segunda-feira, 4 de abril de 2022

Os Filhos da Madrugada: Nenny

     "A minha vida foi marcada pelo 25 de Abril no sentido em que, na minha geração, o mais importante é expressarmo-nos. Temos liberdade de expressão. Podemos debater uns com os outros e chegar à conclusão de que todos somos iguais e devemos ser mais unidos. Ter o telefone, escrever e opinar, dizer o que realmente sentimos. Isso marca muito. Depois da revolução, temos esse direito."

in Os Filhos da Madrugada, Anabela Mota Ribeiro, Círculo de Leitores/Temas e Debates, Novembro de 2021.

FALTA#4: A Caminho...

 









Fotografia: Júlia Garcia. 

domingo, 3 de abril de 2022

"Não sei se sabes" de Rui Costa

Não sei se sabes 
que a meio da manhã
o verde dos teus lábios
passou para as encostas 
e um gomo transparente 
adormeceu nos juncos e abriu.
Abriu um brilho qualquer 
na gruta fria e pôs uma fogueira 
pequenina numa taça 
e elevou as mãos quentes 
pelo dia.
talvez tu saibas que o principal 
do amor 
é uma montanha de efeitos secundários. 

in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Quasi Edições, Maio de 2005. 

sábado, 2 de abril de 2022

FALTA: FORÇA#4

     
    F A L T A, projecto colectivo e independente que reúne contributos literários e artísticos, irá lançar em breve o seu nº 4, dedicado ao tema da FORÇA. Há, por isso, desenho, poesia, ilustração, fotografia, prosa, conto, colagens e várias entrevistas. Agora é tempo de prepararar o seu conjunto, congregar os vários registos e anunciar o seu lançamento. Muito em breve estará pronta para folhear, manusear, pressentir os odores de tinta que foram secando e aglutinando os traços e as cores que serão a novidade deste número. Esta edição de 250 exemplares contará com a sua capa em serigrafia e o miolo em offset, à semelhança das edições anteriores. 

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Verso de Anna Järvinen

 Kom hem nu jag saknar dig

“Uma Pequenina Luz Bruxuleante” de Jorge de Sena

Uma pequenina luz bruxuleante
Não na distância brilhando no extremo da estrada
Aqui no meio de nós e a multidão em volta
Une toute petite lumière
Just a little light
Una picolla, em todas as línguas do mundo
Uma pequena luz bruxuleante
Brilhando incerta mas brilhando aqui no meio de nós
Entre o bafo quente da multidão
A ventania dos cerros e a brisa dos mares
E o sopro azedo dos que a não vêem
Só a adivinham e raivosamente assopram
Uma pequena luz, que vacila exacta
Que bruxuleia firme, que não ilumina, apenas brilha
Chamaram-lhe voz ouviram-na, e é muda
Muda como a exactidão, como a firmeza, como a justiça
Brilhando indeflectível
Silenciosa não crepita
Não consome não custa dinheiro
Não é ela que custa dinheiro
Não aquece também os que de frio se juntam
Não ilumina também os rostos que se curvam
Apenas brilha, bruxuleia ondeia
Indefectível, próxima dourada
Tudo é incerto, ou falso, ou violento: Brilha
Tudo é terror, vaidade, orgulho, teimosia: Brilha
Tudo é pensamento, realidade, sensação, saber: Brilha
Desde sempre, ou desde nunca, para sempre ou não: Brilha
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza, como a justiça
Apenas como elas
Mas brilha
Não na distância. Aqui
No meio de nós
Brilha

quarta-feira, 30 de março de 2022

Os Filhos da Madrugada: Adriana Molder

    "Tudo, não é? Devemos tudo. Se eu pensar nos meus pais...O meu pai, já não foi à guerra porque houve o 25 de Abril. Estava a fazer a tropa. Foi mobilizado, não chegou a ir. Naquele período começou a estudar - é autodidacta - sobre como fazer fotografia. Não tenho fotografias nenhumas de quando era pequena porque estava só concentrado nos livros de fotografia. Acho que aprendeu, também, com uma pessoa. Quando penso que sou uma mulher, artista. e vivo na Europa...Crescemos com isso garantido. Agora começamos a perceber que não é assim tão garantido. Isto é, cresci numa família onde nunca questionei se era uma mulher ou se era homem. Quis ser artista e ninguém me obrigou a ser outra coisa. Se tivesse nascido há 60 ou 70 anos, não era assim. Portanto, eu, acho que devemos todos imenso ao 25 de Abril."

              in Os Filhos da Madrugada, Anabela Mota Ribeiro, Temas e Debates, Novembro de 2021.

terça-feira, 29 de março de 2022

"Quando" de Rui Costa

Ah e quando. Quando o verde nos interessa 
e nós nos recusamos mas por dentro.
e ficamos assim a pensar se devíamos voltar, acontecer, 
escrever um livro todo branco. filosofar o tédio
com estilo, percebes,
introduzi-lo na vida de alguém.
ser um talvez na sala, digo quando,
mobilá-la de circunstâncias longuíssimas como
mãos a conhecer as estrelas tontas do champanhe e restos de mais
quando. e quando sair e deixar o mundo fingir que tudo está 
na mesma apesar de nós, e para quando é o regresso, os papéis,
a sabedoria profunda das essências e 
dos poemas carnívoros e nossos.
as cadeiras constroem-se com as mãos, disse, e foi 
a frase mais profunda que jamais se disse, e tu sentada en-
tão quando

in "A Nuvem Prateada das Pessoas Graves", Quasi Edições, Maio de 2005.

sábado, 26 de março de 2022

"Projecto" de Rui Costa

Fernando comprou um livro de poesia com oitocentas páginas 
mas só conseguiu ler quinhentas 

António sonhou com o Evereste na magnitude 
mas só precisava de mudar uma lâmpada

Rita imaginou um poema para Fernando 
mas só tinha que aceitar o jantar de quinta 

A lâmpada pensou que era um poema 
e fundiu-se sem iluminar a sala

Luís aproveitou a escuridão da sala
para a Rita um poema com montanhas 

Trezentas páginas que nunca foram lidas
arquitectam com a lâmpada a salvação do mundo

in "A Nuvem Prateada das Pessoas Graves", Quasi Edições, Maio de 2005.

Hugo Pratt por Milo Manara

    

       "Então sim, se mudarmos o contexto histórico, ele era Corto Maltese. Era um homem de uma absoluta liberdade, sendo também capaz de pagar o custo da liberdade. O que podia passar por discutir com alguns editores ou com a mulher dele. Quando sentia que alguém estava a tentar impor-lhe alguma coisa, rebelava-se de imediato. Era um homem absolutamente ultra livre. Aquilo que gostava mais era da sua liberdade, acho. E depois considerava todo o mundo como uma possibilidade de descoberta, de viagem. A sua característica como autor sempre foi a de alguém que dava a conhecer civilizações diferentes. Era absolutamente antirracista, mas mesmo de coração. Tinha o antirracismo dentro dele. Tinha um respeito absoluto por todas as culturas: a africana, a chinesa, a tibetana, depois sobretudo a hebraica. Fascinavam-no mesmo. Escreveu e desenhou histórias passadas um pouco por todo o mundo. E mostra sempre um enorme respeito pelas culturas, seja de onde for. Também quando falava sobre a II Guerra Mundial, nunca havia condenações definitivas. Talvez as houvesse para os chefes, mas não para as personagens. Se a personagem era um soldado alemão, mostrava um respeito enorme. E todas as personagens eram problemáticas. Cada uma delas se perguntava se seria certo o que estava a fazer. Foi um autor maravilhoso, enorme. E, neste sentido, Hugo Pratt era mesmo Corto Maltese."

Milo Manara em entrevista a João Pacheco, Revista Expresso, 24 de Março de 2022.

quarta-feira, 23 de março de 2022

Os Filhos da Madrugada: Leonor Teles

     "Até agora safei-me e acho que vou continuar a safar-me. Mas não tenho muita confiança em relação ao futuro. Os nossos políticos são o que são. As pessoas estão cada vez mais desligadas da vida política, muito mais preocupadas consigo mesmas e com a sua vida. Muito mais individualistas. Mesmo em questões em que devíamos pensar de um ponto de vista colectivo, não parecem interessadas nesse registo."

in "Os Filhos da Madrugada", Anabela Mota Ribeiro, Temas e Debates/Círculos de Leitores, Novembro de 2021. 

segunda-feira, 21 de março de 2022

sábado, 19 de março de 2022

"O Priolo" de João Miguel Fernandes Jorge

 No quarto sobre uma cómoda
o priolo embalsamado.
Penas de branco-sujo e creme, tons de 
castanho queimado. Protege-o
no vidro de uma redoma. Mesmo na morte
um frouxel.

Tudo se avista deste quarto - 
  santos e pagelas por detrás das portas
do oratório - quando a noite e a ilha se 
estreitam na cama desamada.
Vem um cheiro a maresia, a porões e os 
passos de quem percorre, erradio, o 

embarcadouro
sem saber a hora da partida 
a hora de quem prometeu chegar. E
o pássaro na obediência da morte
fixado nas trevas que lhe povoam o canto, vê
na fronteira do lá fora
membros, ossos, vísceras, os meus erros,

o verso meu dentro do quarto. Sob a asa do 
priolo, prata e luz a esvoaçar ao redor do
candeeiro entre os actos da vida. 

in "Lagoeiros", Relógio D´Água, Novembro de 2011.