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domingo, 17 de novembro de 2024

Hadsel: Lugares Aonde Ir

         
   Hadsel é um local do norte da Noruega, pontuado por quatro ilhas que, por esta altura, já tem alguma neve e faz algum frio. Zachary Condom, vocalista da banda americana Beirut,  sentia-se perdido, sem alma, e, depois de muitas viagens, aeroportos e  concertos, pensou que se fosse ali parar as coisas voltariam a fazer sentido. Um norte americano nos confins do norte europeu. Uma ilha em forma de branco no Inverno talvez o ajudasse. E como ele é  criativo, que muito gosta de se lançar em desafios  foi, então, que partiu para Hadsel em busca de um lugar para poder respirar novamente.
    Hadsel é, por isso, um álbum de recolhimento, à semelhança de uma doença que se instala e que necessitamos de tempo para o recobro, repouso, retiro. Tempo necessário para que que possamos voltar a estar connosco afastados do mundo e dos outros. É, pois, um álbum de incursão na interioridade e nessa forma  particular de insularidade nortenha. E é nisso que “Hadsel” surpreende, por ser de facto um mergulho na vida insular norueguesa, naquela igreja com um órgão de fole, um harmónio que o ajudou a reconciliar-se…com a vida, connosco, com o mundo.  A faixa “Island Life” é, evidentemente, o retrato mais puro desse retiro forçado que nos faz mergulhar nessa luz interior, no amor e na dor mais intensa. Esse lugar aonde ir.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Reedição de "Vago Pressentimento de Azul por Cima", de Ana Paula Inácio


 

          Saúde-se a junção da música e da poesia. Permita-se o encontro entre um exímio pianista e uma poetisa fulgurante. Enalteça-se o risco, o desafio e a aventura para sugerir novas paisagens sonoras tal como criação de um imaginário poético-musical. Queira-se, assim, uma audição autêntica e uma emoção digna de se poder manifestar. A reedição do livro tem uma capa singela, de tão feliz e tão bela, assinada por Maria João Worm. Trata-se, aqui, da  reedição de "Vago Pressentimento Azul por Cima", edição da Alambique, que contém um CD dentro com dezasseis canções e com a direcção musical de João Paulo Esteves da Silva. As canções são cantadas, para lá do pianista, por Ana Brandão e Nazaré da Silva. Fechem os olhos, os ouvidos à escuta, pois, de certeza, que há azul por cima! 

terça-feira, 23 de abril de 2019

Tremor: Houve Festa na Ilha!

A festa do Tremor já passou, uma desbunda musical como vem sendo hábito. Durante uma semana a ilha de São Miguel, pois este não ano não foi possível repetir Santa Maria, foi palco de múltiplas e variadas propostas musicais oriundas de vários cantos do globo. Assim, surpreendente continua a ser o Tremor na Estufa, uma invenção que prima pela combinação dos espaços naturais ou monumentais da ilha com os diferentes géneros musicais que o festival abarca. Foi assim que ouvimos o David Bruno, curioso "hip-hoper" de Gaia, na Ribeira dos Caldeirões (Nordeste) ou as Despensas de Rabo de Peixe no exterior da Casa do Divino Espírito Santo da Bandeira da Beneficência, entre outros. Ainda a belíssima memória de João Peste no palco do Ateneu Comercial, com o braço direito na horizontal e o lamento repetido do seu verso: “La nostra feroce volontà d´amore”.Os mais que merecidos parabéns à organização!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Zeca Medeiros: palavras para este tempo


Zeca Medeiros (Fotografia Tiago Rodrigues)
        José Medeiros, realizador, músico e compositor, é responsável por muita da música açoriana de referência que podemos ouvir e que, por isso mesmo, permanecerá para sempre na nossa memória colectiva. As suas letras e músicas foram gravadas para programas musicais e séries televisivas: "Mau Tempo no Canal", "Xailes Negros", "Gente Feliz com Lágrimas", "Balada do Atlântico", "O Barco e o Sonho", "O Feiticeiro do Vento", "A Ilha de Arlequim", ou ainda as mais recentes, "O Sorriso da Lua nas Criptomérias" ou “As Sete Viagens de Jeremias Garajau”. Os temas e as canções de Zeca Medeiros encontraram vozes diferentes em intérpretes: Minela, Susana Coelho, Vera Quintanilha, Mariana Abrunheiro, Vânia Dilac, entre tantas outras. Curiosamente é na voz dele que agora apetece escutar os versos finais de “Torna Viagem”: “Se as palavras se cansam no tempo/Este fogo não deixa de arder/Se as canções incendeiam a praia/ Esta noite não hei-de morrer”.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

"A Sombra e a Luz nas Canções"

            O pianista João Paulo Esteves da Silva e o fadista Ricardo Ribeiro juntaram-se recentemente para tocar e cantar. O lugar desta curiosa junção foi na Sala Luís de Freitas Branco, no passado dia 25 de Abril, no auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Com o título de “A Sombra e a Luz nas Canções”, João Paulo Esteves da Silva tocou e acompanhou pela primeira vez a voz de Ricardo Ribeiro, que interpretou temas de Amália Rodrigues (“O Mal Aventurado" – música de Alain Oulman e letra de Bernardim Ribeiro”), Sérgio Godinho (“Demónios de Alcácer-Quibir”), Popular Alentejano (“As Mondadeiras Cantando”), José Carlos Ary dos Santos ("Canto Franciscano" e “Cavalo à Solta” - com letra de Fernando Tordo), João Paulo Esteves da Silva (“Sítio” e “Duas Cores”), Vinícius de Moraes ("Serenata do Adeus") e Carlos Paredes ("Verdes Anos"). Desta reunião aguardam-se mais acontecimentos e canções, entretanto está disponível nos concertos da Antena1 uma audição desse bonito espectáculo ao vivo, a requerer, certamente, uma escuta dedicada e atenta.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O Doce Canto das Caldeiras

A cantora Bia
Bia actuou neste último sábado, dia 10 de Outubro, no Teatro Micaelense, numa sala composta ainda que não totalmente cheia como seria de esperar. A cantora de origem micaelense, nascida em Ponta Delgada no princípio dos anos 80, veio à sua terra natal apresentar pela primeira vez o álbum “Xi-Coração”. De nome artístico “Bia”, o seu nome é Beatriz Noronha, começou a cantar aos catorze anos de idade com a “Art Band”, e a partir daí nunca mais parou. Entretanto e, após diversas aventuras musicais, fez parte do grupo Xaile em 2004, tendo só este ano aparecido com o seu projecto a solo e a título individual. A cantora surgiu em palco com a sua banda para cantar temas como “Monopólio”, “Ora Viva”, “Uma Canção Comercial”, “Meio a Meio” ou “Indecisa Decisão”, entre outros, fazendo assim desfilar os seus convidados que a ela se foram juntando palco: Henrique Ben David (percursionista) e os músicos Zeca Medeiros e Rafael Carvalho. Bia apresentou assim os os temas presentes no álbum como se de um regresso a casa se tratasse, não se cansando de agradecer a muitos presentes, pais inclusive, a sua trajectória e herança musical. O momento alto da noite, que viria a ser replicado em encore com a sua irmã (Ana Braz), foi a canção “Sou de uma Ilha”, momento alto para ouvir em tom maior : “Sou de uma Ilha, não há volta a dar/ Onde o princípio do fim é só mar/Sou sangue fogo que há na cratera/ Sou de alma e de quem navega.” Não esquecendo, porém, o dueto muito bonito que esta encetou com Zeca Medeiros no tema “Carta de Despedida”.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Gente Feliz com Lágrimas: 25 anos depois.

      “Se vires a minha boa estrela/ Diz-lhe que estou a naufragar/Diz-lhe que quero muito vê-la/Que estou perdida no meio do mar.”

Fado Sete Estrelo, letra de Zeca Medeiros e voz de Mariana Abrunheiro.

Há vinte e cinco anos o escritor João de Melo escreveu o romance. O músico-realizador Zeca Medeiros realizou, alguns anos mais tarde, a série televisiva tal como escreveu letras para uma banda sonora, que contou com a voz de Mariana Abrunheiro entre outras. A livraria SolMar reúne hoje João de Melo, Zeca Medeiros, Vamberto Freitas, Carlos Ferreira e Urbano Bettencourt para conversar sobre este trabalho literário bem como o seu eco tantos anos depois.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Cantador(a)

        O álbum "Torna-Viagem" de Zeca Medeiros completará dez anos em 2014 desde a sua edição e foi prémio José Afonso em 2005.Ontem, ao serão, para além do repertório habitual, ouviu-se o “Cantador” na Travessa dos Artistas: “O cantador/ chegou de madrugada/ venceu a noite/ pelas praias do mar/ na sua voz/ teceu uma balada /amanhecer/ que havemos de cantar/ O cantador/ rasgou as nossas penas/ num canto moço/ que havemos d'acender/ na sua voz/ ergueu vilas morenas/ Maio maduro/ que havemos de colher/ Ergueu cidades/ sem muros nem ameias/ lançou sementes/ na terra de ninguém/ cantou o sol/ rompeu nossas cadeias/ trouxe consigo/ outro amigo também/”. E não é que "irrompeu um amigo" no feminino que transportava consigo a luz e o fogo na voz? O seu nome: Vânia Dilac e vive no arquipélago há mais de três décadas, após ter nascido em Moçambique. O seu português misturado, modelado e mélico encantou e entoou pelas ruas do centro da cidade, com pingos de chuva e lançando a semente de um próximo concerto que se aguarda, para já, com a maior das expectativas e curiosidade.

sábado, 9 de novembro de 2013

“Menina”- Márcia Santos e Samuel Úria


Imagem retirada daqui:www.som-directo.com 
É mais uma parceria luminosa e bem-aventurada esta de Márcia com Samuel Úria para a interpretação do tema “Menina”, segundo single do álbum “Casulo”(Maio de 2013). Os cantores assinam a composição da música e da letra desta canção que tem harmonia, melodia e uma alma que transborda, sobressaindo assim o texto da  letra que contém finura e um delicioso requinte poético, acrescentando-lhe a tensão necessária com a entrada em cena de Samuel Úria, numa exaltação de vozes aventureiras e apaixonadas, em tributo digno e verdadeiro à língua de Alexandre O´Neill. A pele musical de Márcia já vem desde os seus 13 anos e é de transporte para uma iminente dança imprevista e louca, numa luta sem medos, que esta cantora e Samuel Úria anunciam o desejo de querer dançar a quatro pernas e ventos, evidenciando uma vontade emancipatória de nos movermos, soltemos…sem receios ou complexos: “Desfaz o Nó/ destrava o pé/ desmancha a traça e avança./Chocalha o chão,/esquece os que estão,/rasga o marasmo em ti mesma./Vê corações,/ na cara que pões,/ vira do avesso esse enguiço./ Desamordaça a dança pra te convencer./O teu coração/ sem querer dispara/força e simpatia ao Ser que te vê dançar./O teu coração ainda pára,/ forçando a apatia p'lo medo de dançar.” Parabéns à dupla!