
Regressado à ilha, à minha bolha existencial, tenho recuperado a rotina à conta de gengibre e beterraba. Ingiro doses industriais de limão e por esse motivo não poderei estar presente na homenagem que lhe será feita pela Sociedade das Artes e das Letras, já que estou constantemente a ir à casa de banho. Foi, no entanto, com grande pesar que soube que o “Compêndio Geral de Plantas Exóticas” - obteve o galardão de “Pior Livro do Ano 2017”. Estranho, pois tinha sido informado logo nos primeiros dias por um membro do júri que iria obter o prémio de “melhor livro”. A ser assim, desconfio que alguém quisesse que Janeiro tirasse da arca o seu fato de asas de grilo, a lembrar as últimas Conferências da Fajã, e, assim, desse um novo impulso a esse trabalho glorioso em prol de prelecções futuristas que salvassem a humanidade do degredo. Por este motivo, conto dizer apenas algumas palavras de agradecimento por vídeo-conferência, enviar um emissário ao beberete e de seguida augurar que o amigo Janeiro seja levado sob escolta até Penedono, sem qualquer incidente. Aviso-lhe: eu nunca lerei o seu livro, já dei indicações precisas ao carteiro para não aceitar encomendas pois ninguém sabe o que esta pode conter. Não me leve a mal mas prefiro gastar os 25 euros na pastelaria groumet que abriu junto do meu escritório.
Concluo esta meritória missiva com um até breve pois julgo que chegou a hora de terminar com tantos enxovalhos e demais galhardetes. Talvez possamos a partir desta data partilhar este espírito natalício da rabanada e da aletria. Afinal, vivemos apenas uma vida e não quero passar a recordar os velhos tempos em que a fava e o brinde estavam prestes a irromper na próxima fatia. Que sejamos felizes com os regalos e delícias da quadra e do bolo rei.
Com elevada estima e apreço,
Doutor Mara

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Carta Injuriosa de Janeiro Alves no Cair do Outono


Caro Doutor Mara,
               
Imagino que esta carta o encontre no auge da sua popularidade, depois do deplorável espectáculo na televisão pública, onde o seu nome surgiu ligado à libertinagem e à cultura ”imediática”, na circunstância do lançamento de um panfleto de qualidade duvidosa escrito por meia dúzia de papalvos. Imagino então o meu amigo colhendo exuberâncias desta situação plastificada, rodeado de ananáses e outros ornamentos exóticos, num estado de graça que o subjuga à tentação do sorriso artificial e dos inevitáveis tiques burgueses. No fundo, eu sei que gosta desse glamour da televisão e do cinema, da vernissage e do croquete. Não pretendendo esta carta tecer críticas a seu respeito, não poderia deixar de lamentar esta situação tendo em conta a nossa já longa amizade.
                Mas não é de facto este o motivo que me leva a escrever-lhe. Imagine o Doutor Mara que vou ser homenageado pela Sociedade das Artes e das Letras, pois esta semana fui surpreendido com o galardão de ”Pior Livro do Ano 2017” com a minha obra ”Compêndio Geral de Plantas Exóticas”. Neste momento preparo o discurso para a entrega de prémios, enquanto tiro da caixa o meu fato de asas de grilo, que já não via a luz do dia desde que o enverguei categoricamente nas últimas Conferências da Fajã perante a estupefacção geral dos presentes. Conto dizer apenas algumas palavras de agradecimento, ir ao beberete e de seguida levantar o cheque. Julgo que este acontecimento exponenciará as vendas do meu livro, pelo que este natal conto alugar a vivenda inteira em Penedono, e não apenas o quarto das traseiras com vista para a serra. Como forma de agradecimento pelos importantes contributos que o Doutor Mara foi emprestando ao meu livro, envio-lhe por correio um exemplar que poderá pagar a contra-reembolso. São 25 euros em numerário, Doutor. Não precisa de me agradecer.
                Acabo esta breve carta com um semblante de desconfiança repentina relativamente a um facto que gostaria de ver esclarecido por seu intermédio. Em Fevereiro deste ano, escreveu-me o meu amigo uma carta, em que referia ter ouvido um rumor de que eu iria merecer a distinção de melhor obra de 2017. O meu caro amigo percebeu quase tudo bem. De ”melhor” para ”pior” é apenas um pormenor de somenos. O que me intriga e me provoca um franzir de sobrolho é o seguinte: onde obteve essa informação, Doutor Mara?

Com apreensão e estima,           
Janeiro Alves

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Réplica a Janeiro Alves ao Cair da Folha Outonal

Caro Janeiro Alves,

É de madrugada e estava eu já com um pé na porta quando recebi um telefonema que alterou os meus planos.  Encontrava-me assim com duas latas de atum da corretora na mão quando recebi esse inusitado convite que travou a minha ida ao seu encontro: serei júri da maior prova de vinhos do mundo a realizar este fim de semana na marina de Cannes. Somos apenas cinco provadores, um de cada continente, por isso não devo nem posso faltar. É um reconhecimento tardio, mas que julgo vir no momento certo.
Tencionava, por isso, visitá-lo com urgência, mesmo que não autorizem visitas, já que soube, entretanto, que o meu amigo Janeiro não se encontra na plenitude das suas capacidades, o alerta foi dado pela antiga companheira do meu tio, a sueca Vicky Malastrom, confirmando o estado grave e alterado da sua personalidade. Ela enviou-me a tradução singela do poema contido na sua última missiva:“Ajude-me, salve-me desta tragédia!”. Depreendo deste modo que corre perigo, amigo Janeiro Alves. A loucura quando chega é para todos.
E, talvez por isso, transportaria comigo alguma literatura humorística-satírica com o intuito de trazê-lo de volta à realidade. Estou certo que o meu amigo tem levado uma vida com demasiada seriedade, sempre pronto a evidenciar o sacrifício dos dias laboriosos, o longo calvário em que se tornou a sua existência, demonstrando pouca tolerância e propensão para o ócio. E olhe, com toda a garantia do que lhe digo, os mangas de alpaca não tarda irão tomar conta disto.
Enquanto lhe escrevo esta missiva e atiro mais um par de meias grossas para a mala dourada deste enólogo certificado internacionalmente, avisto as açucenas – “a menina vai à escola” – que despontam no meu sublime jardim. Terei, assim, que abandonar por agora os meus estudos relacionados com a botânica ou a higrometria insular tal como essa visita à casa de restabelecimento mental em que se encontra. Espero, por instantes, que esta carta o encontre coberto das mais nobres vestes e calçado com os seus sapatos italianos de cetim afivelados, continue a ouvir concertos de clarim e harpa para coro de pássaros exóticos. Ou que as ninfas e ninfetas lhe continuem a fornecer directamente à sua boca os mais frescos frutos do bosque sussurrando palavras de bonomia aos seus ouvidos bem como esses fontanários de água celestial permaneçam a jorrar como tónico capilar para o cabelo que lhe voltou a medrar aos gorgolhões.
Amigo Janeiro Alves, não tardará muito para que, após o desaguar de vapores etílicos no meu circuito venal, o acompanhe nos corredores dessa casa magistral povoada de folia.
Seu estimado e maravilhoso amigo,

Doutor Mara

terça-feira, 16 de outubro de 2018

A Ofensiva Outonal de Janeiro Alves (Não Tardará pela Resposta)

Caro Doutor Mara,
Ficaria este seu mui amigo descansado, se esta carta o encontrasse na plenitude das suas capacidades intelectuais, sobretudo se orientadas para assuntos belos tais como a divindade na botânica ou a higrometria insular, e não para devaneios anarco-sindicalistas que já o prejudicaram no passado.
Escrevo-lhe no despontar do Outono da varanda do meu quarto, onde pelo meio da folhagem tropical se vislumbram excertos do pátio central desta magnífica casa de saúde setecentista, enquanto com a mão esquerda afago os meus sapatos italianos de cetim afivelados que tantas recordações me trazem da Eslovénia e de Trieste. Queria saber como vai o meu amigo, mas posso desde já assegurar-lhe que bom, bom estou eu. Naquele dia em que corria nu pela Praça D. Pedro V, firme e convicto na minha luta contra certas e determinadas situações contemporâneas que corroem os pilares da nossa sociedade, estaria longe de imaginar que uma camisa de forças me transportaria a este idílico cenário de anjos, concertos de clarins e harpas para coro de pássaros exóticos, ninfas e ninfetas que nos fornecem directamente à boca os mais frescos frutos do bosque como se fossem comprimidos para a inibição das consciências enquanto sussurram palavras de bonomia aos nossos ouvidos, risos de cristal que ecoam nos claustros e balaustradas, e fontanários de água celestial a correr como tónico capilar para o cabelo que me voltou a crescer às golfadas. Isto constitui apenas uma breve impressão desta casa magistral, pois tenho a certeza de que se fosse entrar em pormenores, o meu Caro Doutor Mara estaria aqui já amanhã, de mochila às costas, a pedir que o deixassem entrar. É uma pena que não estejamos autorizados a receber visitas, e digo-lhe desde já que não sabemos bem onde estamos. Ser-lhe-á fornecido um apartado, para o caso de o meu caro amigo ter a gentileza de responder a esta carta.
Termino esta missiva com um excerto de um poema sueco muito bonito, que partilho consigo pois aqui ninguém fala essa bela língua: “Hjälp! Rädda mig från denna tragedi”
Janeiro Alves

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O Regresso de Janeiro a Meio de Fevereiro

 Magnífico Doutor Mara,

Espero que esta aguardada carta o encontre dotado de todas as suas capacidade físicas e intelectuais, e que não se deixe deslumbrar pela ilusória circunstância marítimo-turística insular – é muito fácil cair em desgraça.
Lamentavelmente não lhe pude escrever mais cedo, pois não me ocorreu e como pode imaginar só eu próprio me poderia lembrar de o fazer. Por razões de segurança não lhe poderei fornecer a precisa localização de onde estive este mês e meio, mas para alimentar a sua fértil imaginação,  posso-lhe dizer que estive sediado num lugar a vários quilómetros daqui.  Fica portanto a saber que não estive cá. Mas o Doutor Mara, que é um rapaz curioso desde os nossos tempos de faculdade, deve estar a perguntar-se “mas que raio esteve ele a fazer tão longe?”. Descanse Doutor, que já lhe conto. Antes, abro um parêntesis para expressar a minha mais profunda preocupação com o facto de, na minha ausência, algumas destas cartas terem sido roubadas e publicadas publicamente, o que duplica a minha insatisfação e me deixa estupefacto, sobretudo pelo facto de você desconfiar que lhas tiraram do seu realmente sobretudo. Não querendo aprofundar este lamentável episódio, quero porém deixar claro que não concordo de todo com aqueles que falam da sua negligência e até conivência com os larápios, por forma a obter vantagem financeira pessoal ou qualquer outro tipo de favorecimento mais perverso que de tão perverso nem é digno de aqui ser redigido. Não. Não acredito nesses diz que disse, sei perfeitamente que o seu sobretudo está apinhado de bolsos e que nem sempre é fácil organizar a papelada. Fico porém piurso com a situação. Assim que soube dei um murro na primeira mesa que encontrei.
             Voltando à minha ausência, devo dizer-lhe que é mal empregue o dinheiro que paga aos seus informadores, pois nada do que diz a meu respeito corresponde à verdade. Não estive em campeonatos de jogos de azar. Com sorte fui a um ou outro concerto de música experimental, mas sempre com uma barba postiça e botas de camurça para não ser reconhecido. Na realidade, estive a conceber uma obra conceptual minimal, uma monumental instalação artístico-paisagísta de carácter híbrido, que irá estar patente num dos grandes museus de Lisboa em breve, e que me abrirá muitas portas. Julgo que começarei finalmente a ser convidado para os melhores cocktails da cidade em rooftops particulares cheios de gente queimada mesmo no inverno. Mas se quer saber mais, e mais e mais, terá de esperar um pouco mais, e mais e mais.
            Por fim, compreendo a sua incompreensão relativamente à presumível distinção da minha obra literária, pois julgo haver um verdadeiro e categórico equívoco. A única coisa que escrevi no ano de 2017 foi um compêndio geral de plantas exóticas, que foi um fracasso de vendas e me levou à rescisão de contrato com a editora do meu primo afastado Sousa Penetra. Mais uma vez julgo estarmos perante uma brincadeira de mau gosto lançada com o intuito de denegrir a minha imagem, mas eu não me vou deixar abater. Não sei de nada, não ouvi nada, acabei de nascer e mal sei falar.
Gugu, dada
Janeiro Alves

A Meio de Fevereiro a Missiva para Janeiro

Caro Janeiro Alves, 
         
          Escrevo-lhe com alguma urgência já que urge o meu banho de mar...sinto-me com o corpo entorpecido, com défice de entusiasmo e energia e à espera do respectivo choque térmico necessário para o começo de mais uma semana de trabalho. Sob forte efeito da curiosidade está este meu estado mental, pois nada sei de si, meu bom amigo. Eis que entro por Fevereiro adentro e esta é a altura em que por vezes me dedico a reflexões de inclinação geográfica e melancólica: Por onde andará Janeiro? Que selo trará a sua próxima missiva? Que chafarricas literárias ou casas de pasto se encontra frequentar? O que levará vestido Janeiro aos domingos com o frio que se faz junto do Panteão? 
         Desta feita, tenho notado em mim o peso da sua ausência na caixa do correio, já que por ali apenas moram facturas, notas de débito e demais avisos das rebaixas recentes dos vinhos nos hipermercados. Entretanto, algo me tem deixado com alguma esperança, já que me disseram que o tinham visto em bailes de Carnaval, concertos de música experimental ou que presenciaram o seu semblante em jogos de bilhar, carteados, xadrez, gamão e houve até mesmo quem me garantisse que o viram num campeonato internacional de dominó… Não minto ainda se disser que não esperava ouvir o que ouvi. O que é um facto é que ouvi algures que o amigo Janeiro irá merecer a distinção de melhor obra literária em 2017. Mais uma vez, incompreensível. 

Um impaciente abraço 
Doutor Mara

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Uma Missiva Para Janeiro antes de 2017 ir completamente para o Galheiro

Caro amigo Janeiro,

Agradeço-lhe, muito sinceramente, o cuidado e atenção epistolar evidenciadas dado que só o voltarei a ler em Fevereiro. Escrevo-lhe, pois, esta missiva antes de 2017 ir definitivamente para o galheiro. Sei o quanto aprecia as festividades e a respectiva quadra, muito embora alguém jamais o tenha visto vestido de Pai Natal ou a comer alguma sandes de rena mal passada com tons de vermelho. Do mesmo modo, que ninguém sabe onde é que o nosso amigo pára por esta altura ou mesmo conheça o seu real ou imaginário paradeiro. Será que é caso sério para que as altas instâncias do estado português possam averiguar? Houve, entretanto, algum fundo que lhe tenha sido atribuído para que pudesse desaparecer ou viver à grande sem que ninguém se tivesse apercebido?
O que é um facto é que também eu irei para fora cá dentro, tenciono assim acender a lareira apenas quando soarem as doze badaladas pois não quero desperdiçar os pequenos troncos e insignificantes brasas que ainda possuo. É minha intenção dedicar o serão a ver o filme "Não te Mexas, Morre e Ressuscita”, do realizador russo Vitali Kanevsky, certamente imbuído de algum espanto e perplexidade. Por essa altura, julgo receber em meus aposentos, sobretudo para uma discussão que se pretende acesa, o crítico francês Jean Marie François, a minha amiga e actriz russa, Elena Romanova, o operador de câmara sueco, Rob Förlund, o realizador polaco, Gyorgý Rossinsky, ou, ainda por confirmar, a presença da antiga deputada italiana, Anna Pescara. Nenhum dos convivas reconhece o que é um prato de “roupa velha”, o que será uma completa surpresa na degustação deste opíparo repasto que terá muita discussão cinematográfica à mistura.
            Malgrado que o meu amigo Janeiro se irá escapulir pelo mês homónimo adentro e, por isso, já tremo e suo como varas vergadas só de ressacar pelas suas ternas e delicadas missivas. E logo agora que nos encontramos a viver os melhores anos das nossas vidas, o momento em que estouramos com todos os indicadores económicos já que todos afirmam o que seria de todo impensável para este povo sem grandes hábitos de leitura – “somos os novos nórdicos da Europa”. Conseguimos assim transformar as nossas fraquezas em inacreditáveis forças pois quem diria que iríamos colocar uma parte considerável da Europa, dita rica e avançada, a rapar e lamber pratos de migas e açorda, esses manjares associados à austeridade alentejana, isto é, lusitana.
            Deste modo, despeço-me do meu caro amigo com a certeza de que tudo irá correr como o previsto e, caso não aconteça este milagre económico tão almejado, espero que pelo menos nos possamos encontrar numa dessas fajãs da costa mais ocidental da Europa para continuar a preparar as mais que aguardadas conferências, impossíveis de parar dada a minha inconcebível teimosia.
Com a mais forte pujança dos abraços e a riqueza das favas por desencantar,
Seu querido e mui estimado amigo,
Doutor Mara

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Uma Missiva Extraordinária de Janeiro com Selo e sem Dinheiro

Magnífico Doutor,

               A presente carta reveste-se de um carácter extraordinário e premente, e resulta da minha indisfarçável preocupação com o modelo adoptado para as Conferências da Fajã deste ano. Por este andar, qualquer dia seremos uma espécie de web summit regional, um folclore mediatizado de pseudo-hypster-trendy-dandys engalanados, preocupados com os seus egos, e pouco interessados no pensamento de vanguarda e no bem comum. Qualquer dia, as Conferências da Fajã são patrocinadas pela vodafone ou pela margarina vaqueiro! Como pudemos aqui chegar, Doutor Mara?! Como podemos deitar por terra todo o manancial de reflexão crítica e construtiva para a construção do Séc. XXII futurista e expressionista?! Para que tenha noção do meu estado, tenho o sobrolho a palpitar, de nervoso. Há pouco, tomei um calmante e um copo de Macieira, para ver se não descambo. Perante isto, temos de tomar uma atitude, Doutor Mara! Eis portanto a razão desta carta.
Em primeiro lugar, e porque nem tudo é mau, queria dar-lhe (pessoalmente) os parabéns pela escolha do Champagne. É realmente uma selecção cuja dignidade e sofisticação se coaduna com a elevação do evento. Eu juntaria apenas o famoso Boerl & Kroff Brut, bastante apreciado quando bebido em cenário natural ou florestal, combinado com leves odores a maresia. Infelizmente, não posso dar-lhe os parabéns pessoalmente como desejaria, dada a impossibilidade física e psicológica de me deslocar, pelo que deixo aqui os meus parabéns por escrito. Apesar de não ser um acto tão efusivo como seria pessoalmente, onde seria selado com um aperto de bacalhau e algumas palmadas nas costas, tem a vantagem de ficar registado para a posteridade ou pelo menos até que estas folhas voem dos seus bolsos para a beleza do desconhecido.
Sem causar prejuízo na congratulação antecedente, avanço com a minha severa crítica à escolha dos chefes Gomes de Sá e Bulhão Pato para conferencistas, pois como é do conhecimento geral, estão presos ao passado, são conservadores, botas-de-elástico, e contribuem sempre com a mesma receita para pensar o país, aquela que já apresentaram no passado, e que já enjoa de tanto enjoar. Relativamente aos restantes conferencistas, por muita categoria que tenham, vejo muita gente ligada à temática do turismo. E a consciência Futurista, Doutor Mara? O turismo é apenas um fenómeno passageiro do nosso tempo. É preciso ver mais além! É preciso gente das ciências ocultas, da sociologia, da meteorologia, das artes e letras, da indústria têxtil!
Por outro lado, reconheço no Doutor Mara qualidades para a organização de um evento deste gabarito, mas não vislumbro em si dotes de “curassário”, esse vocábulo espalhafatoso e sobredimensionado. Julgo que a Comissão Geral se precipitou ao depositar em si toda esta responsabilidade. O Doutor Mara precisa de ser assessorado por quem saiba da matéria. Infelizmente não vou poder ajudá-lo nesta fase, pois estou a tratar da minha dentição de forma a vir a revelar um sorriso irrepreensível nas sessões fotográficas das Conferências. Ainda assim, é meu dever dar uma mão a um amigo de longa data, sobretudo quando mais precisa. É por isso que a seu tempo enviarei algumas sugestões ao Dr. Costa Martins, da comissão organizadora. Quero no entanto, e previamente, recolher a sua opinião sobre a ideia que tive esta manhã, a aplicar já na próxima edição: Proponho que os conferencistas vistam roupas tradicionais dos seus países, para que os restantes colegas possam fazer um reconhecimento imediato da sua proveniência, podendo assim preparar antecipadamente uma abordagem para conversa casual nos coffee breaks, evitando-se desta formas constrangimentos linguísticos desnecessários. Estou certo que também considerará esta ideia genial. Fazemos o que podemos, com altruísmo, e por amor à causa.
Por fim, despeço-me do meu caro amigo com uma triste notícia. Por imposição das elevadíssimas e doutas autoridades sanitárias desta cidade, deu-se ordem para a extinção imediata do fabrico de filetes de peixe, com ou sem espinhas, pelo facto de este produto gastronómico não obedecer à normativa nº 121 do código de qualidade e segurança 3001 da União Europeia, com efeitos retroactivos e devolução imediata dos produtos adquiridos nas últimas 3 semanas. Assim, e por ordem daquela autoridade, solicito-lhe que me devolva os filetes de peixe da última remessa.
Com apreço e consideração
Janeiro Alves