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| Fotografia de Carlos Olyveira |
sexta-feira, 7 de julho de 2017
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Escrito no passado Outono
amar é tão difícil falar de amor.
soletramos plantas que não dão flor esta estação
pelo caminho pisamos as folhas que nos deixaram
nuas
as árvores caídas no chão.
soletramos plantas que não dão flor esta estação
pelo caminho pisamos as folhas que nos deixaram
nuas
as árvores caídas no chão.
Tiago Rodrigues
quarta-feira, 5 de julho de 2017
A Génese de "Alvo Périplo Rua Abaixo Movimentado"
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| Design Júlia Garcia |
Na génese está a solicitação de um texto e uma conversa implícita sobre as fotografias em questão. A descoberta da semelhança entre os Pastores da ilha Terceira e os Carreiros do Monte da ilha da Madeira esteve na origem destas imagens. Estes corpos vestidos de branco encerram no seu trajar, na sua correria, memória de tempos passados, metáfora da vida que corre, que pela corda atam, enrolam e desenrolam, para manobrar ou simplesmente deixar correr e fazer correr.
As fotografias de Jorge Kol apresentam-se assim com o movimento e a genica de homens que correm no desempenho de funções ao ar livre, alvos corpos com chapéu rua abaixo, vestes e postura semelhantes em ilhas diferentes: Madeira e Terceira. Dessa alva exaltação o fotógrafo dá conta, fixa esta gente que trabalha e vive na rua, manifesto de um tempo que continuará a existir.
Assim, a função do texto impunha uma vivência em que a rua fosse cerne e interrogação.
terça-feira, 4 de julho de 2017
segunda-feira, 3 de julho de 2017
Do Estudo de Si Mesmo
"O neoliberalismo fez as pessoas vaidosas, narcisistas e competitivas e fá-las pensar bastante em si mesmas e a maior parte das vezes, pensar em nós mesmos é uma perda de tempo. A única maneira útil de pensar em nós mesmos é em relação a outras pessoas, o modo como somos afectados por elas e as afectamos com o que fazemos. O estudo de si mesmo só faz sentido quando nos faz pensar em nós e nos outros enquanto unidade, em relação. Quando penso nessas imagens no facebook penso que essas pessoas nunca sabem qual é o valor da solidão porque estão sempre a tentar ser validadas. É desesperante."
Hanif Kureiishi in Ípslon, 30 de Junho de 2017.
sábado, 1 de julho de 2017
Da Performance
[Artes] Manifestação artística que pode combinar
várias formas de expressão.
in Dicionário Priberam da
Língua Portuguesa
sexta-feira, 30 de junho de 2017
Ítaca
Quando
saíres a caminho da ida para Ítaca,
faz
votos para que seja longo o caminho,
cheio
de aventura, cheio de conhecimentos.
Os
Lestrígones e os Ciclopes,
o
zangado Poséidon não temas,
coisas
assim no teu caminho não acharás nunca,
se
o teu pensamento permanecer elevado, se emoção
requintada
o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os
Lestrígones os Ciclopes,
o
selvagem Poséidon não encontrarás,
se
com eles não carregares na tua alma,
se
a tua alma não os colocar à tua frente.
Faz
votos para que seja longo o caminho.
Para
que sejam muitas as manhãs de verão
Nas
quais com que contentamento, com que alegria
entrarás
em portos vistos pela primeira vez;
para
que páres em feitorias fenícias,
e
para que adquiras as boas compras
coisas
de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e
essências de prazer de qualquer espécie,
quanto
mais abundantes puderes essências de prazer;
para
que vás a muitas cidades egípcias,
Deves
ter sempre Ítaca na tua mente.
A
chegada ali é o teu destino.
Mas
não apresses em nada a tua viagem.
É
melhor durar muitos anos;
e
já velho fundeares na ilha,
rico
do que ganhaste no caminho,
sem
esperares que te dê Ítaca riquezas.
Ítaca
deu-te a bela viagem.
Sem
Ítaca não terias saído ao caminho.
Mas
já não tem para te dar.
E
se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio
como te tornaste, com tanta experiência,
Já
hás-de compreender o que significam Ítacas.
Kostandinos Kavafis, edições Relógio D´Água, tradução,
prefácio e Notas de Joaquim Manuel
Magalhães e Nikos Pratsinis.
quinta-feira, 29 de junho de 2017
Resposta a Janeiro Antes Deste ir a Banhos
Caro Janeiro Alves,
Acuso a recepção entusiasta da sua ferial
missiva, típica de um homem que sabe que só o verão vale a pena e que esta é a
mais louca, livre e estouvada das estações. Na canícula, creio, temos tudo para
sermos felizes excepto os grilos. Nada contra os seus cânticos mecânicos e
repetitivos mas desconfio que na infância suportava muito melhor o seu
rebarbativo rumor. De certeza que e, fazendo jus à sua carta estival sobre os
doutores e engenheiros que partiram de férias e que não mais regressaram, estes
deverão, pelo menos, lembrar-se do trilar, ou melhor, do “gri-gri” de outros
verões.
Também eu, amigo Janeiro, continuo
entusiasmado com o turismo e sobretudo com a sua capacidade de irradiação. Imagine
só que há instantes, nesta cidade em que me calhou viver, me vieram
interrogar se estaria disponível para vender esta missiva que me encontro a
escrevinhar para si. Segundo o casal de jovens turistas, no seu país de origem
desconhecem já o que é a caligrafia e o próprio acto de escrever missivas em
esplanadas. Este acto quotidiano tornou-se, porventura, excêntrico. Por sinal, até
me queriam oferecer bom dinheiro mas disse-lhe que podiam fazer um registo
fotográfico e que procurassem um lugar na sombra. Curiosamente, enquanto
insistiam na aquisição da missiva, o empregado do café proferiu num português
arrematado e doce: “Vocês querem é mamar!”. Estes, embebecidos e discretos,
afastaram-se da mesa sem antes dizer: “You are really an artist!”
E o aluguer de casas? O meu amigo nem queira saber mas há dias passei nas ruas do agora denominado "Centro Histórico" e reparei que as casas onde tinha morado são agora sítios de alojamento local. Ainda bem que fui salvo a tempo pela nossa amiga Miriam que me arrendou um pequeno tugúrio baratinho junto do mar e que me serve, essencialmente, para assentar a moleirinha e o costado durante a noite.
Por último, auguro-lhe assim umas férias
inesquecíveis e espero que volte pois estou já a salivar pelo envio dum tupperware
de filetes de peixe que seguramente me enviará da cidade mais piscatória do sotavento
algarvio: Olhão!
Doutor Mara
Uma Ferial Missiva de Janeiro Alves
Caro Doutor Mara,
Noticio-lhe de forma entusiasta o seguinte
acontecimento: Eu, Janeiro Alves, vou de férias. Finalmente ausentar-me-ei da
minha presente localização geográfica, para surgir num desses resorts com tudo incluído e abanadores
de folha de palmeira, vestido a rigor e preceito, com camisa às flores e colar
ao peito. Já tenho comigo os panfletos, e posso dizer-lhe que o empreendimento
para onde vou é de segmento alto, bem climatizado e bem frequentado, e com ambiente
exótico e ornamentos tropicais, apesar de ser no Algarve junto a uns estaleiros
navais. Se o Doutor pudesse vislumbrar estas fotos coloridas de encher o olho,
poderia fazer uma pequena ideia da sensação caribenha que me invade neste momento.
E imagine que tudo isto não me custará um tostão! Apenas tenho de ir levantar o
voucher a um hotel aqui nas
redondezas, e assistir a uma pequena reunião de apresentação de um colchão. É
coisa para meia hora.
Doutor Mara, neste momento tenho os olhos
como que raiados de sangue e o coração a palpitar como uma criança, pela
efémera e ilusória felicidade proporcionada por esta incursão ao fantástico
mundo do turismo. Já me imagino bronzeado a dançar quizomba junto às piscinas
com as belas monitoras e animadoras culturais. Vai ser demais, Doutor! Debruço-me
porém sobre uma problemática, a meu ver razoável dentro daquilo que são os
padrões superiormente estabelecidos para a boa saúde mental, mas esgotante
neste meu processo de circunstancial euforia: E se eu não voltar? Conheço alguns
indivíduos que foram de férias e nunca mais voltaram. Inclusivamente Doutores e
Engenheiros, que estavam bem na vida. O mais longe que tenho ido ultimamente é
a Sacavém, e como o Doutor bem sabe, tenho uma certa tendência para viver as
consequências do meu constante deslumbre. Hoje posso ter uma certa contenção,
amanhã já não. Hoje sou o respeitável Senhor Janeiro, boa tarde, como está,
prazer em vê-la, e amanhã já sou o Janeirinho rei da festa da espuma, venha
mais uma, esta pago eu!
Mas se bem me conhece, não me deixarei
vencer por esta grave e hipotética situação. Estou neste momento a fazer as
malas onde, pelo sim pelo não, incluo um fato completo, que usarei apenas em
situações extremas de necessidade de reposição do meu estatuto e dignidade.
Por fim, manifesto o desejo de saber da
sua pessoa, e de como espera atravessar o período estival. Aceitarei a sua
habitual resposta - “esperarei sentado que passe a correr” – pois sei que
aprecia mais a frescura outonal e as folhas caducas a crepitarem por debaixo
dos seus sapatos italianos de cetim afivelados, e assim nada mudará e tudo
ficará como sempre foi, ou seja, na mesma. Mas conjecturas à parte, aguardarei
a sua resposta enquanto saboreio um cocktail à beira da piscina e lavo as vistas
com cloro de alta qualidade.
Deste seu amigo em turismo,
Janeiro Alves
segunda-feira, 26 de junho de 2017
Dois Poetas do Norte da Europa
Difícil de dizer que tudo é sem
sentido
para um homem que sabe que um
sentido
viria a mudar tudo.
Um dia o teu nome será ungido
pelo mar!
O mundo perdeu o seu teor salino
mas a tua boca tem um gosto a
sal.
Lars
Forssell
No
Outono
No Outono
ou na primavera –
o que é que importa?
O mar respira tão pesadamente
O mar fica tão polido depois
disso
As catástrofes esquecem-se tão
rapidamente
depois disso e a partir de agora
Gunnar
Ekelof
(Tradução de Vasco Graça Moura)
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