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domingo, 16 de novembro de 2025

O Homem de Argila de Anaïs Tellenne

O Homem de Argila, 2023
   Dois  actores surpreendentes, Raphael Théry e Emmanuelle Devos, um cenário bucólico, esteticamente imponente, compõe este instigante filme da  Anaïs Tellenne. O tema gira em torno da arte e os limites do artista na sua relação com o objecto da sua arte, o seu modelo, a sua paisagem. Até que ponto podemos usar o objecto da nossa arte e logo abandoná-lo quando este se encontra concluído? Anaïs Tellenne filma com sensibilidade, sabe esculpir esta narrativa com foros de fantástico mas que é sobretudo um hino à arte, à poesia visual e à criatividade.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

24 Hour Party People: Saudades de Manchester!

     Num lugar público que passei a frequentar, encontro o DVD de "24 Hour Party People", de Michael Winterbottom, editado em 2002. Aparentemente intacto, envolto num plástico, com um aviso na parede - "Pode levar, 0 euros". Ao pensar em rever o filme, penso na forma de convertê-lo em ficheiro sem ter que recorrer a Compact Disc, pois já não o possuo. Dou por mim a pensar na emoção registada aquando de ter visto o filme pela primeira vez e na sensação de ter, à distância, imaginado a festa que foi o aparecimento deste movimento musical de Manchester. "Madchester" caracterizou-se pela mistura de vários estilos musicais que ia do rock alternativo à dance music, com laivos de indie rock e psicodelia, tudo servia para celebrar esses anos loucos que durariam cerca de duas décadas. Tony Wilson, aqui representado por Steve Cogan, é o impulsionador deste foguete de largo espectro que revolucionaria a música pop e a edição (que saudades da Factory!!!), no fundo Wilson foi um visionário, um sinalizador ou caçador de de talentos que colocaria para sempre a cidade de Manchester no mapa da cena musical. O filme acabaria por retratar essa efervescência - vivida e sentida no Club Hacienda - mostrando o ambiente divertido e frenético dessa aventura. Passados tantos anos, ainda hoje há ecos dos Joy Division, New Order, Clash, Buzzcocks, Durutti Column ou mesmo dos Certain Ratio. Vamos já ouvi-los! 

domingo, 6 de agosto de 2023

Cinema ao Ar Livre: Curtas no Solar

         Uma noite de sábado deste início de Agosto para ver o Melhor da 31ª edição do Festival Curtas Metragens de Vila do Conde ocorrido no último mês de Julho, entre os dias 8 e 16.  A sessão começou com Rosemary A.D. (After Dad), do realizador estadunidense, Ethan Barrett. Uma pequena história ilustrada sobre o amor e a morte, animada pelo humor e a beleza dos desenhos explorados subtilmente por um narrador irónico q.b. Seguiu-se Natureza Humana, da realizadora portuguesa, Mónica Lima, detentora do Prémio do Público e Prémio Sociedade Portuguesa de Autores, tratando-se aqui de um sugestivo quadro sobre a espera e o desespero de um casal à procura de descendência. A realizadora soube contrastar a infertilidade com a explosão da natureza e a vivacidade das crianças em redor. Certamente um filme de alguém que adora a fotografia e o desenho arquitectónico. Outro filme foi Il Compleanno di Enrico, do realizador italiano, Francesco Sossai, conta-nos a chegada e presença num aniversário de uma criança e é, através do seu olhar e da sua procura de aceitação e compreensão, que o seu mundo se nos apresenta tão desconhecido e extravagante. Apesar de toda a estranheza, eis-nos perante um bonito gesto cinematográfico sobre a diferença e diversidade. Por último, foi exibida a curta 2720,  do realizador luso-suíco, Basil da Cunha, que obteve o prémio para Melhor Realizador Português. Trata-se de uma curta-metragem trágico-cómica de um bairro periférico de Lisboa em que a língua é o criolo mas a indiferença e a vergonha é toda nossa. No fundo, um filme enérgico, movimentado entre o interior e exterior, mantendo sempre o humor e a música como elementos de uma cultura maior.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Hoje à noite, no Cine Borboleta

A Ultrapassagem, 1962, de Dino Risi


                Dino Risi filmou há cinquenta anos a sua versão cinematográfica do verão italiano: a sombra e o sol, a cidade e o campo, a praia e o mar, a amizade e a aventura. Para isso, muniu-se de dois atores: Jean Louis Trintignant e Vittorio Gassman (ainda que a primeira escolha fosse Alberto Sordi). O cineasta, com formação em Medicina, começa por dar-nos a conhecer essa célebre expressão italiana “Ferragosto”, um feriado italiano celebrado a 15 de Agosto, motivo de patriótica comemoração. Associado à celebração da metade do verão e do fim das colheitas nos campos, seria a Igreja Católica a adoptar a data para celebrar a assunção da Virgem Maria. Actualmente o Ferragosto é o dia em que milhões de italianos deixam as suas cidades de origem e demandam outras paragens em busca de repouso ou diversão. 
O Verão de 1962 em Itália cheirava a spaghetti e a boom económico, a economia crescia e o automóvel epitomizava a sociedade do progresso e do bem-estar. Este é o primeiro road-movie da história do cinema, sete anos antes de “Easy Rider” de Hopper, ainda que aqui fosse o volante do Lancia Aurelia B24, e o som da mítica Klaxon, ao qual imprime velocidade e um ritmo estonteante, quase sufocante. O carro é aqui a expressão da liberdade e da velocidade, inaugurando um tempo novo, repleto de comodidades, movimentações e deslocações.
     Vittorio Gassman, que participou em treze filmes de Risi, encarna aqui a personagem do fanfarrão, mestre na arte de saber viver, um homem de meia idade que se deixa ir com a ligeireza e leveza da estação dos grilos e das cigarras. Sempre com a resposta pronta na ponta da língua, ávido dos prazeres terrenos e imediatos, forçando a companhia de quem estivesse próximo. É um filme fresco, quente, sob o signo de Eros, que obteria em português o título “Ultrapassagem”, mas que teve também a tradução de "O Fanfarrão". Curioso, não é?

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Filme d´Estio: Fitzcarraldo de Werner Herzog

"Fitzcarraldo" de Werner Herzog (1982)
imagem daqui: www.coming.soon.net
Werner Herzog, um  dos mais fascinantes cineastas alemães, realizou no início dos anos 80 um filme intitulado "Fitzcarraldo". O filme relata a história de Brian Sweeney Fitzgerald (Klaus Kinsky) que ambiciona edificar uma Sala de Ópera na cidade Iquitos no Amazonas, Brasil. Ele é um amante fervoroso do tenor italiano Enrico Caruso. Com antecedentes de outros fracassos e demais investidas falhadas (uma Estrada em Ferro, a Transandina), "Fitzcarraldo" ambiciona também construir uma fábrica de gelo. Este “Conquistador Inútil”, como ficaria conhecido, estava possuído ainda por uma façanha ainda maior quando convence a sua amante (Claudia Cardinalle), dona do prostíbulo da cidade, a financiar a compra de um barco fluvial para a exploração da borracha. A partir daí, embarca numa loucura desmedida quando pretende a qualquer preço, sacrificando, inclusive, vidas humanas, explorar rotas e florestas nunca vistas.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Filme d´Estio

Pallombella Rossa de Nanni Moretti (1989)


             Um dos filmes mais intrigantes e estimulantes de Nanni Moretti dá pelo nome de “La Cosa”, 1990,  (“A Coisa”, em português) onde ele próprio andou pelas sedes e lugares de militância comunista a ver o que é que sucedia ao Partido Comunista Italiano (PCI) após a Queda do Muro de Berlim. Um périplo rodeado de peripécias e de dúvidas que culminou num enorme e previsível ponto de interrogação. Ainda hoje o manto desse questionamento paira sobre os caminhos seguidos e a seguir após tamanho cataclismo ideológico. Antes disso, ele que acompanhou de perto as incidências da esquerda italiana, ao realizar o filme “Palombella Rossa” pretendeu metaforicamente augurar um destino feliz e promissor para a orfandade e desorientação proveniente do Leste Europeu. A dado momento, Moretti grita com uma jornalista: “Chi parla male. Pensa male. Vive male. Le parole sono importante.”. Pois é, as palavras são muito importantes para definir o que pretendemos fazer e nada melhor como rever este filme na canícula, ainda que divertido e bem humorado, para poder pensar nos novos rumos a tomar.

sábado, 2 de agosto de 2014

Filmes d´Estio

Filme de Margarethe von Trotta
       Todos os dias conhecemos gente assim: incapazes de pensar criticamente ou analisar o que lhes mandam fazer, limitam-se a receber e a executar ordens que lhes ditam e, tal como Pilatos, lavam as mãos das consequências dos seus actos. Como funcionários exemplares, executam com eficácia as ordenações que lhes chegam de cima - “sem levantar muito cabelo”- como se costuma dizer. 
       “Hannah Arendt”, o mais recente filme de Margarette von Trotta, está dentro do registo dos filmes biográficos, retratando neste caso o pós-guerra e o pensamento da filósofa judia que dá titulo ao filme. A película começa com a captura de Eichmann pelo estado de Israel e o seu posterior julgamento. Hannah Arendt é incumbida de reportar as incidências do julgamento para o New Yorker. O filme acompanha este processo de escrita e a recepção do artigo por parte da comunidade intelectual judaica e não só. Pensar o horror, a banalização do mal, foi a incumbência de uma autora que não teve medo do isolamento nem da rejeição dos seus pares. Um filme que pensa o mal e os seus burocratas.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Dino Risi filmou o verão italiano

     
Vittorio Gassman e Jean Louis Tritignant

       Il sorpasso ("A Ultrapassagem") de Dino Risi é, sem qualquer dúvida, um filme para (re) ver nas férias de verão. Podemos considerá-lo por diversas razões um filme estival, uma película leve, propícia a ser vista ao ar livre, se possível com manta sobre os joelhos, caso o frio incomode. Dino Risi filmou, há cinquenta anos, o verão italiano, a luz e o sol, a cidade e o campo, a praia e o mar, a amizade e o amor. Para isso muniu-se de dois actores: Jean Louis Trintignant e Vittorio Gassman e, muito embora com menor relevância, as actrizes:  Catherine Spaak e Mila Stanic.
     Dino Risi celebra o “Ferragosto” romano por ruas e estradas vazias, o comércio e as casas fechadas, servindo-se de um telefonema do fanfarrão Bruno Cortina (Vittorio Gassman) que  assim irá perturbar o tímido estudante de Direito, Roberto Mariani (Jean-Louis Trintignant). O Verão de 1962 italiano cheirava a boom económico, o país crescia a olhos vistos e o automóvel era o epítome de bem-estar. Vemos em ritmo frenético um road-movie -dizem que terá influenciado Easy Rider (1969) - e que nos leva a viajar e a escapar pela Riviera de Fregene de Capalbio da Castiglioncello até Quercianella, ao redor da capital e da sua costa. 
A actriz Catherine Spaak 
    O cineasta Dino Risi, com formação em Medicina, começa por dar-nos a conhecer essa célebre expressão italiana “Ferragosto”, um feriado italiano celebrado no dia 15 de Agosto e que é motivo de patriótica comemoração. Inicialmente, estava associado à celebração da metade do verão e do fim das colheitas nos campos. Com o passar dos anos, a Igreja Católica passou a adoptar essa data para comemorar a assunção da Virgem Maria. Hoje, Ferragosto é um feriado em que milhões de italianos abandonam as suas cidades origem e demandam outras paragens.
     Aqui “Ultrapassagem” não é só o acto de ultrapassar mas aquilo que se vive nas cidades desertas no estio e, que por aquecimento e lassidão, se inclinam, tombam, caem e se deitam literalmente sobre as praias, acampando e deambulando junto do mar. Logo nos momentos iniciais do filme, um homem pára o seu carro desportivo junto de um fontanário para beber água e telefonar, a cidade está completamente deserta em Agosto (quem não conhece cidades assim?), o silêncio abafado pelo calor e a fadiga que perpassa sobre os minutos e as horas do mês de Agosto, rendidos à rarefacção do ar e à largueza dos dias.
     Vittorio Gassman, que participou em treze filmes de Risi, encarna a personagem do fanfarrão, mestre na arte de saber viver, um homem de meia idade que se deixa ir com a ligeireza e a leveza da estação dos grilos e das cigarras. Sempre com a resposta pronta na ponta da língua, ávido dos prazeres terrenos e imediatos, acompanhado ao volante pelo som da mítica Klaxon e do seu Lancia Aurelia B24, ao qual imprime velocidade e um ritmo estonteante, quase sufocante. O carro é aqui a expressão da liberdade e da velocidade, inaugurando um tempo novo, repleto de comodidades, movimentações e deslocações. Como filmar a passagem do tempo que se nos afigura tão veloz quanto o desejo de querer viver?
Dino Risi a filmar Il Sorpasso
    Dino Risi filma esta ausência de limites sem moralismos, sem justificações óbvias para derivas comportamentais, abraça inclusive as contradições do campo e da cidade, impregna de sensualidade os momentos finais do filme e dá-nos a dose certa de tragédia num final surpreendente. Nota também para rodagem dos minutos finais na praia Castiglioncello, que é magnífica. Cinquenta anos depois, a actualidade deste filme prende-se com a rapidez da montagem e este filme consubstancia de forma quase carnal a transição de um tempo, corporiza e cristaliza uma estação que tem os dias contados, daí este renovado e auspicioso encontro do filme como novos e jovens espectadores.