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segunda-feira, 6 de junho de 2022

"Êxodo" de Pedro da Silveira

 A essa terra que não era a tua 
deste o vigor dos teus braços,
deste o teu suor 
e o teu engenho.

Por essa terra que não era a tua 
deste generosamente o teu sangue.
E deste-lhe, povoador de mundos,
os teus filhos.

Agora, fechados os portos à tua entrada,
já o mar não é caminho aberto de emigrantes,
o mar não é mais a estrada livre dos barcos 
de clandestinos...

O Mar...
(você o disse Jorge Barbosa)
é o hoje a nossa prisão sem grades.
Irmão, deixá-lo...
Nas nossas ilhas erguemos o sonho que te negam 
O nosso mundo.

in Jornal Arauto, 23 de Março de 1964. 

segunda-feira, 30 de maio de 2022

"Casa" de Pedro da Silveira

Constrói a tua casa, mas de pedra,
e os alicerces que tenham
o fundamento que em ti achaste.
As madeiras sejam das mais duras
e secas como os antigos sabiam
que se secam as madeiras de obra.
Não deixes nada ao descuido
dos que não vão habitá-la,
nada à pressa desses
que sem amor constroem.
Cada janela, cada porta,
cada quarto e os corredores
no espaço certo: tudo
tão certo e próprio como depois
não te sentires nunca estranho
na casa que construíste.
E não é necessário que seja
uma casa grande. Seja
apenas a tua casa, medida
pelo tamanho de a habitares
como habitas o teu corpo:
uma casa que respire
e se alegre ou entristeça
como tu respiras, como
sabes rir, ou como
te entristeças. Uma casa
verdadeiramente a tua casa,
que construíste e sobreviva
a todas as tuas mortes.