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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Ver Estranhas Formas a Pensar - sobre a escultura e os desenhos de Agnès Juten

Escultura como arte da representação. Desde a antiguidade clássica, muito antes da escultura ter sido escolhida para ser a quarta arte por Ricciotto Canudo, que esta esteve sempre ao serviço da representação do corpo humano, elevando-o à condição suprema nas artes clássicas, pontuando as suas formas antropomórficas com o estatuto de divindade. Desta tradição e volume constam o mármore e o bronze como materiais essenciais ao trabalho do colectivo de artistas. O renascimento acentua a representação naturalista do corpo humano, desenvolvendo a técnica e aperfeiçoamento do nu, muito pelo conhecimento adquirido e avanço do saber acerca da anatomia humana. Os processos criativos foram variando ao longo dos tempos e das épocas. Esculpir era, pois, ilustrar, representar por imagens o ser humano em redor, e se possível revelar a plasticidade das formas humanas, moldando-o com várias técnicas e  materiais envolvidos na criação de objetos representativos da figura humana e humanizada.
Sem título - Agnès Juten (2014)
Escultura como arte de manifestação e suporte. Chegados à escultura contemporânea e, já sem pensar na representação do corpo humano, que ideia de arte podemos conceber? Olhamos em redor e vemos que não há representação de corpos ou figuras humanizadas, apenas manifestações de uma vontade individual de construir uma realidade, que é sua, e expressar a sua visão do mundo. Melhor dizendo, dar a pensar os vários mundos que em nós habitam podia bem ser o leit motiv deste impulso criador, pois criar pode ser o sustentáculo de novas formas de realizar o nosso olhar, muitas vezes que julgamos estar perdidas ou nunca vistas. Os materiais que muitas vezes julgamos desencontrados, espalhados pelos nossos lugares de trabalho, pelas ruas, à deriva pelo chão, apartados de qualquer espaço ou local, poderão assim encontrar outros significados e expressão. Há uma espécie de serendipitismo da forma (ou arte de configurar o mundo) se quiserem. O uso dos materiais recuperados ganha assim nova expressão, resultando daí um novo suporte. O caos em redor, ou quem sabe, o caos interior, necessitou sempre de ser ordenado, procurando novas formas e renovadas representações, para fornecer e inventariar ideias, sobretudo para dar conta de outros mundos por vir, imaginar, ou saber.
Escultura como arte em movimento. A escultura contemporânea e a arte em geral podem ser consideradas inúteis e desprovidas de qualquer função caso não tenham, pelo menos, a veleidade de nos fazer pensar. É perfeitamente consensual acreditar que os objetos aqui presentes nos suscitem um conjunto de significações, sentidos e, com toda a clareza e distinção, sentimentos. Dessa sensibilidade da autora até ao vosso entendimento como fruidores da obra da arte é que podemos afirmar se a arte está a ser devidamente cumprida, isto é, pensada, interrogada, sentida. Essa é a escultura, enquanto metáfora do mundo e da vida, que faz mover o pensamento, o sentimento. Aquela que é capaz de lançar novos mundos no nosso mundo.Aquela que introduz acção, movimento, enfim, desequilíbrio, essencialmente, inquietação. Inquietemo-nos.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

“Pedra-Ilha” de Baltasar Pinheiro no MAH


       Quem foi que disse que uma pedra não "perturba" a nossa visão do mundo? Quem é que nos assegura que a energia que dela erradia não põe em causa este frágil equilíbrio ilhéu em que assenta a nossa existência? As respostas poderão estar na Sala Dacosta do Museu de Angra do Heroísmo onde estará patente, até Outubro, uma mostra de peças escultóricas de Baltazar Pinheiro. O autor das peças é terceirense, tem trinta e oito anos de idade, começou por tirar um curso de cerâmica na Casa do Sal, orientado por Renato Costa e Silva, frequentado durante muito tempo o atelier deste artista plástico. O escultor vive actualmente na Suécia, em Uppsala, estudou escultura no Gothenburg  Art College daquele país escandinavo e é lá que trabalha. O título escolhido para esta mostra foi “Pedra-Ilha” apontando assim para uma familiaridade e pertença dos materiais expostos com o espaço envolvente. O conjunto das peças exposto revela uma escultura com alma e criatividade próprias de quem pretendeu mergulhar nas raízes e aprofundar o berço que cada ilhéu transporta. É, portanto, uma escultura de afectos, memórias, força telúrica, exaltação artística de quem faz das formas vida e dedicação. A exposição transporta-nos para um mundo de revelação, tornando esse invisível que nos habita parte do mundo que é nosso. De origem vulcânica e fruto de laboriosa celebração da energia, as peças contém elementos naturais e culturais da sua ilha de nascimento. Desta feita, quem vê esta exposição interroga-se na razão do porquê da arte poder mudar e perturbar, exaltar a cada instante a beleza das coisas que se encontram em nosso redor. Destaque-se assim as peças “Anoitecer” e “Amanhecer” que reflectem o encontro com o tempo, esse testemunho individual da nossa relação com a visão fragmentada da mutação, da vida que nos escapa e segue a “inevitável marcha do tempo”. O que dizer ainda de “Celebração” ou “Pequeno monumento às memórias que se perdem”? Baltazar Pinheiro procura assim a comunhão das emoções com os materiais vulcânicos, tentando expressá-los e harmonizá-los com o que de mais táctil e depurado existe nos nossos gestos. “Pedra-Ilha” é, sem dúvida, um encontro feliz pois tal como o autor escreve no catálogo da exposição: “Tenho a necessidade de tornar visível o que sinto que existe, mas que nem sempre se compreende. A minha intenção não é acrescentar nada à natureza, mas sim conhecê-la como um participante activo, não tentando imitá-la, mas querendo que a sua energia seja o alfa e o ómega da obra de arte”. É possível, na arte de Baltasar Pinheiro tudo é possível.