terça-feira, 21 de março de 2023

Poeta

para quem aspira - breve utopia - ao fenómeno
ajuizado da descrição, este texto já vai longo 

e o erro será uma vez mais continuar 

não vale peva o transtorno dos ensaios 
tentear perfeições geométricas, filosóficas, de estilo
a vida colocar-nos-á no devido lugar 

a grande lição aprendi-a hoje ao ouvir  uma
bem intencionada asserção que resultou num alto
(e honestíssimo) deslize idiomático:

"o miguel é pateta" (joão diogo, 4 anos)

Miguel Manso, in Santo Súbito, Lisboa, 2010.

Primavera

 O louva-a-deus 
na sua paralisia de pedra verde

Fita no céu
a valsa verde do pirilampo

Noite de insectos 
chamando-se entre si num clamor 

A terra range 
cedendo aos caules que anseiam a luz 


João Habitualmente, "um dia tudo isto será teu", elogio da sombra, setembro de 2019.

Vidinha

Sei de sítios com menos nuvens para gozar o sol da primavera
mas hoje estou conformado: de que serve 
arrastar esta sede até ao próximo oásis
para depois me sentar sobre um poço de água salobra?

Paulo Ramalho in Manual de Sobrevivência para Náufragos, douda correria, 2020.

segunda-feira, 20 de março de 2023

A Poesia Vai Acabar

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? 
                                                                                                                                                                      Manuel António Pina in  Ainda Não é o Fim nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas um Pouco Tarde, A Regra do Jogo, 1974.

Os Sapatos das Duas Estações

Na Primavera ou no Verão 
usava sempre sapatos de duas cores 
E glicínias como atacadores

Jorge Sousa Braga in "O Segredo da Púrpura",  O Poeta Nu. 

Do Comunismo

        "O comunismo é dos maiores paradoxos da história da humanidade, com a sua intenção de igualitarismo, de colocar o ser humano no centro do desenvolvimento social, de o estado servir o cidadão através de uma utopia saudável. Mas isso gerou monstros, ditadores."

Mário Lúcio, entrevista a João Pacheco, Revista Electra, Inverno, 2022/2023.

domingo, 19 de março de 2023

João Correia Rebelo: Um Arquitecto Moderno nos Açores

 
João Correia Rebelo por Pedro Valim
(Boletim Cultural Fazendo)
  "Ao evocar a criação e a postura de João Rebelo como arquitecto, dois traços fundamentais da sua maneira de ser avultam imediatamente, numa primeira apreciação: o seu grande talento. Terá sido esta última uma das razões para que o valor da sua obra  como arquitecto não tivesse sido reconhecido mais cedo. Mas houve outra razão, de natureza material: o nomadismo condicionou a sua vida. Tal circunstância conduziu a uma produção dispersa e fragmentada e impediu-o de constituir atelier próprio de carácter duradouro, onde a sequência dos projectos permitisse construir uma obra com consistência e visibilidade."
      Nuno Teotónio Pereira, in Uma Vida Nómada, uma obra fragmentada, uma pessoa íntegra, in "João Correia Rebelo", Instituto Açoriano de Cultura, 2002.

"Morphine" de Sebastião Belfort Cerqueira

Não dei a volta ao mundo 
Nem tenho tempo a perder com  essas merdas
Mesmo ao pé de casa 
Encontrei estrangeiros bastantes 
A quem ainda hoje digo coisas 
Que não podiam perceber 

Tu e eu falamos uma língua 
Que o silêncio errado fez morrer 


Às vezes dou voltas à ideia 
Já me habituei e já não tenho 
Vergonha de dizer
Que não percebo 
Esta coisa de parecer um estranho 
De visita àquilo que viu crescer 

Tu e eu falámos uma língua
Durante anos 
Entendemo-nos tanto
Que agora não há nada a fazer 

in "Música Normal", Companhia das Ilhas, Janeiro de 2021.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Da Mediarquia

     "Os nossos sistemas políticos são, fundamentalmente, mediarquias (sistemas de poder estruturados pelos nossos meios técnicos de comunicação), muito antes de serem democracias (democracias de poder baseados na vontade do povo)".
Yves Citton, Revista Electra, Inverno, 2023.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Da Terra

    "Se olhares bem, em Cabo Verde, não podes dizer a ninguém: "Vai para a tua terra. Porque ninguém é de lá. O mais velho, só está lá há cinco séculos. É uma experiência bonita." 

Mário Lúcio, entrevista de João Pacheco, Revista Electra nº19, Inverno.

As Ilhas de Barco

 -Uma ilha à noite e outra de dia?
Amaya Sumpsi: Sair do Faial ao anoitecer para chegar às Flores ao amanhecer. Não há dinheiro neste mundo que pague essa viagem, acreditem.

in Questionário Marado, FALTA#5, Fevereiro de 2023.