sexta-feira, 16 de maio de 2014

Fim de Semana

Estirado na areia, a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia,
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.


Alexandre O´Neill, Poesias Completas, 1951/1981, Biblioteca de Autores Portugueses,Imprensa Nacional  Casa da Moeda.

sábado, 10 de maio de 2014

Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.


Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde".

Azul Triângulo

Fotografia de Eduardo Brito

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Europa.

          Duas décadas depois de ter feito Erasmus na cidade grega de Salónica, regressam agora as eleições europeias. Hoje, dia da Europa, é verdade que muitos de nós continuamos sem saber muito bem o que é exactamente a União Europeia.
          Naquela altura, vivia-se um período de desafogo e euforia económica e a Grécia, o berço da civilização, permitia corroborar que a Europa enquanto conjugação de várias culturas era per si uma construção frágil. Não é fácil, por mais que se queira, juntar italianos com suecos, portugueses com alemães, espanhóis com holandeses, ainda por cima tripulantes da mesma galera e que a viagem corra às mil maravilhas. No entanto, é possível com algum sonho e utopia construir uma ideal de democracia que nos permita sair do ancestral estado bélico e da contínua atracção pela barbárie, bem como montar a paz por muito tempo e ainda que possamos alargar o campo de possibilidades de uma sociedade mais justa, democrática e solidária.
           Algum tempo depois desse ideal sonhado não há presentemente muito para celebrar. O desemprego é a face da moeda mais visível desse desencontro  e o medo de viver em democracia tornou-se uma realidade das sociedades contemporâneas, a acrescentar à contínua anulação das diferenças e formas de estar de países com fraco poder económico. É tempo, portanto, para evocar a experiência Erasmus e essa utopia da união das diferenças e de aceitação pelo ritmo e cultura de cada comunidade e país. Foi assim uma experiência única e vivida de forma intensa e que foi muito além das trocas universitárias e do programa de estudos aí existente. Talvez  por isso, aprenderam-se línguas, viajou-se bastante dentro e fora do país em que se esteve, conheceram-se os hábitos e os gostos alimentares de um país diferente do nosso, contactou-se com a história e a cultura de um outro país bem como se fizeram amigos e conhecimentos que perdurarão ao longo da vida. Uma coisa é possível garantir: o melhor da União Europeia passou por aquele projecto em construção e pela sua ideia de miragem sem grandes imposições. O Erasmus era a união das diferenças e não o domínio e a imposição  de uns sobre outros. Ainda restam dúvidas sobre isso?

As Nuvens, as Nuvens...

Fotografia: FN
Não sabemos nunca o que dizer sobre nuvens. Há quem já tenha escrito que as Nuvens Não Precisam de Almofadas. Gostamos delas quando se mexem, quando se agitam, quando brincam no céu como crianças no recreio. Gostamos menos quando ficam paradas, quando se instalam, quando zangadas para nós olham sem saber o que dizer. Muito cinzentas sabemos que mais cedo ou mais tarde irão chorar. A maior parte das vezes somos impacientes com elas, rogamos-lhes pragas, fazemos preces para que passem e nem sempre sabemos o que fazer com elas em dias felizes, a não ser que procuremos nas gavetas poemas que não sabemos muito que direcção, rumo ou orientação lhes dar, certamente depois de descobrirmos que afinal o seu instrumento de medição de velocidade e destino já ter sido inventado há muito, muito tempo: “Na rua do inventor do Nefoscópio/ incide amplo e plúmbeo amplexo/ pesadas nuvens em inusitado branco/ luz rala em cinzento desfeita/ frenética oposição à precisão/ arremessar a manhã ao sol de Maio/ devolvendo o algodão à superfície/"

quarta-feira, 30 de abril de 2014

sábado, 26 de abril de 2014

“Vir`ó Balho” dos Myrica Faia no Auditório do Ramo Grande

Imagem retirada do "Quiosque Açoriano"
Quem ouve o nome deste novo agrupamento musical terceirense pensa imediatamente numa árvore presente na região intitulada de Faia-da-Terra, natural da região da macaronésia, espécie tão bem conhecida dos estudiosos de botânica. A verdade é que Myrica Faya é uma banda musical assumidamente açoriana, composta por Bruno Bettencourt (Viola da Terra), Cláudio Oliveira (Baixo), Emílio Leal (Piano, Voz), Pedro Machado (Guitarra, Voz), Ricardo Mourão (Guitarra, Voz). No dia 3 de Maio, no Auditório do Ramo Grande, os terceirenses Myrica Faia apresentam o seu primeiro disco, com entrada gratuita, contando com um reportório essencialmente elaborado por músicas tradicionais açorianas e onde será possível escutar “Caracol”, “Charamba”, “São Macaio”, “Sol”, “Lira”, a bem micaelense “Pézinho da Vila”, ou ainda a internacionalmente conhecida “Chamateia”, temas estes revestidos de novas roupagens, reforçadas pela diversidade das vozes e com a predominância das cordas, neste caso das guitarras, inclusive a viola da terra. Não seria despiciendo incorporar um violino ou até mesmo um acordeão para equilibrar a contenda, mas compreende-se o risco em avançar com um projecto desta envergadura. Desta feita, está a ser preparada uma digressão pelas ilhas do triângulo (Faial e Pico) bem como uma passagem por São Miguel (Teatro Micaelense) para apresentação de “Vir`ó Balho”  e testar as músicas junto dos melómanos existentes nas ilhas.

Abrilizar...


Documentário essencial para perceber o que é que se passou. As razões e outros motivos porque se fez uma revolução  ou se quis mudar o estado das coisas. Rui Simões escolheu os "refractários"- inclusive, ele próprio - para contar a história dos que não tinham escolha senão a guerra. E num ritmo impressionante e com uma qualidade surpreendente de registos e testemunhos pessoais conta aquilo que provavelmente há muito estava silenciado e necessitava ser dito.




segunda-feira, 21 de abril de 2014

Postal Pascal para Miriam Manaia

Querida Miriam,

Continua a invernia por aqui.
Descobri que no final do filme “E a tua Mãe Também” do Alfonso Cuáron está lá o“Watermelon on the Easter Hay”, do álbum "Joe´s Garage", de Frank Zappa, e por isso passei estas noites de frio e chuva a rever os créditos finais do filme para que a música se instale e contamine a atmosfera circundante. Passaram-se vinte anos sobre a estreia do filme do mexicano e em que também confessei a Mário Cesariny que ele era um dos maiores poetas portugueses, porventura também na melancia do feno da Páscoa. Em cima da mesa do meu escritório, para além de uma fotografia com a Miriam na Cave do Solar dos Manaias, tenho uma proposta de doutoramento:"Da melancolia ao renascimento: contributo filosófico de um funâmbulo para a construção de um eterno retorno". É uma singela proposta bem como uma ideia singular do velho amigo Santiago de Olissipo, há muito retirado, por desgaste e desconsolo, das lides académicas.
Gostaria muito de ter notícias vossas, alegremente,
Doutor Mara

sábado, 19 de abril de 2014

Dois Poemas sugeridos por Tiago P. Rodrigues.

Quantos mares extasiados
lentos e sussurrantes ardem
na lagoa do meu peito a pedir água
para a sede vulcânica dos teus olhos!
A alma errante pelos becos da ribeira
alonga-se na mansidão do fogo
a cada fluir da névoa
repartida na nostalgia de uma saudade
ou na certeza das aluviões tranquilas
a mergulhar no crepúsculo em agonia.
Uma sucessão de sonos encalhados na furna
resiste ao encalhar das ondas e vai
modulando o ilhéu migrador
dos últimos devaneios calados
na memória.

Américo Teixeira Moreira

RECUSA

 a Alberto de Serpa
 Serei sempre um poeta provinciano.
 Um poeta triste, esquivo,
Com medo de apertar a mão aos poetas da cidade
E de me sentar com eles
À mesa do Café.
Não falarei de minha poesia.
Não rimarei minha angústia
Com a solenidade de suas questões.
A poesia não está na discussão.
A poesia não está no não estar com este ou com aquele.
A poesia está em matar esta morte
Que anda dentro de nós
Para que a vida renasça.
A poesia está em gritar do alto dos arranha-céus
E das planuras e concavidades sertanejas
Que o mundo vai acabar
Que o mundo está maduro para o sangue
Que o mundo perverso e caótico vai vagar.
 Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta esquivo defendendo sua solidão
De todos os truques de todos os ódios de todas as invejas.
Os poetas rendilheiros não perdoarão.
Os poetas vaidosos vão barafustar
E exigir a expulsão imediata
Do último vendilhão do Templo,
Em nome da religião,
Em nome da estética,
Em nome da dignidade amarfanhada,
Em nome da polícia se preciso for.
Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta esquivo anunciando a verdade
A repassar de gelo os corações narcotizados.
Os poetas rendilheiros não perdoarão.
Os poetas vaidosos vão barafustar,
Porque o fim do mundo está próximo.
Os poetas rendilheiros e os poetas vaidosos estão maduros para o sangue.
Já estão cevados para a morte.
Eles esquecem (perdão, não é blasfémia!) a sentença do Cristo:
— «Destruí este Templo e eu o reedificarei em três dias.»

Vasco Miranda (de A Vida Suspensa, 1953)

quarta-feira, 16 de abril de 2014