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sábado, 15 de abril de 2023

Festival Tremor 2023

Marina Herlop 
(Blackbox do Arquipélago, 30 de Março de 2023)

Fotografia de Carlos Melo 
 




quinta-feira, 26 de maio de 2022

2022: O Ano do Tremor Suave!

    Em 2023, o festival Tremor, evento musical que acontece anualmente na ilha de São Miguel, Açores, irá atingir a sua décima edição e decorrerá entre os dias 28 de Março e 1 de Abril. Muito provavelmente, nessa altura, já a cidade de Ponta Delgada e o arquipélago açoriano estarão com a candidatura da Capital Europeia da Cultura de 2027 em andamento. O festival Tremor, conjuntamente com o Walk and Talk e o Arquipélafo - Centro de Artes Contemporâneas, serão, certamente, as maiores alavancas hodiernas dessa projeção da cultura arquipelágica, tanto nacional como internacionalmente.
Fotografia de Carlos Melo
    Terminou, pois, a nona edição do Tremor nos idos de Abril, passada com a costumeira ciranda de gente em torno dos concertos e de músicos oriundos de diferentes geografias. Para quem ainda desconhece o evento, este é um festival que se pauta pela descoberta e a diversidade sonora, enquanto permite o encontro do público com a beleza natural dos espaços insulares. Assim, surpreendente continua a ser o “Tremor na Estufa”, uma invenção que prima pela combinação da natureza ou edifícios monumentais da ilha com os diferentes géneros musicais que o festival abarca. Ao longo desta década de existência, já passaram pelos diferentes “palcos” da ilha a sonoridade dos Ferro Gaita de Cabo Verde ou os Circuit des Yeux dos Estados Unidos, para além dos portugueses - Filho da Mãe, Clã, Lena d´Água, Três Tristes Tigres, David Bruno, Pop Dell ‘Arte, entre tantos outros.
    Assim, o encerramento desta nona edição deu-se, como vendo sendo hábito, no interior do centenário Coliseu Micaelense. No início da noite, o palco foi entregue à voz quente e melancólica de Rodrigo Amarante. O carioca apresentou-se sozinho em palco, com uma camisa acabada de passar a ferro, e com a sapiência de ser compreendido por uma audiência que, quando o encontrava nas praças ou nas ruas da cidade, pedia-lhe para tocar “aquela” ou tocar a “outra”. Um dos momentos altos do concerto do concerto deu-se com “Irene”, sobretudo quando este entoou os versos: “Milagre seria não ter/O amor, essa rima breve/Que o brilho da lua cheia/Acorda de um sono leve.” Duas horas antes, o paulistano Sessa já tinha dado o mote para um mundo a necessitar de (re) encantamento, arrebatando o público presente no Auditório Camões com a apresentação do seu primeiro disco a solo - “Grandeza”. Sessa é, sem dúvida, um músico que carrega consigo toda a herança musical brasileira, possuidor do cheirinho e devoção a Cartola ou João Donato. É muita linda a sua entrega em palco, numa fala tímida e suave marcadas pelo gosto da bossa e do dedilhar do violão.
   Por último, não se pode deixar de falar da importância deste Festival para a comunidade. Nesta edição houve cozinhas comunitárias em Rabo de Peixe, sendo que os seus habitantes abriram as suas casas para a degustação gastronómica dos visitantes. Todos os anos há também a maravilha e o entusiasmo das atuações da Associação de Surdos de São Miguel + Onda Amarela (este ano com o Coral de São José) ou ainda a Orquestra de Jazz de Rabo de Peixe, que contou com a direção de Rodrigo Amado. Um festival que se quer da ilha e da ilha para o mundo.

sábado, 6 de abril de 2019

Abril: o TREMOR Voltou!

          Abril chegou e com ele regressa também o Tremor. Há por isso muita música para fruir ou ainda provocar a curiosidade, a maior parte dos sons pertencem a músicos que habitam na periferia das grandes produtoras musicais, gente que faz música em cidades como Ponta Delgada, Lisboa, Porto, Londres, Manchester, Maastricht, Barcelona, São Paulo, São Francisco, e outras tantas sonoridades oriundas de ilhas de antigos impérios.
A partir da próxima semana é música para ouvir sentado com uma chávena de chã ou um copo de tinto na mão, o Tremor é música para fundir a paisagem com o universo sonoro de cada banda ou intérprete, sempre sob o signo da água e do Atlântico, um festival que habituou os frequentadores a não ouvir a mesma banda duas vezes, já que se trata de uma montra alargada que todas os anos prima pela experiência e descoberta. Altura, por isso, para ouvirmos os WE SEA, esse grupo com nome de um trocadilho bem açoriano, apenas com quatro anos de idade, apareceram numa noite de celebração histórica da revolução dos cravos no espaço do Solar da Graça e ali despontaram com o seu teclado sobre uma tábua de passar a ferro e um vocalista pleno de garra e intensidade. Será muito interessante apreciar a prolixidade de Rui Rofino, que canta com alma e entrega na língua de Antero de Quental as suas letras de muito labor e apuro, ao mesmo tempo que teremos a oportunidade de ouvir a voz plástica e eclética de João Peste dos Pop Dell´Arte.  Quem tem acompanhado o Tremor, sabe muito bem que o certame é imprevisível, trazendo algo muito livre e arejado a cada edição, o que só  pode augurar uma semana musical deveras promissora.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Tremor: Aguardemos 2019!


      Terminou a quinta edição do Tremor. E culminou no Arco 8 da melhor forma na alta madrugada de sábado o dia mais marcante deste acontecimento musical. Ao longo da semana já tinha havido os concertos surpresa do "Tremor na Estufa" e demais iniciativas espalhadas pelos mais variados lugares de Ponta Delgada e da Ilha de São Miguel. E o que nos apraz dizer deste evento? Os mais que merecidos parabéns e felicitações à organização e um desmedido obrigado aos músicos pelos concertos proporcionados. Ficam também outras propostas, tais como a exposição "Narcisismo das Pequenas Diferenças", de Pauliana Pimentel, o retrato duma juventude segundo a origem e o contexto social, ainda que sem pontes de contacto, a ver na Galeria Fonseca e Macedo ou ainda o filme “Levantados do Chão”, de Daniel Blaufucks, que nos comove pelo abandono do Hotel Monte Palace e o gesto soturno e delicado da Banda da Lira das Sete Cidades. Dos benignos e memoráveis momentos guardar-se-á tantos e diferenciados e, por isso, registe-se assim o concerto dos "10 mil russos" no Túnel das Sete Cidades, numa deriva sonora misturada  com a beleza da paisagem, ainda a cantora Baby Dee, na sua entrega solitária e encantatória, no Auditório Camões, ou os Snapped Ankles, num revivalismo electrónico e dançante, no belíssimo Teatro Ribeiragrandense. E...foi tão bom que custa pensar que só regressa no ano que vem.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Circuit des Yeux: Reaching for Indigo

Foi o concerto mais intenso e cativante a que pude assistir no ano de 2017. A banda dá pelo nome de Circuit des Yeux e são oriundos do Indiana, Pensilvânia, nos Estados Unidos. O concerto, a que tive a veleidade de assistir, decorreu na Academia das Artes, Ponta Delgada, no abalo primaveril do Festival Tremor. Numa posição indefinida e, pose intimista em palco, ali estava a vocalista, Haley Fohr, que, com a sua fantasmagórica e enigmática voz, irradiava uma impressiva atmosfera, para além de uma forte presença e dramatismo.   
Os Circuit des Yeux  editaram, em Outubro do ano passado, “Reaching for Indigo”  um álbum de oito canções. A voz em delírio de Haley Fohr é acompanhada por Josh Abrams (Natural Information Society), por Cooper Crain ou Rob Frye, dos Bitchin Bajas. Há sintetizadores, cordas e secção de metais que ajudam ao carrossel emocional. Trata-se dum mergulho profundo nas feridas emocionais e na solidão, sendo que parece apenas ter eco e  expressão sob a forma de sons e canções, que à semelhança do que se ouve em “Black Fly”: “Nobody said it was easy/But it was so easy/To stand alone.”.

sábado, 22 de abril de 2017

O Tremor dá música por todos os lados

O Diário Gráfico do Tremor 
(Coordenação de Marcos Farrajota)
      Uma das noites surpresa da quarta edição do Tremor foi o concerto dos "Circuit des Yeux" no Auditório Camões. Meia hora decorrida após o início do concerto e o mistério daquela atmosfera, repleta de dúvidas e silêncios, adensava-se. Aliás, o encanto indagador ia crescendo, o poder daquela voz enigmática, misteriosa, assim o concedia. Voz de homem ou mulher? Eis que os efeitos, a envolvência e a gravidade desaparecem e é a voz da própria Haley Fohr que se impõe, que emudece a sala que naquele instante que se encontrava cheia e remete aquela ambiência e atmosfera final do concerto para algo único, excitante e indecifrável. Valeu claro! Ali estava um momento marcante, poderoso, inesquecível!
        A música em sítios inesperados e pouco usuais é a grande marca deste festival musical que se realiza todos os anos por esta altura na Ilha de São Miguel. Outra coisa são os convidados que amaram à Ilha para criar, desenvolver projectos junto da comunidade local. Um deles foi Marcos Farrajota, um dos editores da Chili com Carne, que teve a oportunidade  de juntar alunos da Escola Secundária Antero de Quental e construir com eles um diário gráfico do próprio festival.
        Assim, durante o interregno pascal alunos de turmas de artes iam desenhando o que viram/imaginaram ao longo da semana, tendo as situações dos concertos/espectáculos como mote e tema para explorar e expandir o seu engenho e criatividade. O resultado, tal como podem observar pelos folhetos distribuídos aquando do fecho do festival, é sempre estimulante e até, por vezes, bastante surpreendente. Muito embora, a festa do Tremor seja apenas no sábado, os concertos surpresa já tinham começado alguns dias antes. Que sábado  (o grande dia do Tremor!) viesse e nos trouxesse o relógio certeiro dos Mão Morta (cada vez mais afinados e directos) ou o semba mágico e alegre do Bonga, já todos sabíamos, mas tudo aquilo que se passa antes, aquelas horas em périplo à procura das músicas e dos concertos, isso sim, é que é quase sempre imprevisto, diversificado e inesperado! Para o ano há certamente mais música e demais abalos gráficos.

segunda-feira, 21 de março de 2016

A Música Omnipresente do Terceiro Tremor

"Paus" no Coliseu Micaelense - Fotografia de Joana Camilo
“Estás em todas” foi a expressão mais ouvida durante o dia de sábado, o "prato principal" desta terceira edição do Tremor. E, como de facto, não se podia estar mesmo em todas – foram quarenta concertos de quinze em quinze minutos – fez-se os (im)possíveis para percorrer os vários lugares por onde esta maratona musical teve lugar.
A festa da música começou com uma curta audição de Luís Senra na Biblioteca da Escola Secundária Antero de Quental, onde decorreu o Mini-Tremor, com muita pequenada presente entretida com os sons do saxofone e os desenhos de Yves Decoster. O momento musical convidava no entanto a partir para outras paragens sem antes apreciar a obra de Tomás de Borba Vieira, presente na escadaria da respectiva escola. À chegada à Rua d´Agoa 50, o ambiente começava a aquecer com os “Rapeciâz”, os músicos encontravam-se no local e convidaram o público a entrar para a respectiva sala, cumprindo assim de forma improvisada, dissonante e, por vezes, harmónica, os preparos sonoros desta actuação. A pulcritude daquela casa e o concerto do trio (acompanhados pelo “performer” João Malaquias) proporcionaram uma viagem criativa e planante. Com regresso marcado ao planeta terra, lá fomos à galeria Fonseca e Macedo, apreciar e sentir os noruegueses “Sturle Dagsland” que, para além de uma performance intensa e evocativa das florestas do norte da Europa, demonstraram um apetite voraz pelos kiwis locais. Depois, partida para o auditório Luís de Camões para ouvir os “Kobayan”, agrupamento possuidor de uma segurança e tranquilidade em palco, aquecendo o público que se ia acumulando pelos diferentes abalos musicais espalhados pela cidade. O dia estava quente, pré-primaveril, e as ruas de Ponta Delgada enchiam-se de gente com pessoas a acumularem-se na recepção do Louvre Michaelense, descobrindo assim a área do primeiro andar e assim escutar a “Sara Fontán”, uma virtuosa do violino em pleno devaneio intimo e auspicioso pelo mundo das bandas sonoras para filmes reais ou inexistentes. Um pouco mais acima, na Rua de Pedro Homem, a Galeria/Editora Miolo esperava por nós para assistirmos aos “Diários Visuais” do fotógrafo António Júlio Duarte, pequenos registos livres de um festival que se realiza por entre vacas a pastar, piscinas termais e a imponência do verde.
Entretanto, o Solar da Graça encontrava-se deliciado a ouvir Julianna Barwick, com a madeira a servir de suporte e vibração numa convocação de música etérea e sombria. Apertados com a escassez do tempo, nova partida para a Igreja do Colégio, pois era lá que se encontrava em cena o “Filho da Mãe”, um guitarrista exímio e merecedor de um espaço e assistência a condizer, motivado com a solenidade devida daquele lugar. Sem dúvida, um momento propício para escutarmos os temas deste autor seguidor da tradição musical portuguesa, ainda que, com variações e sonoridade nas cordas muito próximas da kora africana. Foi, sem dúvida, um momento especial deste Tremor, não descurando a contemplação e a beleza da igreja.
A noite musical abriu com uma passagem pelo som dos “HHY and Macumbas” que subiram ao palco do Ateneu Comercial, num concerto de música bem animada e recheada de salero. Alguns metros à frente, novamente no bonito Solar da Graça, o rock soou muito alto com os decibéis no máximo, pois estavam em palco os canadianos Black Mountain”. Seguir-se-ia os “Bitichin Bajas e Bonnie Prince Billy”, no Auditório Camões, um concerto a abarrotar de gente, ainda que se desconfie que deveria ter sido noutra ocasião o momento para escutar este narrador contemporâneo e a sua desmesurada melancolia. “Keep on Keeping on” debitava o cantor ao público que resistiu até ao final, e assim se prosseguiu em romaria, apaziguados e sedentos de mais música.
Por último, uma passagem pela Tascà onde se encontrava o Dj Fábio "Quesadilla", animador que virou o Tremor do avesso, jorrando danças e folias para dentro daquela antiga taberna, permitindo apenas um derradeiro fulgor no Coliseu Micaelense. Na sala de espectáculos mais antiga do arquipélago, esperava-nos os divertidos e festivos, “Capitão Fausto”, mas viria a ser a banda "Paus", o que de melhor se viu e ouviu durante a noite. Aquelas duas baterias, sintetizador e guitarra, num cenário tribal e de bruma, levaram ao delírio a assistência presente e, aquilo que viria a seguir, já só serviu para cumprir o programa anunciado, o que, voltando à expressão inicial, seria de todo impossível ir a todas, ainda que houvesse vontade. Passada a festa e o abalo musical e, sabendo agora que já estamos todos a ressacar, o que não é bom sinal, conviria deste modo agradecer à organização e esperar que estas réplicas musicais se repetissem com mais frequência e se pudessem estender durante o ano inteiro.