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sábado, 9 de novembro de 2024

O Fim de Um Amor de Rui Machado

É assim a nossa história. Dá impressão de que nada 
Acontece quando tudo se espera: duas cadeiras vazias
Junto a uma lareira que ninguém aquece. E por isso
Inclino-me hoje especialmente para o silêncio 
Mesmo que tenham ficado pequenas lembranças 
Memórias que parecem coladas a alguma coisa 
Como as gravuras inscritas nas pedras.
Se servimos para alguma coisa, para quê as mãos no fogo?
E se esticarmos a luz pela tarde para quê a sombra?
As circunstâncias foram como foram, umas urgentes
Outras carregadas de malas ou adiadas para nunca 
Mas sempre excecionais na sua imperfeição. Entretanto
Escuta como se aquietou em mim o teu coração 
Num diálogo atravessado por distâncias. 


Horta, 11.12.2021.

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

O Mergulho de Rui Machado

"Parte do movimento e da urgência dos sentidos.
A urgência, porém, consome tudo: consome a vida.
Arrasta-nos para a solidão.
Se for urgente, estamos sós. Que dizer, realmente sozinhos, com  as janelas da cabeça fechadas, as portas fechadas, ou nem sequer ter portas nem janelas. Ser-se um espécie de muro do mundo: a última barreira.
A cidade estava deserta. 
Chovia________ mas na verdade havia um grande encanto nisso, porque ele nem sempre imaginara uma visão assim: a visão duma cidade de cara lavada sem o afã da multidão nem o corrupio dos automóveis. 
Apenas as praças, as ruas, as casas, os jardins, os pequenos recantos.
A vida pacata no interior destas casas de bairro, agora duplicadas no chão alagado_________
É claro um pouco de atenção nos levaria a entrever toda a espécie de ruídos característicos de uma pequena  urbe portuária, como  a roda-viva do trânsito alvitrando ao longe a delicada manobra dos cargueiros, tanto a entrar como a sair do molhe. Mas a todos se sobrepunha esta permanência, este vazio______ perante o qual sentiu o chamamento da solidão interior." 
iPortugália Editora, Janeiro de 2009

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Sobre Um Pouco da Alma de Rui Machado

      “Apesar de não serem, entendidos de forma literal, poemas do lugar, são poemas marcados, inevitavelmente, pelo lugar. Quero dizer, são poemas de mim no lugar, poemas da maneira que são porque eu era daquela maneira ao estar ali. Afinal de contas, não se pode fugir disto: somos o que somos, e fazemos o que fazemos, também por causa dos lugares que habitamos. Cada um a seu modo, tal qual como a uva da vinha, somos frutos de um terroir (risos). Um Pouco da Alma não seria o que é, ou talvez nem sequer existisse, em parte ou no todo, se não fosse a experiência de viver aqui, na cidade da Horta e na ilha do Faial. Seja pelo ritmo ou pela respiração, seja por aquilo que é dito ou por aquilo que é somente insinuado, este livro tem, inevitavelmente, a marca do lugar. Isto apesar de evitar os localismos. Não se trata de uma questão de escolha, mas de um processo natural. Vivemos em lugares e neles é que respiramos e o vento nos sopra no rosto, ou não é assim?”

Entrevista a Rui Machado, Tribuna das Ilhas, Maio de 2023.

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Quatro Haikais de Rui Machado

Degraus tu e eu

metade da escada só,

orvalho em versos 

...

Latem ao longe 

os cães, as nuvens choram:

ninguém à porta!

...

Rouxinóis e rãs

as noites solitárias

são muito estranhas

...

Os filhos partem 

Nem melhor, nem menos bem, 

o sol desponta. 

in Um Pouco da Alma, edição Núcleo Cultural da Horta, Abril, 2023.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

"Apontamento" de Rui Machado

Cada um saberá porque lhe doem as costas
e como tudo seria diferente,
se há tantos anos neste mundo
acordasse um dia com outro fôlego.
Mas por algum motivo foi a carga suficiente
num caminho desenhado por baixo,
ainda que parecesse igual aos outros,
para calcorrear no seu todo
na duração de bater as asas. 
É o que dizem as estatísticas: é mais fácil
adormecer habitualmente no já consumado,
ou amanhecer com as mesmas cores,
do que à porta de casa perdermos a chave
regra geral sem bagagem de volta.

in "Um Pouco da Alma", edição Núcleo Cultural da Horta, Outubro de 2022. 

quinta-feira, 13 de abril de 2023

"Horta, Angústias" de Rui Machado

ainda que os sinos dobrem 
se passares à minha porta
porquê não importa quando 
nem de soslaio não olhes 
aqui ninguém mora

gota de orvalho inverso
roda o volante e refazendo faz-te 
o motor não consegue pormenores
e tu como a linha na agulha
mais só não podias 

apesar de arder e arder 
nós adiados nunca mais haverá

faz de conta que foi há muito 
tempo 
eu aberto ao meio


in "Um Pouco da Alma", Núcleo Cultural da Horta, Outubro de 2022.

sábado, 4 de março de 2023

"Natureza Morta" de Rui Machado

 bonito jarro

o meu amor dormindo

à mesma sombra

visgos, zimbros, bardanas

um peixe

duas maçãs e um sofá

numa quietude entre duas dimensões

 Horta, 05.02.2022 

segunda-feira, 20 de junho de 2022

"Spring Departure" de Rui Machado

 Era o tempo da carne a despertar 
quando a força que havia era o rosto
numa língua que julgávamos prodigiosa
Apesar de termos todo o tempo do mundo
dizíamos que o dia nos faltava sempre 
porque só damos valor ao que temos
já tão perto de perdê-lo. Aqui é a tua casa
aqui a tua dança ressoa. Então os dias 
arrastavam-se e neles tudo surpreendia 
se pouco sabíamos da exatidão das coisas
Mas a luz entretanto escurece num delírio 
tudo escureceu na quietude das horas ilusas
Nem uma réstia de alegria a iluminar a vida há 
nem lugar aonde ir como aprendiz de espumas.

in Grotta #2, 2017, Letras Lavadas

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

"O Fim de um Amor" de Rui Machado

É assim a nossa história. Dá a impressão de que nada

Acontece quando tudo se espera: duas cadeiras vazias

Junto a uma lareira que ninguém aquece. E por isso

Inclino-me hoje especialmente para o silêncio

Mesmo que tenham ficado pequenas lembranças

Memórias que parecem coladas a alguma coisa

Como as gravuras inscritas nas pedras.

Se servimos para algo, para quê as mãos no fogo?

E se esticarmos a luz pela tarde para quê a sombra?

As circunstâncias foram como foram, umas urgentes

Outras carregadas de malas ou adiadas para nunca

Mas sempre excecionais na sua imperfeição. Entretanto

Escuta como se aquietou em mim o teu coração

Num diálogo velozmente atravessado por distâncias.

Horta, 11.12.2021.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013