segunda-feira, 4 de março de 2019

A Mesa está Posta de Jorge Silva Melo

“São textos dispersos, textos que escrevi, entrevistas, coisas que disse, cinquenta anos de viver e de andar a pensar e a fazer. É uma escolha, são textos díspares em que água mole foi batendo em pedra sempre dura, mas não está cá tudo, nem pensar, há textos perdidos, outros que ficaram de lado, outros que andam por outras recolhas*. São cinquenta anos insistentes, felizes, teimosos, sempre a defender, ó monotonia!, essa coisa mais linda que é viver entre palavras, palavras de outros, antigos, modernos, tantos. São textos recuperados, corrigidos, revistos, alguns inéditos, tanta coisa sobre Teatro, pois é, foi uma vida.”

Jorge Silva Melo

*Apresentação do livro no dia 7 de Março, no Teatro da Politécnica.

sábado, 2 de março de 2019

O meio literal português

Nem cá nem lá,
no meio literal português cada um ocupa
o seu lugar, a meio caminho entre aquele que
a providência lhe destinou e aquele a que
o alpinismo de planos rasos o fez ascender.
Os romancistas revolvem-se em trezentas páginas,
no pânico de corpos enterrados vivos em caixões de papel,
e os poetas empregam-se
em produzir mais versos do que os minutos todos
de todos os leitores.
Os críticos esbracejam, nem contra nem pelo contrário,
nunca há pedra que a boca não engula.
E uns e outros, ofendidos como putas pudicas,
curvados
pela constatação que ninguém os lê,
convertem-se ao cinismo
de quem já leu tudo o que não quis ler.
Falar alto, intimidar de copo na mão,
em provocações e poses de taberna, continua a ser
a melhor forma de ocupar o espaço.
O pântano reproduz-se e as pegadas, come-as a lama.

Madalena Castro Campos, in "A Gun in the Garland ", Companhia das Ilhas, 2019.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Verso de Rui Rofino

Finjo ser remanescente desta farta calhordice

Da Literatura

         "Desde os gregos que a literatura nasce como forma de acesso às verdades mais misteriosas e irracionais do ser humano. A catarse está presente em Shakespeare, Kafka ou Pessoa, só para citar alguns nomes muito conhecidos. Nomear uma dor é uma tarefa de uma literatura. Ao mesmo tempo, a catarse é também uma exaltação da vida. Quando somos capazes de nos explorarmos por dentro, a nossa vida estende-se a regiões inesperadas e insuspeitas. Lemos romances para entender o mistério da vida. Ninguém sabe o que ela é. Cabe aos escritores investigar esse mistério." 
Manuel Vilas, in Jornal de Letras, Fevereiro. 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Do Sentido de Humor (2)

          "Por isso me faz tanta confusão a ideia de que o riso é uma agressão ou um modo de inferiorizar  alguém. Essa teoria existiu durante milénios. De Platão a Thomas Hobbes, o riso foi sempre identificado como escárnio e eticamente  suspeito por ser considerado uma agressão. Hobbes dizia que nos rimos por causa de um sentimento de uma glória súbita, de nos percebermos superiores ao outro. Depois disso houve várias críticas sensatas sobre a ideia de quase nunca nos rimos da superioridade, mas sim da incongruência. Freud referiu o facto do sentido de humor ser uma espécie de superioridade, sim, mas de uma superioridade paternal. A superioridade do superego em relação ao ego.Uma coisa que acontece cá dentro, em que nós mesmos arranjamos uma estância de nos consolar."Tem calma, isto parece assustador e demasiado grande, mas se dermos um ou dois passos atrás conseguimos ver que não é assim tanto." Há uma dose saudável em conseguir criar essa distância em relação a nós mesmo, mas se não temos cuidado torna-se uma patologia mental." 
                                                                                                                   Ricardo Araújo Pereira, in Revista do Expresso, 23 de Fevereiro de 2019.

Inútil como a mais inútil das mulheres

Impunha-se por imperativo de sanidade,
fazer anteceder cada palavra pela pergunta
para que serve?
Para que serve a poesia, para que serve a prosa.
Para que servem as imagens, para que serve o som.
Impunha-se, por reserva mental,
fazer anteceder cada pergunta pela pergunta
para que serve perguntar?
Registá-la, depois, pergunta ou resposta,
tentando não ceder à moralidade.
Sem para nem porquê,
a escrita talvez fosse uma forma aceitável de não existir.
Não pediria outra. 

Madalena Castro Campos, in "A Gun in the Garland", Companhia das Ilhas, 2019.

Neste Mar Imóvel

Textos de Blanca Martín-Calero e Fotografia de Eduardo Brito
(Araucária Edições, 2019 (/https://araucaria.pt/ )

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Do Sentido de Humor

      "Uma das razões de ser considerada uma coisa pouco civilizada é por ser um fenómeno do corpo. Provoca uma vibração, desfigura a cara. Há uma espécie de abandono momentâneo em que não somos donos do nosso corpo. O riso também está associado à loucura e ao mal. A gargalhada do vilão é conhecida e o herói não se ri. Por outro lado, é isso a parte curiosa da conversa, é que se pode argumentar exatamente o contrário. O riso é sedutor. Um dos piores insultos que se podem fazer é dizer a alguém que não tem sentido de humor. As pessoas levam muito a mal." 
Ricardo Araújo Pereira, in Revista do Expresso, 23 de Fevereiro de 2019.

Diagnóstico

A poesia,
sabia-se,
é uma patologia própria da idade.
Manifesta-se aos quinze, dezasseis,
e os vinte atinge um pico de virulência.
Depois, nuns desaparece sem deixar marcas,
noutros transforma-se numa doença crónica.
Suporta-se, por vezes com dor, mas não
compromete as actividades quotidianas.
Nos casos mais agudos, raros
e pouco esclarecidos,
pode incapacitar de forma irreversível.
Há perigo de contágio, mas não são claros os indícios
quanto 
aos riscos de transmissão por hereditariedade,.
Por precaução
aconselha-se manter os filhos afastados
das fontes de contaminação.

Madalena Castro Campos, in "A Gun in the Garland", Companhia das Ilhas, 2019.

Apresentação de Neste Mar Imóvel

Araucária Edições (https://araucaria.pt/)
Fotografia de Carlos Olyveira

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Neste Mar Imóvel

dia 22 de Fevereiro, às 19 horas, na Silva Pipi.
Textos de Blanca Martín-Calero e  Fotografia de Eduardo Brito
(
Capa e Grafismo de Júlia Garcia)