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sábado, 26 de abril de 2025

Insondável Claridade de Paulo Ramalho

Em memória da minha avó Guida 
Vejo-os demorarem-se no último cais. 
Uma insondável claridade 
repousa entre as mãos dos que partem.

Morrer é uma corda tensa de silêncios,
um hálito frio no lábio dos amantes.

Vejo-os embarcarem ao anoitecer
Um súbito vento lhes seca as lágrimas,
A transparência dos vultos breves no convés,
o pêndulo do inexorável, os lenços do adeus,
a espada de fogo do último beijo.

Falam mas já as palavras apodrecem entre os lábios.
Aguardam na luz derradeira a primeira estrela
e depois partem para a  ilha do esquecimento.
Gaivotas intensas sobrevoam o cais deserto.

in A Mar Arte Revista, Inverno/Primavera, 1998. 

sábado, 22 de março de 2025

A Constante Cosmológica do Amor

 A flor que pela Primavera se abre para logo fenecer 
o olho múltiplo da mosca pousado nas tripas
do soldado escentrado por uma mina
a estrada que saindo de Azambuja passa em Vale do Paraíso
a fome do leão no pescoço da gazela
um berçário de estrelas na nebulosa de Andrómeda 
as juras dos namorados numa ponte de Paris 
o poema quase perfeito que escrevi num dia de sol
-tudo o que existe pelo amor de existir 
e une fenómenos com cauda de cometa
é da ordem dos segredos e pertence à classe do silêncio

Inútil procurar a fonte dessa evidência numa metáfora

Paulo Ramalho, in Órbitas Elípticas em Torno do Silêncio, Letras Lavadas, 2024. 

sábado, 15 de março de 2025

Um de Paulo Ramalho

Tenho pressa 
de viver 
até  morrer
porque 
nunca mais existirá
um outro eu
com tanto
que fazer.

in Órbitas Elípticas em Torno do Silêncio, Letras Lavadas, 2024. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Cinco de Paulo Ramalho

O destino de um poeta
é calar lentamente 
- a palavra cada vez mais pouca
Mas também pode
morrer de repente 
pelo céu da boca

in Órbitas Elípticas em Torno do Silêncio, Letras Lavadas, 2024

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Outono de Paulo Ramalho

Pensa que subitamente alguém te dá uma árvore nua
e lhe chama só outono. A seguir terás chuva
e mais chuva, pesar-te os ombros com nuvens
e o vento descarnará os teus cabelos ainda antes
de vindimares o verão. Depois habitares ao pé
desses galhos secos, perdido, alheio e triste
entre as pequenas rugas dos teus dias.
Transpõe as portas do frio outono apenas quando
todas as uvas tiverem amadurecido nos teus lábios.

sábado, 23 de novembro de 2024

A Deflexão da Luz nos Teus Olhos

Bebo ainda do azul que tu és de um modo diário
repartido pelos minutos quase comensal
como se mergulhasse todas as tardes no mar
com o teu nome nos pulsos
duas mãos cheias de sol
e o teorema do poema perfeito
Mas enquanto nado para longe de ti
o recorte do verso que comigo fende a água
traz inscritas as rugas desse sorriso
que penúltimas ondas ofertam às sílabas
 
Também nisso estamos juntos - a deflexão da luz
nos teus olhos é simétrica do meu cansaço ao nadar
 
Paulo Ramalho,
in Órbitas Elípticas em Torno do Silêncio, apresentação na Livraria Letras Lavadas, dia 22 de Novembro de 2024.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Esplanada de Paulo Ramalho

Cacofonia na esplanada: olho à volta e nada ouço
Cada um
isolado no búzio secreto dos seus pensamentos 
constrói a grande teia de ruído 
A situação é mais aflitiva no centro da esfera oca
porque os que mais falam (Babel) são os que menos ouvem

in Manual de Sobrevivência para Náufragos, Douda Correria, 2020.

terça-feira, 21 de março de 2023

Vidinha

Sei de sítios com menos nuvens para gozar o sol da primavera
mas hoje estou conformado: de que serve 
arrastar esta sede até ao próximo oásis
para depois me sentar sobre um poço de água salobra?

Paulo Ramalho in Manual de Sobrevivência para Náufragos, douda correria, 2020.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

"O Mesmo Número" de Paulo Ramalho

1. 
Antes do naufrágio eu vivia numa ilha
escondida entre os dedos do tempo
-oráculo de pedra ou chão recortado a sal
sem amarras no passado ou âncora de xisto 
mistério de lava com dias ímpares 
para escutar o rumor do sangue
e dias pares para ouvir melhor o clamor do mar
casa em forma de vela
onde o vento era uma janela aberta
com ondas a dançar ao longe 


2.
Depois o barco adornou
como uma profecia demasiado rápida
e eu agarrei-me ao possível: um casco 
com um vinho de trinta e cinco anos.

in Manual de Sobrevivência para Náufragos, Douda Correria,2020. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Boca Aberta

mergulha então por dentro de ti
no mar é onde se erguem os barcos com
suas proas femininas seus dorsos
esquivos no mar se convocam os ventos
alguém chama por ti no silêncio
ondas incham e desincham velas
cantam a canção do desejo oculto
entre as palavras só falta ao corpo
um mastro um rosto um poema
uma vírgula húmida um leme
para rasgar o mar uma língua
para lamber o sal que há nas coxas


Paulo Ramalho