domingo, 8 de junho de 2025

Da Insensibilidade

      "Somos constantemente bombardeados por imagens de violência que se tornam parte daquilo que consumimos nos media, ao lado de anúncios, pinturas, poemas ou bocados de diálogos. E com tantas atrocidades a acontecer no mundo, o modo como as enfrentamos é importante. Como chegamos a este lugar onde podemos parar e pensar, onde podemos estar nessa solidão, encontrar o nosso centro moral? A resposta está em parar de consumir, de agarrar no telefone, de abrir o computador, de olhar para fora de nós mesmos. Porque parte da insensibilização acontece através do consumo, mediado hoje pela tecnologia."

Samantha Rose Hill, em entrevista a Luciana Leiderfarb, in Revista do Expresso, dia 6 de Junho.

Verso de A Garota Não

Tudo começa numa estrada que termina no Alaska 

Ferry Gold, 2025 

Verso de Anna Järvinen

Ge mig hopp, ge mig tro, ge mig nåt

sábado, 7 de junho de 2025

Yuzin: Junho Verde Alface

Capa da Yuzin
Mês de Junho, 2025
          A Yuzzin do mês de Junho  mostra-nos uma ilha em movimento, um conjunto de atividades para que nos possamos deixar levar pela sua modesta “movida cultural”. Desta vez, aposta numa capa colorida onde sobressai o verde claro e vibrante, típico das planícies açorianas por esta altura. É hora, pois, da meteorologia fazer o seu caminho, dado que foi um Inverno demasiado longo e nublado, momento para guardar as roupas mais quentes e sair à rua com outras mais arejadas. Esta agenda é, sem dúvida, um serviço público que é prestado à comunidade micaelense, já que permite estar atento à diversificada programação estival insular. Com tanto festa em impérios, bailaricos e festivais fora de portas, não faltam  escolhas para ver, ouvir, sentir, ou, simplesmente, contemplar.

Ontem, escrito numa parede da cidade

Os miúdos largam balões ficando apoquentados os aviões

Andrea Santolaya: A Ilha de Sam Nunca

         
Homem Pássaro, 2023
Não há sorrisos nestas fotografias e não há nenhum problema nisso. Só rostos fechados, pés e asas em movimento, gente dorida em romaria, dia de festa ou celebração. É a ilha, o arquipélago, é Rabo de Peixe longe dos holofotes mediáticos e dos preconceitos sociais. Enquanto observadora atenta, Andrea Santolaya destaca o fascínio de quem aqui aporta e faz o registo de quem se aproximou e acaba por se deparar, muitas vezes, com a lonjura, o fechamento e a separação. Esta é, sem qualquer dúvida, uma sensibilidade particular, um mergulho bem fundo na interioridade que precisamos saber apreciar.
       Esta súmula de fotografias intitulada “A Ilha de Sam Nunca”, de Andrea Santolaya, é para levar a sério, digna de um espelho comunitário, tem tanto de real como ficcional, que até parece exclusivamente verídica! Há, no entanto, uma fotografia de cortar a respiração - três mulheres, aparentemente trata-se de uma mãe e duas filhas, encontram-se junto à porta e paredes de uma casa da freguesia, pintada com as cores da bandeira nacional – aqueles rostos magoados e esgares cerrados é pura poesia visual! Creio que foi Roland Barthes que afirmou que se uma fotografia nos prendesse um minuto que seja da nossa a atenção, isso revelaria  a  intencionalidade e relevância daquele gesto! E que gesto! 

Nota: As fotografias encontram-se expostas no Museu Carlos Machado (Núcleo de Santo André) e na Galeria Fonseca e Macedo

domingo, 1 de junho de 2025

Verso dos Pulp

 Spike Island come alive by the way 

Da Saúde

      "Quanto mais doente for uma sociedade, quanto mais desesperadas estiverem as pessoas, mais elas querem ser saudáveis. 70% dos adultos americanos tomam um medicamento. Comem lixo! A cultura vende-lhes lizo para comer! E o stress aumenta por causa dessa comida. Claro que as pessoas estão desesperadas por serem saudáveis. Mas não estão à procura das causas, estão só a ver os efeitos."
Gabor Maté, in Ípsilon, 2 de Maio de 2025. 

Factory

         
        "A música da Factory (Joy Division, A Certan Ratio, Durutti Column, Crispy Ambulance, Repetitio) tem sempre prazer na languidez, estende-se muito por toda a parte, na chaise longue mal estofada da existência, estimulando-se com pitadas parcimoniosas de rapé, e procurando lentamente uma expressão lúgrube e calmamente tenebrosa para o deleitamente depressivo de massas estudantis. Se António Nobre estivesse vivo e tocasse umas bacalhoadas, a Factory mandaria um emissário a Portugal, de contrato e gabardina na mão."

Miguel Esteves Cardoso, in Escrítica Pop - Edição Completa, Bertand Editora, 2022. 

Ontem, escrito numa parede da cidade

 O Bem Amalado

sábado, 31 de maio de 2025

CPC PDL26: Como será?

  "Desarticulada do Ministério, e desvinculada do tema que lhe deu propósito; perdida a experiência e contactos que o processo CEC27 trouxera; extemporânea à Bienal do Walk and Talk; num começar de novo sem tempo nem dinheiro; sediada no continente; assalariada pelo Coliseu Micaelense; restringida ao munícipio de Ponta Delgada, quando até o Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas fica de fora; esquecido do munícipio o lugar de sócio fundador de Serralves; forçada da erosão que as eleições autárquicas lhe provocarão, por sujeita aos empurrões dos candidatos; a Capital Portuguesa da Cultura/PDL26 facilmente se alinhará ao colo do Coliseu, mamando na sua sua programação, reconfigurando a cultura, em espectáculo, como "Lugar do Amanhã", a que Mário Vargas Losa se referiu."

Jorge Kol, in Açoriano Oriental, 31 de Maio de 2025.

Domingos Rebelo e Luca Sampayo no Centro Municipal de Cultura de PDL

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Uma Visão Alegre destes Dias

Anteontem houve deslocação até ao Casino Açores para ver a exposição “Cor e Fantasia: Um Guião para a Utopia’, do pintor micaelense, Carlos Carreiro. Com o barulho das slot machines ininterruptamente presente,  primeiramente o foco foi para os títulos e, só depois, para os delírios figurativos e cromáticos da sua pintura. De seguida, o natural mergulho naquele humor que é parte daquela inesperada fantasia e que compõe a narrativa surrealista dos seus quadros. Uma verdadeira folia policromática reveladora de um universo singular. Para quem escreve, Carlos Carreiro será sempre o pintor do políptico presente na Sala de Sessões Plenárias da Assembleia Regional dos Açores bem como o autor da capa do álbum “Valsa dos Detetives”, do agrupamento pop GNR, editado em 1989, com a belíssima faixa “Morte ao Sol”. Por agora, as pinturas e quadros de Carlos Carreiro merecem uma renovada e merecida atenção.
     Algum tempo depois, o destino foi a Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada para assistir ao lançamento da obra “Crónicas Alegres”, de Manuel Zebrone. Estas crónicas foram escolhidas e organizadas pelo historiador Carlos Lobão e o escritor Urbano Bettencourt, com a chancela do Núcleo Cultural da Horta. Éramos poucos na assistência para tão valioso objeto em presença e nem por isso os palestrantes deixaram de incitar e estimular tão alegre leitura. É que Manuel Zebrone, senhor de uma verve muito particular, questiona-se na crónica 86 deste seu livro: “A minha pena, sempre que lhe pego para escrever uma crónica, pergunta-me invariavelmente: «Esta semana o que temos?». E nós...o que temos no cardápio? Certamente o dever de o ler!