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| Fotograma de "Clarissas" de André Laranjinha |
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sexta-feira, 29 de julho de 2016
O Pulcro Silêncio de "Clarissas" de André Laranjinha
domingo, 21 de setembro de 2014
E que o Povo Cante...
O suplemento Ípsilon do Jornal Público dedicou uma capa, seis páginas
e uma recensão crítica ao filme,“Alentejo,
Alentejo”, de Sérgio Tréfaut e, que, saúde-se agora, chega às salas de
cinema portuguesas. O interior do suplemento contém também a apreciação de dois críticos do
jornal – Luís Miguel Oliveira e Vasco Câmara - com duas estrelas ao documentário,
e que é sinónimo de razoável. Quem
escreve a recensão sobre o filme, o jornalista Jorge Mourinha, atribui-lhe a apreciação
de três estrelas, sinónimo de bom. Não
se pode deixar de pensar que houve aqui alguma contenção crítica ou avareza encomiástica
após considerável destaque efectivo, palpável, visível aos olhos de um leitor
assíduo do jornal. Arriscaríamos dizer que talvez tenha havido aqui um pequeno
desacerto com essa celebração do país que canta, com aquilo que há de melhor numa
comunidade que se organiza para preservar e manter viva uma das suas mais
antigas tradições, e que o demonstra com alegria e a disponibilidade representada por todos os que se envolveram neste enorme labor. E, curiosidade das curiosidades, celebra o cante enquanto come, enquanto bebe, ou
em lugares públicos, muitas vezes de braço dado. Por outro lado, ainda bem que nem todos
podemos dizer maravilhas ou ter grandes arrebatamentos após visionarmos este trabalho documental, bem como podemos, inclusive, discordar de semelhante prémio almejado e conquistado em
festival de cariz interno. E que do ponto de vista crítico ou cinematográfico podemos considerar que a razoabilidade é aceitável dentro de um panorama de reconhecimento amplo e merecido. Ou, então, será que estamos sob efeito desse drama social
que nos afecta enquanto cidadãos deste país à beira mar defenestrado e que se trata dessa nossa eterna dificuldade de gostarmos de nós próprios,
simplesmente de nos orgulharmos de sermos quem somos e de nos revermos nessa pertença à alma que julgamos ser portuguesa?terça-feira, 16 de setembro de 2014
Baleias e Baleeiros: o álbum de família da baleação!
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| Francisco Soares da Silva em Baleias e Baleeiros |
Ver um filme com a sala do teatro
faialense completamente a abarrotar, com galerias e camarotes repletos, ainda mais
com um público atento e silencioso, pareceu mesmo coisa de outro tempo.
Finalmente percebe-se que dar a ver ou mostrar mesmo o que foi a baleação nos Açores, num relato feito na primeira pessoa pelos seus intervenientes, não só não é coisa
ancestral ou mesmo coisa histórica para
ser encerrada em museus ou arquivos, mas é essencialmente uma experiência para ser vivida enquanto
cultura baleeira que persiste e coexiste com a nossa existência contemporânea. É
que foram mais de duas horas entregues a este retrato pessoal e afectivo da
baleação, particularmente à volta da Ilha do Pico e da Ilha do Faial e em que
o "personagem principal" é o avó do próprio realizador, Francisco
Soares da Silva, picaroto e natural de Santa Cruz das Ribeiras. O “avô Chico” e, essencialmente, Luís Bicudo,
estão de parabéns, não só pela realização de tão relevante filme, mas também
por terem sabido reunir a família da baleação açoriana em torno deste tesouro
oral que começa agora a ser desvendado e
conhecido por todos. Por fim, terminar a exibição do documentário com
"Santiana", uma música popular das Flores, na magnífica voz de
Carlinhos Medeiros, bem como exibir um belíssimo conjunto de fotografias a
preto e branco de diferentes autores, não conseguiu deixar de provocar emoções de
exaltação tal como expressar o sentido de
agradecimento e admiração por semelhante e valioso trabalho de cariz memorial.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Adormecido: Poesia na Terra Nova
O Vulcão dos
Capelinhos está há mais de meio século adormecido, acalmou após um ano de
erupções strombolianas entre 27 de Setembro de 19 57 e 24 de Outubro de 19 58 do século
vinte. Desde então e, não terá sido coisa de pouca monta, mais nada aconteceu
naqueles dois quilómetros e meio de terra para lá dos garajaus que nidificam no
dealbar do verão e se depõem no final da canícula, para lá da erosão. Aquela quietude
vulcânica é apenas perturbada pela corveia diária de turistas que visita o seu Centro
de Interpretação ou outros visitantes mais afoitos que se aventuram por entre a
paisagem de cinza e silêncio em dias de bonança. Em termos artísticos, o
fotógrafo Duarte Belo documentou este cenário de cinza em 2008 para o livro
“Fogo Frio”, extraordinário objecto onde sobressai a venustidade do vulcão,
ainda que hostil, mas profundamente bela. Outro acontecimento de fina
estranheza e de poesia imagética deu-se com a criação da curta-metragem
denominada de “Adormecido”, realizado há três anos pelo cineasta Paulo Abreu e
produzido pelo 9500-Cineclube de Ponta Delgada, num azo sonoro e poético em
torno desta força natural. “Adormecido” é, pois, m filme experimental marcado
essencialmente por planos de síntese do Vulcão dos Capelinhos, arrumado essencialmente
pelos sons captados do exterior e da paleta imaginária de sons provenientes do
interior do vulcão, sendo exaltante a pletora sonora que aí acolhe.
Paulo Abreu
quis muito, num plano oposto ao de Duarte Belo, registar em filme a descoberta
dessa manifestação interior, enigmática e exteriormente silente, a meio do oceano
atlântico. Constituído por planos de fuga em Super 8, aproveita para dar corpo
e conta do vento, do céu e das nuvens que despontam em tão invulgar local,
supondo assim o rumor interno daquele báratro em manifestação invisível, nessa
possível congeminação de lava e outros materiais em combustão, o borbulhar dos
gases e partículas quentes no interior do seu magma. É nessa dialéctica
interior-exterior que este “Adormecido” é tão quente e poeticamente esclarecedor.
Com a presença
de diferentes câmaras espalhadas pela área do vulcão há no decorrer do filme a
imagem de uma ossada de um cagarro em plano único e contido sobre a morte e a
destruição a que este sítio é propenso, resultando tantos anos depois no seu esquecimento, permitindo
aqui a prova de que o que importa é dar conta da actualidade e presente desse “deserto” possível e
passível de pertença, após tantos anos passados da devastação inicial. Daí a interrogação: quantos filmes já pediu este vulcão? E,
por isso, só um poeta da imagem é capaz de espalhar câmaras pela terra nova e captar
a sua poesia visual e sonora para depois devolver-nos em jorro o que de
mais profundo e alienígena assoma desta atmosfera carregada de detritos e
escombros. É que podemos rebentar no ar esse conjunto de hipóteses de morte e
de cinza que um lugar como Vulcão dos Capelinhos materializa mas,
posteriormente, deveremos percepcionar e interrogar que aquilo que se encontra
aparentemente adormecido e esquecido baste um curto, mas precioso filme, para despontar em nós
a ideia de que há sempre tanta
coisa a bulir e a agitar-se por dentro. Do vulcão e no interior de nós.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Quatro Paredes e o Mundo de Marc Weymuller
“Naquele ano, voltei à Ilha do Pico, nos Açores. Queria encontrar o
escritor, poeta e baleeiro, José Dias de Melo, na sua aldeia natal, Calheta de
Nesquim. Queria passar alguns dias ao seu lado, ver como vivia. Queria ouvi-lo
falar, ouvi-lo contar as suas histórias que marcaram a vida dele. Queria filmar
a sua aldeia, a sua casa, as suas idas e vindas, acompanhá-lo, nos seus
passeios e descobrir paisagens que descreve nos seus livros. Mas quando cheguei
à Calheta de Nesquim soube que ele tinha caído doente e que tinha sido
hospitalizado em São Miguel, uma outra ilha do arquipélago. Ninguém me soube
dizer quando retornaria. Então, decidi esperá-lo. Levei comigo um dos seus
últimos livros “Poeira do Caminho”. Folhei-o para passar o tempo. E se escuto,
entendo a voz dele..."
Marc Weymuller
Marc Weymuller trabalhou para o
som de “As Ilhas Desconhecidas” (2009), de Vicente Jorge Silva(https:https://issuu.com/fazendofazendo/docs/fazendo_38_online e foi por essa
altura que travou o ensejo de querer conhecer Dias de Melo. Este seu trabalho
documental tem a particularidade de mostrar a passagem do tempo num lugar
carregado de memórias e de histórias de baleeiros elencados ao longo do tempo
por este antigo professor e depois escritor, focalizando-se essencialmente nesta fase final da sua vida, marcado
pelas contingências do momento na vida deste homem de palavras. Estes cinquenta e três minutos de
memória viva de um homem que escreve a partir da sua janela devolve-nos aquilo que é mais pungente e telúrico
num homem que gostava de sentir-se mais um entre iguais, podendo nós agora
imaginar o escritor com o seu cachimbo na sua Calheta de Nesquim olhando o mar
com os seus conterrâneos e antigos baleeiros. O filme é narrado em francês pela
voz de Marc Weymuller, que alterna em português com Michel Costa que vai lendo excertos de “A
Poeira do Caminho”, acentuando a cadência do texto num registo de vozes lentas
sobre as imagens do “habitat do escritor” – trabalho aprimorado de Xavier
Arpino – reforçando a solidão e a melancolia ali presentes, ampliando à literatura a vastidão da
paisagem que se avista da janela da casa de Dias de Melo. No final da sessão do cineclube de Ponta
Delgada foram lidos testemunhos de familiares e amigos, destacando-se o
tributo de Bruno da Ponte, editor de vinte uma obras do autor picaroto.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
O Aprendiz de Feiticeiro por Tiago Rosas
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| Zeca Medeiros (Foto Tiago Rodrigues) |
O
jovem realizador Tiago Rosas concebeu um documentário sobre a obra de Zeca
Medeiros. Este objecto fílmico tem o curioso título de «Aprendiz de Feiticeiro» e
trata-se de uma resenha do imaginário de Zeca Medeiros: realizador, actor,
compositor, cantor e responsável por muita da música açoriana de
referência que hoje ouvimos e que, podemos arriscar-nos a dizê-lo sem temor,
permanecerá por muitos anos na nossa memória colectiva. Tiago Rosas oferece-nos
o legado de forma temporal, mais de duas décadas de autoria, e que vai desde a
série “Memórias do Vale", rodada em 1985, até ao mais recente espectáculo de “As Sete Viagens
de Jeremias Garajau”, passando obviamente pelos telefilmes "Mau Tempo no Canal", “Xailes Negros”, “Balada
do Atlântico", "O Barco e o Sonho", "O Feiticeiro do
Vento", "A Ilha de Arlequim", "O Sorriso da Lua nas
Criptomérias" ou a adaptação de “Gente Feliz com Lágrimas", do
escritor micaelense João de Melo. Zeca Medeiros conseguiu – com a ajuda da RTP
Açores e dos seus profissionais – criar um “fado insulano” carregado de espelhos
e de reflexos que ressoam e povoam de forma indelével a cultura açoriana
contemporânea. É ainda surpreendente, na parte final deste trabalho, o desfilar
das suas actrizes e ainda o rol e a exposição do seu percurso
interpretativo enquanto actor através de excertos dos seus filmes.
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