sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A Arte de Caminhar

               "O Paraíso é onde estou. É precisamente o que penso quando estou em casa sentado na sala com um bom livro, a partilhar uma refeição com uma pessoa cuja companhia prezo, ou quando vou dar uma volta.
           Naturalmente, um estado de espírito tão agradável não dura muito, mesmo que aquilo que nos rodeia não se altere. Tal como um estado de espírito desagradável também não dura para sempre. A razão disto é que até a permanência de um sentimento acabará por causar uma mudança do nosso estado de espírito. As sensações de bem estar nunca são infinitas; têm de ser continuamente alimentadas de modo a manterem-se. E, de vez em quando, esses suplementos adicionais acabarão. Então temos a sensação de que alguma coisa se perdeu."
                          
              Erling Kagge, in "A Arte de Caminhar", Quetzal, 2018.

FALTA no Bolso

Fotografia de Carlos Olyveira

Verso de Sara Cruz

Está o verão encerrado

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Céu de Dezembro

Lo Difícil

Enarmorarse es fácil
Uno pude enamorarse
-sin demasiado esfuerzo –
varias veces al dia,
a nada
que se lo proponga
y se mueva un poco por ahí;
y si es verano,
ni te cuento

Enamorarse no tiene
maior mérito
Lo realmente difícil
-no conozco
ningun caso-
Es salir entero
de una história de amor.

Karmelo C.Iribaren

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Muito Obrigado, Bruno da Ponte!

Há dias despedimo-nos de Bruno da Ponte, mais um amigo que vai fazer falta. O Bruno tinha formação em Economia mas foi na área cultural a que dedicou a maior parte do seu trabalho. Bruno da Ponte trabalhou assim toda a vida enquanto editor, tradutor, jornalista, e coordenador de tantas editoras – Minotauro, Teorema ou as Edições Salamandra. Comecei, primeiro, por vê-lo na Associação Cultural Abril em Maio, em Lisboa, à altura, rua da Verónica, onde lançou as sementes de muitas coisas bonitas, entre elas uma agenda repleta de manifestos, mas foi na sua terra natal (São Miguel) que falei com ele pela primeira vez numa rua de Ponta Delgada, acidentalmente. Foi com alegria que aceitou o convite para colaborar e escrever para o Boletim Cultural Fazendo, sediado na Ilha do Faial, do qual foi sempre um leitor e entusiasta. Ele que durante anos esteve ligado a 121 publicações relacionadas com os Açores através da colecção Garajau, e, como tão bem escreveu Onésimo Teotónio de Almeida, estabeleceu uma verdadeira ponte entre o arquipélago e o continente português. O Bruno da Ponte foi um verdadeiro amante das artes e das letras e, recordo, por isso, o quanto era delicioso e instigante ouvi-lo discorrer sobre qualquer assunto ou tema literário. Saudades! 

saxofone baixo.13

o mar enrolou-se no ouvido
quando a maré vazou 
restou apenas o sal nos tímpanos
a música rente à terra 

no cimo dos telhados fumam-se cigarros
laranja da beata no tijolo
pode-se morrer de súbito aqui
o mofo abafado do silêncio toca
os velhos discos 
e é já cinza o sal dos tímpanos

pode-se chorar aqui 
de súbito 
à espera que a lua arraste a maré cheia
da música rente

dos telhados se cai no mar
não basta calar a beata é preciso afogá-la

Tiago Araújo, in Diapositivos, Quasi Edições, Novembro de 2001.

Verso de Ruy Belo

Não olhes o meu rosto devastado pela idade.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

...

Passo o teu nome da minha boca para este lugar de papel.
E assim tu vens, menina do rio,
louca e desastrada, nessa tua canoa de silêncios,
a entrar no poema.
Mãos em existência felina

e respirando sem pausas. Voltas a cabeça para o lado
da luz e abre-se devagar o talento incendiado 
do teu rosto.


Vasco Gato, in 47, edição do autor, 2005 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Venezia

O entardecer acende os escombros
dos vechi palazzi.
Nas águas mortas de Veneza acendem-se 
as cores, húmidos pigmentos,
podridos vermelhos, amarelos, azuis,
o deslumbrante fascínio da corrosão.

Sob a forma, a pedra exibe o quanto 
tem de corpo. Estanque albergue de paixões,
com o passar do tempo, a parcela de labirinto
que o próprio tempo esboroa.

Cárcere de ecos dissolvem a solidão,
faz ressoar nos rumores dos brindes,
o correr da cortina da noite, que sublima
na Piazza de S. Marco, os roubos,
de Alexandria e Constantinopla. 


Rui Miguel Ribeiro, Europa e Mais Três Poemas, Letra Livre, Novembro de 2017.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Roma

I.

Não falaram muito. Guardaram cada um,
na escuridão da noite de Ferragosto,
as últimas palavras.
Nas suas línguas estrangeiras cercaram
regiões. Reservas de lugares que aproximaram
de cada um a sua deriva, na festa,
na Piazza S. Lorenzo.

Um último gesto - aceno e acento final.
Que a vida, no Verão, é uma iminência
entre horários de comboios e o peso
das mochilas.

Mais tarde, sob o céu nocturno junto
ao Panteon, voltei a vê-lo:
                 -Riscava fósforos. Para acender a noite. 


Rui Miguel Ribeir
o, in Europa e Mais 3 Poemas, Letra Livre, 2007

Da Malandragem

        "O tempo querido! o bom tempo! Foi das nossas discussões sobre a Arte que estes contos nasceram...A bella vida, a vida risonha e malandra, passada assim!...Lembra-se?"
Raul Brandão in Impressões e Paizagens, edição fac-símile, A Bela e o Monstro, 2013

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018