De Perto Ninguém é Normal, uma comédia "obssessiva" de Laurent Baffie com encenação de Rafael Medrado, teve lugar no último fim de semana no Teatro Ribeiragrandense. A peça, situada num consultório de um psicanalista, dá-nos a ver um grupo de pacientes que são portadores de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Numa conjuntura social algo fascinada pelo tema da Saúde Mental, mas pouco eficaz nas suas soluções, a peça encontra facilmente eco, riso e público assegurado. O palco é, assim, espelho das nossas sociedades contemporâneas que assentam muitos dos seus comportamentos sociais na demonstração da eficácia, produtividade ou perfeição, no entanto, escondem nas suas estranhas um número cada vez maior de indivíduos fragilizados, imperfeitos e reticentes à noção de falha ou fracasso. Entre a dor interior e a medicação farmacológica são muitos os que nos vão mostrando que "De Perto Ninguém é Normal". Foi nisso que apostou esta encenação plena de boa disposição e criatividade de Rafael Medrado bem como o seu elenco, algo "transtornado", mas muito seguro e inspirado - André Melo, José Jorge, Katarina Rodrigues, Marta Aguiar, Nuno Pequeno Rei e Pilar Silvestre. Em jeito de conclusão e, tal como diz o poema, "e...se fossemos rir de tudo?".
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terça-feira, 28 de outubro de 2025
"De Perto Ninguém é Normal" no Ribeiragrandense
terça-feira, 19 de março de 2019
A Cantora Careca de Eugène Ionesco
![]() |
| "La Cantatrice Chauve"-Fotografia do Jornal Le Figaro |
A
Cantora Careca, de Eugène Ionesco, está em cena no Théatre de La Huchette, na
capital francesa, Paris, desde 16 de Fevereiro de 1957. Durante seis dias da
semana, com excepção do domingo, é possível assistir a esta peça, portanto, há
62 anos. Foi com este texto dramático que Eugène Ionesco, dramaturgo de origem romena,
inaugurou aquilo a que viria a designar-se de Teatro do Absurdo.
Curiosamente, a primeira vez que travei
conhecimento com o teatro de Eugène Ionesco foi em Tirana, na Albânia. Decorria
o ano de 1994 e aquele país vivia, então, uma convulsão e explosão social nunca
vista após o jugo de uma ditadura feroz com marcas de isolamento, pobreza e
obscurantismo bem evidentes. Nesse momento assistia-se a um período de
transição com milhares de pessoas nas ruas e muita gente a abandonar o país,
não importava a forma. Parecia, àquela altura, tudo estranhamente insólito. Por
isso, assistir ao espectáculo da “Cantora Careca”, por um grupo de teatro local,
fez com que não compreendesse nada do texto nem da peça que me era dada a conhecer,
desconhecia, inclusive, a língua albanesa, assistindo no final a uma aparatosa
invasão do palco pela assistência, sintoma de um país que se libertava e experimentava
um outro itinerário político e social. Dada a experiência de intercâmbio a
decorrer no país vizinho, aquela visita tornar-se-ia numa grande aventura, fazendo
daquela estadia um momento marcante da existência, com episódios e situações experienciadas
de forma intensa e peculiar.
Na
última sexta-feira e, passados vinte e cinco anos desse episódio teatral, assisti
no Auditório da Escola de Lagoa à representação de “A Cantora Careca” – pelo
grupo de teatro escolar “A Faísca”. A memória viva da primeira representação
com a presença actual dum auditório a abarrotar, atento e entusiasta, mesmo que
possa não ter compreendido a totalidade das razões daquele texto ou do que se
passava em palco, fez com que o tempo recuasse um pouco. Por esse motivo, só me
pude enternecer com a entrega daqueles jovens actores, vibrar com aquelas
representações esforçadas e competentes, admirar aquela vontade de superação e
ultrapassagem de complexidades daquela apresentação. Assim, foi deveras
surpreendente ver gente tão nova lidar com o burlesco da existência, o ridículo
e estranheza do mundo e da linguagem que usamos e, mesmo assim acender, por
instantes, o maravilhoso poder e magia da arte de Talma.
quinta-feira, 7 de julho de 2016
Sala de Embarque: Quinto Ensaio
![]() |
| Fotografia de Carlos Olyveira |
Que
dia cinzento e chuvoso em Santa Clara, capacete total e um clima que abafa toda
a energia circundante. Avista-se no ar um avião que passa em direcção ao
aeroporto João Paulo II, inaugurado em 24 de Agosto de 1969, situado na zona da
Relva, pertença do concelho de Ponta Delgada. Daqui podemos imaginar aqueles
passageiros que dali a pouco passarão, também eles, por uma sala de embarque.
Naquele caso entrarão na zona de chegadas, tão pouco saberão eles que é de
partidas que nos encontramos neste "barracão" a ensaiar e trabalhar.
Avançamos
para o quinto ensaio, agora com o texto muito mais sabido, quase decorado pelo
coração, as personagens vão crescendo, ganhando força e identidade. Temos, é
certo, ainda um mês pela frente e com isso quer dizer que estaremos com o foco
e a mente concentrados em ensaiar de forma consecutiva e persistente este texto
intitulado “Sala de Embarque”.
“Como deve ser essa fala que relaciona com um
comportamento humano reconhecível? Um ser humano fala para obter aquilo que
ele, ou ela, quer” diz-nos David Ball em “Para Trás e para a Frente” e
acrescenta: “Essa é a chave da linguagem
dramática, uma linguagem bem distinta da linguagem da poesia ou da prosa
escrita não dramática. E é a chave para uma criança ao aprender a falar. As
crianças aprendem as palavras como instrumentos para controlar o meio ambiente –
para obter o que querem. Talvez, a
maturidade nada mais seja do que aprender meios mais eficazes que berros, a fim
de obtermos o que queremos. Quando o bebé grita e fica vermelho, ou quando o
adulto entoa “Eu, por favor, gentil mortal”, ambos querem alguma coisa. Aquilo
que uma personagem quer motiva a fala. Um ser humano pensa em muitas coisas,
jamais expressas. Dentre essas inúmeras em que uma pessoa pensa, ela selecciona o
que quer dizer, de acordo com o que quer. Veja isso de outro modo: se você nada
quer, você nada diz. Nem tudo no drama espelha a vida real, mas a fala sim. Uma
personagem que fala, quer alguma coisa; de contrário, não falaria. Esse
elemento universal da natureza humana é a base de todo o drama.” Eis-nos por isso à procura da
intencionalidade dos gestos, dos movimentos, a construção e interiorização de cada personagem. Conseguiremos? Resta-nos seguir o exemplo de quem faz as coisas bem: ensaiar,
ensaiar, ensaiar…
segunda-feira, 14 de março de 2016
Chegou a Primavera
(...) Chegou a Primavera. O vale de
lágrimas que se espraia à frente da minha janela volta ao verde e floresce. A
relva viçosa cobre o chão, esconde lixeiras e a geena tranforma-se no vale de
Saron onde crescem, além dos lírios, lilases, rubínias e paulownias.
Sinto uma tristeza de morte mas o
riso alegre das raparigas que brincam, invisíveis, debaixo das árvores, toca-me
o coração e desperta-me para a vida. E a vida corre, e a velhice aproxima-se;
mulher, filhos, lar, tudo foi devastado. Outono por dentro, Primavera por fora.
(...)
August Strindberg (1849-1912) in Inferno (tradução de Aníbal Fernandes)
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