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sábado, 26 de abril de 2025

Jan Palach de Urbano Bettencourt

 para Onésimo Teotónio de Almeida
Nunca soube a escala 
que mede os terramotos íntimos 
de quem vê devastado o lar dos seus, esventrada a cama
onde pais e avós inventaram a festa gloriosa 
dos sentidos
 
Não posso, por isso, medir-te a raiva
em Janeiro  de sessenta e nove, quando o fogo 
te consumia o corpo na Praça Venceslau 
e nos teus olhos já baços passava ainda 
a névoa de Praga ocupada pelos tanques do império 

em suspeitares quão incómodos os teus ossos
se tornariam,
removidos do espaço público
e forçados à clandestinidade,
porque há mortos cujas vidas assombram a noite 
dos abutres 
muito para lá do seu termo.

Lembrei-me de ti, Jan Palach, tantos anos depois
dos teus e meus vinte anos, tão longe dessa Primavera 
de Praga 
agora que nesta Primavera de chumbo 
o fóssil moscovita soltou os ventos e as bestas 
do Kremlin  sobre os prados da Ucrânia,
enquanto repetia o brado
de um velho avô peninsular: «Viva la muerte!»

in Antes que o Mar se Retire, Companhia das Ilhas, 2023. 

sábado, 5 de abril de 2025

Do Lugar de Urbano Bettencourt

 E dizia o grego:
«Não regresses ao lugar de onde te foste
-só encontrarás o que não procuras.»

in Antes que  o Mar se Retire, Companhia das Ilhas, 2023.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Santo Amaro Sobre o Mar

Sexta-feira, 18 horas, Livraria Solmar  
Urbano Bettencourt 
e
Alberto Péssimo 
(R)Edição Companhia das Ilhas 
 

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Pré-estória de Urbano Bettencourt

     "Em Setembro dois corpos cobertos de búzios e de escamas vieram dar à costa, provavelemente na sequência de um dos muitos ciclones que por essa altura ocorriam a noroeste do arquipélago: direi acaso a surpresa o fascínio as escapadelas furtivas dos adolescentes que vinham de todos os cantos desvendar a anatomia marinha das mulheres trazidas pelo mar? E o velho solitário que habitava de Verão e de Inverno a casa da vinha sobre a costa, e perscutava constantemente o horizonte e o andamennto das nuvens, vaticinando o futuro pelo que sabia do passado, afirmou então que teríamos um ano de fome."
in Antes que o Mar se Retire, Companhia das Ilhas, 2023.  

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Poemas para os 50

 13 de Junho de 1974

quebrado o espanto 
o medo o ódio a mágoa-mor
as espingardas floriram cravos 
na madrugada de um tempo a vir
pela memória dos teus filhos mortos
-que pátria povo em construção -
a paz será o fruto das manhãs 
mangal florido a penetrar dezembro

Urbano Bettencourt in "Antes que o Mar se Retire", Companhia das Ilhas, 2023.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Cidades de Passagem

Tenho viajado muito
nem sempre na melhor altura.
Em Bolama ninguém me acompanhou
na casa de chá em ruínas onde as chávenas
estremeciam sempre que uma granada
caía sobre a praia.
Passei por Trieste numa tarde triste.
Na sala do Hotel Garibaldi o pianista
amparava-se nos Nocturnos de Chopin, à meia-luz,
havia uma chuva fina e George Sand
não apareceu.
Del Giudice julgava ainda
poder encontrar-se com Gerti;
ela, porém , partira há muito levada
por um verso de Montale: i sedicenti vivi
non sono tutti morti.
Na estação o Anjo serviu-nos um café forte.
    D.G. partiu também por fim
pude ver o comboio perder-se
por entre a chuva e a noite.
Em Amesterdão
marinheiros mijavam para o céu
que não havia
e as estrelas caíam,
mesmo assim, nos seus cabelos. Um cantor rouco
de raivas e ternuras comovia-se até aos ossos
com a virtude das mulheres infiéis.

Urbano Bettencourt

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Antologia de Autores Açorianos Contemporâneos

      “A ilha poderá ser, antes de mais, esse espaço de estar (e “estar” é muito mais verbo para ilhéu do que “viver”, escreveu Nemésio) e onde se assiste ao fluir do tempo dissolvendo contornos e arestas. Espaço demasiado próximo o corpo, dorido e doloroso também, confrangedor e paradoxal nos horizontes ilimitados que deixa antever sem realizar, daí o confronto que na escrita se encena entre o efémero, a finitude da ilha e o Absoluto como miragem do desejo, daí também esse jogo entre o perto e o longe, o concreto e o inatingível, que em Rui Duarte Rodrigues, por exemplo, deixa o inevitável rasto de uma subtil melancolia.”

Urbano Bettencourt in “Dos Açores e da sua literatura: errância e permanência”, pp.64-70, Lisboa, edições Salamandra, col. Garajau, 1999).