Eles eram um
casal, Vítor, e tu protestaste ao vento. Inclusive quiseste deslocar os
girassóis contigo. Provavelmente pretendias que fossem contigo ver o milho
fértil dos campos fecundos da tua ilha. Esperaste demasiado até descobrirem as
acácias. Estamos mal combinados para largar de viver. E, no entanto, sonhamos
com searas e vindimas. Eu sou do tempo fixo, imóvel, daquele que engrossa as
marés e por isso não me canso deste despistado olhar sobre o horizonte. Agora
pagamos a virtude do voo das abelhas, quase enriquecemos com o seu pólen vagabundo. Ainda cansados vociferamos contra as invasões dos bárbaros modernos, pois
julgamos assim ter encontrado um sítio inabalável ao entardecer.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
A Natalícia Missiva de Janeiro Antes do seu Regresso em Fevereiro
Amigo Doutor Mara,
Espero que esta carta invernal
lhe aqueça o coração, ao proporcionar-lhe uma leve comoção própria dos dias
mais subterrâneos, onde nos tornamos mais sensíveis aos pequenos prazeres da
existência. E é assim que sem precipitações e empurrados pela fulgurância do
tempo, entrámos no pré-Natal, época de catarse consumista e histeria familiar
embrulhada em lacinhos vermelhos, que irrompe pela doce letargia invernosa
fechando o ano tal como ele começou, num movimento circular. Não poderia deixar
de lhe escrever, tendo em conta que preparo já a minha habitual retirada de
Janeiro, pelo que é muito provável que só tenha notícias minhas em Fevereiro,
se até lá não for atacado por ursos. Este ano escolhi precisamente um local
onde pudesse evitar o confronto com animais de grande porte, mas já se sabe, o
azar persegue e esconde-se à espreita… Como também é já habitual, não poderei
revelar-lhe nesta fase onde irei estar em Janeiro, pois apesar de depositar uma
sólida confiança em si, desconfio que possa estar a ser observado por forças
antagónicas (não entre si). Tendo em conta as peculiaridades do meu destino,
seria necessária uma improvável combinação de factores para que lhe pudesse
escrever de lá. Por isso já sabe, se lhe escrever em Janeiro será certamente
uma carta extraordinária, algo inusitado no espectro da literatura epistolar.
Mas voltando ao Natal, gostaria
de fazer uma pálida ideia que fosse de como tenciona passá-lo, se sozinho ou em
companhia, se debaixo de umas palmeiras a beber Martini Bianco com azeitona ou
na lareira a embriagar-se com vinho barato e a contar histórias
marítimo-turísticas, se engalanado com asas de grilo e calças vincadas ou de
fato de treino da rebook, se dedicado
à leitura, se a cantar, se a fazer danças africanas numa casa de pasto, enfim…
pode-me dizer sinceramente, pois vindo de si já nada me surpreende - à excepção
de algumas situações. Espero acima de tudo que consiga o bolo-rei do ano
passado (em termos de qualidade, diga-se), para que possa juntamente com os
seus, encetar o habitual e extenso elogio aos mestres pasteleiros, poema de
exaltação familiar e momento alto da sua noite de consoada. Na impossibilidade
de lhe enviar os habituais filetes de peixe, remeto-lhe em ambiente
acondicionado uma garrafa de Macieira e outra de Raposeira, já a contar com o
Natal e a passagem de ano se não houver lugar a alarvidades.
Quero-lhe afiançar que o Doutor
Mara é o meu único amigo, fora aqueles mais chegados e um ou outro que ainda
não conhece, e que nutro por si uma grande admiração e respeito. Por si não
rebolaria com uma vara de porcos na lama de uma pocilga, mas interromperia
imediatamente um almoço da “Confraria dos Excursionistas de 86” para o ajudar
no que fosse preciso. Apesar de tudo, o ano que agora balança no fio da navalha
leva consigo algumas tensões que de certo modo deterioraram a nossa relação.
Quero portanto aqui deixar o desejo de que o ano de 2018 nos traga um
entendimento mais profícuo e o apetecido sucesso internacional das Conferências
da Fajã. Para que isso aconteça, basta que o Doutor Mara acabe de vez com essa
sua teimosia.
Com
espírito natalino e cristalício,
Janeiro Alves
Três Poemas de Judite Canha Fernandes
lista de coisas que se podem obter sem dinheiro
imaginação
ar
sonhos
lixo
afecto
dignidade
e orgasmos
Síntese
fui à televisão ver
se o mundo tinha mudado.
assisti a vinte minutos de publicidade
Olhamos por si
as novas formas de deus
incluem
a videovigilância
imaginação
ar
sonhos
lixo
afecto
dignidade
e orgasmos
Síntese
fui à televisão ver
se o mundo tinha mudado.
assisti a vinte minutos de publicidade
Olhamos por si
as novas formas de deus
incluem
a videovigilância
in "O mais difícil do capitalismo é encontrar sítios onde pôr bombas", Setembro, 2017.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
A Melhor Juventude de Marco Tullio Giordana
“Eu
devia ter percebido mas não percebi nada. Talvez não seja verdade e eu tenha
até percebido mas foi como aconteceu com a Giulia. Eu podia tê-la impedido. Em
frente da porta. Ela virou-se e ainda olhou para mim. Eu fechei a porta e
apaguei tudo. Agora, nada resta. As escadas da sua casa, a serradura no chão,
os livros no chão, a porteira…Eu devia tê-los impedido. Amava-os aos dois mas
não fui capaz de aprisioná-los nesse amor. Era a minha ideia de liberdade em
que cada um tem o direito de viver da forma como lhe apetece.”
in “A Melhor Juventude” de Marco Tuglio Giordana
Três Poemas
Poema Um: a Curiosidade
Soube que estava por ali alguém
que se interrogava
na tarde envelhecida
Enquanto teimavas acender
um raio na faísca da noite
observavas atento
uma beleza renascentista
uma súbita indagação
A inclinação pela abstração
o saber, a dúvida,
a dilatação do dia
a atracção dos corpos
benigna inquietação
daqueles maracujás
em silêncio.
Poema Dois: A Imobilidade
A corda soltou-se do novelo
preso à distância de um gesto
Dir-te-ia agora frágil
locomotiva parada
demoro-me entretanto
Houve uma promessa
verbos oriundos de súburbios
em disputa
idiomas dispersos
adormecidos
Poema Três: Competência Social
Foges
qual cetáceo em fuga
permaneces embriagado e choras
a ternura comovida
à espreita
chega de gestos temidos
gorgulhos de falsos viajantes
criam-se raízes em portos
que se afastam devagar
nos pulmões da solidão
e retiras-te da promessa
eterna
de um corpo em trânsito.
Soube que estava por ali alguém
que se interrogava
na tarde envelhecida
Enquanto teimavas acender
um raio na faísca da noite
observavas atento
uma beleza renascentista
uma súbita indagação
A inclinação pela abstração
o saber, a dúvida,
a dilatação do dia
a atracção dos corpos
benigna inquietação
daqueles maracujás
em silêncio.
Poema Dois: A Imobilidade
A corda soltou-se do novelo
preso à distância de um gesto
Dir-te-ia agora frágil
locomotiva parada
demoro-me entretanto
Houve uma promessa
verbos oriundos de súburbios
em disputa
idiomas dispersos
adormecidos
Poema Três: Competência Social
Foges
qual cetáceo em fuga
permaneces embriagado e choras
a ternura comovida
à espreita
chega de gestos temidos
gorgulhos de falsos viajantes
criam-se raízes em portos
que se afastam devagar
nos pulmões da solidão
e retiras-te da promessa
eterna
de um corpo em trânsito.
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
Como Navios Tristes que partem ao Fim da Tarde (1)
Sabia que ele
corria sempre para qualquer lado, parecia um pássaro ferido. Era, à altura,
professor de Matemática. Gostava de beber macieira, ingeria muito álcool e
usava uma gabardine preta. Sentávamos à mesa do café para falar sobre música.
Tinha uns olhos cor de amêndoa demasiado vermelhos, cansados, perdidos, numa
cute bastante morena. Nunca soube porque conversava comigo. Provavelmente, devia
ser porque ouvíamos os mesmos grupos da new
wave apesar da diferença de idades. "És ainda um puto", dizia-me. E eu ouvia-o mais do que falava. Como
eu gostaria de voltar a encontrá-lo. Nunca mais soube nada dele.
domingo, 3 de dezembro de 2017
Ricardo Ribeiro no Teatro Micaelense: Voltar ao Sul!
Não sei exactamente de onde vem aquela voz, a origem daquele longevo eco, mas lembrei-me do sul. Lembrei-me ocasionalmente do flamenco, viajei também pelas ruas e becos de Alfama, Mouraria e Madragoa. Dei por mim a entrar nas casas de fados, a sentir o cheiro da mistura, da mestiçagem, a calcorreear os degraus e as pedras da calçada da cidade antiga. Apaixonei-me de novo pelas memórias olisiponenses e fui transportado de livre vontade para a desalmada mágoa, a paixão e vício do gosto de existir. Embalado por aquele gesto que, diga-se, julgo ser sido intenso e genuíno, rendi-me perante aquela postura e o timbre dolente daquele canto. Por instantes, o sul era um local palpável, tangível. E...era a voz de Ricardo Ribeiro que me servia de transporte.
Agradecer Basta
“É
justo e de bom-tom agradecer algo que nos dão ou um serviço que nos prestam,
por mais insignificante que este seja. Pode ser uma convenção, mas não o é
apenas: representa sempre um gesto de cortesia e de civilidade que sela uma
espécie de pacto de entreajuda entre pessoas que se entendem e respeitam. E é
também o reconhecimento do esforço do outro. Sempre o fiz e continuo a fazer,
mas o inverso – agradecerem-me por aquilo que ofereço a alguém – tem vindo
ultimamente a ocorrer cada vez menos vezes, em especial com interlocutores que
detêm uma conceção utilitarista da vida social ou têm dos outros uma imagem
instrumental.”
Rui Bebiano, in A Terceira Noite, 17 de Novembro de 2017
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
Raul Brandão nos Açores
«Vinte e seis anos depois da primeira edição, o referido artigo de Pedro da Silveira num prestigiado suplemento literário, em Junho de 1953, não foi suficiente para motivar um editor - nacional ou regional - a reparar no livro, pese embora a ênfase colocada nas suas qualidades: "Não hesito em classificar as Ilhas Desconhecidas como dos maiores livros portugueses de literatura de viagens de todos os tempos da Literatura Portuguesa.(...) Ao pé disto, tudo o mais que estranhos escreveram acerca dos Açores é música desafinada. As belas páginas de Chateaubriand sobre a Graciosa, o livro dos sagacíssimos Joseph e Henry Bullar, o americano Webster, os escritos de Alberto do Mónaco, de Knud Andersen e de tantos outros podem considerar-se quase nada ao pé de As Ilhas Desconhecidas.»
pequeno excerto do texto "Raul Brandão e os Açores" de Vasco Rosa, in Revista Atlântida, 2017.
Da Ética
"Deixou de haver ética na criação artística. Deixou de haver compromisso. Deixou de haver sangue. É raro encontrar-se uma obra, mesmo de menor qualidade estética, em que se sinta a preocupação de comunicar."
José Mário Branco, in Ípsilon, 1 de Dezembro de 2017.
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