terça-feira, 23 de dezembro de 2014

«Trinta e quatro sonetos e trezentas e cinco redondilhas» de João Paulo Esteves da Silva


Edição da Douda Correria, 2014
                                                                 Dos sonetos:

                                   (...) Se chove muito na calçada, acorda
a sensação de que o país está morto
e que o trabalho acaba, e só o desporto
o fingimento, o jogo, inspira a horda.”

Das redondilhas:

(...) Chovem optimismos
e as coisas ternas,
voluntariosas,
cheias de genica
enchem-se de orgulho
enquanto não chega
a próxima nuvem
a qual tarde ou cedo
acaba por vir
despertar a sombra.”

E deixa-me o azul, o azul profundo...

 
Rever Lisboa no dia em que Alexandre O´Neill, se fosse vivo, faria 90 anos:

E de novo, Lisboa, te remancho,
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho,
ou o outro vermelho que te molha.

Sangue na serradura ou na calçada,
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada,
cerceado do coração que foi.

Groselha, na esplanada, bebe a velha,
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,
na terra onde nasceste e eu nasci?
 

 

sábado, 13 de dezembro de 2014

95 FA...

"O verão para estar com os outros e o inverno recolher e desenvolver projectos impossíveis em dias de sol." 

Gonçalo Cabaça, in FAZENDO nº95, mês de Dezembro de 2014.

Nota:Ler aqui a versão digital do jornal: http://fazendofazendo.blogspot.pt/

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Curtas no Teatro Faialense

Cartaz do Amostram´isse
       Quem não viu, pode ver agora. Quem apenas ouviu falar, pode certamente espreitar ou perguntar como foi. Não se perde muito tempo, aliás, neste caso só há tempo a ganhar. Os filmes são de pequena duração e foram realizados em território do arquipélago açoriano.O fim-de-semana cinematográfico abre com o "Varadouro" e o "Meu Pescador, Meu Velho". O primeiro foi filmado em poucos dias pelo João da Ponte e o Paulo Abreu, veio de exibições em Londres e Paris, e, o segundo, feito pela madrilena Amaya Sumpsi, recebeu o prémio Camacho Costa no Cine Eco 2013, e demorou sete anos. Ambos possuem uma alma enorme e ainda um gosto apurado pela pulcritude dos espaços insulares. São filmes de gente apaixonada por imagens, sons, situações, pessoas. E, essencialmente, pelo mar, fascinados pelos lugares de veraneio ou pelo trabalho piscatório em Ilhas dos Açores. O cinema é, portanto, uma coisa cara de materializar, processo e técnica que leva tempo a executar, mas é, certamente, uma ideia em que vale a pena investir. Esta pequena cinematografia açoriana irá continuar a fazer o seu caminho, mas para que isso aconteça precisa muito de ser vista, divulgada, esclarecida. E, claro, que hoje é um dia favorável para iniciar a contenda, já que mais logo,à noitinha, se abrem as portas do teatro Faialense.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Mãos que Pescam

Fotografia de Filipa Alves

Poema

Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-Io passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar


António José Forte in Uma Faca nos Dentes

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Convocação da Tristeza

Daqui a pouco convocarei a tristeza
junto de uma estante fria na noite
assomarei muito fumo, alguns versos e
o funny valentine


Talvez a dor ainda seja possível
esbanjarei todo o tempo da estação
sem qualquer trincheira afastarei
o temor  com a palma da mão
cuidarei  das unhas dos pés da lembrança em brasa, 
célula e choro,
pétala caída no esplendor do verão,
desolação em mim.

Ontem escrito numa parede da cidade

Todos gostamos de músicas pirosas quando estamos apaixonados.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Do Leitor

"Durante a minha vida, fiz muitas coisas que não tinha decidido fazer, e não fiz outras que tinha firmemente decidido fazer. Algo que existe em mim, seja lá o que for, age; algo que me faz ir ter com uma mulher que já não quero voltar a ver, que faz ao superior um reparo que me pode custar o emprego, que continua a fumar embora eu tenha decidido deixar de fumar, e que deixa de fumar quando me resignei a ser um fumador para o resto dos meus dias. Não quero dizer que o pensamento e a decisão não tenham alguma influência na ação. Mas a ação não decorre só do que foi pensado e decidido antes. Surge de uma fonte própria, e é tão independente como o meu pensamento e as minhas decisões. "
Bernhard Schlink, O leitor, pp. 16-17.