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segunda-feira, 14 de julho de 2014

À Procura de José Júlio Souza Pinto



José Júlio Souza Pinto (A Volta dos Barcos, 1891)
      Procurei por aqui, algures na cidade património, sinais da existência do cidadão José Júlio de Souza Pinto. Angrense de nascimento e de quem o historiador de arte, José Augusto França, disse ser "o mais brilhante dos paisagistas" - José Júlio Souza Pinto nasceu em Angra do Heroísmo, a 15 de Setembro de 1856, filho do Juiz de Direito, Doutor Lino António de Souza Pinto, natural de Valongo, e de Ana de Sousa Loureiro, da freguesia da Sé, no Porto. O seu irmão, António de Souza Pinto, também ele viveu a sua vida dedicado à pintura. Descubro, assim, que o pintor viveu nas ilhas atlânticas até aos catorze anos, para lá dos primeiros anos de existência vividos na Ilha Terceira, passou também pelas Ilhas de Santa Maria e São Miguel. Por aqui não há qualquer referência na obra deste à sua vivência na ilha Terceira, daí o provável desinteresse ou desconhecimento das entidades oficiais. E pergunto: o que é que terá acontecido? Primeiro, a ausência de alusões na obra do pintor ao seu local de nascimento e crescimento, por outro lado a inexistência por aqui de uma obra, uma rua, uma placa evocativa da sua origem terceirense. Soube-se que alguém da Bretanha, em França, onde o pintor viveu e viria a falecer em 1939, já quis conhecer algo mais sobre as origens do pintor português, pois à semelhança de Columbano, este possui um quadro no Museu de Orsay. É no mínimo estranho, que Angra não tenha adoptado este pintor como seu “filho” ou ainda os Açores não reconheçam a sua origem, ao contrário do que têm feito com tantos outros que partiram daqui tão novos ou ainda muito jovens.
         Não me canso de procurar "vestígios de vida" deste pintor naturalista e este interesse é muito simples de contar: há três anos deu-se um caso insólito na Ilha do Faial, quando fui surpreendido com a imagem de um postal à entrada do Museu Municipal da Horta, reconhecendo de imediato pertencer à capital balnear da zona norte. Mais tarde, ainda que fossem frágeis as razões da presença daquela obra por aquelas paragens, subi até ao seu interior à procura do respectivo quadro na sala de exposições do museu. Ali estava a pintura, com o título "A Volta dos Barcos", constando a indicação (Póvoa, 1891). Conviria recordar que no ano seguinte deu-se a maior tragédia marítima que há memória naquela cidade costeira e, provavelmente, no país inteiro: morreram mais de cem pescadores no regresso da faina. A partir de 28 de Fevereiro de 1892 as mulheres e os pescadores poveiros deixaram de poder usar para todo o sempre cores garridas, passando a vestir-se de preto como hábito. Um costume que ainda hoje mantém em “sinal de respeito pela perda dos seus entes queridos”.
         Sobre “Volta dos Barcos”, Adriano de Souza Lopes afirma que foi na Póvoa de Varzim que Souza Pinto pintou os seus melhores quadros de composição. O quadro está acessível a qualquer visitante do Museu da cidade da Horta, na Ilha do Faial. Foi pintado por Souza Pinto quando este tinha trinta e cinco anos, numa fase da sua vida de suficiente maturidade no desenho e onde era já um nome reconhecido junto dos seus pares artísticos. Esta obra é elucidativa da angústia, da incerteza e do desespero contido de quem espera indefinidamente por alguém que lhe é próximo, não sabendo se voltará. O olhar das crianças atenua o peso daquela mulher aflita e atormentada. Convém referir que o pintor José Júlio de Souza Pinto nasceu e viveu antes da invenção do cinema, e é, essencialmente, através desta imagem que hoje podemos imaginar, visualizar, recriar a vida dos nossos antepassados daquele tempo. Que prodígio! Da sua longa biografia sabe-se que começou a desenhar aos quatro anos de idade, por influência da mãe Anna de Souza Loureiro, também ela pintora, e que ficava com o coração despedaçado sempre que lhe tiravam a lousa com os seus desenhos. Um século depois, como seria interessante "procurá-lo" nas ilhas onde nasceu e viveu até aos catorze anos de idade. Será ainda possível?

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Dentro da In Folio

        Uma livraria que não é um negócio, um lugar que mais parece uma loja de guloseimas e uma paixão pelos livros inabalável. Aqui há silêncio, aqui há paz de espírito para absorver o ritmo da leitura. Há livros que ganham novas propriedades com pessoas que gostam de trabalhar o seu interior, a sua apresentação, a forma como se apresentam aos leitores. Talvez seja esse o futuro, livros como objectos imaculados, talvez. É maravilhoso saber que existe um lugar assim a meio do oceano atlântico.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Diários de Angra

        Não há aqui nada contra os automóveis. O que é um facto é que os carros não deviam ter mais direitos que os cidadãos ou prioridade  em relação aos peões e transeuntes, mas têm. Sabemos o quanto os carros  são úteis, demasiado até,  na forma como diminuem as distâncias e encurtam o espaço e o tempo de um sítio para o outro, tornando a vida e os dias mais aceitáveis com temperaturas aziagas e chuvas persistentes. No entanto, da mesma forma que as praias não deviam servir para colocar bares e restaurantes em cima do areal para não importunarem a vista e o desfrutar do areal e da paisagem de quem ali vive ou gostaria de ali estar, o que é verdade é que não é concebível o estacionamento dos carros em cima de passeios ou a invasão destes no centro histórico de cidades de pequena dimensão, impedindo o passeio e usufruto do espaço e da via pública por parte de quem ali vive e passa. Estacionar  carros em cima dos passeios não é, nem nunca será uma situação ideal, não é aceitável, o mesmo se pode dizer dos milhares de carros que invadem o centro  num abanar constante da terra e do barulho que torna possível a vivência e o usufruto do espaço citadino. Deste modo,  seria desejável que  as cidades fossem lugares prazenteiros de descoberta e fruição dos seus espaços arquitectónicos, lugar de  encontro com suaves e amenos passeios diurnos e nocturnos, dados à contemplação e observação do comércio, recheado de conversas sobre o passado e o presente, espaços entregues aos  passeantes e respectiva contemplação. Para quando? 

sábado, 8 de dezembro de 2012

Diários de Angra

"A Volta dos Barcos" (1891)
de José Júlio de Souza Pinto  
      Como se fosse a primeira vez, aliás, é sempre a primeira vez quando quando voltamos aos lugares onde apenas estivemos de passagem. Regresso assim a Angra do Heroísmo com uma antiga missão: encontrar "vestígios de vida" do pintor naturalista, José Júlio de Souza Pinto. Há três anos deu-se um caso insólito na Ilha do Faial, fui surpreendido com um postal à entrada do Museu Municipal da Horta e, mais tarde, pela respectiva obra na sala de exposições. A pintura intitula-se "A Volta dos Barcos", consta também a indicação (Póvoa, 1891), um ano antes da ocorrência da maior tragédia marítima naquela cidade. A partir de 28 de Fevereiro de 1892, as mulheres e os pescadores poveiros deixaram de poder usar cores garridas e passaram a trajar de preto. O quadro é elucidativo da angústia, o desespero contido de quem espera indefinidamente por alguém que lhe é próximo e não sabe se volta. O pintor José Júlio de Souza Pinto nasceu antes da invenção do cinema, mas é através dele que eu imagino, visualizo, recrio a vida dos meus antepassados naquele tempo. Adriano de Souza Lopes diz mesmo que foi nesta cidade nortenha que este pintou os melhores quadros de composição. Por isso, decidi "procurá-lo" na terra onde nasceu e viveu até aos três anos de idade, pois logo a seguir o seu pai mudar-se-ia para a Ilha de Santa Maria, para aí exercer as funções de Juiz de Direito.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

À Terceira Ilha: o olhar lento do viajante

 No culminar do Outono chega-se à Ilha Terceira de avião, com uma gare do aeroporto completamente deserta, típica de um domingo insular. O destino inicial é São Mateus, àrea rural na zona envolvente de Angra do Heroísmo, composta de colinas e pequenos vales, nascida desse contraste entre a forte ruralidade e a evidente presença do mar. Passagem, no entanto, obrigatória pelo centro histórico da cidade de Angra do Heroísmo, a caminho de completar no próximo ano as suas três décadas de património da Humanidade, declaradas pela UNESCO no ano de 1983. À chegada a São Mateus avista-se a sua acolhedora e agradável baía com os barcos encostados ao porto e pescadores olhando o horizonte em descanso domingueiro.
Regresso nos dias seguintes à cidade de Angra que se abre ao fascínio da arquitectura, a sua vetusta e assinalável personalidade, o seu impulso desenhado ao longo de séculos e o seu conjunto arquitetónico rico e diversificado. O início deste périplo é pela Sé Catedral, a sede da religiosidade do arquipélago, exemplar da arquitectura filipina acrescentado a uma igreja gótica do século XV, fustigada pelo terramoto de 1980 e mais tarde por fogo posto, tendo a sua reconstrução permitido respeitar a traça original. Uma simpática senhora dá-nos a ver a capela-mor, repleta de pinturas e pratas do séc. XVII e ainda a sacristia com móveis de jacarandá, avistamos também a parede composta por uma galeria de retratos a óleo dos prelados diocesanos. E nem só do passado regurgita a arquitectura de angra, já que o século XX trouxe consigo o Palacete Silveira e Paulo, durante muitos anos a Escola Comercial de Angra, obra arquitectónica do mestre micaelense João da Ponte, característico da imponência visual ao cimo da Rua do Galo, actualmente a casa da Direcção Regional da Cultura. Atravesse-se desta feita o centro da cidade para chegar ao edifício do Centro Regional de Segurança Social pertencente ao arquitecto da "geração moderna", Raul Chorão Ramalho, numa obra moderna e singular, aberta à luz e ao encontro. E se fosse necessário confirmar a enorme vitalidade cultural angrense, nada melhor do que confirmar in loco o leque variadíssimo de actividades de pendor reflexivo e artístico, num único fim de semana preenchido pela filosofia, teatro e música. Tempo, portanto, para assistir ao Colóquio Internacional Comemorativo do Dia Mundial da Filosofia, sob o signo de "A Filosofia, Hoje", organizado pelo Centro de Estudos Filosóficos da Universidade dos Açores, que teve enquanto oradores personalidades variadas: Viriato Soromenho Marques, João Branquinho, Marcelino Agís Villaverde, Magda Costa Barcelos, Nuno Ornelas Martins, entre muitos outros presentes no Pico da Urze. Depois foi a vez de assistir na sede do Alpendre à peça de teatro "Colmeia", num texto contemporâneo divertido, crítico e mordaz à sociedade e literatura light, evidenciando assim a necessidade de partilha do riso e do humor com a assistência. No foyer do Centro de Congressos de Angra do Heroísmo houve também atenção e reforçada expectativa para ver e ouvir o concerto de Luísa Alcobia, acompanhada ao piano por Grigory Grytsyuk, numa encantadora viagem pela música dos séculos com as partituras de Mozart, Schubert, Fauré, Luís Freitas Branco, o açoriano Francisco de Lacerda e, por último, Erik Satie.