quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Viver

      “Continuar a viver a sua vida. Ele sabe que a sua vida é uma merda, mas é tudo quanto tem. Continuar a vivê-la. Pois sim. Quando em fins de Agosto teve alta do hospital, estava decidido a fazer isso. E com a ajuda de um grupo de apoio a que aderiu, e em especial de um tipo que caminhava com uma bengala e se chamava Jimmy Borrero, conseguiu chegar pelo menos a meio do caminho. Era difícil, mas com a ajuda de Jimmy foi-se aguentando, esteve sem beber quase três meses inteiros, até Novembro. Mas então - e não foi por causa de alguma coisa que alguém lhe dissesse, ou de alguma coisa que visse na televisão, ou da proximidade de mais um Dia de Acção de Graças sem família, mas sim porque não havia nenhuma alternativa para Farley, nenhuma maneira de impedir o passado de voltar e impor-se, impor-se e intimá-lo a agir, exigir-lhe uma enorme reacção -, em vez de ter ficado tudo para trás, estava tudo à sua frente.
Uma vez mais, era a sua vida."

Philip Roth, in A Mancha Humana, Dom Quixote.2002.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Pif-Paf de Millor Fernandes

O Independente, 2004 
Antologia Organizada por 
João Pereira Coutinho
 

  



    "E o velho músico já tocava há tantos anos naquele mesmo piano que, quando ele entrava na sala, o piano balançava a cauda."

Poeminha sobre a vitória psicológica do robô

Quem me dera resistir 
à tirania 
do telefone. Tocava, tocava
e eu não atendia.
Mas o problema
é o resto do dia,
o pensamento constante:
«Quem seria?»

Millôr Fernandes, in Pif-Paf, Independente, Lisboa 2004.

Da Salvação

 "Um país que precisa de um salvador não merece ser salvo."
Millor Fernandes 

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

O Que Vai Acontecer? de José Alberto Oliveira

 


A Delicadeza de Serem Póstumos, os Diários

Anos de bebedeiras impenitentes e desmandos 
físicos (já o brilho que as recordações
da juventude conserva, lhe parece 
insultuoso), para não falar dos contratempos
que supostamente formam um carácter.

até que a a convicção de incrédulos 
e discípulos, por caminhos em que a lama
lhes garanta o desenho das pegadas,
resumindo tudo e mais o que é propriamente
a vida à invocação de um nome

em linhas de indice remissivo, 
mais demoradas que o escárnio prometido 
por todos que escarneceu. O amor
que esqueceu ou se esforçou por esquecer,
os locais mais pequenos resistem,
a crença de não ser a vida supérflua,
nem a arte irrepetível e outras
páginas de um diário,
que só a morte liberta, como liberta a alma. 

José Alberto Oliveira in "O Que Vai Acontecer?", Assírio&Alvim, 1997.

domingo, 29 de setembro de 2024

Encontros Sonoros do Atlântico: "Flores" no Arquipélago!

Francisco de Lacerda em viagem
       Terminou recentemente, com espectáculos por todo o arquipélago, os “Encontros Sonoros Atlânticos”, um programa de concertos alicerçados/inspirados na obra do compositor e maestro, natural da Ilha de São Jorge, Francisco de Lacerda. 
      Faz, por isso, agora uma semana que assistimos  ao concerto do guitarrista Nuno Costa e do pianista Óscar Graça na blackbox do Arquipélago, Centro de Artes Contemporâneas. Ambos os músicos tiveram a incumbência de fazer a banda sonora para o filme Flores de Jorge Jácome. Foi, sem dúvida, um belo fim de tarde inspirado com composições bem respiradas e soltas, até dissonantes, que tinham como compromisso embelezar a propagação da espécie das hidrângeas pelo território. Na verdade, são devaneios sonoros aprimorados e convincentes, ainda que arriscados, para um filme que vai conquistando cada vez mais adeptos, sobretudo, pelo seu desenrolar inusitado e final feliz com que nos devolve a espontaneidade e beleza natural do verde de que estamos rodeados.

Ontem, escrito numa parede da cidade

 Isto são favas cantadas

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Pré-estória de Urbano Bettencourt

     "Em Setembro dois corpos cobertos de búzios e de escamas vieram dar à costa, provavelemente na sequência de um dos muitos ciclones que por essa altura ocorriam a noroeste do arquipélago: direi acaso a surpresa o fascínio as escapadelas furtivas dos adolescentes que vinham de todos os cantos desvendar a anatomia marinha das mulheres trazidas pelo mar? E o velho solitário que habitava de Verão e de Inverno a casa da vinha sobre a costa, e perscutava constantemente o horizonte e o andamennto das nuvens, vaticinando o futuro pelo que sabia do passado, afirmou então que teríamos um ano de fome."
in Antes que o Mar se Retire, Companhia das Ilhas, 2023.  

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

O Mediterrâneo, o Mediterrâneo...

     "A morte do Verão era horrível. A minha mãe encarava o fim do Verão como um facto trágico, sacrílego. Quem se atrevia a matar o Verão? Odiava a chegada do mau tempo. Ela acreditava no sol. Era herética, viveu segundo os ritos do Sol. Tinha uma obsessão com a luz e apanhar sol. O Sol e estar viva foram a mesma coisa para ela. Adorava o Verão. Adorava que anoitecesse tarde, muito tarde. Só aceitava como algo digno de ser tido em conta a presença do Sol; ela não tinha consciência, mas no seu amor pelo sol e pelo Verão havia uma herança milenar, uma herança da cultura mediterrânica. Não conheci nenhum ser tão mediterrânico como a minha mãe. De facto, ela adorava esse mar, e não gostava nada nem do Cantábrico nem do Atlântico. Eu soube que o Mediterrâneo era um mar especial pelo amor que a minha mãe professava por ele. 
          Estar perto do Mediterrâneo foi o seu paraíso.
         O Mediterrâneo foi a sua única pátria."

Manuel Villas, in "Em Tudo Havia Beleza, Ordesa", Alfaguara, 2018